PALESTRAS TRANSCRITAS DE VICTOR DE SALIS
Transcrições dos audiolivros da Universidade Falada

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PALESTRA 1 — ASTROLOGIA ARCAICA, PARTE 1: A FUNÇÃO DOS ORÁCULOS
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A Universidade Falada apresenta o audiolivro Astrologia Arcaica, parte 1, a função dos oráculos, de autoria de Victor de Salis. Victor formou-se em psicologia, completou um doutorado em 1977 com Jean Piaget na Suíça e outro a seguir com Igor Caruso na Universidade de Salzburg. Dedicou-se cada vez mais ao estudo das tradições e mitos das antigas civilizações. Victor é autor de inúmeros livros sobre o tema. Vamos falar de um tema bastante caro. Vamos falar um pouco sobre a Astrologia Arcaica e os oráculos. É tudo tema da moda, só que às vezes muito mal interpretado. Objeto de muita mistificação e muitas vezes de falsificações sobre essas ideias. Quando na realidade são temas da mais séria estrutura do pensamento antigo e que fazem parte mesmo de toda a sabedoria arcaica, alquímica, de toda a tradição esotérica, no melhor sentido, e das escolas dos mistérios da antiguidade.

Os oráculos têm um papel central no pensamento arcaico, não como, ah, eu vou consultar para saber se meu filho vai nascer bonito, feio, loiro, moreno, ou se eu vou casar amanhã com aquele homem que eu gosto, com as meninas gostam de consultar. Não tem esta função. Nós sabemos que é bastante diferente a visão oracular do pensamento arcaico e que ela está voltada muito mais a descoberta do indivíduo para o seu sentido cósmico, para o seu destino do que propriamente apenas uma função divinatória onde nós queremos nos escamotear do trabalho de descobrir quem nós somos de verdade e nos tornarmos responsáveis por isso. Nós queremos fazer frequentemente dos oráculos da modernidade um instrumento de escapismo confortável, ah, os astros disseram aquilo, porque minha astróloga falou aquilo e outro, e pronto, magicamente eu serei feliz sem precisar mexer um dedo.

Isto é, evidentemente, uma deturpação narcísica de nossa ignorância moderna. De não queremos compreender de que tudo isto faz parte daquilo que os antigos chamavam de sinfonia cósmica. E como sinfonia cósmica, queria dizer que tudo que está no universo, planetas, seres vivos, astros, tudo pertence a uma imensa teia, uma imensa teia de relações universais. Naturalmente, esta imensa teia regida por aquelas potências que os dedos chamavam regida pelos deuses, que enviavam suas manifestações, enviavam suas energias, materializavam-nas através dos astros. Esse é o ponto fundamental. Hoje, a física não faz outra coisa se não estudar essas enormes quantidades de energias cósmicas, apenas lhes dando um outro nome. Teoria gravitacional, buraco negro, etc. Nomes mais bonitos, mas tão espetaculares e metafísicos quanto.

É tão metafísico eu dizer que Eros é um princípio motor cósmico que tudo atrai, inclusive os astros e a gravitação entre eles, porque eles são atraídos por Eros, do que falar que é uma lei da gravitação que atrai tudo no cósmico. O princípio da gravitação é um princípio etéreo e o princípio de Eros é um princípio etéreo também. Acho mais romântico o Eros. Metafísica por metafísica, ficamos com Eros que nos encanta mais o coração. Como lemos em Exílio. O fato é de que o ponto fundamental é de que os astros, no pensamento arcaico, eles têm a mesma psique, natureza e essência de que os seres vivos. Não há separação entre as coisas materiais e as coisas vivas, entre os objetos e as coisas vivas como nós hoje queremos acreditar. Essa separação vem de Aristóteles, a gente aprende na escola.

Lembram aquela classificação tola? Primeiro, na base da pirâmide, os seres inanimados, os minerais. Depois as plantas, depois os animais. E quem é que está lá em cima, lindo, glorioso e maravilhoso? Nós. Vocês não aprenderam isso no primeiro ou segundo ano primário? Isso é bem narcisismo. O homem quer se convencer de que ele é o centro do universo e que ele é o superior de todos. E ele se esquece frequentemente da observação de Confúcio, que chamava atenção aos seus alunos que achavam que era o máximo, que a espécie humana e etc. E ele costumava dar aula embaixo de uma árvore sombreira e dizia, vocês acham que vocês são mesmo o topo da escala? Vou lembrar-lhes apenas o seguinte, vocês se alimentam da morte. Esta árvore não se alimenta da morte e nos dá frutos e sombra. Quem é superior? Vocês ou esta árvore?

Vocês se veem correndo para todos os lados e não sabem nunca onde estão e quando chegam já querem partir de novo. E esta árvore tem tanta certeza de si que já nem precisa mais sair do lugar. Ela já sabe. Então essa pequena observação de sexto século antes de Cristo mostra a outra visão cósmica que os antigos tinham a respeito da natureza e da sua classificação, da qual os homens não só se colocaram no topo desde Aristóteles, depois os filhos de Deus, aquela história do criacionismo com Darwin, o homem filho de Deus e agora depois tomaram uma cacetada com Galileu e Copérnico e saíram do centro do universo. Lembram? O sol girava em torno da gente, tudo girava em torno da gente. Depois fomos chutados para um canto, num planetinha bem michuruca. Não bastasse isso, veio uma outra revolução ainda.

Nós não somos o centro do universo. Pior ainda, estamos no canto de uma galáxia chamada Via Láctea. Pior ainda, igual a nossa galáxia, descobriram já mais de 300 milhões delas, as quais tem cada uma delas centenas de bilhões de estrelas. Que insignificância! Isto é a psique cósmica. E nós querendo ser o centro do universo. É muito delírio de autorreferência. Felizmente, houve grandes pensadores que acabaram dessas cacetadas em nós. Se não bastasse tudo isso, veio Marx para nos dizer que você acha que você é o centro dono da sua vida, pois eu lhe digo que as leis da economia governam a tua vida ipsis literis e você não é dono de si, a não ser que você tenha dinheiro. Nasce capitalismo moderno, então a gente acha que tendo dinheiro podemos ser donos da nossa vida.

Mentira. A gente passa a vida inteira correndo atrás do dinheiro e vira escravo dele e quando tem dinheiro é para gastar na UTI de luxo, porque a vida acabou. E como se não bastasse tudo isso, ainda por cima vem um certo senhor Freud, no final do século XIX, muito inconveniente e diz, que o senhor acha que é dono da sua cabeça? O senhor é dono da sua consciência e é tudo? E mostra por A mais B de que nem disso nós somos donos. Que 10% só da atividade consciente nós governamos. 90% da nossa atividade psíquica é inconsciente e as leis do inconsciente governam nós mesmos e que nós somos nada mais, nada menos do que ilustres e conhecidos de nós mesmos. Precisamos chegar ao século XX praticamente para redescobrir esta imensa teia cósmica da qual o inconsciente é o exemplo, da qual nós pertencemos e que os antigos chamavam da trama do destino.

Que obviamente não tem nada a ver com a ideia de destino moderno. Amanhã acontece isso, está escrito, você vai sair daqui, vai tropeçar e não sei o que, quando olhar o seu príncipe te levará e você encontrará teu homem amado. Nada dessas bobagens. A trama do destino quer dizer que você vem de um passado cósmico milenar e o seu caminho também será milenar. Todos os povos antigos acreditavam que nós não viemos pela primeira vez aqui, viremos muitas vezes retornaremos num processo cósmico de evolução para transformar, que eles chamavam metamorfosear, a nós mesmos, cada vez mais numa perfeição, cada vez mais numa obra de arte. Cumprir o destino no pensamento arcaico nada mais é do que você se tornar cada vez mais você mesmo. Só para que você poder se tornar cada vez mais você mesmo, entramos na questão socrática.

Como é que eu posso me tornar cada vez mais? Eu mesmo, como é que eu posso em seu caminho de evolução se eu me desconheço? Eu preciso, portanto, buscar instrumentos e meios para esta descoberta que é esta linguagem do conhece-te a ti mesmo. Socrática, que é muito mais do que psicológica, é o sentido fundamental do enigma da esfinge, de onde vieste, quem és tu e para onde vais. E não adentra me dizer, ah, eu vim de Salvador, meu pai era assim, minha mãe, não sei o que. Isso não explica nada. Isso é apenas uma coisa circunstancial. Como é que nós sabemos, portanto, de onde viemos e para onde devemos nos dirigir? Aqui tocamos, então, em duas questões fundamentais. Os astros nos ajudarão nesta revelação e os oráculos estarão para nós, disponíveis para nos ajudar. Ao contrário do que muita gente pensa, a função do oráculo é interrogar, não responder.

Aliás, o próprio Sócrates insistia nisso. O verdadeiro mestre, ele interroga, ele jamais responde. A este processo que ele chamava de maieutica, que quer dizer arte de encantar, significa colocar o indivíduo frente a frente consigo próprio, fazer com que ele se redescubra, na verdade, percebendo que ele é muito mais do que ele imaginou e se surpreender a si próprio. É horrível para os nossos egos inflados de hoje. Nossos egos, muito bem alimentados desse tamanho, gostam de olhar por espelho e dizer, eu sou isto, aquilo ou outro e serei exatamente aquilo que me interessa e que me convém. Mas pagamos o preço por isso, de vez em quando não bate na porta da gente uma angústia ou uma doença inconveniente ou um tropicão que a gente toma e nos alerta de que não é por aí, você vai ter que mudar.

E a gente toma certas decisões corajosas, parece que é uma energia interior que nos compele a fazer o que temos que fazer, caso contrário, nos sentimos traidores de nós mesmos e muitos são. A esta energia fantástica Sócrates chamava de dêmon. Irônico. Virou demônio para nós hoje. Dêmon é a energia imortal que te habita, que você traz o gene imortal que você traz de outras vidas e que fica te caceteando, dizendo, é pra cá. É que te coloca interrogações, que te faz você se interessar por tal assunto e não por aquele, que te excita certas coisas que te descobre, que te faz se interessar por tal mulher ou não por outra, ou um homem ou outro, que te faz se interessar por tal assunto, por tal maneira de viver, que te provoca. É só deixá-lo falar. Mas a gente gosta de que ele cale a boca.

Que te surpreende. Se você permitir, ele te ensinará este caminho. A função da astrologia é muito simples no pensamento arcaico. Dos astros vieste e para os astros retornarás. Este é o princípio sagrado da astrologia egípcia, que é a mãe de todas as tradições, que passará caldeus para a China, para a Índia, para a Grécia e assim por diante. O que quer dizer esta expressão? Dos astros vieste e para os astros retornarás. Este é o pó cósmico, a poeira cósmica. Hoje nós ficamos surpreendidos com esta sabedoria, porque se nós pudéssemos nos afastar, tem os programas no Google que fazem isso, se afastar da Terra, da nossa galáxia, se afastar cada vez mais, cada vez mais, até quase o infinito, nós estaríamos numa situação em que nós veríamos o universo cósmico com uma poeira cósmica. De centenas de bilhões, trilhões desses astros imensos e que são uma poeira como tal.

Por que então na Bíblia encontramos do pó vieste e para o pó retornarás? Porque dá a impressão que você veio da Terra e daqui você veio e daqui você retorna. Há muitas e muitas séries suspeitas de que isto foi uma alteração nas traduções convenientes, afinal de contas o Velho Testamento vem da tradição babilônica. O pó vieste e para o pó retornarás, vamos dar uma confortável sensação de que a Terra é o único lugar que tem vida, não tem mais nenhum que possa ter vida, confortável ou não para tudo isso, e que a partir daí somente a questão astral deve ser esquecida, afinal de contas se faz parte de uma religião pagã. Esse paganismo, essas bobagens. Deus iluminou a Terra e só aqui é o paraíso, é um delírio de autorreferência, lamentavelmente. Cabeça desse tamaninho para engolir uma dessas.

Esta função dos astros da astrologia fala de energias cósmicas que são constitutivas do ser. Estas energias, assim como os astros hoje sabemos, constituem nossa matéria. Tudo que está na nossa matéria está em todo o universo. O carbono, a água, o hidrogênio, o que vocês quiserem, está em todo o universo. Da mesma maneira, também está em todo o universo a psique, nossa maneira de ser. As qualidades psíquicas não são invenções da psicologia ou invenções pessoais, minha ou dela e de outro. Até porque hoje nós tentamos desesperadamente responder por essas qualidades psíquicas, dizendo, é genético ou é o ambiente, influência do papai ou da mamãe. Eu quero que alguém me explique um Einstein a partir do papai e mamãe. Eu quero que alguém me explique um Beethoven ou um Sócrates a partir de um papai e de uma mamãe.

Aliás, sem ir tão longe, vocês conseguem se explicar a partir de seus pais? Se vocês se permitirem, vocês verão que são realidades absolutamente surpreendentemente diferentes. Vocês têm um caminho único e próprio. Isso não quer dizer que vocês não gostem deles, mas são caminhos únicos. O destino fala deste caminho astral de cada um. Cada um pertence a uma origem astral e veio aqui para cumpri-la ou não, se quiser. A função oracular, particularmente oráculo de Delfos, é interrogar-te sobre o chamado enigma da esfinge, o teu enigma, em ajudar-te a esta revelação, no sentido porque os deuses não te mandaram aqui à toa. Esta reunificação fantástica de 70 trilhões de células, de personalidade, que não se resume à genética e nem à influência ambiental, trata-se de um fenômeno único que tem uma função e sentido a cumprir aqui.

Trata-se de descobri-la, porque todos nós nascemos esquecidos, mesmo Einstein nasceu esquecido. Alguns recordam mais depressa. Mozart, aos cinco anos, já dava consertos para o rei da Prússia. Lembrou bem, rápido, de sua existência às outras. Trouxe talentos. Os astros fazem isto. Os astros nos dão talentos. Que a gente fala, você é do signo de leão, você tem tendência, bondade, magnânimo, você é signo aquariano, inteligência e tal. Todas as tendências dos astros aparecem e competem a nós fazê-los evoluir ou abandoná-los. Os astros não impõem nada, eles sugerem do destino a cumprir. Talentos são assim mesmo. Você pode transformá-los em obras de arte e você pode jogar no lixo. Destino e liberdade, portanto, no pensamento arcaico não se opõem, se completam. A liberdade foi feita para você se tornar cada vez mais você mesmo.

Agora você pode pegar também e abandonar este caminho e se afastar de si. Que, aliás, é o que sofremos hoje com esses egos inflados, alucinados, na modernidade, onde toda a nossa realidade é só voltada para o mundo externo. A escolha é sua. Você pode também ter esta liberdade, mas o que é esta liberdade onde podemos ir para qualquer lugar? Como num deserto. A gente pode ir a qualquer lugar num deserto, só que em qualquer lugar, em lugar algum. Quanto maior o número de talentos, quanto mais talentos o indivíduo tem, vocês já repararam a observação? Ele tem a menor liberdade de escolha? Vocês já repararam que os grandes gênios se entregam de corpo e alma à sua obra, ao seu talento e entregam a sua vida completamente a isso? Veja a vida de um Beethoven. Thomas Mann, aos 26 anos, quando escreveu a fantástica obra A Montanha Mágica, lamentava e dizia: 'Perdi seis anos da minha juventude para escrever esta, perdão, esta obra, que é A Montanha Mágica.'

Dos 20 aos 26, escreveu esse monumento da literatura do começo do século XX. Disse, mas eu não tinha escolha. Parece que se eu não fizesse isto, se eu não realizasse esta obra, alguma coisa dentro de mim ameaçava me matar. Que démon poderoso que ele tinha! Pelo menos esse batia a porta. Já outros fogem do seu destino de um modo muito mais, digamos, inconsciente e safado. Arrumam doencinhas para se desviar de si próprio. Arrumam uma alergia qualquer, arrumam, no limite, um câncer, arrumam uma hipertensão, ou então um infarte. Quando querem negar as emoções da vida, fazem assim, fazem clique por coração. E como eu tive um grande mestre que dizia: 'Por que o coração fica doente ou ele se ameaça infartar?' Porque ele não tem mais o que fazer. Então ele vai embora, é muito simples.

Você está com dor do coração, ele disse para um cliente dele, que ele era um grande psicanalista, no Vandenberg. Por que o teu coração está doendo? Não é porque você vai ter infarto, logo, logo terá. E como vai a tua vida de amor? Ah, não tenho tempo para isso. Foi um homem muito ocupado? Então o seu coração está doendo porque ele está chorando. Uma hora ele vai embora, vai parar mesmo, você não está usando ele, então ele não tem o que fazer da vida, ele vai embora, ele vai te largar, é muito simples. Isto é a vingança do démon. Ou seja, o conceito arcaico aqui é muito claro de doença. Doença só vem quando nós nos desviemos de nós mesmos. Doença é alerta, não é defeito. Doença é um aviso do destino de que você está em desacordo consigo próprio. Não quer dizer que não haja um acidente, ou coisas de percurso, ou mais tarde na vida com uma velhice, tudo isso, mas o grosso da coisa por aí circula.

Nós não somos máquinas onde deu um defeitinho, vai no médico e conserta. O corpo e a psique são um só e quando eles não vão bem é porque eles não estão em harmonia. Nosso ego não está em harmonia com eles. Este é o sentido arcaico da doença, que aliás em toda medicina psicossomática hoje começa a ser recuperado como tal. O problema é que com os egos desse tamanho que nós temos, não conseguimos mais enxergar humildemente nossas necessidades, porque a gente só quer saber de ser rico quando crescer, de ter sucesso, carro novo e etc. E não olha exatamente as nossas necessidades pessoais, emocionais, a nossa paixão de viver fica escamoteada. A gente resume nossa paixão de viver num carro maravilhoso, num apartamento espetacular. Não é por aí. Ainda existe a questão do amor. Ainda existe a questão da paixão.

Ainda existe a questão do saber de si e do outro. Ainda existe aquela famosa máxima socrática. Conhece-te a ti mesmo. Depois aos homens. Depois ao mundo. E quem sabe, então, te tornarás um homem de verdade um dia. Vejam que longo caminho tem a se percorrer. Mas vejamos um pouquinho melhor essa questão dos talentos e dos astros. Não era entendido no pensamento arcado. A pirâmide, que é um símbolo fundamental do pensamento egípcio, ela representa o céu na terra. A pirâmide nada mais é do que a configuração do brilho de uma estrela. Ela representa aquilo que se chama geometria sagrada. E a própria organização das pirâmides no Antigo Egito, quando nós viajamos por lá, ou então olhamos um mapa, nós vemos que ela representa, a organização delas representam constelações. Uma delas é absolutamente marcante e muito conhecida a nossa.

Esta é a famosa região de Gizé, próximo do Cairo, onde estão as três pirâmides: Keops, Kefrem e Miquirinos. Numa distância de 60 quilômetros, temos a região de Darfur e Darxur. Aqui estão colocadas três, quatro, cinco, seis, sete pirâmides. Essa é uma organização muito importante. Se nos levantássemos do avião a 10 quilômetros, veríamos exatamente isso. Se olharmos para o pôr do sol no hemisfério norte, na mesma região em Gizé, observaremos onde está a esfinge, aproximadamente aqui, com as três pirâmides atrás dela, numa certa inclinação. Veremos exatamente o mesmo desenho. Não neste nível do horizonte, aqui estaria a esfinge, mas um pouco mais alto. Se retrocedermos 10 mil anos no tempo, veremos que esta constelação ficava exatamente na linha do horizonte e que a esfinge olhava para o seu centro.

Vocês estão percebendo que geometria sagrada é algo que eles entendiam bastante bem. Como puderam reproduzir isto num raio de 60 quilômetros com absoluta precisão? Isto está mais do que demonstrado em computadores. Já se fez a aerofotogrametria precisa nesta região e se comparou. Isto que vocês estão falando hoje se chama constelação de Órion, que nada mais era na antiguidade do que a constelação de Osiris. Se olharmos um pouco mais para cá, numa outra região além do Cairo à esquerda, veremos uma outra organização de estrelas que corresponderá exatamente às pirâmides da constelação de Isis, que também aparecerá aqui. Agora dá para entender o que eles quiseram fazer com essas pirâmides: o céu na terra como caminho de compreender esta origem e este sentido.

Por que? Ísis e Osíris, que representam o Cristo na antiguidade, mas que têm masculino e feminino, ao contrário das nossas tradições que castraram o feminino, representam a divinização dos enviados dos deuses: um Cristo e uma crista, se quiserem, que lhes indicarão o caminho. O caminho do horizonte para subir ao céu, para reconquistar uma imortalidade perdida, diriam os antigos, como até hoje falamos. Esta reconquista dessa imortalidade: a esfinge como aponta. Por que ela aponta com esta precisão? Ela é desviada a 14 graus exatamente para chegar nisto, para indicar precisamente o caminho. O que significa a esfinge? "Esfiggs" em egípcio arcaico: aquela que sufoca e aperta. Por que ela tem cabeça feminina, asas de águia originariamente, corpo de leão? A cabeça como símbolo da intuição no feminino; asas de águia porque o seu destino é se levar de volta para o céu; corpo de leão porque sem coragem e saúde não o farás. É preciso muita coragem para ser você mesmo. Portanto, agora entendemos que ela representa: decifra-me ou te devoro. Quem não decifra o seu próprio destino a cumprir, que não tenha coragem de ser ele mesmo, mesmo que se surpreenda com ele mesmo – e é o que sempre acontece – ele haverá de ser devorado. Por quem? A primeira palavrinha que derivou dos "figgs" egípcios no grego: "angst". Já ouviram falar em angst? Angústia. Angst, angústia. A primeira coisa que nós sentimos, que nos aperta aqui no peito, nos aperta, parece sufocar, falta de ar, é quando a nossa vida não vibra bem. O desmaio histérico: o que significa desmaiar? Desistir de viver. Não quero ver a realidade, me recuso. O que é a repugnância que nós sentimos frente a uma situação desagradável, que dá ânsia de vômito? Você vê um acidente horrível, sei lá, aquilo te dá ânsia de vômito. Porque o estômago não foi feito para engolir comida – o que ele tem a ver com o acidente, afinal de contas? Porque o estômago é um órgão psíquico, ele aceita ou não. Tinha um paciente do Vandenberg, que costumava também, que é Ixard, que ele tinha problemas de estômago o tempo todo, azias terríveis, às vezes ele vomitava, etc. E ele perguntava: "E tua vida, como anda?" Uma droga na vida dele, era um desencontro total. Pois é, o que você tem é indigestão do mundo. A hora que você aprender a digerir o teu mundo, você não vai ter mais esses problemas. Então o que está em jogo é o estômago, é o peito que aperta, é a falta de ar, é o corpo que trava. Tudo isto são o quê?

sinais de que o enigma não está respondido e a reação mais comum é a angústia ou hoje em dia nós temos outras coisas mais interessantes síndrome do pânico estresse e coisinhas que estão na moda colesterol alto com 29 anos de idade hipertensão eu tenho vários executivos sênior que chegaram ao topo da carreira em grandes empresas aos 29, 30 anos executivos executivas que não fumam não bebem por favor vegetarianos e etc mas tem hipertensão já tem colesterol alto já tem problemas sérios de circulação e assim por diante por quê? porque eles faltam aquele vínculo da harmonia cósmica da sinfonia cósmica não há nada mais evidente para nós do que a forma desarmônica como nós vivemos não quer dizer que nós temos que voltar a ser trogloditas primitivos de caverna mas nós podemos recuperar um sentido harmônico entre civilidade e um estado natural das coisas estas recusas todas que a psicanálise tanto estuda desde os esmaios histéricos as neurose de angústia as compulsões obsessivas de maníacos pessoas maníacas cada um escolhe uma maneira de se matar o meu grande mestre foi o do Valmar Condes na psicanálise e dizia a psicanálise não se interessa como as pessoas vivem isso é coisa de fofoqueiro é coisa de telenovela a psicanálise se interessa como as pessoas se matam é lá que está o objetivo da psicanálise é lá que nós temos que nos interessar como ela se mata como ela arruma doenças como arruma maneiras de parar de viver porque quando uma pessoa começa a arrumar uma doença atrás da outra ela tem que continuar continuamente e ficar se cuidando continuamente procurar um médico atrás do outro que ótima justificativa gente assim conhecem muitos toda hora se trata de uma coisa se trata de outra se trata de outra depois temos o hipocondríaco toma pílula para evitar isto depois toma outra pílula para evitar aquilo se você vê a caixa de remédios da casa dele de vitaminas é uma barbaridade e fora os hábitos defensivos para se cuidar no fim das contas o resultado é um só para de viver porque?

Tentando se afugentar da angústia, o problema é que não adianta a gente querer prolongar a vida se é para fazer uma vida chata. O problema é que precisamos de uma vida que nos faça não respirar muitas vezes, mas como disse aquela dona Cacilda naquele texto que eu escrevi do Ócio Criador, o problema é que nós temos que encontrar maneiras de perder o fôlego na vida. Não adianta nada respirar muito de jeito comum e vulgar. O que importa é o que faz essas emoções, e essas emoções só acontecem quando nós vibramos em harmonia conosco mesmo, quando nós fazemos aquilo que nós sentimos que nós somos realmente feitos, quando nós estamos em harmonia com nossos talentos, com aquilo que foi feito para o mundo. Quando estamos neste nível, tudo isto aqui desaparece. Quero prosseguir com essa questão de Gizé que se chama astrologia sagrada, a base, o porquê que eles construíram sítios fantásticos como esses tão sagrados, porque eles entendiam que aqui na terra viemos nos aperfeiçoar no ciclo da vida chamado zodíaco, que era composto de doze signos. Para ciclo da vida, roda da vida, para nos aperfeiçoarmos até nos tornarmos iguais aos deuses, até chegarmos a essa plenitude e partirmos daqui sem precisar mais retornar. Só que isso é um longo caminho, porque nós temos que percorrer todos esses doze signos, que na verdade eram os doze deuses. De onde vieram esses doze deuses? É muito fácil: se nós fizermos uma representação da pirâmide, nós vamos perceber algo muito simples aqui: ela é uma figura desse tipo. Ela na base representa um quadrado, portanto temos o número quatro, que representa ar, terra, fogo, água, os quatro elementos alquímicos da construção da matéria, e os quatro elementos fundamentais dos signos: signos da terra, signos do fogo, da água e do ar. A pirâmide indica elevação. O três, que é a lateral da pirâmide, é símbolo de espiritualidade. Aliás, até na tradição cristã, Santíssima Trindade, não dizemos assim? Na tradição egípcia, o nobre, o belo e o justo, que eu dediquei um ensaio nesse áudio livro que lancei na cultura justamente sobre isso, que Platão há de desenvolver uma reflexão maravilhosa, particularmente na República, sobre o que é o nobre, o belo e o justo. Vamos trocar em miúdos essa história: o que você tem a fazer aqui na terra para elucidar o teu enigma? Conheça tudo o que você é, aprenda a se amar como você é, e transforme tudo isto, toda essa parte material tua, porque a gente vem aqui da terra. A terra aqui vem da base, significa a nossa psique, os talentos que herdamos, o nosso passado cósmico. Tudo isso é como nós chegamos aqui. E não adianta a genética querer explicar naquelas caracóizinhos lá que está lá o mistério de Mozart aos 5 anos tocar piano. Quero ver me acharem esse gene. Desafio e faço pouco, ou a genialidade do Niels Bohr praticar física quântica, achar o gene da genialidade que me fabrica o Niels Bohr. Esse é um insulto à inteligência de qualquer pessoa. Então tome toda esta matéria que veio sei lá daqui deste signo ou deste, não importa de onde você veio. Você veio de qualquer lado, você pode subir na pirâmide. Não importa se você é do signo da água, do fogo, do ar, não importa de onde você veio. Ou seja, não importa se você é de leão, se você é de áries, se é de câncer, se você é de sagitário, se você é escorpião, não interessa, porque cada signo é dividido em três partes também. Cada lado é dividido em três possibilidades, porque isso é a tríade, a tríade fundamental. O três vezes três inclusive se representará o número nove de Apolo, que são as nove musas, as enviadas que nos inspiram. Não importa de onde você venha, não importa quem você seja, você sempre encontrará, sem se permitir, uma fonte de inspiração que te eleve não só em você como nos outros, se você se permitir esta relação verdadeiramente dionisíaca com o mundo, porque a gente passa como cego, surdo, mudo por todos os sinais que aparecem em volta. Ora, o destino é esse: toma tua psique e sobe, transforme toda tua matéria em nobre, belo e justo. Se você conseguir partir daqui com um corpo completamente gasto e transformado em nobre, belo e justo, você terá cumprido o seu papel aqui. Não importa quem seja você, de onde você veio, o sexo que você pertence, a origem, as qualidades ou características que você tenha. Isto é o significado da pirâmide, porque no topo dela estava um círculo, uma esfera sagrada de ouro, que foi roubada. O que é essa esfera? O símbolo do divino, porque a esfera é um único sólido que conhecemos que não tem começo, meio e fim, porque qualquer lugar é começo, meio e fim. Representa o infinito. E a esfera, para nosso nervo, como dizem os caipiras, nós nunca conseguiremos vê-la por completo. Ela é a prova da nossa limitação. A gente só consegue vê-la por um ângulo, é impossível vê-la completa. Só os deuses podem ver a esfera, porque são onipresentes e podem captá-la completamente. Sempre haverá um lado escuro, sempre haverá um lado ao qual nós não conseguiremos captar. Então aqui nós temos o quadrado, o triângulo e o círculo. Isto é Pitágoras, isto é geometria sagrada. Está aqui a resposta? Tome o quadrado, tua matéria, e vá em direção a Deus. Os alquimistas eram espertos, para eles escaparem da perseguição daqueles padrecos ignorantes, eles escreviam nessas linguagens cifradas, mas qualquer iniciado sabia muito bem que o destino dele era a quadratura do círculo, ou seja, é tomar toda a tua parte material, quem você é, a tua psique, tua personalidade etc., e aperfeiçoá-la para chegar ao divino. Como eles falavam em triangularizar o quadrado. Que absurdo! Triangularizar o quadrado tem um significado claríssimo: transforme tua personalidade em nobreza, beleza e bondade, ou nobre, belo e justo. Tudo o que te deram, faça disso o melhor, de qualquer lado. Portanto, você pode e deve subir. Este é o caminho cósmico. Agora vamos entender: 3 mais 4 é igual a 7, o número de Apolo, as 7 vibrações da alma, a música: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, a harmonia da música, que nós também devemos saber. Querem um critério excelente? Eu sempre uso isso com meus pacientes. Você quer saber quando você está caminhando bem na sua vida? Observe-se em dois momentos fundamentais: sempre como você acorda e como você vai adormecer. Se você acorda harmônico, pleno, com desejo de gastar o dia, você está em ótimo caminho. Se você acorda com aquele tédio, com aquela preguiça, não tem a ver com aquela preguicinha gostosa de ficar na cama ao lado do maridinho ou da esposa, aqueles momentos gostosos, não é aquela coisa. Aquela falta de vontade de subir, está jogando fora. E como você deita? Você deita com a cabeça esquentando? Você esqueceu de tomar um banho para limpar por dentro, porque limpar por fora é fácil. Jogou no lixo as tranqueiras, os rancores, os mal entendidos, perdoou a si próprio e ao outro, deixou para lá. São dois critérios simples e arcaicos que se praticavam na antiguidade, que eram ensinados às crianças: acordar belo e limpo e dormir belo e limpo, que eles chamavam o banhar-se interior, que nós não praticamos mais, infelizmente. Muito bem, cada um portanto tem que recuperar a sua harmonia cósmica. Trocado em miúdos, alguns vibram bem em dó, outros vibram bem em fá, outros em si. Você sabe o que é dizer isso? Cada um tem um ritmo próprio. Eu não posso comparar o meu ritmo com o dele ou com o dela. Você sabe que você tem um ritmo maravilhoso que te desafia, mas também não te lerdeia, mas também não te coloca em hipertensão e também não te coloca em letargia. Ele pode significar materializando em velocidade totalmente 60 km, nela pode ser 80, nela pode ser 40, não interessa. Mas cada um sabe que tem um ritmo próprio harmônico, e não é só de velocidade, é de natureza, porque a sonoridade da música, o si é diferente do dó, ele vibra de outra forma, ele vibra contra a musicalidade, é um outro belo. Mas todas as sete vibrações são belas, elas só são feias, elas são desarmônicas, elas desafinam. E desafinado do Tom Jobim, vocês lembram?

Maravilhosa música. O que é desafinar a alma? É você não estar vibrando não só na velocidade, mas no seu canto pessoal, porque nós todos temos um canto próprio que é simbolizado pelo número sete, a lira de Apolo, a lira da vibração da alma. É só redescobrir isto. No lugar de encrencar-se com isso, trate de harmonizar-se com isso. Finalizando, quatro vezes três é que dá o número doze, a totalidade da matéria pela totalidade da espiritualidade. Serão as doze manifestações cósmicas. Acabamos de apresentar o Beabá da astrologia arcaica, as doze possibilidades cósmicas. Por isso que os astros recebem o nome dos deuses, Júpiter, Netuno, etc. Como passaram para a nossa tradição, não é que eles são os deuses, eles são simplesmente manifestações, materializações dos deuses. As energias se concentram e se condensam. Aqui podemos chamar de forças eletromagnéticas, do que vocês quiserem. O fato é que são energias cujas marés misteriosamente, por exemplo, alteram o ciclo menstrual da mulher. Isso pelo menos está mais do que comprovado. Que mistério é esse? O que tem a ver a energia gravitacional da lua, da maré, com o ciclo menstrual da vida? Tem, porque é psique cósmica, simplesmente por isso. Só aí nós já temos um pequeno detalhe de como isto altera, e quantas e quantas outras formas de manifestações as quais nós estamos cegos, surdos, imundos, não queremos ver. Mas se nós prestarmos atenção, nós perceberemos a nossa volta, ao nosso clima, às tendências cósmicas. Esta linguagem maravilhosa que propicia. Quando fala que propicia, significa que as energias podem estar favoráveis, mas faz favor de meter a mão na massa, porque elas sozinhas não vão te fazer nada. O oráculo só pode te mostrar isto, as suas limitações, onde você está se bloqueando, e os presentes que você tem, como torná-los mais belos. Os fluxos cósmicos dos deuses, das energias astrais do seu signo, podem estar se abrindo, mas lembre-se, trata-se de um trem que está passando. Faz favor de subir por ele. Se você ficar parado, vai passar da estação e não vai acontecer nada. Trata-se portanto de uma provocação e participação. Por isso que dizemos que essa questão do signo são sugestões dos deuses, em absoluto determinam o futuro de ninguém. Ainda de nossa responsabilidade a evolução ou a involução. Dessa maneira nós podemos perceber que há uma preocupação com o papel de cada um nesta imensa sinfonia cósmica. Da mesma maneira que um astrônomo lhe dirá que cada astro tem uma função nas galáxias, ele exerce uma energia gravitacional que atrai corpos, que por sua vez se atraem com outros, se harmonizam, e o resultado é aquele espetáculo que nós vemos daquela galáxia belíssima caminhando no mistério cósmico. Esta mesma imagem nós vamos encontrar no núcleo atômico do elétron girando sobre aquela estrutura complexíssima. Se nós somos feitos dessa mesma natureza e essência, como nós queremos ser diferentes? Ah, este homem é um burrão, de uma prepotência lamentável. A tradição também representa isso da seguinte forma. Na própria tradição hindu vemos isso, nada mais é do que uma variação, continuação. O quadrado é a psique, psique é a parte material, e psique que não se separa. Na antiguidade, isso é meu corpo e minha cabeça, não há essa separação. Estômago é psique. Vocês perceberam o que eu falei? Quando ele vomita, é porque ele está falando com você. E assim por diante. Quando a gente tem alegria e fala "desopilei o fígado", que é alegria, como se sente bem, como se dá muita risada, quando você descarrega, não fica leve? O corpo maravilhoso fica delicioso e harmônico. Então tudo é uma coisa só. Aqui o nosso pneuma, ou seja, a espiritualidade. Pena que derivou o pneumático em português. Pneuma em grego é espiritualidade, é espírito nobre, bom e belo, nobre, belo e justo, os quatro símbolos da matéria. E aqui o divino Pitágoras estudava isso, não aqueles teoremas bobos que a gente aprendeu e eu tenho que decorar, que não tinha sentido pra nada. Como é que esta psique partirá daqui evoluída? Como é que ela conquistará esta evolução? Primeiro, sem autoconhecimento, impossível. Os mestres tinham essa função na antiguidade, que ajudaram a revelar teu caminho astral. Eles eram verdadeiros oráculos. Como é que eles faziam? Observando desde pequeno a criança, se ela tinha talento pra uma coisa, se ela era jeitosa pra isso, pra aquilo, e desenvolvendo-a pra aquilo, não pra aprender a ler e escrever essas bobagens que fazemos hoje. Só alfabetizavam depois dos 15 anos. O que interessava era desabrochar esta criança com todas as possibilidades e ajudá-la a conter as suas limitações, o seu egoísmo, o seu rancor, essas coisas que mais tarde atrapalham e impedem a gente de ir pra frente. Agora, e como é que ela subiria? Só tem uma fórmula mágica pra isso. Somente eros tornaria esse caminho possível. Traduzido, a gente só faz bem aquilo pelo qual nós nos apaixonamos, e nós nos apaixonamos por aquilo que nós mais somos. Quanto mais nos afastamos de nossa natureza e essência, mais tédio a gente colhe em nossa vida. Quanto mais a gente se permite ser nós mesmos, por mais estranhos que pareçam certos talentos, mas que você tenha a coragem de assumi-los, mais pleno você fica. E quando eu digo ser condenado, às vezes tem não é só talento profissional, é maneira de viver que os outros te condenam. Exemplo: imagina confessar pros outros que você gosta de acordar meio dia, vagabundo. Mas e seu talento é noctívago, e seu prazer de viver, sua força criadora está depois da meia noite. Conheço uma grande amiga minha, uma grande escritora, aliás público de todos, a Fania Abramovic, que não acorda antes das 3 da tarde e vai dormir às 6 da manhã, e é uma pessoa de uma riqueza extraordinária, de uma riqueza literária, de uma beleza extraordinária. Agora, que vagabunda?

3 horas da tarde, que moralismo estúpido, classe média é fogo, não pelo dinheiro, mas pela cabeça de cocô de passarinho. O direito de ser de um indivíduo escolher seu ritmo cósmico de dormir e acordar, porque lá está em jogo aquilo que se chama condições ideais de pressão e temperatura onde tua vida vibra melhor, onde tua alegria de viver vibra mais. Já um outro acorda com as galinhas. Minha mãe, por exemplo, sempre foi assim, 6 horas da manhã ela já estava, era a natureza dela, era a gaia, ela precisava do despertar do dia, e 10 horas da noite já estava tudo encerrado. Mas é preciso respeitar este pequeno ritmo, é preciso respeitar, é preciso saber que forma de trabalho não serve, que estilo de vida não serve, e não se matar só para ganhar dinheiro. Coitados, eles chegam mortos muito antes de quando ficam ricos, vão ter um belo infarte. Vocês sabem a história, quantos e quantos milionários não acabam estrupiados. Eu, pelo menos, no meu consultório, já passaram muitos. Tudo que você puder materialmente, mas não faz outra coisa da vida senão cuidar para sobreviver. Então a chave é o casamento de Eros, como se quer. Ou você descobre a si próprio e se apaixona por aquilo que você é, e transforma no que você tem de melhor, ou nada feito. Aliás, este é o mito do casamento de Eros e Psique, este é o significado. É a energia que você terá para subir, sem paixão, sem acreditar de fundo, sem amar verdadeiramente quem você é, não a imagem ideal do que você acha que tem que ser. "Eu sou lindo, bonito e maravilhoso" – isso é narcisismo de esquina. Não, quem você é de verdade, com as suas limitações, com a sua natureza. Sem você amar de verdade e arregaçar as mangas em cima disso, enigma nenhum será resolvido, e a astrologia não servirá para nada. Porque quando você está de fato entregue à sua verdadeira natureza e essência, já repararam como a gente percebe os sinais cósmicos com muito mais sensibilidade, como a gente fica mais inteligente, não é inteligência racional, a gente saca as coisas acontecendo, a gente saca as oportunidades, a gente saca os sinais do destino. Mas quando a gente está travado, mal humorado, não sei o quê, passa batido a beleza da sensibilidade da vida. E os deuses são assim mesmo, eles falam com uma linguagem delicadíssima, eles dão uns toques. "Quer, quer, um problema é seu, nós já somos imortais, quem vai passar é você." Então esta sensibilidade é captar a energia astral em cada lugar, em cada momento, que não é superstição, é perceber que a teia em volta da sua vida ou ela te enreda pra te atrapalhar e atravancar, ou é uma teia maravilhosa sobre a qual você se enreda deliciosamente e vai fluindo e vai se envolvendo, e tudo é muito erótico no sentido arcaico. Então você olha, capta um olhar que lhe dá um sorriso, um aviso, você tem um toque de uma oportunidade, que seja de trabalho ou de um encontro, que te abre uma porta, você tem que ouvir isso. Estes sinais eles vêm, é só ficar com a antena ligada, mas essa antena só funciona em harmonia cósmica. Tudo bem, agora vocês falam, já falei bastante, podem perguntar. Qual a origem da palavra? É claro, dias, deus, veon, vem da raiz arcaica sânscrita veon, que é deus. Daí no grego virou dias, Zephs ou Zephs, daí vem o Zephater, Júpiter, Júpiter vem de Zeuspater, viaspater, veon que deriva veon deus ou dias, e também vemon, que são entidades intermediárias entre os mortais, são gênios imortais. Porque você tem os deuses, os astros que são por eles governados, os gênios que são os dêmonos, que são emanações dos astros que trazem tua natureza e essência. Você quer saber se é o dêmon, é só você olhar aquilo que você é mais por essência, aquilo que é mais essencial teu, aquilo que mais você sempre almejou ser na tua vida. Volta pra tua infância, lembra aquilo que mais te alegrava, que te dava mais excitação e alegria de viver. Lembra dos teus sonhos, mesmo hoje pensa nisso, o que te dá mais alegria, o que te dá mais energia. Eles chamam eudaimonia, isso o que te torna mais pleno. É só retornar os sonhos infantis que a gente recupera esse caminho rapidinho. E depois dos gênios havia os heróis, e depois nós pobres mortais. Por que os heróis pertencem a uma categoria superior? Porque o herói significa aquele que cultua o sagrado, não quer dizer Ivanhoé nem Silvestre Stallone, essas bobagens. Significa um indivíduo que tem a coragem de buscar o seu próprio sagrado, a sua própria verdade, da qual estivemos falando, tem a coragem de ser, porque aí ele pode dialogar com essa parte imortal dele para poder se elevar. Então isto aqui é a tua energia imortal. Quando você morre, para simplificar, é assim a visão dos antigos: o corpo é devolvido à terra, porque tudo é emprestado aqui, nome, corpo, pode assinar contrato, escritura, vai devolver tudo, tudo é alugado. Então devolve o corpo para Deméter, a deusa da terra da fertilidade, que ela quer fertilizar com teu corpo outros corpos, acabou a conversa. Esse é o sentido sagrado de enterrar, inclusive tomou, usou, devolve, faz favor, porque outros estão na fila esperando para usar. O nome também se devolve, o batismo vem daí. O batismo na antiguidade era feito quando se nascia e quando se morria, era a cerimônia de recebimento do nome, havia a cerimônia da entrega do nome, devolver aos deuses, espero que se use bem, porque o nome significava o destino. Os nomes antigos usados tinham esse significado. Vejam Sófocles, sofiaclis, feito para a sabedoria, este honrou o seu nome. Os nomes não por acaso, Eurídice, Everdick, aquela que te fará encontrar a justa medida, a verdade, todos eles têm um significado muito ligado aos talentos. Ora, então o herói era mais, era um desafio aos mortais para ascender essa categoria, para tocar essa parte imortal que você acumulou nas outras vidas e poder prosseguir o seu caminho cósmico. Porque virou demônio? Porque a tradição antiga ensinava você a encontrar o Deus dentro de você mesmo, e a igreja não gostava disso, porque quem encontra o Deus nele mesmo não fica pagando o dízimo nem frequentando igrejinha para escutar sermão de padre imbecil, simplesmente por isso. Então começaram a perseguir todas as pessoas sábias, particularmente as mulheres iniciadas, chamaram-nas de bruxas, caçaram, mataram os magos que eram grandes iniciados, para impedir que eles propagassem o ensino e o culto do dêmon, que era o caminho de Hermes, encontrar o caminho dentro de si. Não, quem fala caminho sou eu, o padre, que você escuta meu sermão e, por favor, vou passar com a sacolinha. Então aí virou demônio. Exatamente, exatamente. Então a igreja e o Estado não gostam de pessoas livres que têm o péssimo costume de pensar por conta própria, são muito inconvenientes. Essas pessoas serão chamadas de vagabundos, esquisitos, histéricos, malucos, excêntricos, enfim, desajustados. Desajustados é ótimo. Quantos e quantos não foram internados que se revelaram grandes gênios, mas que a mediocridade não suportou. Pois não, pois não. A gente aprendeu que o caminho da religiosidade não seja desde o nascimento até a própria morte. Se a gente conseguir a ordem do signo, sim, eu acho que lá eu não sou conhecedora de causa, mas enfim, quando eles nomearam cada um desses signos como signo, como objeto, então um é um leão, o outro é o peixe, o outro é o pai, isso é uma evolução que veio particularmente a partir da era cristã, tem tudo a ver. Sabe o que acontece? Ao longo dos séculos, com a decadência da civilização egípcia, com a decadência da civilização romana, com a ascensão do cristianismo e a perseguição da astrologia, da quiromancia e etc., os astrólogos encontraram formas mais suaves de lidar com isso, particularmente na Idade Média, de serem aceitos. Porque você sabe que na Idade Média, até a alta Idade Média, 1200, 1300, os astrólogos que eram românticos viviam nas cortes e eram muito bem-vindos, o mago Merlin, essa moda agora de Harry Potter e tal, tudo vem dessa época. Foi só com o Papa Gregório Inocêncio e hoje começou a castração de tudo isso, porque eles estavam tomando um lugar muito poderoso e estavam incomodando a igreja e os lucros da igreja. Então o que os astrólogos foram fazendo? Eles foram modificando os nomes para tornar mais palatável, mesmo dentro das cortes, eles não podiam estar numa corte cristã falando em Zeus, falando em Hermes, falando nesses deuses pagãos condenados.

ou deuses egípcios que eram as formas arcaicas da astrologia, então eles foram trocando por símbolos muito mais suaves como peixes, leão, escorpião, mas que guardaram essas simbologias, mas guardaram essas características que foram maneiras encontradas para desvincular do paganismo a astrologia. Tanto é que quando a gente fala hoje que ela tem essa origem nas divindades egípcias e gregas, é óbvio que deveria ter que são energias que se originam, a gente ficava surpreso tão bem feito foi o serviço. Mas a gente estava assim, então por exemplo entre grupos de pessoas nascidas sob um símbolo específico, de leão, então elas herdassem esse talento que tem uma energia, herdavam potencialidades do leão, competia saber primeiro a idade da psique de cada um, se ela era mais jovem ou mais antiga. Mozart já era um idoso quando nasceu, só pra dar um exemplo, idoso quer dizer que ele já tem um talentão desenvolvido, porque não é possível explicar uma criança aos 5 anos já tocar piano, algo que você leva no mínimo 10 anos suados, 10 horas por dia pra você tornar um concertista, ele com 5 anos sentar e já ser um concertista, isso é um absurdo. Só quem sabe que você ainda tocou piano na vida, e eu fui um deles, sabe o que é você tocar um concerto, você também sabe, são 10 anos a bunda na cadeira, 10 horas por dia, e vê um garotinho de 5 anos e já vem, onde ele trouxe isso tudo, cadê o caracolzinho que não dá pra explicar. Evidente, evidentemente, evidentemente que isso veio pronto nele. Ora, vocês olham pra vocês mesmos, vocês não percebem ou mesmo seus filhos, ou vocês mesmos, vocês não veem, tem coisas que já vem prontas em vocês e outras completamente zeradas, é só olhar lugares, sensações que vocês têm, é só se permitir, é que a nossa manhã dita racionalidade nos proíbe, mas a pessoa tem que lembrar de vidas passadas? Não, você não precisa se lembrar de vidas passadas coisa nenhuma, é só se você recordar aquilo que é mais você, portanto ela pertence a você já de muitas vidas. Tudo que é muito bem acabado em você significa que já foi exercitado por longas e longas existências, grandes talentos são assim, eles estão muito mais poderosos em você, outros são seus débitos, você vem aqui com um egoísmo muito grande, você sabe que se você não vai vencer esse egoísmo você não vai evoluir, todo mundo sabe disso, mas ninguém faz nada, é um débito que você carrega. Exemplo são as limitações, ou você tem que trabalhar com essas limitações se quiser continuar a evolução, ou você vai passar por essa vida estancado nela. A diferença entre um homem que envelhece ou uma mulher e que se torna belo conforme envelhece e outro que se torna feio conforme envelhece reside aí. Vocês não conhecem pessoas que envelhecem e se tornam cada vez mais belas, elas irradiam uma bondade de alma, uma compreensão, uma tolerância, aqueles avós e avós da gente que vão se tornando desapegados e vão tendo uma sabedoria que a gente gosta de ouvir os seus conselhos, a sua compreensão. E tem outras pessoas que viram como disse Teseu ao rei Creonte: a idade te fez a um só tempo feio por fora e feio por dentro, pareces um bode velho. E é verdade, tem pessoas que envelhecem que viram bode velho. Não basta a idade, ela é necessária, mas é preciso que você seja totalmente entregue ao esforço de aproveitar essa idade, esse tempo para aperfeiçoar-se como tal, vencer limitações, abrir potencialidades, é a diferença entre você se tornar sábio quando envelhece ou meramente um bode velho. E a gente sabe disso, simples. Essa civilização egípcia desapareceu, eles eram muito evoluídos, então essas pessoas evoluídas não transmitiram conhecimento, eles simplesmente foram embora. Como não transmitiram, o que nos deixaram de conhecimento os egípcios? Nossa, é que está muito bem cifrado, eles não queriam que caísse nas mãos, e é verdade, certa sabedoria que cai nas mãos dos incautos é perigosa. Você levantava as esmeraldas, foi descoberto há outros tempos muito antigos, muito antigos. Não, nada disso, absolutamente não foi nada disso, todos os gregos se iniciaram lá, Platão se iniciou no Egito, todos os grandes trouxeram o próprio Egito manteve essa sabedoria, acabou porque foi destruído, mas eles guardaram até hoje, nós abrimos as tumbas e encontramos uma sabedoria enorme, só o livro dos mortos, o papiro de Turim, só quando se entra na pirâmide de Kélps, aquele céu estrelado com toda a astrologia arcaica, com todas as 3 mil leis sobre a astrologia, toda a origem está lá. Imagina só, isso já é suficiente para mais do que todas as enciclopédias que temos, a sabedoria imensa, o povo foi destruído, o que eles podem fazer se aparecem os bárbaros romanos que vem lá e matam. É sempre assim, os mais elevados se tornam mais delicados e mais sensíveis, são destruídos pelos bárbaros, os vikings americanos não estão acabando com o mundo islâmico como desculpa de que eles são malditos e etc, que não são pessoas de uma sensibilidade de evolução extraordinária, ou você cai na conversa de americano, é tudo viking, é sempre assim, os vikings, os bárbaros sempre destruíram a civilidade. Não, mas é a triste verdade essa.

não quero dizer que não tenha americano que não presta, mas a mentalidade é esta. Isso é irrelevante; o que importa é a sabedoria que é transcendente ao homem, que é imortal, e como tal esta é a sabedoria imortal que ainda sobrevive independente dos povos. A Grécia Antiga também desapareceu; os gregos de hoje não têm nada a ver com o grego de antigamente, é um outro povo que habita lá. Eu até brinco muitas vezes: a Grécia continua linda e maravilhosa, se não fosse os gregos. Não tem nada a ver; o grego de hoje é um homem ocidental, é um materialista consumista insuportável. Imagina ele ser um Sócrates e Platão desapegado, voltado à justa medida de tudo aquilo que se ensinava por Sócrates e Platão. Não tem nada a ver; é um bando de monstros que está lá. Como no Egito hoje, o muçulmano não tem nada a ver com o egípcio que celebrava tudo isto. Eles se consideram os herdeiros de uma sabedoria multimilenar, que é a questão da Atlântida, que eu posso me estender num próximo encontro. É o mito da Atlântida que vem deles, que é a famosa terra de Kemi, de onde nasceu a palavra alquemi, alquimia. E eles se consideram os herdeiros dessa sabedoria multimilenar, que foi porque caíram na desmedida, no desuso, acabaram se autodestruindo. Mais ou menos o que nós vamos fazer daqui a 20, 30 anos no máximo, se continuarmos no mesmo caminho, vamos repetir a história pelo desvario. A Lemuria é um outro nome; são vários os nomes que se dá para isso. A Atlântida ficou mais conhecida porque foi citada nos textos egípcios originais que chegaram a Platão no Timeu, como aquela ilha que ficava para além dos montes Atlas, que ficam no atual Marrocos, que já tinha esse nome na época. Daí veio o nome Atlântico, que é o oceano que dá frente às montanhas Atlas, aquela cordilheira que existe no interior do Marrocos. Por isso ficou mais conhecido. Não importa que nome se dê; o que importa é que exista essa tradição. E hoje há muitas evidências; seria ingênuo da nossa parte achar que de repente nós, aí de bater com clava, a mulher para catá-la para levar para a caverna, de repente começamos a construir pirâmides etc. É uma ingenuidade muito grande; tem um buraco muito grande. Temos que entender que houve um processo ainda muito mal conhecido, mas com muitas citações. Chamam-se as civilizações pré-diluvianas, que devem ter florescido até por volta de 10 mil antes de Cristo. Por volta desse período, sabemos que houve um grande dilúvio, que está citado na Bíblia, em todas as tradições. A questão da Arca de Noé é uma derivação disso. Dali, de uma destruição imensa, renascem novas civilizações. A evidência arqueológica de que houve esse grande dilúvio e grandes devastações existe tanto do lado de cá do Atlântico como do lado de lá. Inúmeras evidências arqueológicas existem a respeito disso. Só não encontramos nada que tenha sido anterior. Encontramos sim a esfinge. A esfinge é uma enorme discussão hoje: que ela pertence a esse período, é de 10 mil antes de Cristo, e de que ela não é desse período. Por quê?

porque ela tem marcas verticais de erosão e que são marcas fluviais de chuvas intensas. Essas chuvas intensas aconteceram no Egito entre 12 mil até e cessaram em 8 mil antes de Cristo. De 8 mil antes de Cristo à frente, as chuvas acontecem uma vez cada 5 anos. A esfinge ser construída em 2700 anos de Cristo nunca poderia apresentar marcas verticais diploviais. Isso é a briga entre os geólogos e arqueólogos. Mas aí há um tempo atrás, eu acho que há um mês, dois meses atrás, eu não sei se eu ouvi, mas que encontraram pela primeira vez agora está uma bagunça no mundo da arqueologia: dois corpos humanos de épocas completamente diferentes da estrutura humana juntos no mesmo local. Sim, aí já entra o problema antropológico dos fósseis. Sabemos muito menos na bagunça. Nós queremos pôr uma lógica onde não existe lógica. Nós queremos impor uma lógica da modernidade pseudo-iluminista onde existe uma ordem cósmica muito mais complexa que não cabe na nossa cabecinha de cocô de passarinho darwiniana. Enquanto a gente não põe tudo na ordem certinha darwiniana, a gente não fica contente. Então dane-se os fatos, queremos uma teoria linda. Se a teoria linda não corresponde aos fatos, dane-se os fatos, a minha teoria não pode. Nós temos que aceitar que tem certas coisas muito além de muita sabedoria que ainda estamos devendo. É essa a questão. É isso. Obrigado gente, muito obrigado.


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PALESTRA 2 — ASTROLOGIA ARCAICA — PARTE 2
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A Universidade Falada apresenta O Audiolivro Astrologia Arcaica, parte 2: A hierarquia dos deuses e a distância entre homens e deuses, de autoria de Victor de Salis. Vamos dar início à nossa segunda aula, que trata do mito de Ísis e Osíris fundamentalmente, tentando resgatar essa tradição antiga da hierarquia dos deuses. Essa ideia da hierarquia dos deuses causa tanta celeuma e tanta encrenca na nossa cabeça, e nós hoje continuamos com essa briga. A briga de querer achar que vamos conseguir ser monoteístas, e quebramos a cara e não conseguimos. O próprio Joseph Campbell gostava de ironizar essa situação, dizendo: "Quer dizer que vocês acham que nossa civilização, com nossas religiões monoteístas, é uma evolução? Eu diria aos senhores que é um retrocesso." Ele era muito irônico nas aulas dele. Em primeiro lugar, alguém tomou na cabeça, e lamento informar que foi o arquétipo feminino. Porque o monoteísmo só é possível se concebermos um princípio harmônico, ou masculino ou feminino. E não vem com essa conversa de que ele pode ser hermafrodita, amplo, porque a nossa divinização é claramente masculina. Nossos messias são claramente masculinos. As coitadas das Marias devem ficar muito quietas e não abrir a boca. E quando aparecem, são virgens. Ai delas se ousarem mostrar sexualidade; imediatamente são condenadas como vagabundas. Quando nós vemos na antiguidade que o feminino não só é erotizado, como celebrado e divinizado no seu erotismo, ainda hoje podemos dizer que o feminino erótico nós o engolimos abaixo. O masculino erótico tudo bem, com todas as suas decadências e até posto à prova. Mas o feminino erótico ainda é um tabu. Jamais é sagrado. Jamais é sagrado. É tudo menos sagrado. Podemos até nos divertir, mas sacramentá-lo, jamais. Porque ele é o mais sagrado na verdade. E aí que está toda a sagração. O eros arcaico só pode existir a partir desta terra máter, infinitamente fecunda, e que atrai a tudo. Se você não lhe permite essa capacidade de atração para a fecundidade, não celebra essa capacidade de atração, você a destrói como natureza e essência. Isto será o aspecto de Maia, que falaremos daqui a pouco, do encantamento do feminino. Eu tenho a capacidade de encantar, seduzir para a fecundidade, não para destruir, pelo contrário, para recriar. Este é um problema que nós temos a enfrentar. Nós temos a enfrentar um outro problema muito interessante. Para compreender essa organização hierárquica divina no pensamento arcaico, que tanto nos assombra, nós tentamos reduzir. Tentamos, numas, porque a gente reduziu a história a Deus, Cristo, Virgem Maria. Mas também fabricou uma infinidade de santos para tapar os buracos, santos e santas. Porque não deu. Todo mundo foi buscar seu padroeiro, padroeira da casa, do chapéu.

Fora os cognomes Nossa Senhora das Virgens Perdidas, Nossa Senhora das Virgens Encontradas, Nossa Senhora da Aparecida, Nossa Senhora da Desaparecida. E vai por aí fora as imensas manifestações que a gente vai buscando. Por quê? Porque nossa natureza e essência é polimórfa, inclusive no plano divino. Nós não conseguimos captar o onipresente e onisciente se não através de um feixe múltiplo de manifestações que o torna compreensível. A nossa limitação, a nossa condição, mesmo a mais elevada como tal, porque ele também se manifesta de formas múltiplas. E na Antiguidade já sabemos isso: cada divindade se manifesta de formas diversas, de formas inusitadas. Ela se multiplica e transforma e assim se manifesta aqui na terra, como acontece hoje. A manifestação da Virgem de Maria, Aparecida e aquilo e outro, e aquelas coisas que nós conhecemos também. Bem, nós não nos livramos. Nós somos na verdade, como dizia muito bem o Joseph Campbell, um monoteísmo disfarçado. Nós precisamos é desse politeísmo, dessa riqueza. Só que como nós não a aceitamos com clareza, acabamos confusos. E fica uma espécie de opção pessoal: cada um tem o seu santo protetor, sua santa virgem protetora, seu padroeiro. Fora algumas convenções como tal, mas na realidade esta hierarquia como tal desapareceu. E ela existiu. O pensamento arcaico não desconhecia essa ideia de um deus onisciente e onipotente, particularmente no Egito, na ideia de Amon-Ra. E depois veremos que essa ideia passa para Zeus e era essa ideia de onipotência e onisciência sempre dividida num aspecto masculino e num aspecto feminino que se complementam. Eles são vistos como inatingíveis, inacessíveis, mas as suas manifestações é que tornarão possível a compreensão e a irradiação. E mais, a sua irradiação será feita através dos astros, através do brilho astral, através dessa linguagem astral que é a astrologia arcaica. É suficiente para compreendermos? Não, também eles diziam que não. É preciso mais do que isso. Os homens precisam de mensageiros dos deuses para entendê-los. Esta ideia do Cristo é muito mais arcaica do que a gente imagina. Esta ideia nós vamos ver remontando ao mito de Ísis e Osíris, onde um enviado dos deuses, que alguns querem que tenha sido um rei mítico até, um rei primordial, vem à terra e uma esposa também divinizada para trazer a mensagem dos deuses para poder o homem compreendê-los. Como é a organização da estrutura religiosa egípcia? Nós temos um primeiro céu, que é o céu chamado de Ísis e Osíris. É a escada, imaginem vocês a escada. Se a gente pegar as pirâmides, se a gente for olhar a esfinge, nós vamos ver que na constelação, lá no horizonte, se a gente olhar para o horizonte, nós vamos ver que a constelação de Órion ela tem de um lado Ísis e Osíris. E há dez mil anos atrás, que deve ser a data primordial, estas constelações elas baixavam quando descia à noite ao nível exatamente do horizonte. Você tem a sensação exata, quando você está lá na Inguisé, que através da esfinge ela aponta rigorosamente para o nascer do sol ou para o poente. Ela aponta rigorosamente. Conforme o céu vai baixando no poente, parece que a esfinge indica exatamente a escada para subir, quase que no plano, para Ísis ou para Osíris. É lá o encontro. Este é o caminho dos homens, um enigma da esfinge que te leva para a primeira vez que você possa chegar ao primeiro céu, que é recebido para a primeira porta da imortalidade, que é Ísis e Osíris. Este primeiro céu é o céu de Ísis e Osíris. E o que representa ele?

Vamos à história que nos ajudará a compreender. A história de Isis e Osiris é de quê? Osiris é despedaçado pelo seu irmão Seth, ou Tifueu, o terrível titã que ameaça Zeus. Sua esposa Isis corre a recolher os pedaços de seu amado esposo e tenta reconstituir o seu corpo. Percorre todo o Egito. Encontra todos os pedaços, menos um, que é o falo. Isso é importante, pois para poder ressuscitar o seu corpo, ela faz um simulacro de madeira do falo e o coloca. E assim ele é ressuscitado. E determina que em cada local que uma parte do corpo for encontrada, seja erguido um templo em homenagem a Isis e Osiris. E realmente, quando a gente viaja de barco pelo Egito, a organização geográfica dos templos corresponde às partes do corpo encontradas. Os próprios templos sugerem a forma do corpo. Da parte do corpo, foram troncos e pernas. Enfim, o que foi encontrado como tal. Por que o falo de madeira? Qual o seu significado? É porque o falo foi espalhado por todo o Egito e tornou-se a fertilidade de todo o Nilo. Então o falo não poderia voltar para Osiris, porque agora o falo de Osiris é o presente para todo o Egito, a dádiva do Nilo, a sua imensa fertilidade e a sua imensa fecundidade. Como de fato já dissemos, que é talvez a região mais fértil que conhecemos, ao lado da região mais estéril, que é o Saara. Este mito de despedaçamento de Osiris. Por que essa história de um Deus despedaçado aqui na Terra? O que significa esta história que será retomada durante tantos e tantos milênios? Vamos encontrar na tradição órfica, Orfeu será despedaçado. Na tradição dionisíaca, para citar a nossa, Dioniso será despedaçado. Na tradição cristã, Cristo será despedaçado, literalmente, na cruz. O que significam estes homens divinizados, estas grandes figuras que trazem uma mensagem grandiosa à humanidade, sempre de paz, de bondade, de fecundidade, e que são despedaçadas pelos humanos, mas que mesmo assim sobrevivem e trazem esta imensa mensagem? Será que nós somos loucos, pirados? Eu perguntaria a vocês: será que nós não sabemos reconhecer a imensa mensagem, bondade e grandiosidade destes enviados dos deuses, não importa quais sejam, e os desprezamos e os despedaçamos? O que acontece com a nossa cabeça? Um comentário muito belo que encontramos num texto atribuído a Plutarco, comentando estes grandes heróis, comentando Pitágoras e comentando que foi muito perseguido também. E Orfeu diz: 'Parece que os homens não suportam os heróis ou os filhos de Deus vivos. Matam-nos e a seguir erguem-lhes templos e estátuas para poder adorá-los, porque vivos eles lhes são insuportáveis, pois denunciam sua pequenez, seu egoísmo e sua sordidez.' E tem-se repetido ao longo da história da humanidade, muitas vezes. Isso significa que a história de Cristo não é nova, o que em nada desmerece. Significa que os deuses talvez ainda não perderam a paciência conosco, ou talvez perderam, que faz dois mil anos que eles pararam de tentar alguma coisa. Mas significa que este primeiro céu, esta primeira passagem do homem em direção a uma divinização, ela necessita deste mensageiro?

Sim, necessita deste mensageiro Mas é ardua a tarefa destinada a este mensageiro Quer a gente queira, quer não O tema que está em jogo aqui de despedaçamento É daquilo que na tradição dionisíaca Que será sua reedição perfeita É o tema do body expiatório Aquele que menos merece, muito ao contrário Aquele que é o mais iluminado e mais elevado Será aquele que será despedaçado, castigado e destruído Para que outros possam viver Até no nosso cotidiano A gente vê as crianças que são de coração mais ingênuas De coração mais legítimo e autêntico São aquelas que mais são arrebentadas e que mais aprontam com elas Seja na classe, no cotidiano, na vida adulta a mesma coisa Esse arquétipo se repete imensamente Quando nós vemos os grandes heróis O espelho de sacrifício deles Faz com que eles caiam em ciladas Devido à sua inocência perante a verdade E assim sucessivamente vamos observando conforme cresce a escala Quando o indivíduo atinge um grande poder Ou ele se mantém pela lança Ou se ele se mantém por uma palavra sagrada Por uma força ética tremenda Mas é justamente isso que o fragiliza Porque ninguém a respeita como tal O último exemplo disso, bastante recente É Mahatma Gandhi Tiveram que matá-lo Porque era insuportável A nobreza e a força dessa beleza que ele irradiava como tal Mas esse tema do bode expiatório O que ele traz para nós como grande lição?

O que significa colocar a mesa aquele que menos merece? E eu, que não mereço nem um pouco a mais estar aqui do lado confortavelmente a devorá-lo. O que significa esse privilégio não merecido? Esse privilégio imerecido? Bom, primeiro lugar, Teócrita nos lembra muito bem a diferença entre mortais e imortais. É que os deuses, como imortais, se alimentam da luz da vida. Nós, como mortais, nos alimentamos da morte. Essa é uma pequena diferença. Os deuses se alimentam da criação, nós nos alimentamos da morte. Nosso grande esforço está em, quem sabe, minimizar esse alimento pela morte e tentar nos alimentar da criação. Vocês conhecem essa linguagem. Vocês sabem quando nossa alma se alimenta do belo, por exemplo. Quando nossa alma entra em contato, seja uma música, seja um amor, seja tudo aquilo que celebra a vida, uma criação, com ela resplandece. E como ela nos tira daquele cotidiano de que eu tenho que superar o outro, tenho que vencê-lo para que eu possa sobreviver, senão ele me engole e assim por diante. O fato é que mais ou menos o homem alimenta-se da morte, e os deuses alimentam-se dessa irradiação, que é o belo, que é a vida. Essa é a diferença entre homens e deuses. Ora, como fazer então para reverter ou pelo menos minimizar esse estrago? Porque o nosso objetivo obviamente continua sendo aquele estabelecido em todas as tradições antigas. Fomos expulsos um dia do paraíso e temos esperança de um dia para ele retornar. Essa é a nossa grande esperança. Só que isto requer uma longa e árdua luta, e esta longa e árdua luta passa por essa questão do bode expiatório. Se eu tenho que me alimentar da morte, eu devo de todo modo aprender a evitá-la. Evitá-la não é apenas não colocar alimento que custe a morte na mesa. É também, e esse é o sentido de toda alimentação sagrada, que não tem nada a ver com naturebas ou natural. Tem a ver com alimento que não custa a morte. Basta entender que os sacerdotes egípcios tinham como regra fundamental: na mesa não se colocava nada que custasse a morte. Portanto, somente cereais que não exigiam a morte da planta, somente frutas que evidentemente não exigiam a morte da árvore, e o pão, a cevada, a cerveja. Enfim, todos esses alimentos que eram fundamentais, e a bebida que era evidentemente o vinho. Essencialmente a videira, que não exige a morte do arbusto para que se possa servir o vinho à mesa. Outra coisa: aos comuns mortais se permitia comer ovos, desde que não galados, porque eles não teriam serviço para a vida. Eles mesmos não podiam se alimentar nem de ovos como tal. Óbvio que os animais, a caça e etc. eram interditos para os sacerdotes. Por que isto?

Porque não é esta coisa hoje que estamos vendo de maldismo, que você come carne vermelha faz mal, não sei o quê, carne branca não faz. Aquela conversa mora, que a gente se escuta narcisista, bem de narcista disfarçado. Se eu não comer isso, eu me virei mais, seria mais... pelinha mais esticada e tal. Nada a ver. O que está em jogo é que ou você celebra a vida, ou você aprende os rituais de libertação da vida e da morte. Não está em jogo se faz bem ou faz mal. Está em jogo que alguém está morrendo para você viver, e você tem que aprender a viver sem que alguém precise morrer. É apenas isso que está em jogo. É apenas isto. Não interessa se é peixe, se é frango, se é barata, se é rúcula, não sei o quê. É como você faz a preparação da alimentação para que não custe a morte. Inclusive havia um ritual fantástico, muito sábio, por sinal, de mesmo os legumes se cortar por fora, só as folhas mais velhas, e nunca o centro, para não matar o legume. Tem uma salada, por exemplo, ironicamente as folhas de fora são as que têm mais vitaminas. Havia até esse respeito com o vegetal. Estamos frente a frente a certos rituais extraordinários. Que tudo bem, isso é uma coisa dos sacerdotes, algo para os grandes iniciados, mas eles deveriam servir de exemplo para todas as pessoas. Cada um poderia seguir. O exemplo dos ovos é notável. É claro que os egípcios comiam ovos, mas durante a Páscoa, que é uma festividade de origem egípcia. A Páscoa nada mais é do que a festividade original que passou com a tradição judaica e depois cristã, de quando após as cheias do Nilo vinha a vazante. E é o momento mais rico e fértil da natureza. Quando desciam as águas do Nilo, elas deixavam as margens com aquele lodassal extremamente fértil, onde todos corriam a plantar, e aquilo brotaria que era uma maravilha. E isso sempre acontecia no início da primavera. De maneira que era um momento que era absolutamente interditado a caça e o consumo dos ovos. Com toda razão. Os ovos estavam todos galados, as fêmeas estavam todas prenhas, as que não estavam, os machos iam poder copular as fêmeas. Portanto, neste momento era proibido ao homem caçar um único animal e consumir um único ovo. Ironia, vocês estão percebendo?

Porque na Páscoa a gente come ovos. Vocês vão entender já o porquê disso. Parece o contrário, mas faz muita lógica. Vocês vão entender o porquê. Este era um cerimonial por excelência consagrado ao despedaçamento de Isis e Osiris e à reunificação por Isis. Porque quando ela deixou o seu falo espalhado pelo Nilo, significava que ele voltava com toda a força e trazia toda essa fecundidade. Portanto, todos esses ovos, todas essas fêmeas prenhas continuam esse falo, continuam essa energia e eles eram intocáveis, portanto. E é verdade, esse é o momento em que a natureza tem que ser realmente ao máximo respeitada. O momento em que existe esta gravidez sublime que é a primavera. É o momento que não se pode tocar. É o momento mais crucial, o mais delicado, que mais estragos você causa se você intervir, e que mais belos resultados trará se você deixar que ele aflore como tal. Este é o símbolo da reunificação de Osiris, que fala desse primeiro céu, fala dessa possibilidade da criação sem esta destruição à qual nós estamos acostumados, e que podemos ao menos de vez em quando minimizar e aprender com ela a coexistir. Daí advirá um conceito fundamental da tradição ética grega e mais tarde cristã: se não é possível evitar de alimentar-se da morte, ao menos faça-o com a mais absoluta frugalidade e parsimônia, o estritamente necessário. Daí a condenação ao excesso, à luxúria, ao estritamente fundamental e ao frugal, e ao absolutamente necessário para que você possa viver. Aí está toda a questão ética, exatamente. Alimentar-se da vida é o desafio. A mesa é um símbolo muito sagrado. Lembre-se da Santa Ceia de Cristo. A mesa é um símbolo muito sagrado que significa reunião da alegria e da vida. Mas alguém está morto. Se você puder celebrar a alegria da vida em volta da mesa sem alguém morrer por causa disso, isso é sublime, isso é extraordinário. Toda a questão da traição em Cristo da Santa Ceia reside aí. Essa questão da mesa com memória, de você rememorar o tempo em que você está no paraíso, onde a mesa está plena de frutos da terra sem que haja morte, é a alegria suprema. Aí está o grande aprendizado da reunificação do corpo. Ou você é aquele que ajuda a despedaçar o corpo. Conclusão da história: Seth é uma metáfora deste aspecto que existe em nós, essa sombra, diria Jung hoje, de despedaçar tudo que está à nossa volta para nosso consumo e conforto pessoal. E o esforço de reunificar o síris representa justamente esta força fecunda de que você não só não permite o despedaçamento, mas celebra a vida em qualquer um que você encontre, sem que isso lhe custe a morte. E isso nos coloca na visão original dionisíaca, que nada tem a ver com as bacanais, essas bobagens, os romanos decaíram, mas tem a ver com aquele que celebra o êxtase e a alegria, o Deus da socialidade. Todas essas tradições, aliás, como nós dissemos no primeiro encontro, elas acreditam no voltar a viver. Sem você acreditar que é possível evoluir aqui e é possível voltar a viver, ter essa nova oportunidade, tudo isso perde o sentido. Para eles era claro e evidente que havia esse voltar. E a nossa tradição cristã, ela muito se influenciou disso, com toda certeza. E essa ideia de ressurreição significava exatamente isso, com a diferença de que em Cristo, como ele já tinha atingido a imortalidade plena, não se encontra mais nada de material nele. Nós, ainda em nossa longa evolução, teremos que voltar a viver em outros corpos muitas vezes para podermos nos aperfeiçoar, seria a diferença fundamental. O que é central nessa questão de Dionísio, que aliás os mistérios de Eleucia são a eles celebrados e a Deméter, é de que o êxtase e a alegria se antepõem à morte. E não é verdade? Quando nós estamos com a vida plena e com a alegria, nós estamos espalhando vida. Doença, tristeza e morte não têm lugar numa mesa de celebração. Ao contrário, procuramos espantá-la como tal. A mesa é símbolo de vida. Quando nós dizemos a mesa é símbolo de fartura, não é símbolo de fartura como se esbaldar. Não, é símbolo de agradecer o paraíso em que você está. É de divisão. A fartura da mesa não é para que eu me refestele, é para que todos, só ninguém, falte. A tradição que vem desta páscoa arcaica de manter as portas abertas da casa para que qualquer estranho possa entrar, isso ainda acontece no sul da Itália e no sul da Grécia, para entrar uma pessoa estranha para se alimentar. O ovo cósmico vem de toda esta beleza. Ou seja, a mesa farta é para pertencer a todos. Esse é o ato supremo de caridade e de bondade de você dividir. Então, o que têm os ovos a ver com tudo isso?

Primeiro, representa o símbolo do ovo cósmico. O ovo cósmico é representado em todas as tradições arcaicas como um masculino e um feminino que estavam unidos, que se rompe, e de lá nasce a irradiação do masculino e a irradiação do feminino, Urano e Gaia, por exemplo, uma tradição grega. E do centro dele nasce o princípio cósmico de Eros, princípio motor cósmico, que é o centro do ovo. O ovo é um símbolo sagrado de geração, um princípio fundamental. Daí a sua força e a sua importância em toda a tradição arcaica e egípcia, e ele é realmente a fonte da vida.

O fato da tradição judaica ter adotado os ovos de Páscoa e nós os continuarmos é muito fácil de explicar. Quando houve o Êxodo, era a Páscoa, como vocês sabem, a Páscoa egípcia, e nesta época havia ovos à vontade, porque eram proibidos o seu consumo. Da mesma maneira, o que eles fizeram? Eles se encheram de ovos e aquele pão ásimo e fugiram para o deserto, e graças a isso eles sobreviveram. Para celebrar essa sobrevivência, o pastor disse que comer ovos, o que também faz sentido. Cada povo tem que interpretar aquilo que lhe permitiu a sua sobrevivência, o seu caminho como tal. Então, os ovos passaram a ser um símbolo consumido na Páscoa. Não é um chocolate, esse horror que virou esse desvario bárbaro. Por quê? Porque se você vê a tradição cristã protestante original, por exemplo, mesmo a bizantina original, o que se fazia? Ainda se faz hoje. Se pega o ovo mesmo, se tinge, se pinta, se faz um trabalho muito bonito de agradecimento. Ao quebrar e comer, tem um sentido muito belo. Agora, ir lá no shopping e comprar aquele ovão desse tamanho é de virar o estômago, perde-se toda a beleza do ritual, que representa a recordação da vida de Cristo, a reflexão ou desse povo que conseguiu sobreviver com o caminho todo para a terra de Canaã. Vira uma prostituição. Na verdade, este ritual que deveria celebrar o êxtase, a socialidade e a alegria acaba se tornando um ritual de selvageria por excelência.

A questão dionisíaca é uma derivação direta do mito de Ísis e Osíris. Ele também será, notem bem, filho de uma mortal, Sêmele, com um imortal, Zeus, que terá que atender um pedido de sua amada, que pede para vê-lo em toda a sua excelência. Ele tenta demovê-la dessa loucura, mas ela insiste. Quando ele surge em toda a sua força, ela morre imediatamente incendiada. É claro, o sobrenatural, nós nunca poderemos ver de olhos materiais, com meios materiais; seremos, por ele, destruídos imediatamente. Ele tem tempo apenas de retirar essa criança de seu ventre, abrir a sua coxa, colocar essa criança e costurar. Daí nasceu a expressão "barriga da perna".

Onde essa criança haverá de terminar sua gestação, será dionisíaca. Logo ele nasce, será entregue ao deus Hermes, que cuidará desta criança. Em Olímpia, existe uma belíssima estátua que sobreviveu Praxitelis, que tem o pequeno Dionísio em seus braços. E o Hermes fazendo assim, com as mãos. E o pequeno Dionísio está fazendo assim, com as mãos. Ele segura um cacho de uvas e o pequeno Dionísio, que é um bebê, já está querendo pegar as uvas. Ele já é feito para isso. O que significa tudo isso? Ao lado de Demétri, que terá lá o trigo e a cevada, Dionísio terá lá, para os homens, o vinho. Nas bacantes de Orípedes, nós vemos isso com toda a força. Trazem alimentos que não custam a morte. Trazem alimentos que não só não custam a morte, como trazem alegria. O vinho alegra. Como alegra. Mas é uma alegria que não é assassina. Porque ela é a bebida dos deuses. Ela não custou a vida de ninguém. Por isso, com toda a tradição, o vinho é o sangue de Cristo. Porque ele não custa a morte. Muito contrário, ele é pura vida. Por isso o pão é o corpo. Daí vem a óstia. E eu sei que vocês veem que são tradições arcaíssimas. Por quê?

Porque vem de algo absolutamente criador e vivo, não tem morte alguma, é pura vida. O pão e o vinho tornam-se, por excelência, desde a mais remota antiguidade, ou a cevada, pouco importa, do Egito, e daí para a Grécia, e daí para a tradição judaica e para a nossa, os alimentos sagrados, por excelência. Os alimentos de Dionísio e Deméter, ou de Ísis e de Osíris, se vocês quiserem. Porque eles são o exemplo a ser seguido, a ser alcançado. O pão, porque tão pouco, tão barato, e te deixa pleno aqui o teu estômago, a tua fome sacia. O vinho, tão simples, te deixa tão alegre, te abre os braços para o amor, para o sorriso, para a festa, e não para o ódio, para a guerra. Eles trazem vida à mesa e à sua volta. Este é o primeiro salto, o primeiro caminho para celebrar. E em Ísis e Osíris, que eles dizem, o primeiro céu. O primeiro céu, na verdade, que está na linha do horizonte, tem que ser celebrado cada dia na própria mesa. Caso contrário, não será possível passar nem ao segundo nem ao terceiro céu, que veremos depois do intervalo. Vemos que a tradição de Ísis e Osíris, que é central no pensamento egípcio, e também será herdada no pensamento grego na forma de Dionísio e Deméter, celebram o ponto fundamental do início de toda e qualquer tradição religiosa: a arte de minimizar a morte aqui na terra. Praticar o ato de religar, o ato religioso por excelência, começa pela arte de não espalhar a morte. Uma questão de civilização e barbárie se antepõe imediatamente, e que se coloca não somente com as regras dionisíacas do respeito social, de que aquilo que lhe pertence eu não posso me apoderar, mas com o cotidiano da vida, onde você deverá aprender a não colocar a morte na mesa, nem no seu cotidiano em momento nenhum. Este, com certeza, é o divisor de águas entre as chamadas civilizações mítico-eróticas e as civilizações mercantilistas. Não sou eu que estou dizendo isso, estou parafraseando o Mércia Eliade, numa famosa conferência que ele fez em Vancennes, onde ele disse que a diferença é que estas culturas estavam todas voltadas à celebração da vida, e o Eros deveria ser recriado como tal. A civilização mercantilista está interessada em conquistar os objetos, e para isso frequentemente ela terá de matá-los antes. Objetos vivos nem sempre podem ser mantidos enjaulados. Às vezes até podem, mas é mais confortável mantê-los mortos ou anestesiados para tê-los. A civilização dos objetos, das conquistas, das terras, das posses, evidentemente destrói toda esta visão, desta civilização onde o ato social, essa celebração da reunificação do divino com o homem, eram possíveis. Todas as tradições arcaicas das escolas dos mistérios procuram celebrar este primeiro céu. Escolas dos mistérios não tem mistério nenhum na verdade. Todas elas vêm de uma raiz arcaica: Muz e Mahat. Muz é sânscrito, Mahat é egípcio arcaico. Mahat é uma deusa, é uma divindade mesmo, que representa a possibilidade máxima que você pode fazer com seus talentos para servir à vida. Isto é servir Mahat. Servir Mahat é uma das, talvez a mais importante, tarefa e atividade que é proposta a todo e qualquer indivíduo no antigo Egito. As raízes são evidentes: Mythos vêm daí, Muz, Mahat, Máthis, Matemática, música. Todas essas raízes significam o quê?

As raízes da harmonia cósmica Sobre as quais nós devemos nos debruçar Para recapturar Recriar esta linguagem cósmica Porque parece que a separação entre homens e deuses Não reside apenas na nossa tendência a se alimentar da morte Nós lemos em Teócrito uma outra passagem De que os homens morrem porque esquecem Este é um outro péssimo árbitro da humanidade Cair no esquecimento O que significa isso? Os homens morrem porque esquecem É preciso que nos recordem constantemente estes enviados Sobre o significado fundamental da existência Porque caso do contrário nós caímos no esquecimento da barbárie Cair no esquecimento é fácil O Sócrates já dizia O beber suave inebria o espírito Mas o comer abaixa o espírito E faz com que ele caia no esquecimento E é verdade Um simples exemplo e quando comemos em excesso Como nós nos esquecemos das regras mais fundamentais De civilidade e de elegância A burrice cai a um nível que é i70 E não consegue nada Perdemos a sensibilidade Perdemos o refinamento Caímos no estado de barbárie A ansiedade em excesso de fato faz isso Esse tipo de sensação de barbárie e de selvageria É muito fácil de retornar Atingir esse plano de vibração dionisíaco do social Dionisíaco do êxtase e da alegria Custa muito Nosso cotidiano é terrível pra isso Se lembram do encontro passado que eles diziam Vocês tem que fazer uma praxis disso no cotidiano Se pensam que não redescobrir talento, sensibilidade pessoal Sem praticar no cotidiano Não dá O cotidiano é terrível Quando a gente chega às seis horas da tarde Ou às sete em casa Nós estamos absolutamente reduzidos a QI abaixo de 70 Todo mundo sabe disso Nossa sensibilidade acabou-se Primeiro compensamos de um banho Pra recuperar o mínimo de decência corporal O mínimo de decência Mas nossa decência mental não é recuperada assim A nossa decência mental precisaria de um bom diálogo Precisaria de paz, de silêncio, uma música harmônica deliciosa Vocês percebem que tocar o dionisíaco É maravilhoso ter amigos Mas não precisa ter amigos toda hora, não ainda Basta uma mulher amada Ou um amigo amado Ou então uma música amada, uma paz O Ruben Alves tem uns artigos maravilhosos Que ele escreve, você lembra?

Aquele amigo dele, sobre o amigo que ele conheceu na prisão, uma beleza. Escreve quinzenalmente na folha. É uma lição tão simples, mas tão necessária. Você não construirá a tua harmonia, não tocará este marat, este sensível, sem praticá-lo todo dia. A consciência vulgar e assassina é selvagem. E lembrem-se, a gente chega num estado bem próximo do símil quando sai de um trânsito, uma hora de trânsito. Depois de uma hora de trânsito, daquele estado de nervos. Fora o dia que nós passamos com discussões. Em que estado nós entramos indo de casa? Com certeza nosso cachorrinho é muito mais delicado, elegante e sensível do que isso. Plenamente, isso não dá pra ser diferente. Tem que praticar todo dia essa recuperação. Não adianta só tomar banho por fora, precisa limpar. Tem que tomar banho por dentro. Isso é um bom diálogo. Tem que desligar o celular, entrar dentro de si. Tem que ter uma música que te harmonize, o belo que te harmonize. Isto é marat, que eles faziam como cerimonial obrigatório. E o faz e marra todo dia. Você lê isso nos textos hieroglíficos, que é a prática no cotidiano desta bondade, que você possa recuperar lá dentro de ti. E nós a perdemos com uma rapidez impressionante se nós deixamos. E nós estamos bem longe da harmonia que os egípcios antigos e gregos viviam. Nós vivemos um literal inferno com buzinas, com faróis, com todas essas coisas, e com uma tensão muito desagradável. Então recuperar agora a arte dos mistérios. Que mistério! O mistério mesmo é porque eu não dei uma pancada naquele indivíduo que me fechou o carro, principalmente os motoqueiros, que nós gostaríamos de praticar tirolovo com eles e outras coisas parecidas. Aqui nós começamos a entender um pouco melhor a diferença entre homens e deuses. É intranspolível a distância. Há alguns raros que podem alcançar essa aproximação, mas compete a nós esse processo de reaproximação. Esta ideia deste primeiro céu na tradição egípcia é muito bela porque, na verdade, são três céus de ascensão. O primeiro céu é uma árdua conquista. O que é este primeiro céu?

É você trazer o céu na terra. É você ver toda essa harmonia cósmica divina dos astros e praticá-la aqui. E ela é facilmente alcançável. Que são os princípios éticos, evidentemente. Que são os princípios tão bem marcados entre Osíris e Isis. O despedaçamento não pode ser a sua lei. Lembre-se que ela é exatamente o oposto. A sua vida tem que ser unificação. Tem que ser harmonização. Se você quer prestar algum serviço aqui, lute para que não haja despedaçamento. Ao menos minimize-o. Isso nos dá já uma primeira possibilidade de evolução. As escolas dos mistérios nada mais eram do que isso. Nada mais eram do que grandes escolas voltadas para a arte de não destruir. A arte de criar. Por isso que a paideia, tanto no pensamento egípcio como no pensamento grego, são essencialmente criadoras e não conhecedoras. O fundamento da paideia é recuperar um indivíduo como criador, em cumplicidade com os deuses, e não com conhecimento. O conhecimento é mera técnica, é mero instrumento. A criação é ética. Por isso que Sócrates coloca muito bem para o conhecimento: tem-se a vida toda. Mas para a formação do herói, do homem criador verdadeiro e nobre, muito pouco tempo. Porque a mentira e a covardia logo se instalam e nunca mais se estirpam. E nós continuamos praticando esse desastre em nossas queridas escolas. Não sei se alguém viu na fôdia de São Paulo, agora na semana passada, o Retrasada saiu um caderno para os seus pais escolherem suas escolas. Lá está uma seleção das melhores escolas. Vocês terão lá tudo que o seu filho poderá ter de melhores conhecimentos. Mas formação como homem?

Zero, absolutamente zero. Inexistente, inexistente. Seja como energia criadora, como seus talentos, como suas preocupações éticas, como suas angústias que todo ser humano traz. Não importa se você acredita em outras vidas ou não. Que trazem os seus dilemas que devem ser refletidos e são essenciais. Suas indagações. Isso não interessa. Não vamos educar, não vamos formar a civilidade deste modo. E o resultado pior de tudo isso. O que eu gostaria de fechar é que essa intermediação do homem com os deuses foi tão interrompida em nossa cultura. Porque vocês percebem que na verdade o que nós estamos falando daqui. Esse primeiro céu é a intermediação entre o homem e o deus. É manter o homem intermediando com o plano do divino no seu cotidiano. Porque se você guarda o divino só para domingo de manhã na igreja durante uma hora, e lá quando você prestou atenção no padre, porque a fofoca da vizinha estava melhor. Então caímos num plano da hipocrisia total e da estupidez humana total. Aqui está uma forma de tratar o divino no seu cotidiano em cada ato. Isto é o céu intermediário. É este que torna a tua vida como um desafio e ao mesmo tempo ele abre uma perspectiva para o transcendente, para o sobrenatural, para o inefável. Se você perde essa perspectiva, se afasta cada vez mais. O resultado só pode ser uma coisa, uma selvageria extraordinária que se pratica não apenas no trânsito. Aí sim nós podemos falar da selvageria que nós estamos praticando com o nosso planeta. Muito simplesmente, todo mundo sabe o que nós estamos fazendo. Logo, logo seremos os próximos da fila a entrar no inferno de Dante. Esta bola está correndo, vocês devem estar acompanhando, são todos dessa área. Que nós estamos beirando esgotar os recursos. Pleta, nós estamos além. Nós não conseguimos mais repor aquilo que retiramos do solo em níveis mundiais. Quem tem filhos deveria parar e pensar o que está fazendo. Quando compra tranqueiras de plástico, troca de automóvel todo ano e assim por diante. Nossos filhos vão pagar esse preço. Eu acho que essa é a questão que nós não estamos entendendo que é a mais candente. Nós vamos levar uma vida confortável, não tenha dúvidas. Mas a culpa lá no inferno depois?

Tem o que falar. Mas nem no nono nível de Dante. Porque é muito simples isso, é uma responsabilidade enorme para nós. Não só deixarmos o planeta esgotado por essa garotada que vem aí, como uma irresponsabilidade cósmica em criá-los deste modo, em acreditar que é essa a maneira de viver. Alguém tem que parar com esse processo. A reconquista deste plano tem que ser feita. Nós não podemos continuar ensinando a despedaçar o planeta. Nós temos que ensinar o caminho que aqui está exemplarmente mostrado. Como reunir as partes de ossíris para que possa haver fecundidade. Porque o que nós sentimos claramente é isso. É a perda da fecundidade do planeta. Se nós choramos algo, quando vemos uma mata atlântica devastada, quando vemos espécies ameaçadas, quando vemos aquecimento pavoroso, o que nós estamos chorando justamente?

A perda da fertilidade, a perda da fecundidade, a perda da alegria de viver, que sabemos que seria a possibilidade do futuro, é questão bastante séria. A falácia fundamental está em achar que a sociedade de conhecimento constrói uma civilização. A sociedade de conhecimento não constrói coisa nenhuma. Ela constrói bombas atômicas, ela constrói Hitler, isso sim. Ela constrói Napoleões. E isso está em todas as escolas, esse é o primeiro desastre. O segundo desastre deste processo da transformação é que em algum momento o homem vai ter que enfiar na cabeça dele. Eu tenho um DVD que se chama The Corporation. Os enunciados desses grandes poderosos... Em algum momento certas matérias-primas terão que parar de ser produzidas. Em algum momento nós vamos ter que reconhecer que nós temos que parar de consumir certas coisas. Este processo ganancioso movido pelas empresas. Essa escravidão esperta que se chama consumo. A escravidão mais esperta se chama consumo. Não tem coisa mais inteligente. Eu não preciso mais pagar escravo em casa. Eu só deixo ele em casa, quieto. Eu tenho certeza que ele não vai incomodar ninguém. Primeiro porque ele só tem contas a pagar. Ele gasta mais do que ganha porque eu implantei nele o desejo de consumir e está ótimo. Ele não vai pensar por conta própria, ficar vendo a novela das oito. E vai virar um eterno escravo disso. É uma beleza, como Nietzsche disse muito bem. O Estado e a igreja odeiam pessoas que têm a ousadia de pensar por conta própria. O consumismo é a melhor maneira de impedi-los. Só que este mecanismo está levando a um processo limítrofe. Há um problema fundamental. Que mexe com o narcisismo fundamental de nossa civilização, modelo americano. Como se eu posso ter mais, vou ter que me abster de ter mais. Esse é o termo, esse é o termo terrível. Se eu posso, eu tenho dinheiro, eu tenho isso, tenho aquilo. Por que eu não vou?

O outro que se dane. Eu vou ter meu carro melhor, eu vou ter minha casa melhor. Eu vou fazer isso e aquilo e o outro. Eu trabalhei mais, estou na lei. Legalidade e justiça se confundem porcamente. Nada a ver legalidade com justiça. Aí o Nelson que sabe muito bem, como disse Antígona muito bem, como disse também o George Del Vecchio. Nada a ver legalidade, necessariamente o que é justo não é legal. Necessariamente o que é legal não é justo. São questões que vêm vindo. Temos uma imensa responsabilidade aos herdeiros. Não há dúvida que a questão de 20, 30 anos as coisas vão esquentar muito. Eu peguei 46 graus em Atenas este ano. Nunca na história da Grécia isso aconteceu 46 graus. Nem em Aswan, em junho, não em julho. Comecinho do verão, comecinho do verão. Eu soube que se teve dias que passou algo que se pensaram. O sul da Itália também foi a brutalidade. O problema é que nós estamos começando a ter urgência em tomar medidas em grande escala. Soluções de pequena escala que são muito bem-vindas sempre. Com o caso das latinhas de alumínio ou outras, são super bem-vindas. Mas começa-se a ter noção de que é preciso tomar medidas em larga escala. E essas reflexões terão que ser vistas. Nós temos uma educação. Isso está discutido com ela. Temos escolas de elite educando monstrinhos. Isso é muito sério, que serão os políticos de amanhã. Serão os Renan Calheiros de amanhã. Para dizer o mínimo. Nós temos que brecar este processo na base da educação. Só que não se esqueça de uma coisa. O problema está tão grave no topo quanto na base. Mas mais grave no topo. Porque as elites governaram amanhã, não se iluda quanto a isso. Quanto antes você tentar um processo fundamental de educação dessas elites, de contenção delas. Salve-se quem puder se não o fizermos. O processo de educação não pode menosprezar isso. Nós não podemos continuar fabricando o Renan Calheiros para dizer o mínimo. O descalabro que chegamos passou de toda a conta. A questão da educação no país me parece absolutamente única e candente. Não adianta reciclar, colocar computadores em sala de aula. Precisamos construir mestres com toda urgência. Mestre significa, no mínimo, pessoas que põem em primeiro lugar a vida e a dignidade dela. E ensinam a preservá-la. E ensinam como dar-lhe esses valores. Isso significa dar plantinho ao coelhinho, ao cachorrinho, ao teu amiguinho e a tudo que está à tua volta. Perdemos essa noção de valores? Totalmente perdemos essa noção de valores. Essa estrutura fundamental é que está despedaçada. O Mídio de Osiris é muito emblemático. Ele é despedaçado porque falta amor. É ela que o seu imenso amor que traz. Quando é que nós vamos resgatar isso? A gente está trocando a palavra amor por ter um carro mais bonito, um brinquedo mais bonito, ou uma namorada mais bonita. Tudo é consumo. www.barretina.com.br. Centenas de audiolivros para download. Conheça a seguir alguns outros títulos da Universidade Falada. Memórias póstumas de Brás Cubas. A barretina. E daí, não. Ele resume as reflexões que fiz no dia seguinte ao Quincas Borba. Acrescentando que me sentia acabunhado. E mil outras coisas tristes. Mas esse filósofo com um elevado tino de que despunha. Bradou-me que eu ia escorregando na ladeira fatal da melancolia. Meu caro Brás Cubas, não te deixes vencer desses vapores. Que diacho!

É preciso ser homem? Ser forte, lutar, vencer, brilhar Influir, dominar Cinquenta anos é a idade da ciência e do governo? Ânimo Brás Cubas, não me sejas palerma Que tens tu com essa sucessão de ruína a ruína Ou de flor a flor? Trata de saborear a vida E fica sabendo que a pior filosofia é a do Choramingas Que se deita à margem do rio Para o fim de lastimar o curso incessante das águas O ofício delas é não parar nunca Acomoda-te com a lei e trata de aproveitá-la Vê se nas menores coisas o que vale a autoridade de um grande filósofo As palavras do Quincas Borba tiveram o condão de sacudir O torpor moral e mental em que andava Vamos lá, façamo-nos governo É tempo, eu não havia intervindo até então nos grandes debates Cortejava a pasta por meio de rapapés, chás, comissões e votos E a pasta não vinha Urgia a apoderar-me da tribuna Teoria dos jogos aplicada aos relacionamentos Jogo do ultimato Imagine que eu aborde você com a seguinte proposta Meu caro, eu tenho aqui 100 reais que poderão ser seus Se você convencer seu vizinho a aceitar como vocês dividirão o dinheiro Se ele topar sua proposta de divisão, o dinheiro é de vocês Mas se ele não concordar, você não recebe nada Ah, detalhe Você só pode fazer uma única proposta para o seu vizinho Trata-se de um ultimato E não há como renegociar depois da resposta dele Se seu vizinho for absolutamente racional Ele deverá aceitar qualquer proposta diferente de zero Como ele está sem nada, se ele ganhar 1 real já estará melhor que antes Portanto, você poderia propor uma divisão dos 100 reais com 99 reais para você E 1 real para ele Que ele deveria aceitar Mas sempre que esse jogo é jogado com jogadores reais O que se verifica é que os jogadores que estão na posição de aceitar ou recusar a proposta Tendem a não aceitar ofertas que contenham diferenças exageradas na divisão do dinheiro Na verdade, o que se verifica é que quanto mais próxima a proposta estiver do 50% Mais provável que o jogador que decide se aceita ou não Deverá aceitar de fato o que contraria, em princípio, o previsto pela teoria dos jogos Todos os direitos autorais são de propriedade da editora Aliyah, Universidade Falada É proibida a cópia e reprodução parcial ou total do conteúdo Este material é distribuído sem ônus exclusivamente para entidades de deficientes visuais previamente cadastradas Obrigado por assistir!


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PALESTRA 3 — ASTROLOGIA ARCAICA — PARTE 3: A HIERARQUIA DOS DEUSES E A DISTÂNCIA ENTRE HOMENS E DEUSES
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A Universidade Falada apresenta o audiolivro Astrologia Arcaica, parte 3: A Hierarquia dos Deuses e a Distância entre Homens e Deuses, de autoria de Victor de Salis. Estamos falando da questão dos astros e da função da astrologia. Hoje vamos falar das dimensões cósmicas da criação, para tentar entender essa função dos astros na dimensão humana. A maior dificuldade que temos é nos livrarmos desses preconceitos que a modernidade nos fez o favor de enfiar goela abaixo, de que a questão astrológica nada tem a ver com a questão astronômica, de que os astros são sistemas cósmicos completamente desvinculados de qualquer realidade que possa interferir em nós. Sendo daí que eles foram transformados em superstição, naquelas bobagens todas. Bem lembrados de toda uma geometria que representa a pirâmide e toda uma organização astral, tanto na sua posição quanto nas suas funções. Portanto, há alguma sabedoria nisso, sem dúvida alguma. Muito bem. É preciso que se entenda que os astros têm, no pensamento arcaico, uma função que poderíamos chamar de pertencerem a uma dimensão de uma teia imensa cósmica, uma teia de inter-relações que a modernidade se acostumou a chamar de gravidade. Essa interferência múltipla. As observações, inclusive, de planetas hoje são feitas por perturbações gravitacionais, pois é impossível enxergá-los; são corpos escuros, e a perturbação gravitacional é que denuncia a existência deles. Na antiguidade, diríamos que, no lugar de ver perturbações gravitacionais, diríamos que é Eros perturbador. É tão metafísico quanto, porém, mais romântico e mais agradável. Dizer que Eros, como princípio cósmico, motor cósmico, como lemos em Exílio, Eros princípio motor cósmico, aquele que tudo atrai, que não permite que ninguém passe indiferente a nada. Inclusive daí se derivaram tantos conceitos, inclusive na medicina, sobre a questão da atração, da repulsa, antipathos, simpathos e assim por diante. O que é difícil para nós compreendermos, enfiarmos na nossa cabeça, é que essas relações cósmicas sejam da mesma natureza que as relações assim chamadas psicológicas ou orgânicas. Trata-se de uma mesma lei cósmica. Isso é fundamental para começarmos a entender esse pensamento mítico. Os mesmos processos do microcósmico são idênticos ao macrocósmico. Microcósmico idêntico ao macrocósmico, como já vimos na Tábua de Esmeraldas, em Hermes. Ou seja, a mesma natureza primordial que governa os astros é a mesma natureza primordial que governa os seres vivos, das lesmas a nós e a tudo. A esse conceito arcaico se chamava de psique cósmica, e é uma teia de interrelacionamentos, uma teia que eles chamavam de teia matricial, onde tudo influencia tudo. E que essas energias emitidas pelos astros, que a física nos dá nomes tão bonitos, ou no microcósmico, são exatamente iguais. São isomorfas, para usar uma palavra metida, às leis que nos governam. Esse seria o primeiro aspecto. O segundo aspecto que temos que compreender é que não há, no pensamento arcaico, uma separação radical entre o cósmico psíquico e o cósmico material. A separação entre real e imaginário é impensável no pensamento arcaico. Por quê?

Porque ele se funda num processo criador, e este processo criador, que é o que falaremos hoje, passa por diversas etapas no universo. Da mesma maneira que produz as galáxias, as constelações, os átomos e etc., ele rege as mesmas leis da vida. Não há separação, portanto, entre corpos animados e corpos inanimados no pensamento arcaico. Da mesma maneira que nós nascemos, crescemos, desenvolvemos e morremos, os astros também nascem, crescem, desenvolvem e morrem. E hoje isso sabemos com clareza. Isso vale para o microcósmico e o macrocósmico. Portanto, há uma psique cósmica que governa essas relações, e esta separação, na verdade, não passa de um gavetamento da ciência moderna, de tentar separar os diversos aspectos dos seres vivos e particularmente seres humanos. Então criamos a categoria do psicológico como se ela tivesse a honra de pertencer a um universo próprio e especial. Não é verdade. Quando dizemos, no plano do imaginário, que ele pertence à dimensão psicológica, que meus sentimentos — vejam só que absurdo vou dizer — são meramente questões minhas, como é que a gente pode enfiar na nossa cabeça que um astro tenha sentimentos, tenha humores, na linguagem hipocrática? Mas para o pensamento arcaico tem sim, até porque nossos humores, nossa personalidade e etc. são reflexos da matéria cósmica. Esta personalidade que dispomos nada mais é do que características herdadas dos astros, que são em nós depositadas e que formam uma unidade provisória, da mesma maneira que um astro é uma unidade provisória e segue exatamente as mesmas leis. A nossa separação, graças a Aristóteles, a maldição da modernidade, entre corpos minerais, vegetais, seres vivos e finalmente o homem no topo da escala — senão como ficaria nosso narcisismo?

Ainda é engolida e ainda é ensinada na escola primária, como vocês bem sabem. Porém, isto é o que inaugura o pensamento moderno, o pretenso pensamento científico. Na realidade, para o pensamento arcaico, são diversas categorias do real, todas elas vibrando em um mesmo nível, todas elas interligadas, não havendo separação entre seres vivos e inanimados, não havendo essas categorias aristotélicas como tais. Sim, havendo naturezas e vibrações diversas. Por isso podemos entender com mais clareza logo na teogonia, quando Exíldo abre no seu hino às musas declarando que Eros é o princípio motor cósmico que tudo atrai e tudo possibilita. Bastante claro para nós, já nessas alturas, o que é uma civilização mítico-erótica. Quando falamos de uma civilização erótica, queremos dizer que ela é movida à atração, a um princípio mágico de atração, do qual Eros, tanto no seu plano transcendental — do qual falamos hoje — quanto no seu plano mais sapeca, humano e divertido, aquele anjinho que nos flecha e assim por diante, maldoso, produz exatamente o mesmo efeito. Esta magia da atração cósmica é o que permite a criação como tal, porque a criação nada mais é do que esse mistério fantástico que é a atração dos opostos e complementares, diversos porém complementares, e que gerará algo novo. Vamos pensar um pouquinho nisso. O próprio processo criador já seria suficiente para interrogarmos seriamente as pretensões aristotélicas e da ciência moderna. O que é um processo criador?

Tanto é que nós falamos o criador, o grande paradoxo é este: já em Teócrito nós lemos duas observações muito importantes. Primeiro, os homens morrem porque esquecem, porque o plano do não esquecido, o plano do eterno, portanto, pertence aos deuses. Nós estamos a meio caminho entre o esquecido e não esquecido. Aliás, nossos consultórios estão cheios de gente esquecida. Nada mais é do que o plano do inconsciente, da separação entre o sentido da existência do indivíduo, da separação entre a sua harmonia cósmica, sua sinfonia, sua inter-relação, e onde ele se separa, e como tal ele entra no caos do esquecimento, e daí todo o resultante das doenças. Mas a perenidade é um desafio para nós. Ele nos lembra, ainda Teócrito, de que os homens, a diferença entre homens e deuses, não é que eles são imortais e nós somos mortais. A grande tragédia da existência é que nós somos mortais e imortais ao mesmo tempo. Aonde nós captamos nossa imortalidade com maior poder quando nós superamos a nós mesmos através da criação, quando nós tocamos o inesquecível, a lefeia, a verdade, aquilo que não pode ser esquecido, que é o caminho do herói, que é o caminho do criador. Não nos surpreende, portanto, que a paideia não esteja fundada no conhecimento na antiguidade, mas esteja fundada na arte de tornar um indivíduo criador, pois que é essa a única maneira de ele se aproximar dos deuses e dele tocar a imortalidade perdida. Ora, mas o que é este processo criador? Primeiro obstáculo que se depara: enquanto os deuses são plena criação e imortalidade, portanto eles estão acima da tragédia, nós somos a própria tragédia, porque somos mortais, e porque a criação, o único caminho que nos identifica com os deuses, é um imenso desafio e requer, além da descoberta de si mesmo, uma coragem de ser extraordinária, que eles chamam de superação da morte. Por que superação da morte?

Porque toda criação visa a imortalidade. Caso contrário, ela não nos interessa. Quando vejo um quadro de Van Gogh, quando vejo uma sinfonia de um Brahms ou um quarteto de Beethoven, o que me toca é a imortalidade. Por quê? Porque ela vibra num plano que é eterno. Ela vibra num plano de harmonia que transcende e me faz esquecer esse momento da mortalidade. Mais ainda, a criação tem um tremendo paradoxo: ela se instala no absurdo. Por que se instala no absurdo? Porque ela se instala no inexistente. Todo o processo criador caminha do inexistente em direção a algo, por definição, impossível, pois que inexistente. Antes, Heidegger diria que está na possibilidade que vai em direção ao ser. Mas justamente essa passagem do possível ao ser requer a intervenção do imaginário. Sem o imaginário, sem o grande Deus Morpheus, Deus das formas, é impossível qualquer processo criador, seja para que eu invente uma nova forma de me vestir, de me portar, de ser. Até um objeto criado, até uma obra de arte, até um conceito, e assim por diante. O que é extraordinário é este aspecto: ela se instala no inexistente e, ironicamente, ultrapassa o inexistente. E mais do que ultrapassa o existente, se consolida além da minha própria morte. Aliás, vocês conhecem horror pior do que cair no esquecimento? Todos nós gostaríamos de não cair no esquecimento. Claro que existem formas escusas de fazê-lo, mas o grande desafio nosso continua sendo esse impulso criador que nos identifica com o divino, para que a gente possa suplantar este plano. Notem bem: a função do imaginário não é psicológica. A função do imaginário é cósmica. Ou seja, ele já estava lá muito antes. Nós apenas o abocanhamos para podermos, através desse processo psíquico-cósmico, repetir o milagre da criação, seja numa obra de arte, seja num livro, seja numa ciência, seja onde for. Mas nós conseguimos operar nesta passagem absurda que deixa a ciência de cabelo em pé. A própria ciência se vale disso. A intuição genial de um Einstein não poderia jamais ser derivada da teoria newtoniana. O contrário é verdadeiro: eu posso perfeitamente, a partir da teoria da relatividade, derivar a teoria newtoniana, que se tira de letra, pura matemática simples. Mas é impossível alcançar Einstein, a teoria da relatividade, a partir das teorias gerais da termodinâmica e etc. de Newton e os posteriores. Há uma intervenção aqui do sobrenatural. Aliás, nenhuma criação é possível sem essa intervenção. E esta intervenção se estabelece exatamente na passagem do existente para o inexistente. Algo novo, inusitado e único se estabelece. E uma vez que ele exista, ele se consolida como tal. E é isso que nos faz admirar tremendamente o processo criador. Embora, infelizmente, na modernidade, nós sejamos tão afastados. Por quê? Nós estamos afastados porque nós não soubemos imitar os deuses neste espaço em direção à criação. Se nós olharmos a teogonia de Hesíodo, que é o nosso tema de hoje, nós vemos que, da mesma maneira que as grandes potências cósmicas lutam incessantemente para consolidar o processo criador, nós fazemos exatamente igual. E deveria servir de lição para nós. Todas as tradições falam que no princípio era o caos. Só que a palavra caos, etimologicamente, não tem a menor significação próxima da moderna, que quer dizer caótico, bagunçado, sem sentido. Caos, em grego arcaico, significa possibilidade pura. Impossível, portanto, não pertence à nossa dimensão temporal. Pertence a uma outra dimensão, anterior ao plano do ser. É mais ou menos o emergir de uma ideia. Quando eu digo "tive uma ideia" e alguém lhe pergunta "onde você tirou esta ideia?", eu não sei. Ela veio do caos. Ela veio de um possível inexistente que chega até mim, à minha dimensão temporal, já como uma possibilidade, mas já armada. Agora resta um outro passo: se eu não consolidar esta ideia, não me adiantará. Ficará para inglês ver. E aqui é um ponto fundamental. Vemos que Hesíodo nos coloca a primeira passagem do caos em direção à criação como um desafio para todas as potências cósmicas. Diz o mito que do caos diferenciou-se uma primeira possibilidade chamada Gaia. Que Gaia nada mais quer dizer do que a materialização do possível. Por isso que nós associamos com terra. A terra nos lembra o sólido, o fecundo, aquilo que superou o caos. Ela há de reproduzir a si própria, gerando seu filho e esposo Urano. Ora, este é o primeiro ovo cósmico. Interessante: o pessoal agora chama isso tão bonitinho como Big Bang. Fala logo "ovo cósmico", não me enche o meu saco. Seria tão mais prático, tão mais evidente e tão mais poético. Notem que daqui nasce a primeira separação, a partir do masculino e feminino. Porque se Gaia representa o sólido, Urano representa o grande céu estrelado. Grande céu estrelado, a potência dos astros que se espraia em tudo que é sólido. Então aqui nós já temos o primeiro binômio fundamental: as energias exteriores astrais que haverão de consolidar e fecundar as energias sólidas. O caos. Einstein bolou uma equação muito bonita, E igual a MC², para dizer a mesma coisa de modo muito menos compreensível e muito mais metido. É simplesmente isso. A ciência gosta dessa erudição e perde a sua poética. E vai mais além: no núcleo desta união, quando se dá a separação entre Urano e Gaia, ela se deita no chão, forma o grande sólido, e ele se espalha pelo grande cósmico. E deste núcleo desperta Eros, princípio cósmico. É desta separação que nasce este princípio que determina a eterna atração entre Urano e Gaia, entre os princípios masculinos e femininos cósmicos. Vocês veem que é muito difícil falar em monoteísmo nessas alturas do campeonato. O Joseph Campbell tinha toda razão quando ele organizava lá em Van Senna. Ele dizia: "Quer dizer que vocês acham que o monoteísmo é uma evolução do pensamento religioso, pensamento moderno?" Eles diriam que isso passa de um retrocesso histórico. Ele era muito irônico. Alguém tomou na cabeça. Claro que foi o princípio cósmico feminino. Sem isto não é possível a criação. A criação desconhece a onipresença de um único princípio, no caso o masculino. Na verdade, o que nós encontramos de belo no pensamento arcaico é que é de um polimorfismo deslumbrante. O politeísmo retrata um colorido indescritível de beleza indescritível, onde o masculino e o feminino se multiplicam em possibilidades infinitas e não determinadas. Além disso, eles são forças divinizadas que possibilitam o ato criador. Portanto, não se iludam: os antigos conheciam muito bem o monoteísmo e o politeísmo. Apenas que eles os colocavam na sua devida dimensão. Não é possível a criação sem dois princípios cósmicos que se unam e, sobre a batuta da energia de Eros, possam se multiplicar como tal. Então essa era a crítica que ele fazia aos monoteísmos modernos. E nesse primeiro ato criador, nesta separação, dessa união, agora nós vemos a visão metafísica mesmo de Eros. Eros não é o anjinho na visão popular de Homero, mas na visão iniciática de Hesíodo ele é o princípio motor cósmico que tudo atrai. Portanto, estamos condenados a uma eterna atração cósmica. Podemos até renegá-la, apathos, sem empatia, sem atração. Podemos até fazê-lo, nos custará caro. E nós sentimos no interior nosso como esta energia de atração é essencial para a existência nossa. Porque nós vivemos intensamente esta incompletude cósmica. Da mesma maneira que os planetas são atraídos pelos astros, da mesma maneira que os astros são atraídos às galáxias e formam aquelas belíssimas sinfonias cósmicas. Vocês já viram as galáxias, aquelas belíssimas espirais maravilhosas? Vocês perceberam que tudo funciona sobre si mesmo, o princípio cósmico. Tudo precisa se atrair em diversidade e se constituir nesta imensa teia matricial que haverá de trazer consequências. Consequências que nós chamamos de pertinências. Daí que entendemos bem a transformação dos astros. Viemos para os astros, retornaremos. E que na Bíblia se transformou: "Do pó vieste, ao pó retornarás". Só que se trata do pó cósmico. Voltemos à questão do ovo cósmico que gera a primeira possibilidade da criação. A criação é um longo processo de esforço com o qual vocês vão me acompanhar. A primeira possibilidade da criação é Urano e Gaia. Eles terão seis titãs e seis titanesas como filhos. Inicia-se o número 12. Estas seis potências femininas e essas seis potências masculinas contam-nos um mito muito rapidamente: que tão logo nascentes, são jogadas no Tártaro e lá aprisionadas. O Tártaro é o limite entre o ser e o não ser. É o limite desta passagem. O que significa esta primeira passagem, que é a segunda era cósmica, sendo a primeira era de caos? A segunda era cósmica é a primeira dinastia, onde a criação é possível, mas ela é logo aprisionada. E prossegue Hesíodo. Ocorre nesse instante o nomear. Aliás, o primeiro momento da criação é dar um nome a algo. Enquanto eu não conseguir nomear, esse é o poder ontofânico do nomear. Aliás, que gera todo poder mágico. A magia, o que é? Enunciar um nome que tornará possível um real inexistente. Não só a magia. Quando eu rogo praga a alguém, cuidado: aquela mulher ou aquele cara tem uma boca, praga pega. Rogar um nome é rogar uma entidade mágica onde esse poder consolida. É o primeiro passo da criação. Por isso que o primeiro passo que eu tenho, quando eu olho, eu digo: "O que é isso?" E dou-lhe um nome. No momento que eu lhe dou um nome, eu torno possível já uma forma distinta do caos, e que tem agora uma vaga possibilidade do ser. Notem, no entanto, que ainda está preso no Tártaro, porque esse poder ontofânico do nomear não será nunca suficiente para consolidar a criação. As doze potências que representam as possibilidades da multiplicação. Estamos saindo de um biteísmo, se vocês quiserem, para uma multiplicação do politeísmo, onde se espalham as potencialidades. Cada uma delas, no entanto, estará aprisionada enquanto ela não ir adiante. O processo tem consequências psicológicas extraordinárias. E quando eu tenho desejos, vontades, sonhos e fantasias, mas não ouso ir além do nome, o que que eu faço da minha vida? Nem com dez anos de psicanálise. Diz o analista: "Diz meu filho, está aí. Você viu, você tem coragem de ir adiante, e você fica quieto, e você não passa de um bundão." Por quê?

É arrancar do caos que representa o inconsciente, do esquecido, para a possibilidade de o nomear. Basta? Não, não basta. Óbvio que não, porque o fato de nomear te torna corresponsável a esse processo criador. Como é o início de uma supernova, que seja, ela precisa azarar da força da consolidação. E o mito agora prossegue: a grande mãe Gaia, horrorizada com o aprisionamento dos seus filhos no tártaro, em conluio com o seu filho mais jovem, Cronos, e com sua filha mais velha, Réa, urdem um plano e castram Urano num momento soberbo. Ele não pode ser morto porque é imortal, mas castrado significa que cessa o seu poder criador. A criação, mesmo no plano divino, no início corre riscos de se autodestruir. Como tal, identicamente, o ser humano deverá aprender com esta lição. Urano é castrado, seus genitais jogados para o mar, e das gotas de seu esperma nasce, em contato com as águas imensas, Afrodite. Afrovias, afros, essência. Como falamos em francês, *le crème de la crème*: a essência de vias, a essência de Deus, que é a deusa do amor. Consolida-se agora a sua primeira mensagem: ela traz a essência do Eros. Do sangue dos seus genitais nascerão os centímeros, os gigantes, outra história que falaremos depois. O fato é que desta castração resulta uma nova dimensão temporal. Não basta nomear. Qual é a próxima dimensão? Inicia-se a era de Cronos e Réa. Cronos, temporalidade; Réa, duração. Instala-se a temporalidade e a duração. Que desafio! Como Jung percebeu, mesmo os deuses têm uma temporalidade, talvez muito mais longa que a nossa. Por isso dizemos em grego antigo: Cronos *agueraus* pertence aos deuses, *a geraus*, aquele que não envelhece, acima da temporalidade. Nós pertencemos a Cronos *geraus*, aquele que daí, Jeruzia, etc., aquele que nos envelhece. Esta temporalidade nova gera uma nova dimensão idêntica à nossa. Nós precisamos da temporalidade para exercer a força criadora, porque o nomear por si só pode pertencer a um plano absolutamente divino. Para nós, este novo nome deverá ser consolidado pela duração e temporalidade. Isto é uma possibilidade?

É também um risco. Entramos no campo tão bem conhecido da psicologia. Posso fazer da temporalidade um instrumento da criação, mas também um instrumento para ganhar tempo, escapar da criação. Vulga a patologia da compulsão, vulga a mania da repetição. Quando olhamos em Exílio e vemos que Cronos é o curvo pensar, seu símbolo é a foice. A foice é perfeita. Vocês conhecem a foice. É aquela que parece que irá adiante, mas não. A intenção dela é retornar. E ao retornar, esta foice ceifa, detona, destrói o processo criador, no lugar de permitir que ele vá. O curvo pensar. Falei em patologia da compulsão. Eu vou e volto. Meu objetivo não é partir, é gastar toda a minha energia para não sair do lugar. O risco aqui. A temporalidade, portanto, é uma faca de dois gumes. Ela pode, e será, uma foice contra nós. Como vemos isto? Cronos e Ré têm seis filhos machos: Zeus, Hades e Poseidon. Zeus Olímpico, sabemos. Hades, Deus dos mortos, ou Plutão. Poseidon, ou Netuno, Deus dos mares. E três deusas: Era, símbolo de casamento, estabilidade; Héstia, a energia sagrada, o fogo sagrado do interior de cada ser e de tudo. É o fogo. Símbolo do fogo. Aliás, não existe nada mais astral do que isso. A astroenergia é fogo. E Demeter. Vias Mitir, Miter é útero. Daí vem Mitra Papal. Útero de Zeus. Mitir, Mitra em grego. Daí vem Mater e todos os derivativos. Ora, essas três deusas, com esses três deuses, por ordem de Cronos, são devorados tão logo nascem, servidos em alto banquete. Felicida. Ora, aí está o outro risco da criação. Nós podemos amar aquilo que criamos, mas ele pode nos ameaçar, porque ele nos extingue. E nós precisamos disso nos livrar. Desde o pai ou a mãe que não suportam a beleza da filha e do filho, ou os talentos que o superam, até a negação de que eu possa ser maior do que eu sou, porque me incomoda redescobrir a mim com uma potência maior. Então, a foice e o curvo pensar. É assim que ele é definido, o pensamento recurvo. Cumprem a função de dar condições para a criação, lançar-se no espaço e no tempo. Porque é isso que eles representam, Cronos e Réa. Mas isto poderá tanto consolidar como poderá devorar. Novamente, Réa desesperada com seus filhos sendo devorados pelo próprio marido, é em colúio com Gaia, eterna força fecunda, fecunda no nascimento do mais jovem, que é Zeus. Escondem-no no monte Ida. E dão-lhe, no lugar desta criança, uma pedra. Uma pedra enrolada. Alguns dizem numa pele de cervo, outros com uma manta. E ele engole esta pedra. Assim se salva Zeus. Mas todos os demais são devorados, porque assim é o objetivo do curvo: vai e volta, vai e volta. E a gente acaba devorando a nós mesmos, não saindo do lugar. Em colúio, Réa com Gaia castram Cronos e jogam no Tártaro. O pequeno Zeus cresce e vai enfrentar, numa batalha conhecida como a Titanomaquia, que é a luta entre a força criadora e o impedimento da criação. Força esta que conhecemos plenamente hoje. A criação pode ter um poder destrutivo extraordinário. Pode ser um impedimento da existência, ou ela pode ser uma expansão. Nesta luta, que dizem que ele se entrexerá, Zeus no monte Olimpo e ele Cronos no monte Otris, que dura trinta séculos ou sei lá quanto. Não importa. A temporalidade. Será vencedor Zeus. E Zeus inaugura a Era Olímpica. Essa é a questão fundamental. Vem de Olos, totalidade. Olos, Olimpos. Aquilo que vem em linha reta, total. Qual é a diferença aqui? A inauguração da criação retilínea. O símbolo agora não é mais o curvo, o curvo pensar que vai e retorna, vai e retorna. O símbolo agora é a criação que parte e não retorna. Todo objeto criado não pertence mais ao criador. Por isso que, na arquitetura grega, a linha reta representa exatamente isto: parte e não retorna. A criação tem uma direção única e só dela, e não pertence ao criador. Aqui nós abrimos realmente a consolidação da criação. O nome é ar. A superação da temporalidade e a não pertinência. Ou seja, todo objeto criado não pertence ao criador. Ao contrário, imortaliza-o, mas nunca lhe pertencerá. Com tal, o desapego é em direção à obra criada. Tanto é que nós vemos muito mais tarde em Baudelaire, quando ele nos diz em As Flores do Mal: o artista verdadeiro se desinteressa de sua obra criada tão logo a realize. Ele não vê a hora de abandoná-la. O incomoda, porque se ele continuar com ela na sua frente, ela se apodera da sua criação e ela se torna Cronos recurvo. Enquanto você admira a obra que você criou, você se impede de uma nova obra criada. E você ainda, por cima, massacra e não dá direito de existir esta obra por si mesmo. Isso ao nível do plano vivo da Pai. É como ele diz, é extraordinário. Enquanto eu sou apaixonado pelo meu filho, ele é maravilhoso, etc., eu não faço mais nada do que destruí-lo e viver através dele, impedindo que ele viva e impedindo que eu viva também. Na hora em que eu o liberto, eu lhe dou um direito e o destino a cumprir, e eu dou um direito a mim de continuar existindo. Não tenho o direito de me apoderar de nada. O caminho da mortalidade representa uma criação que não pertence. A questão do retilíneo. Daí deriva a palavra Hárax em grego, que é linha reta, régua. Daí vem Háraktir, caráter. Daí vem a famosa expressão parmenidiana, de Parmênides: caráter é destino. Agora podemos entender. Quem vai em linha reta e se liberta cumpre seu destino, que é a sua sinfonia cósmica. Quem não faz isto vai estar absolutamente enredado, não pela teia matricial que te faz viajar pelo cósmico. Reeditará a maldição dos deuses, que é o miasma cósmico. Você se enreda cada vez mais. Você já experimentou se apoderado de alguém? Para você ver a confusão que gera na tua vida. Você cessa de existir. O outro pode cessar, mas que você cessa também. Você cessa a teia de relações. Enredamento de uma teia, como se fosse uma teia de aranha, um marasmo. E o pior é que, depois de algum tempo, você nem se lembra como você era. Você já está doente e não foi avisado. Já morreu e não foi avisado. Você já matou, também não foi avisado. É a anticriação. Obrigado, gente. Muito obrigado. A Universidade Falada agradece a sua preferência. Nossa missão é levar conhecimento e informação de qualidade para você. Visite o portal www.universidadefalada.com.br. Centenas de audiolivros para download. Conheça a seguir alguns outros títulos da Universidade Falada: Contos Fantásticos de Machado de Assis. A Carteira, de Machado de Assis. De repente, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja e que, sem o conhecer, lhe disse rindo: "Olha, se não dá por ela, perdi-a de uma vez." "É verdade", concordou Honório, envergonhado. Para avaliar a oportunidade dessa carteira, é preciso saber que Honório tem que pagar amanhã uma dívida de quatrocentos e tantos mil réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga, mas todas as quantias são grandes ou pequenas segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes e depois por agradar a mulher, que vivia aborrecida na solidão. Baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta coisa a mais que não havia remédio se não ir descontando o futuro. Individou-se. Começou pelas contas de lojas e armazéns. Passou aos empréstimos: duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro. E tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se. Um turbilhão perpétuo, uma voragem. "Tu agora faz bem", não dizia-lhe ultimamente o Gustavo, advogado e familiar da casa. "Agora vou", mentiu Honório. A verdade é que ia mal. Poucas causas de pequena monta e constituintes remissos. Por desgraça, perdera ultimamente um processo em que fundara grandes esperanças. Não só recebeu pouco, mas até parece que ele lhe tirou alguma coisa, a reputação jurídica. Em todo caso, andavam mofinas nos jornais. Dona Amélia não sabia nada. Ele não contava nada. Mulher, bons ou maus negócios, não contava nada a ninguém. Fingia-se tão alegre como se nadasse em um mar de prosperidades. Quando Gustavo, que ia todas as noites a casa dele, dizia uma ou duas pilhérias, ele respondia com três ou quatro, e depois ia ouvir os trechos de música alemã que Dona Amélia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo escutava com indizível prazer. Ou jogavam cartas, ou simplesmente falavam de política. Um dia, a mulher foi achá-lo dando muitos beijos à filha, criança de quatro anos, e viu-lhe os olhos molhados. Ficou espantada e perguntou-lhe o que era. "Nada, nada." Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da miséria. Mas as esperanças voltavam com facilidade. A ideia de que os dias melhores tinham de vir dava-lhe conforto para a luta. Estava com trinta e quatro anos. Era o princípio da carreira. Todos os princípios são difíceis, e toca a trabalhar, a esperar, a gastar, a pedir fiado ou emprestado para pagar mal e a más horas. A dívida urgente de hoje são uns malditos quatrocentos e tantos mil réis de carros. Nunca demorou tanto a conta, nem ela cresceu tanto como agora. A rigor, o credor não lhe punha a faca aos peitos, mas disse-lhe hoje uma palavra azeda com um gesto mau. E Honório quer pagar-lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da tarde. Tinha se lembrado de ir a um agiota, mas voltou sem ousar pedir nada. Ao entrar pela rua da Assembleia é que viu a carteira no chão. Apanhou-a, meteu no bolso e foi andando. Durante os primeiros minutos, Honório não pensou nada. Foi andando, andando, andando até o Largo da Carioca. No Largo parou alguns instantes. Enfiou depois pela Rua da Carioca, mas voltou logo e entrou na Rua Uruguaiana. Sem saber como, achou-se daí a pouco no Largo de São Francisco de Paula. E ainda sem saber como, entrou em um café, pediu alguma coisa e encostou-se à parede, olhando para fora. Tinha medo de abrir a carteira. Podia não achar nada, apenas papéis e sem valor para ele. Ao mesmo tempo, e esta era a causa principal das reflexões, a consciência perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro que achara. Não lhe perguntava com o ar de quem não sabe, mas antes com uma expressão irônica e de censura. Podia lançar mão do dinheiro e ir pagar com ele a dívida? Eis o ponto. A consciência acabou por lhe dizer que não podia, que devia levar a carteira à polícia ou anunciá-la. Mas tão depressa acabava de lhe dizer isso, vinham os apuros da ocasião, repuxavam por ele e convidavam-no a ir pagar a cocheira. Chegava mesmo a dizer-lhe que, se fosse ele que a tivesse perdido, ninguém iria entregá-la. Insinuação que lhe deu ânimo. Tudo isso antes de abrir a carteira. Tirou-a do bolso finalmente, mas com medo, quase às escondidas. Abriu-a e ficou trêmulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro. Não contou, mas viu duas notas de duzentos mil réis, algumas de cinquenta e vinte. Calculou uns setecentos mil réis ou mais. Quando menos, seiscentos. Era a dívida paga, e eram menos algumas despesas urgentes. Honório teve a tentação de fechar os olhos, correr à cocheira, pagar, e depois de pagar a dívida, adeus. Reconciliar-se ia consigo. Fechou a carteira com medo de a perder. Tornou a guardá-la. Mas daí a pouco tirou-a outra vez e abriu-a, com vontade de contar o dinheiro. Contar pra quê?

Era dele? Afinal Venceu-se e contou Eram setecentos e trinta mil réis Honório teve um calafrio Ninguém viu Ninguém soube Podia ser um lance da fortuna A sua boa sorte Um anjo Honório teve pena De não crer nos anjos Mas por que não havia de crer neles? E voltava ao dinheiro Olhava Passava-o pelas mãos Depois resolvia o contrário Não usar do achado Restituí-lo Restituí-lo a quem? Tratou de ver se havia na carteira Algum sinal Se houver um nome Uma indicação qualquer Não posso utilizar-me do dinheiro Pensou ele Esquadrinhou os bolsos da carteira Achou cartas Que não abriu Bilhetinhos dobrados Que não leu E por fim Um cartão de visita Leu o nome Era do Gustavo Mas então a carteira Examinou-a por fora E pareceu-lhe efetivamente do amigo Voltou ao interior Achou mais dois cartões Mais três Mais cinco Não havia a duvidar Era dele A descoberta entristeceu Não podia ficar com dinheiro Sem praticar um ato ilícito E naquele caso Doloroso ao seu coração Porque era em dano de um amigo Todo o castelo levantado Esboroou-se como se fosse de cartas Bebeu a última gota do café Sem reparar que estava frio Saiu E só então reparou Que era quase noite Caminhou para casa Parece que a necessidade Ainda lhe deu uns dois empurrões Mas ele resistiu Paciência Disse ele consigo Verei amanhã O que posso fazer Chegando a casa Já ali achou Gustavo Um pouco preocupado E a própria dona Amélia O parecia também Entrou rindo E perguntou ao amigo Se lhe faltava alguma coisa Nada Nada Por quê?

Mete a mão no bolso Não lhe falta nada? Falta minha carteira Disse o Gustavo Sem meter a mão no bolso Sabe se alguém a achou? Achei a eu Disse Honório Entregando-lhe Gustavo pegou dela Precipitadamente E olhou desconfiado Para o amigo Este olhar Foi para Honório Como um golpe de estilete Depois de tanta luta Com a necessidade Era um triste prêmio Sorriu amargamente E como o outro Lhe perguntasse Onde a achara Deu-lhe as explicações Precisas Mas conheces-te-a? Não Achei os teus bilhetes De visita Honório Deu duas voltas E foi mudar De toalete Para o jantar Então Gustavo Sacou novamente A carteira Abriu-a Foi a um dos bolsos Tirou um dos bilhetinhos Que o outro Não quis abrir Nem ler E estendeu-o A dona Amélia Que ansiosa E trêmula Rasgou-o em trinta mil pedaços Era um bilhetinho De amor O que é marxismo?

Parte 1 A filosofia da história Karl Marx 1818-1883 Foi um pensador Que se dedicou Às áreas de economia Análise política E filosofia Foi militante E agitador revolucionário Tendo estado Nas principais organizações Do movimento De reivindicação Dos trabalhadores europeus Do século XIX Formou-se em direito E exerceu A profissão De jornalista Que nem sempre Lhe deu um rendimento Suficiente Fazendo-o recorrer Financeiramente Várias vezes Ao seu amigo E parceiro intelectual Friedrich Engels 1820-1895 Ambos pensadores Escreveram muitos textos Juntos E efetivamente Pela sólida E erudita Formação intelectual Que possuíam Não poderiam ter sido Outra coisa Que não Os brilhantes E autênticos Filósofos Que hoje Se mantém No panteão Dos autores clássicos Em humanidades Marx Dizia não gostar De marxistas Mas tanto em vida Quanto após sua morte Os adeptos De suas ideias Aumentaram em número Principalmente Nos dois primeiros Terços do século XX Muitos vieram A dizer Sou marxista E enquanto tais De certa forma Adotaram a filosofia Da história De Marx O que era História Para Marx?

A visão filosófica que Marx desenvolveu a respeito disso dizia que a história dos homens era marcada, ao menos na modernidade, por momentos de grande progresso e momentos de ruptura. A ruptura se dava quando as forças produtivas — o homem no seu trabalho, as máquinas, a terra, a ciência, a tecnologia, etc. — deixavam de continuar a se expandir e criar novos elementos, na medida em que começavam a não serem mais incentivadas, mas barradas pelas formas das relações de produção, a organização política da sociedade, as leis, a legislação responsável por dizer como organizar o trabalho, parte da cultura, o idioma, as religiões, a educação, etc. Tratava-se de um conflito, às vezes chamado de contradição, que se dava entre a estrutura da sociedade — as forças produtivas — e a superestrutura social — as relações de produção — e que poderia catalisar uma transformação social mais ou menos rápida, em geral entendida como uma época de revolução social. Vem de Marx, portanto, a ideia da história se movimentando por contradição entre forças produtivas e relações de produção. Ou seja, para ele, quando a cultura e a forma de organização jurídica que rege uma sociedade, em especial as sociedades modernas, passam a se tornar empecilho para o contínuo desenvolvimento do trabalho humano, em especial de novas tecnologias que podem melhorar a vida humana, não é difícil ver alguns homens tentando quebrar tal superestrutura jurídica em favor do contínuo desenvolvimento das novas ideias, novas práticas e inventos gerados no trabalho, na indústria, na ciência aplicada ao trabalho, ou seja, na estrutura da vida moderna. Ao mesmo tempo, não é difícil ver outros homens tentando manter o status vigente. Se os primeiros conseguem vencer os segundos, abre-se uma era de revolução social e política bem-sucedida. A história de tal sociedade que passou por esse processo ficará marcada por ter mudado seu modo de vida, ou seja, por ter alterado seu modo de produção de objetos materiais e espirituais. A história de uma sociedade que passou por uma revolução social moderna, para Marx, era a história típica do que se poderia tomar como sendo um exemplo de sua generalização filosófica, sua filosofia da história. A revolução inglesa, a revolução francesa e a independência americana foram, entre outros, os casos clássicos observados por Marx e que colaboraram para que ele criasse tal concepção do desenvolvimento histórico. Marx e Engels acreditavam que tal filosofia da história nos mostrava muito bem o que já havia acontecido: as rupturas que eles chamaram de revoluções burguesas, isto é, as revoluções que derrubaram os regimes feudais e/ou as monarquias que continham resquícios de feudalismo. Marx e Engels apostaram que tal filosofia da história lhes daria uma espécie de mapa do que poderia vir a acontecer no tempo deles ou logo mais adiante. As novas revoluções que seriam levadas a cabo não mais pelas burguesias, mas sim contra as burguesias, seriam revoluções do proletariado. Essas revoluções se dariam contra as novas classes dominantes, a burguesia. Além disso, elas desembocariam em uma transformação social que colocaria fim ao modo de produção desenvolvido pela burguesia, o capitalismo. Em quais países havia mais chances de tais revoluções ocorrerem? Marx não acreditava que as revoluções contra o capitalismo e contra a burguesia poderiam ocorrer em sociedades onde de fato as forças produtivas não estivessem se desenvolvendo rapidamente a ponto de entrar em contradição efetiva com as relações de produção. Ele estava mais predisposto a dizer que as sociedades modernas, isto é, as sociedades que ele dizia serem sociedades capitalistas, onde se podia dividir o povo entre burgueses — os donos dos meios de produção — e trabalhadores — os que só tinham para vender as suas horas de vida dedicadas ao trabalho — iriam poder entrar em contradição, e que as sociedades onde o capitalismo não estivesse ainda bastante desenvolvido, tais contradições não iriam se tornar agudas e consequentemente não seriam estes os lugares mais propensos a sofrerem uma ruptura histórica, uma revolução social. Para Marx, as revoluções deveriam ocorrer mais provavelmente em países já bastante desenvolvidos do ponto de vista industrial. Ele apostava na revolução proletária como um elemento de ruptura histórica com mais probabilidade de ocorrer nos locais de máximo desenvolvimento do capitalismo. Por isso mesmo, Marx era um admirador e observador analítico da América do Norte, em especial dos Estados Unidos. Um admirador porque nos Estados Unidos os anseios por liberdade saltavam aos olhos, e um observador atento porque tais anseios de liberdade se davam em locais nos quais as forças produtivas se desenvolviam rapidamente, enquanto que as relações de produção não raro pareciam ainda querer repetir a Europa. A América do Norte era um lugar no qual o capitalismo andava rápido, e Marx esperava uma revolução, um tipo de transformação semelhante a uma revolução que desbancasse o capitalismo exatamente naquela sociedade, a sociedade norte-americana. Nas linhas e entre linhas da carta que Marx escreveu cumprimentando Abraham Lincoln pela sua eleição como presidente dos Estados Unidos da América em 1864, ele não deixou de insistir na sua crença de que cabia a tal país certa vanguarda na continuidade dos processos de transformação social em favor da liberdade e dignidade humanas. Os que se intitularam marxistas após a morte de Marx, em especial os que se organizaram em torno da segunda Internacional Socialista — a primeira Internacional Socialista foi organizada em parte pelo próprio Marx — levaram muito ao pé da letra a ideia de polo desenvolvido do capitalismo como sendo o local propício para a revolução proletária que poria fim ao capitalismo. A primeira revolução social vitoriosa contra o capitalismo ocorreu na Rússia, um local que, comparado com a Europa Ocidental e com os Estados Unidos, não parecia ter o perfil desenhado por Marx para ser um berço de outras revoluções socialistas. Mas os marxistas que estiveram à frente de tal revolução não acharam bom contestar Marx. Consideraram melhor observar o nível de desenvolvimento do capitalismo russo e afinal concluíram que ele havia sido rápido nos últimos anos, nos anos mais próximos à revolução socialista de 1917. Foi isso que o líder da revolução russa, Lenin, escreveu, e foi daí que cresceu a terceira Internacional, que passou a se chamar comunista para se diferenciar da segunda Internacional, que foi tomada por Lenin em um sentido pejorativo, reformista, não mais revolucionária. Os marxistas que fizeram a revolução na Rússia e criaram a terceira Internacional deram sequência à ideia de construção do que seria a sociedade pós-capitalista, ou seja, uma sociedade sem a propriedade privada dos meios de produção. Eles coletivizaram a propriedade dos meios de produção através da estatização, criaram o então chamado Estado socialista. Para alguns que continuaram socialistas, mas que vieram a discordar de Lenin e mais ainda de seus sucessores, isso ficou conhecido como o socialismo real, ou seja, o que era o socialismo na prática. Para outros, tratava-se do que poderia ser chamado de o comunismo, uma vez que nos países em que o Estado assumia tarefa que era vista como a coletivização da propriedade, desenvolvia-se um modo de vida que, enfim, era proclamado pela voz dos governantes como um país que havia abolido as diferenças de classe. Ora, a abolição das diferenças de classes era o elemento central do que Marx havia às vezes caracterizado como sendo a sociedade comunista, enquanto um futuro da sociedade capitalista e seu desdobramento natural, a sociedade na qual se desenvolveria uma vida que desconheceria a exploração dos homens pelos homens. Há de se lembrar, no entanto, que para Marx o comunismo era uma situação global na qual as divisões entre Estados desapareceriam, na medida em que os próprios Estados se dissolveriam. Como filósofo, Marx foi muito mais radical, sonhador e brilhante do que qualquer de seus seguidores políticos. 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PALESTRA 4 — A ASTROLOGIA ARCAICA E O PROCESSO DE ALQUIMIA DO HOMEM
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Universidade Falada. Conhecimento à velocidade de um clique. A Universidade Falada apresenta o audiolivro A Astrologia Arcaica e o Processo de Alquimia do Homem, de autoria de Victor de Salis. Victor formou-se em Psicologia. Completou um doutorado em 1977 com Jean Piaget na Suíça e outro a seguir com Igor Caruso na Universidade de Salzburg. Dedicou-se cada vez mais ao estudo das tradições e mitos das antigas civilizações. Victor é autor de inúmeros livros sobre o tema. Hoje vamos falar sobre a origem da astrologia, a chamada Astrologia Arcaica, e sobre o Oráculo de Delfos, certamente o centro profético mais famoso da Antiguidade grega. Era lá o centro chamado Templo de Apolo, onde ficava a Pitia ou a Pitonisa, uma sacerdotisa que fazia as previsões. Esta mulher não era uma mulher qualquer; era uma criança especialmente escolhida pelos sacerdotes desde o seu nascimento e preparada para a grande iniciação, tornando-se realmente uma pessoa de extraordinária sensibilidade, a qual, através do uso de certos gases que emanavam de uma fonte próxima do centro, fazia as previsões.

Ela entrava num estado de êxtase, num estado especial, e fazia as grandes previsões. Mas o que tem a ver a astrologia com este oráculo? Precisamos iniciar explicando o que vem a ser essa questão da astrologia. Por que até hoje ela sobrevive e separou-se, na Idade Média, da outra ciência, a chamada astronomia, que pretende ser científica, objetiva, enquanto a astrologia nos fala da influência dos astros sobre nosso psiquismo, nossa personalidade e etc., dando-lhe um caráter místico muitas vezes desacreditado. Será que é assim mesmo? Será que tudo isso não deve ser repensado? Comecemos pela seguinte questão, que estava no centro do Oráculo de Delfos. A grande pergunta da esfinge: quem és tu? O que fazes aqui? Para onde vais e de onde vieste? Será que esta questão não continua sendo central no futuro incerto de todos nós?

Com toda a nossa tecnologia, não conseguimos responder a este mistério. Temos que fazer outra espécie de viagem que não se encontra nem no Orkut nem na internet. Vamos rever esse conceito de origem astral, que encontramos lá longe nas tradições egípcias, das quais, sem dúvida, os gregos são seus herdeiros. Que história é essa de origem astral dos homens? Mais de uma vez se fizeram enormes discussões sobre as chamadas traduções do Antigo Testamento, sobre certos trechos, os quais se puseram em dúvida, a fé e a dignidade da tradução do aramaico antigo para o grego. Nos tempos de Alexandria, por exemplo, temos um trecho muito interessante na Bíblia, que nos diz: do pó vieste e para o pó retornarás. Muito se discutiu sobre a tradução exata desta palavra pó, pois que no acadiano, pó indica tanto o pó da terra como também indica astros.

Portanto, seria fidedigna a tradução dos astros vieste e para os astros retornarás. Mas isso criaria imediatamente um mal-estar e uma discussão sem fim. Não é esse o nosso propósito. O nosso propósito é retomar, tal como vem na tradição original, a crença arcaíssima de que a origem dos homens é astral. Sem compreendermos esse ponto de vista, este ponto de partida, fica muito difícil entendermos por que a astrologia tem tanta importância. Na modernidade nós estamos vendo uma discussão acalorada entre o darwinismo, por exemplo, a teoria da evolução, da origem das espécies e etc. e o criacionismo, os homens filhos de Deus. A questão, na verdade, é uma falsa questão, porque o problema não está nem em negar o evolucionismo aqui na Terra, e nem em negar a origem divina dos homens.

Está em outro ponto muito mais fundamental, onde se coloca de onde vieram realmente os homens e toda a vida em geral. Será que nós nascemos mesmo? A vida se originou, toda ela, aqui neste planeta? Será que este germe não é cósmico? Será que com centenas de bilhões de galáxias conhecidas, com bilhões e bilhões de estrelas, será que a origem da vida se deu aqui por acaso, chacoalhando aminoácidos e células? E que se multiplicaram e que transformaram-se num corpo humano, por exemplo, ao acaso, que nada mais é do que 70 trilhões de células organizadas em média? Soa estranho tudo isso. Na modernidade, a ciência, de vez em quando, apela para as leis quando lhe convém, e apela para o acaso também quando lhe convém. Curioso. Na verdade, a astrologia arcaica, ela parte de uma outra premissa fundamental.

Dos astros viemos, e para os astros retornaremos. E mais, esta é uma origem cósmica que abarca não meramente o plano físico, mas o plano psíquico, espiritual, enfim, a globalidade do que se chama a vida. Este retorno aos astros significa nosso caminho. Este caminho representa uma evolução. Nada contra as ideias de evolução, mas que tem que haver algo mais extraordinário, mais profundo nesta origem do mistério da vida, é daí que eles partem. Os astros, para o pensamento arcaico, nada mais são do que a materialização das energias divinas. Eles são geradores cósmicos. É lá, no pensamento arcaico, que os deuses depositam suas energias. Aliás, é por isso que até hoje nós chamamos os astros de Júpiter, Marte, e tem tudo o nome divino. Eles não são os deuses, mas representam a manifestação destes deuses como tal.

Como nós viemos destes astros, segundo o pensamento arcaico, a nossa natureza, essência, nossa personalidade, é calcada a partir desta matéria-prima cósmica. Não existe magia nenhuma no pensamento arcaico e da influência dos astros em nós. O que existe, sim, é uma influência cósmica de tudo por todos. Seria uma espécie de uma teia matricial imensa, onde tanto a matéria, os átomos, o carbono, as moléculas, como as formas de manifestação da psique, seriam de natureza cósmica. Tocamos um ponto aqui bastante importante. A psique de natureza cósmica, vão dizer que eu estou louco. Não. A psique não é um atributo meramente psicológico no sentido moderno. Para o pensamento arcaico, a psique é cósmica como tal, tem natureza e função, e existe em toda e qualquer manifestação material.

Portanto, essa separação tão aristotélica, corpo e alma, que herdamos na tradição judaico-cristã, não existe. O que existe, sim, são manifestações múltiplas, onde a matéria e o imaginário se confundem. Ou seja, o imaginário é tão sólido quanto o material, e o material é tão imaginário quanto o sólido. O que temos que ver aqui são átomos, psique, essências, o belo em Platão, as essências de Platão, tudo isso pertence aos astros. E como pertencente aos astros, manifestam-se como energias que se materializam e formam os seres vivos como tal. Assim, a astrologia arcaica nada mais é, no pensamento dos gregos e dos egípcios, do que o estudo da constituição do ser e da origem dele. Longe de representar "você nasceu no signo de leão, então tem tais tendências" e etc. Não, tudo isso é coisa de horóscopo, de bobagens do cotidiano.

O que está em jogo, sim, é a constituição fundamental do ser. Você é constituído a partir de uma matéria astral e, portanto, herda esta matéria como potências para desenvolver no seu caminho cósmico. Que caminho cósmico seria esse? O caminho cósmico é que, se os deuses te trouxeram a vida, se te deram esta matéria, estas possibilidades, vieste na espécie humana, com tais talentos, com tais possibilidades, não foi à toa que eles te deram isso. Eles te deram para realizar uma missão aqui, ou seja, contribuir com a criação, contribuir com esta imensa sinfonia cósmica chamada criação, cada um à sua maneira, do modo que puder. Desta forma, saber a origem e a data de nascimento tinha uma importância fundamental, como tem hoje na astrologia moderna, mas não de um modo tão laico.

Por quê? Saber a hora da concepção e saber a hora do nascimento tinha duas questões fundamentais. Os astros, que na verdade eram representados por deuses na Antiguidade, o zodíaco com os doze signos, cada um deles influenciado por uma divindade em determinadas épocas de cada ano, representavam as energias cósmicas que os deuses lhe entregavam no momento de nascer e no momento da concepção. Isso resultou posteriormente na ideia de ascendente em cada signo e etc. Portanto, você vinha à Terra com certas influências que estavam mais presentes lá, mais ou menos da mesma maneira como a teoria da gravitação, ou seja, energias mais poderosas e menos poderosas. E isso determinava sua personalidade? É claro que não. Mas, da mesma maneira como dizemos hoje que a genética determina tal espécie nascer assim ou assado, também temos que compreender que é tão metafísico explicar a personalidade de um Beethoven por carga genética quanto por um talento extraordinário presente dos deuses.

Fiquem com que gostarem mais. Mas eu nunca achei o talento de Beethoven em gene nenhum. Ai, se eu achasse. Há um mistério maior nisso tudo. E não falo só de Beethoven, falo de todos nós. Nossos pais estão longe de explicar nossos talentos, nossa personalidade, nossa forma de ser. Há um mistério extraordinário nisso tudo. Nós mesmos ficamos frente a frente a esse mistério quando tentamos descobrir quem somos nós. Hoje nós não estamos numa civilização que facilite muito isto. Quem para para tentar resolver ou pelo menos destrinchar e caminhar nesta busca? Há muito poucos. Passamos a vida inteira às vezes esquecendo de nós e nos redescobrindo de modo muito surpreendente através do que acontece na nossa vida. Mas para o pensamento arcaico esta forma de descoberta era um caminho essencial e a astrologia tinha um papel fundamental.

Não para te dizer quem és ou deixas de ser. Mas para te provocar com aquilo que os deuses te deram são potencialidades que cabe a você desenvolvê-las ou não jogá-las fora ou não. Mas estas potencialidades que nós chamamos hoje de influências astrais elas não determinam a existência do indivíduo. Elas meramente são sugestões. Se você quiser, poderá metamorfoseá-las progressivamente em grandes talentos e desenvolver cada vez mais a si próprio. O papel da astrologia é constitutivo do ser como sugestões. Assim como os deuses te deram o corpo, a espécie, eles também te dão potências para seguir. Cabe a você jogar fora ou não como você também pode jogar fora ou não o seu corpo ou tudo que você tem na sua vida. O fato é que recebemos tudo isso pronto. Ninguém de nós é o que é quando quer como quer.

Ao contrário, o máximo que podemos fazer de nós mesmos é aprender conhecendo-nos, tornando-nos cada vez mais nós mesmos. Aproximar toda a nossa consciência, nosso ego principalmente, deste mistério fantástico que vamos redescobrindo em nós mesmos e nos sentindo cada vez maiores. Um ponto fundamental que surge à nossa mente é: como faço para descobrir quem eu sou, para realmente compreender qual o sentido da minha existência? Aqui o papel do oráculo é fundamental. Sim, eu sei que não temos oráculos hoje, mas vamos pensar como era na antiguidade para que, quem sabe, possamos melhorar essa perspectiva.

Primeiro lugar, como dissemos, uma criança ao nascer recebia um nome, como aliás até hoje ocorre, mas este nome não era dado por livre escolha dos pais ou por qualquer tendência. O oráculo era consultado para saberem sobre as influências astrais desta criança, que viria através de tais astros, portanto ela teria que receber um nome que fosse favorável por estes astros. Dou um exemplo muito fácil: um nome consagrado à deusa da sabedoria Atena. Se os pais tivessem uma menina, um dos nomes chama-se Eurídice, que em grego vem de Euris Dick, aquela que foi feita para buscar a justa medida, a medida dos deuses. Ao batizar esta criança com este nome, ela receberia uma espécie de talismã nesse nome, indicando-lhe como buscar um sentido para a sua existência. E este sentido não era simplesmente casar, criar filhos e ficar rico, mas era um sentido muito maior: não passar a vida aqui em vão, não morrer em vão, não viver em vão, mas partir daqui com este privilégio de ter realizado algo, de ter de fato realizado sua missão. Assim, o nome tem uma função sagrada extraordinária; ele representa uma possibilidade, e mais uma possibilidade de sugestão dos deuses para que você a realize.

Como era então que esta criança faria para lidar com este seu nome que veio dos astros? Era papel do mestre na antiguidade, não meramente ensinar a ler e escrever, mas ensinar aos poucos esta criança, observando-a com todos os cuidados, a descobrir cada vez mais o que ela tinha de talentos, o que ela tinha de possibilidades, e ajudá-la também a se livrar dos impedimentos, dos medos, dos egoísmos que porventura atrapalhassem este seu crescimento. Orgulhar-se de seu nome era a primeira tarefa, e a melhor maneira de nos orgulharmos de nosso nome é contarmos uma história a respeito da origem deste nome. Imaginem esta menina como ficaria orgulhosa em saber que Eurídice foi aquela belíssima amada por Orfeu, e que por ela Orfeu desceu até os infernos para libertá-la, e entender que a questão de Eurídice é a libertação da alma prisioneira, e que ela era uma heroína tão admirada na antiguidade. A menina evidentemente ficaria muito orgulhosa deste nome. Vejam um outro nome, um outro exemplo: Sófocles, Sofia Clis, em grego, feito para a sabedoria. Este é um rol realmente, este nos deu um pouco que sobrou da sua obra, nos deu algo maravilhoso de sabedoria. Desta maneira, todos os nomes conferidos eram um batismo com uma promessa e, ao mesmo tempo, uma dívida para com a existência.

A psique, portanto, recebe esta essência da mesma maneira que recebe um corpo. Agora tocamos numa questão fundamental: quem é a psique? Somos nós mesmos. No pensamento arcaico, ganhamos um corpo, uma materialização; os pais são nosso veículo, e ao mesmo tempo ganhamos talentos, ganhamos na forma de um nome estas potências. O nomear é, portanto, sagrado e vem diretamente da carta astral do indivíduo. A paideia também será assim desenvolvida: a educação do jovem é constituída a partir de seus talentos, voltados à sua descoberta, ao seu desenvolvimento e ao aprendizado do governo dos vícios que possam eventualmente atrapalhá-lo. Neste sentido, porque é função da paideia o desabrochar dessas energias astrais contidas no nome. O nome é algo como uma energia contida de todas essas potências. Compete, portanto, ao indivíduo e ao mestre desabrochá-las, desenvolvê-las ao máximo, como os antigos diziam, transformá-las em obras de arte. Não importa que talento você tenha, ele foi feito para transformar-se em obra de arte, traduzido simplesmente da seguinte maneira: faça o que você fizer que seja o máximo e o melhor de ti, do simples cafezinho a uma pintura, não importa. Isto é desenvolver ao máximo o seu nome sagrado conferido pelos oráculos, no entanto conferido pelas conjunções astrais que sugeriam esse destino. Caberia ao jovem refletir sobre isto.

A ideia que temos de maioridade nasceu exatamente daí, porque este nome muitas vezes poderia não se ajustar perfeitamente bem à personalidade, às tendências que o indivíduo iria aos poucos descobrindo ao longo do seu crescimento. Assim nasceu a ideia de maioridade: quando ele atingisse entre os 16 e os 18 anos, era convidado a voltar ao oráculo de Delfos para um retiro espiritual, para poder refletir sobre este nome, se estas tendências atribuídas a ele pelos astros estavam de acordo, estavam conferidas, ou se ele escolheria um novo nome que melhor definisse o sentido da sua existência, quer no plano individual, quer no plano social ou cósmico. Por outras palavras, o enigma da esfinge estava novamente em questão. Era claríssimo para ele que, sem ele responder a esse enigma, estaria correndo o risco de viver em vão. Conceito estranho para nós, esse; achamos que estamos felizes aqui se podemos comprar carros novos, ter apartamentos, ter aquilo outro, e etc. Não há vida em vão se a gente é pobre, pronto. Não era bem assim, e qualquer pessoa de cultura maior sabe perfeitamente bem que viver em vão trata de uma outra dimensão, e você ter um sentido, um sentido de utilidade cósmica, podemos até dizer, um sentido de que você possa ter uma contribuição. Não há experiência mais bela do que você se descobrir como um homem criador em algo e poder oferecer isto ao mundo. Os antigos chamavam isso imitar aos deuses. Muito bem, isto é o ponto fundamental: cada nome conferido pelos astros é um repositório de energias, de potências, para te ajudar a cumprir esta missão. Partir daqui com o corpo completamente gasto e com os talentos plenos é o máximo de tecnologia que um homem pode alcançar. Partir daqui transformado em espírito puro, para os astros retornar. Vejam que ponto fundamental, porque se falamos no início "dos astros vieste, para os astros retornarás", não basta dizermos o caminho inicial; precisamos explicar o que é este retorno aos astros. O retorno astral não quer dizer ir para o céu. Falemos agora então desse retorno astral. O que significa retornar aos astros? É voltar ao céu, é mais ou menos a nossa ideia de que morremos e vamos para o céu? De maneira nenhuma, embora devamos reconhecer que há uma certa influência nessa ideia. Para os antigos, não viemos aqui a primeira vez, e esta também não será a última. Trata-se de um longo processo de ir e vir, nascer e renascer, num processo de evolução até nos transformarmos naquilo que eles chamavam de pneuma, ou espírito puro, e para tanto reconquistar a imortalidade perdida que um dia tivemos. Aliás, está em todas as tradições, esse tema eterno da expulsão do homem do paraíso, e este sonho eterno do homem retornar ao paraíso. Só que isto não é garantido e nem fácil; isto dependerá de um longo esforço teu para poderes obter, e não será numa única vida, mas em muitas vidas e com muitos mestres. A cada vez que retornamos aqui, é para ganhar um nome, presentes dos deuses, mas presentes do grego, porque vocês sabem que quanto mais talentos, mais trabalho dá. A vida é muito confortável ser burro, é muito confortável ter poucos talentos, mas quem tem muitos talentos tem muitos débitos com os deuses também, e portanto deverá cumpri-los se quiser continuar evoluindo. Esta é a famosa teoria da metempsicose, a psique que evolui através de várias vidas, e que foi cristianizada depois por Allan Kardec, Madame Blavatsky, que se conheceu como o espiritismo. Trata-se de uma tradição arcaíssima que pertence às tradições hindus, egípcias, gregas. Na verdade, podemos dizer que todas as religiões pré-cristãs ou mesmo pré-judaicas, todas elas eram não só politeístas como reencarnacionistas, para usar o termo moderno. Eu prefiro o termo regeneracionistas: é a psique que recebe um novo corpo e um novo nome com uma missão a cumprir aqui, para que ela possa evoluir. Isto os antigos chamavam de destino, que nada mais é do que tornar-se cada vez mais você mesmo, e não coisas pré-determinadas simplesmente. Esta era a grande missão que eles chamavam de metempsicose: uma nova oportunidade, um novo ciclo de vida que você poderia jogar fora ou não, ou aproveitar ao máximo. A liberdade sempre existiu, o desperdício de talentos também; jogar fora uma vida sempre foi possibilidade de todos, e quantos e quantos não o fazem. Lembrem-se do conceito fundamental da paideia arcaica: não há crime maior do que viver em vão, morrer em vão. E aqui nós tocamos o conceito arcaico de honra: se é para viver uma vida desonrada, melhor a morte. O que significava isso? Uma vida desonrada, uma vida onde o indivíduo mentisse para si mesmo, mentisse para sua própria verdade, para os seus talentos, para aquilo que ele era, por comodidades, conveniências vulgares, prostituição espiritual. Ou seja, é muito conveniente fazer as coisas que nos interessam; o nosso ego é cheio de vontades, cheio de desejos, mas aí bate na porta lá no fundo alguém que nos incomoda, alguém que diz "não é assim que você vai viver". Ele não fala tão claro, antes fosse. Quem é esse danado? Os antigos chamavam de dêmon, energia imortal que te habita, gênio imortal que vem com você de várias regenerações e outras vidas, que guarda dentro de ti tudo aquilo que se acumulou das outras vidas, mas que te cobra continuidade. Se você despreza esta energia, ele é implacável; ele te deixa doente, ele te dá angústia, capaz de te matar até. Ele te dá um talento maravilhoso que você perde a cabeça e se arrebenta com ele, por exemplo, e assim por diante. Mas se você o segue e conversa com essa tua energia interior, você começa por um processo que Sócrates chamava muito bem de conhecer a si e conhecer os deuses, e começa a descobrir que você é muito maior do que você imagina. Não é ilimitado, não é um deus, mas que você tem potenciais que podem te levar cada vez mais longe neste caminho astral. E você passa a sua vida tornando-se, no dizer platônico, cada vez mais belo espiritualmente, embora o corpo feneça. Como tal, você ganha sabedoria, você se transforma em obras de arte, e você está pleno de honra porque você foi fiel à verdade do teu ser. Portanto, a função dos astros é ajudar-te a encontrar o teu caminho em direção a esta verdade, porque nós nascemos esquecidos; mesmo se formos filhos de Einstein, não sabemos o que somos nem para que servimos. Nascer esquecido, tudo bem, mas passar a vida esquecido, lamentável. Ou seja, no dizer platônico, o homem não tem o direito de permanecer na ignorância, e a ignorância a que ele se refere não é consumir internet nem enciclopédias; é a ignorância de si, do sentido da sua existência. E ele tem um débito fundamental acima de todos, e este é chamado o débito com a verdade. Não é verdade científica, é a verdade que está nele implantada, é a verdade que os astros colocaram nele como natureza e essência do ser. Os pais são mero veículo, como dissemos, apenas trazem você de volta para a vida, e já fazem muito; por isso que eles são sagrados, mas eles não são seu destino a cumprir. Pode até ser, muitas vezes, quantos e quantos pais e filhos se encontram, mas quantos e quantos pais e filhos se desencontram. Quantos pais brilhantes não têm filhos desastrados, ou quantos pais desastrados não têm filhos maravilhosos. São inúmeros os fatores, e não adianta querer relegar essa questão meramente à genética ou aos problemas ambientais; a coisa é muito mais complexa e muito mais misteriosa. Desta forma, esta questão da metempsicose significa que você voltou aqui em busca de uma evolução maior, ou seja, é o conceito de metamorfose, a forma que evolui, a forma num sentido físico, mas a forma espiritual sua, os talentos que você já conquistou, e até que ponto você estava e até que ponto você poderá chegar ao terminar a sua vida. Bem feitas essas questões, temos que compreender que voltar a viver e metamorfosear-se são conceitos essenciais no pensamento arcaico. O nome é sagrado, como dissemos, por quê?

porque ele revela uma possibilidade de destino. Falemos um pouco do batismo. Batismo vem do grego "baptis", daí vem batiscafo em português, por exemplo, entrar dentro de algo profundo. Banheira vem daí. É emergir numa água sagrada. O que é essa água sagrada? É a água do rio do esquecimento, que os antigos chamavam o rio Leté. Esquecer o quê? Esquecer a vida que passou para poder receber um novo nome e iniciar uma nova oportunidade. Interessante isso. Na antiguidade havia dois batismos: o batismo no nascimento e o batismo na morte. Por que na morte? Porque na morte o corpo era devolvido à terra, à deusa Deméter, para fertilizar outros corpos, e a psique entregava o nome, devolvia o nome. Sim, tudo aqui teria emprestado corpo e nome para receber um novo nome, uma nova missão, um novo papel a cumprir no futuro. Voltaria a viver, sim, estaria no Hades, que era o local para onde iam os mortos purificar-se, e retornaria ao seu astro para uma nova oportunidade. Este é o sentido dos dois batismos: primeiro recebe o nome e depois entrega, porque os nomes são divinos, os nomes não envelhecem, os nomes são eternos, pertencem aos deuses e, portanto, eles nos emprestam para que façamos bom ou mau uso dos mesmos. Tocamos aqui no "do pó vieste, ao pó retornarás", que na verdade é "dos astros vieste e para os astros retornarás", e entendemos o porquê disto, porque tínhamos que completar nossa missão. Diz a tradição antiga que, se o zodíaco são os doze deuses, nós teríamos que ir e vir doze vezes em cada signo ou em cada astro regido por cada astro. Se nós tivéssemos sucesso em todo este processo, quem sabe reconquistaríamos a imortalidade perdida. Aí está o grande desafio para todos nós: reconquistar a imortalidade perdida é parte do caminho astral. Era este o sentido do indivíduo compreender a sua natureza e essência e reconquistá-la. Por isto que o grande desafio se chama recordação, anamnesis em grego, trazer a Mnemosine, a deusa da memória eterna, de volta. Recordar o que primeiro, como nascemos esquecidos, recordar o que nós somos. E como é que eu sei melhor do que eu sou? É só olhar as coisas que você facilmente apreende. Vocês já não viram pessoas que têm uma facilidade tremenda em certas coisas e outras que não adianta, não conseguem aprender, parece que nasceram sabendo? Ou alguém tem dúvidas sobre o talento de Mozart, que já fazia concertos aos 5 anos de idade? É impressionante. Tudo bem, é um caso extremo, mas não há genética que explique isso. Quantos e quantos outros talentos não conhecemos assim extraordinários, parece que já sabiam. Bem, nós não somos tão felizardos, talvez nascemos mais esquecidos que os outros, mas a recordação, a famosa teoria da reminiscência socrática, não tem outra função se não te ajudar a se lembrar de onde vieste, pela tua natureza e essência, pelos seus talentos, pela sua forma de ser, para libertar a tua alma que está prisioneira, prisioneira pelo esquecimento, prisioneira pela ignorância, que é o pior dos esquecimentos. Para chegar aonde? Não no Leté, como em grego dizemos esquecimento, mas chegar no Aleté, que quer dizer o não esquecido, a verdade. E a verdade é esta: revelação astrológica de ti. A função oracular na antiguidade, não é demais repetir, não era prever o futuro, "ah, será que eu vou casar amanhã, será que essa mulher vai gostar de mim", etc., essas bobagens. Não. A função oracular na antiguidade era esta: ajudar-te a refletir sobre o sentido da tua existência, para que você pudesse cumprir tua vida com honra e dignidade, buscando a tua verdade e a tua coragem de ser. Este era o caminho astral. Finalmente, agora falta dizermos algo sobre uma outra questão muito importante: a relação entre astrologia e alquimia, porque afinal de contas a astrologia e a alquimia vieram da mesma origem. Esta relação entre astrologia e alquimia é muito importante. Como dissemos, o oráculo de Delfos, com a pitonisa, com os seus sacerdotes, tem a função fundamental de provocar o indivíduo para a sua revelação. Isto é o que se chamava iniciação na antiguidade. A iniciação nada mais era do que a transformação do indivíduo em algo cada vez mais purificado. E lá está a importância da alquimia como tal. O que diz a alquimia, que nós tanto conhecemos pelo menos de ouvir falar? A pedra filosofal, que tudo que toca transforma-se em ouro. Por muito tempo, os grandes investigadores químicos, os chamados alquimistas, tentaram encontrar esta fórmula mágica. Já pensou?

Todo mundo ficaria rico da noite para o dia. A ideia era vulgarizada como achar o tal chumbo que se transformaria em ouro, ou o ferro que se transformaria em ouro. Na verdade, a coisa era bem diferente, e isto só pode ser feito através de uma outra intervenção. É aí que entra a questão do oráculo de Delfos e da Pitonisa. Essa transformação, em primeiro lugar, era chamada de transmutação da alma, transmutação da sua psique de ferro em ouro. E esses metais representam símbolos sagrados. Vamos tentar entender isso. Em primeiro lugar, há a menção de várias idades na história mítica da humanidade. Em todas estas tradições antigas, fala-se de uma idade de ouro e de homens de ouro, uma idade da prata e homens de prata, uma idade de bronze e homens de bronze, e uma idade de ferro ou chumbo, que somos nós. Esta é a teoria da degeneração dos metais. Fica claro pela ideia de valor que nós temos. Houve uma idade de ouro, contam as tradições, onde homens e deuses viviam lado a lado. Mas os homens desgarraram dos deuses, o mito do paraíso perdido, se afastaram, e nasceu uma nova idade, que é a idade da prata. Qual a diferença entre o ouro e a prata no sentido de valor material? É que o ouro representa o incorruptível, porque ele é idêntico por dentro e por fora. O ouro não se carcome. Note-se aqui a questão da essência e da aparência: o que está no interior de uma esfera de ouro é idêntico ao que está no seu exterior. O que significou essa primeira degeneração? A prata também é incorruptível, mas ela tem um pequeno detalhe fundamental: se nós deixarmos uma mesma esfera de prata, ela aos poucos escurecerá, será necessário poli-la com muita constância para que ela possa recuperar o seu brilho. A prata, portanto, representa o oposto do ouro neste sentido. Embora incorruptível, ela tem uma essência e uma aparência, o seu exterior não é idêntico ao seu interior. Assim, a diferença entre os homens de ouro e os homens de prata reside justamente aqui: um é incorruptível, é verdadeiro tanto no seu exterior como no seu interior; o outro esconde o seu interior no seu exterior. Não precisa ser muito esperto para perceber que aqui nasceu a separação entre homens e deuses, que reside na capacidade dos homens mentirem, na capacidade de eles se afastarem da verdade e mostrar na aparência aquilo que sua essência se recusa em revelar. Há mais degenerações. Nasceu uma nova idade, a idade do bronze. E por que isto?

porque simplesmente a tradição arcaica conta-nos que os homens que se afastaram dos deuses se tornaram homens de prata pela sua desmedida. Há uma frase famosa que diz: os deuses deram aos homens o uso da inteligência, da luz, do fogo dos deuses, mas os homens recusaram a medida do seu uso, o desvario. Essas questões éticas fundamentais continuam a assolar a humanidade: não basta a inteligência, é preciso não colocá-la a serviço da destruição. Desta maneira, os homens se afastam dos deuses quando eles se valem da criação para o seu desvario pessoal, e é esta a marca da idade da prata. Muitas tradições nos mostraram como o deus de qualquer religião, ou vários que sejam, castigaram os homens. Todo mundo já ouviu falar no dilúvio universal, o dilúvio que foi enviado para destruir toda a humanidade para ver se poderia começar tudo de novo. Temos o mito da Atlântida também, onde os deuses castigaram esta civilização muito evoluída pelo seu desvario. É um mito da origem do Egito, aliás, é de lá que vem este mito. A própria palavra alquimia vem de uma raiz egípcia arcaica, porque eles mesmo se denominavam como os herdeiros da terra de Kemi. Al, em árabe, Al Kemi, originou alquimia, que queria dizer esta terra de Kemi, a terra que veio para tentar se regenerar. Este mito do dilúvio universal aparece em muitas e muitas culturas arcaicas, e provavelmente deve ter acontecido. Diz a tradição de que quase todos morreram, e os deuses, condutos com a condição humana, criaram uma nova raça, mas esta se mostrou mais degenerada ainda. A idade da prata era a raça de bronze, que não precisaram os deuses destruir, pois eles nasciam armados e entrematavam-se, e assim eles próprios se extinguiram. Vale aqui uma observação interessante: o bronze muito bem polido parece ouro, mas é um ouro falso, sendo o ouro o símbolo do incorruptível, da verdade, da justa medida. Fica muito claro para entendermos o que é o bronze: o bronze nada mais é do que o homem, ou a raça dos homens, que quer fazer as leis com as próprias mãos, e o resultado conhecemos bem. Alguns da raça de bronze ainda sobrevivem, infelizmente. Bem, com esta raça destruída, criou-se nova raça, mas esta desta vez foi castigada severamente pelos deuses. A raça de ferro perdeu de vez a imortalidade; ela recebeu dos deuses como presente a perda da imortalidade. Agora nós temos a raça que nasce, cresce, se desenvolve, envelhece e morre. Somos nós. Dizem as más línguas que não somos exatamente nós, porque nasceu uma raça mais degenerada ainda: é a raça de plástico, a raça que já nasce velha, onde a eternidade não dura senão minutos, onde tudo é movido ou novo, tudo envelhece depressa e precisamos trocar constantemente. Nós inclusive somos trocados rapidamente. É uma ironia que vivemos mais agora nesse século 21 e que sejamos trocados com mais rapidez. Perdemos a noção de eternidade, e aqui está a questão central alquímica. A questão central da alquimia é, através da pitonisa, através dessas profecias, reencontrar o caminho de volta para a idade de ouro. A chave que está aí é muito clara: o homem degenerou até a raça de ferro, mas ele pode regenerar-se e reconquistar a imortalidade perdida, ou seja, retornar à idade do ouro. E como é possível fazer isso? Aqui está a chave alquímica, aqui está o chamado caminho hermético proposto pelo oráculo de Delfos. Você terá de encontrar, através de seus talentos, através de suas possibilidades que os deuses te presentearam, o caminho para esta regeneração, que os antigos chamavam de o caminho do herói, que quer dizer o caminho em direção ao sagrado. A etimologia de herói vem de hieró, em grego, que quer dizer sagrado, daí hieróglifo. Este era o grande desafio proposto aos oráculos, aos homens em geral. Compreendemos agora que estar constantemente buscando profecias oraculares não era para saber o que você faria de sua vida no ano seguinte, mas sim como torná-la cada vez mais autêntica e verdadeira. Agora vamos traduzir novamente a famosa fórmula: tudo que toca vira ouro. A pedra filosofal que toca tudo e transforma em ouro. O que é pedra? Pedra em sânscrito é ermi, da ermis quer dizer ressurreição. Filosofal vem de filos, que quer dizer feito para, não apenas amigo, mas a mesma essência. E porque filosofia? Sofia, o que quer dizer sabedoria dos deuses. Portanto, o caminho da regeneração passa pela sabedoria dos deuses. Só esta possibilidade existe para tudo que tocares se transformar em ouro. Mas de que nós estamos falando? Estamos falando evidentemente da psique. Estamos falando não de ouro material, mas de você transformar tudo que é ferro em você, mortal, portanto em ouro imortal. O que é que nós podemos fazer neste sentido? Só temos um caminho: tudo que é criador de vida reconquista a imortalidade. O caminho do homem é, portanto, através da criação, reconquistar a imortalidade perdida, como imitando aos deuses. Assim escapamos do esquecimento. Sócrates, este sim é um imortal. Tudo que ele nos transmitiu através de Platão está para sempre registrado e nos toca profundamente. A obra de arte tem esta função: a obra de arte tem a função de transmutar a alma. É através dela que o homem, qualquer homem, em qualquer forma de manifestação de obra de arte criadora e ética, por favor, quer dizer, celebrando a vida, é que ele pode reconquistar a imortalidade. Isto é o significado original da palavra religião: religar, ligar novamente aos deuses. A única ligação possível é a verdade e a criação. Neste sentido, a alquimia busca a regeneração das almas, a regeneração da psique. É o caminho cósmico, portanto, proposto aos homens, o caminho do herói. Se nós degeneramos, nós temos a possibilidade de uma nova raça, a raça dos heróis, porque é mais justa, como diz Hesíodo na Teogonia, porque ela está a serviço da verdade, porque ela não se corrompe na essência e na aparência. Muito ao contrário, ela busca o metal sagrado, o ouro, que representa a união da essência e da aparência. Estamos longe disso. Nossa civilização, infelizmente, não tem caminhado neste sentido, e pagamos por isso, sem dúvida alguma. Desta maneira, percebemos que a alquimia, longe de ser uma química primitiva onde se buscava enriquecimento rápido, é a mais preciosa das químicas: é a química da alma, porque busca a reconquista, através destes metais sagrados, da imortalidade perdida, que nada mais é do que esta união entre o homem e o divino. Como tal, este é o retorno por excelência do caminho astral. Dizem os antigos ainda que a alma que transformar-se em ouro puro, ou a psique, ela não retorna mais aqui; ela atingiu aquilo que lhe chamavam o telus, o fim das regenerações. Ela não precisaria voltar a viver, até porque teria reconquistado a sua eternidade. Mas falta ainda mais um aspecto para nós desenvolvermos: os doze deuses estavam representados cada um no zodíaco, que quer dizer a roda da vida. Precisaríamos explicar um pouco melhor isto. Qual o papel destas divindades neste caminho astrológico? Em primeiro lugar, o número doze deve ser esclarecido. Até hoje vivemos num esquema hexadecimal: doze horas do relógio, doze meses do ano, doze tribos de Israel, doze apóstolos de Cristo, doze trabalhos de Hércules, doze deuses. Será que é por acaso tudo isso? Claro que não. O número doze tem um significado fundamental que pertence à questão da geometria sagrada, a geometria das pirâmides. Isso ficará para um outro assunto que deve ser desenvolvido em breve. O número doze aqui mostra que temos doze potências cósmicas, cada uma delas com significado e função, às quais nós estamos a serviço. Portanto, estas divindades são como que catalisadores dos nossos talentos, das nossas potências. Se elas nos ofereceram através das suas influências astrais, cabe a nós tentarmos reconquistar o seu significado. Um exemplo simples: vejamos as potências. Apolo, Deus da luz e da beleza, e Ártemis, deusa do sagrado da natureza. Como é que eu percebo se estou a serviço de Apolo ou não? É simples: saber se alguma coisa referente ao belo, à música, me toca. Então eu tenho algum débito aí, eu tenho algo a aprender com Apolo. Como eu vou praticar esta música, como eu vou encontrar este belo? Consulto a mim mesmo e procuro desenvolvê-lo ao máximo. Desta forma, do modo que eu posso, redescobrindo meus talentos, cultuarei Apolo. Ártemis, ou a Diana caçadora, como eu posso saber se eu estou em débito ou se ela me toca? Basta ver, conhecer esta deusa, ver que ela protege o sagrado da natureza, que tudo que está na natureza é sagrado, particularmente as crias, as parturientes, e entender se eu me encanto por isso ou não, se eu me atraio por isso, ou se eu preciso algo a aprender. Desta maneira, fico sabendo se eu tenho muito a aprender com Ártemis e se posso servi-la, como aliás faziam na antiguidade. Atena, a deusa da sabedoria e da equidade. Se a sabedoria me atrai, seja na forma de um cientista, na forma de um escritor, na forma de um literato, sei lá em que forma, mas que me atrai a cultura, se me atrai a equidade e a justa medida, lá estou eu. Lembram de Eurídice? Estou eu atraído pela justa medida. Há pessoas que se engajam seriamente na política, lamentavelmente muito poucos, que têm este sentido de justiça, de servir a humanidade. Alguns conseguiram, por exemplo, não precisa ser tão grandioso. Há outros que servem a sabedoria e a equidade de outra forma, mas não apenas no plano profissional, mas no plano pessoal principalmente. Esta é uma forma de aperfeiçoamento de si mesmo servindo a Atena. Afrodite, ou a deusa romana do amor e da beleza. Servir Afrodite é servir a beleza e o amor. Há pessoas que foram feitas para isto, muito mais do que outras. Cada um, no entanto, está a serviço do amor, mas é preciso praticá-lo de modo justo e verdadeiro para ti e para o outro. E não se esquecer de uma lei de Afrodite, por exemplo: quanto maior a beleza, mais ela não pode te pertencer. O belo foi feito para ser dado, e é traidor dos deuses aquele que guarda o belo para si. Ou seja, é o contrário do mito do Narciso, que guarda o belo para si, para usar o outro. Ares, ou Marte romano, representa o deus dos combates. Mas há duas formas de combater: o combate injusto e o combate justo. A vitória deve estar a serviço da ética, e não custar a ética. Quantos débitos não temos com este deus hoje, ou com o mau uso desta força combativa que é tão bela e que pertencia ao espírito olímpico? Que vença o melhor, mas nas condições justas. Hermes, outra divindade importante, o deus dos caminhos. Daí nasceu a palavra hermético, coisa que não se entende. Que bobagem! Na verdade, é que nós esquecemos de buscar os caminhos em nós e achamos esquisito isso. Só alguns privilegiados que fazem psicoterapia acham que podem entender os seus caminhos. Na verdade, o caminho de Hermes é esta busca interior que todos nós temos, que todos nós temos que efetuar para podermos compreender qual é o verdadeiro caminho que nós temos que seguir. Nessas alturas, vocês já perceberam que nossos débitos estão em vários deuses, em maior ou menor quantidade, e nossos talentos também. Hefesto, ou Vulcano, deus das ferramentas. Mas não é só ferramentas, como alguns adoram pegar ferramenta e etc, e mexer nas coisas, consertar tudo em casa, já trazem esse talento pronto. Instrumentos para a vida, instrumentos práticos e concretos. Dioniso, ou Baco, deus do êxtase e da alegria, é o deus do social por excelência. Quantos débitos não temos com ele? Alguns conseguem de fato servir a Dioniso brilhantemente, e isto nada tem a ver com as bacanais no sentido romano, mas tem a ver com uma forma alegre e jovial de encarar a vida e uma capacidade de doação que algumas pessoas têm. Infelizmente, a maioria não consegue, os débitos são imensos. Deméter, a deusa da natureza, a deusa da fertilidade, outra deusa que nos dá os instrumentos para se viver na terra, mas de um modo belo, porque ela ensina a terra cultivada, ela nos ensina a não depredar, nos ensina a renovar a terra. Vejam com estes poucos o que nós não temos a falar. E Zeus e Hera, então. Zeus, potência criadora por excelência, tudo que toca fecunda. Vulgarizado como um machão que corria atrás de todas as deusas e mortais, e ninguém escapava dele. Na verdade, isso é uma metáfora, uma metáfora bonita para as crianças entenderem, de que essa energia toda representa uma força jovial. Quer dizer, realmente é que a força fecundante do masculino está em ação. Hera representa a sua contrapartida, é a deusa do casamento, das uniões estáveis. Ela representa a consolidação, que é um aspecto feminino complementar do masculino perfeito. Enquanto o masculino é externo, o feminino é interno, é o sol e a lua, como dissemos. Então, o que nós chegamos à conclusão é de que o caminho alquímico era necessário no desenvolvimento dessa astrologia arcaica. Através da compreensão das influências destes deuses, das suas manifestações, como tais, é que o indivíduo iria se identificando aos poucos onde os seus talentos melhor se encontravam, melhor se encaixavam, portanto quais deuses ele veio aqui para servir e onde ele tinha maiores débitos, portanto o que ele deveria fazer nesse sentido. Claro que muitas coisas poderia dizer: bem, não será nesta vida que eu vou conseguir. Aliás, até hoje dizemos isso, vai ficar para a próxima. Mas pelo menos fazer bem o que você já tinha feito seria fundamental. Como tal, assim sendo, o caminho astral era o fundamento da paideia. O papel do oráculo de Delfos era central no pensamento arcaico, e não só o oráculo de Delfos, como vários outros. A pitonisa e seus sacerdotes representavam algo essencial no cotidiano de cada cidadão, e isto não quer dizer que ele fosse para lá toda semana, impossível, a distância era muito grande. Mas praticar a reflexão, a meditação diariamente, era uma obrigação de todo e qualquer cidadão. Não custa insistir sobre esse conceito: era um antigo banho interior. Parar todo dia, banho, porque isso era feito nas termas mesmo. Enquanto se banhava, sentavam-se com sacerdotisas e sacerdotes para discutir temas, discutir reflexões, tirar para fora as coisas pesadas do dia e recarregar a si próprio com leveza, com beleza, para não perder de vista diariamente os talentos e os débitos que você veio aqui para cumprir. Esta era uma cerimônia diária que se praticava nas chamadas termas. Era uma cerimônia: enquanto você banha seu corpo, você banha sua psique. Para finalizar, vale lembrar que um jovem, aproximadamente aos 18 anos, tinha uma obrigação fundamental. Quando ele se considerasse pronto, tivesse consolidado o seu nome pela segunda consulta no oráculo de Delfos, ele deveria dirigir-se à Ágora, que era a praça central de toda e qualquer cidade grega, pedir a presença dos cidadãos e fazer um discurso. E era um discurso fundamental. Esse discurso tinha que vir decor, ou seja, decoração, não é decoreba, do interior do ser, da sede da verdade. Nesse discurso, ele deveria convencer os cidadãos, dizendo a eles o seguinte: de que ele estava para servir a pólis, e ele tinha tais e tais talentos para oferecer, e ele era tal pessoa com tais possibilidades e talentos, e ele estava enfrentando o seu enigma da esfinge da maneira como ele poderia, a partir dos seus talentos. Se este discurso convencesse os cidadãos, ele era aclamado cidadão com.


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PALESTRA 5 — O CULTO DE ISIS E OSÍRIS — AULA 1
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Universidade Falada. Conhecimento à velocidade de um clique. A Universidade Falada apresenta o audiolivro. O culto de Isis e Osíris, aula 1. De autoria de Victor de Salis. Victor formou-se em psicologia. Completou um doutorado em 1977 com Jean Piaget na Suíça. E o outro a seguir com Igor Caruso, na Universidade de Salzburgo, na Áustria. Dedicou-se cada vez mais ao estudo das tradições e mitos das antigas civilizações. Victor é autor de inúmeros livros sobre o tema. São divindades que são algo parecido com aquilo que vemos na tradição grega de Hermes e Hecate. São divindades extremamente próximas. O número de estatuetas votivas que se encontraram já nas escavações no Egito, quer nos túmulos, quer nas ruínas das casas, é incontável. As representações que a gente teve nos templos, o número de templos existentes é incontável.

A gente faz a pergunta: por que essa popularidade? Porque são as divindades da ressurreição. São as divindades da iniciação por excelência, que atendem ao mais simples do agricultor e ao mais elevado dos sacerdotes. Com que finalidade atendem? Atendem com a promessa de voltar a viver, se você seguir os passos da iniciação. O apelo é muito poderoso, vocês vão compreender. E toda a ritualística egípcia da conservação da múmia, da conservação dos mortos, da reencarnação, do voltar a viver, são todos os mistérios de Isis e Osiris. Essencialmente, são eles, não é que as outras divindades não tenham acesso, muito pelo contrário. Mas é que são eles que permitem a passagem deste mundo material para o mundo sutil. Eles não realizam a passagem do mundo sutil para o mundo etéreo.

Vocês lembram aqueles degraus que nós vimos para a espiritualidade absoluta, para a imortalidade? Mas eles te permitem sair da brutalidade material. Para o absoluto, é a chamada segunda morte, que nós ainda vamos estudar, mas são os cultos com outras divindades e que são o resultado do seu aperfeiçoamento constante. Não existem divindades diretamente responsáveis. A responsabilidade é sua de acordo com o seu aperfeiçoamento. Mas quem te inicia neste processo é o mito de Isis e Osiris. Aliás, eles vivem este mito pela própria simbólica do despedaçamento. Ele é despedaçado e ela o reúne. Esta simbólica, além do ritual de fertilidade importantíssimo do símbolo da semente, representa uma coisa muito importante, que é tudo que se desfaz volta a viver. O mito é de ressurreição. Por que ela faz?

Ela consegue a ressurreição de Osiris. Juntando os seus pedaços, ela o faz voltar a viver. O fato de desaparecer o genital, porque ela encontra todas as partes, menos o genital, é muito significativo. Ela tem que colocar um simulacro de madeira. Primeiro, por quê? Porque o genital de Osiris representa a fertilidade que se espalhou e não volta mais. Em cada lugar que você encostar, está a fertilidade de Osiris trazendo a vida de volta. Este é um aspecto fundamental, que é o aspecto divino do Criador. O Criador, tudo que toca, multiplica. É uma forma mais poética, talvez, ou muito bela, mas que é mais ou menos aquilo que a gente vê na forma dos amores dos deuses. Tudo que tocam, eles multiplicam. Tudo que eles se aproximam. Este é um aspecto muito importante. O outro aspecto desta fertilidade do genital faltar e de ser completado significa que você, à medida em que se reproduz, à medida em que você volta a viver, à medida em que você regenera e aperfeiçoa a sua alma, aqui estamos grandes e mais entendidos na tradição cristã, você precisa menos e menos da sua sexualidade.

Por quê? Porque você se aproxima dos imortais e não precisa mais se multiplicar. A sexualidade não restrita à mesma palavra. Existe um processo de transcendência que te leva a cada vez mais a abster-se dela. Porque a tua sexualidade agora se espiritualiza e se transforma em criação. Por isso que você perde. Essa poética é muito bonita. Perder os genitais no mundo e nunca mais recuperá-los. Mas é isto que o Criador faz. Inclusive, este é um símbolo psicológico belíssimo. Você transporta a tua energia criadora para tudo o que você toca. Este é o símbolo muito bonito da perda da genitália. Ela se espalha e fertiliza todas as formas da criação. Precisam passar milhares de anos para depois o senhor Freud vir aqui e falar em sublimação. Quando os egípcios já falavam há 5 mil anos antes de Cristo.

Será que é a sexualidade mesmo ou é a capacidade de reprodução? Não, não é a capacidade de reprodução, porque nós estamos falando de uma sexualidade divina que com ela, os sírios, tudo multiplicava e tudo criava. É da força de os sírios. A simbólica está aí. E é preciso a gente compreender um dos aspectos muito interessantes que a própria psicanálise desenvolve, que transforma a sexualidade primitiva. Isso é a evolução do homem. A energia libidinal, se vocês quiserem, a linguagem psicanalítica, é transformada progressivamente num processo, para usar o jargão psicanalítico, criador. Isso é a sublimação. Ou seja, esta energia concentrada e que descarrega-se meramente numa reprodução, no homem, pode se transformar, e este é o milagre da criação do homem que se aproxima do divino, pode se transformar e evoluir para uma força criadora que tudo que toca multiplica.

Aliás, nós estamos falando da base da teoria da sexualidade freudiana. Que acho, deu para vocês entenderem, o processo de transformação. Nem a gente vê mesmo, conforme a maturidade se coloca, os nossos interesses, uma pessoa evoluída de verdade, uma pessoa verdadeiramente civilizada, ela percebe a transformação de sua pulsão sexual, de sua pulsão libidinal, por falar assim, ela se desfaz em mil outros interesses e mil outras energias criadoras, algumas instrutivas, mas outras, se ele souber canalizar, muito criadoras. Então, esta energia, ela se transforma progressivamente, de tal maneira que nós percebemos uma força erótica neste indivíduo extraordinária, quando ele cria uma obra no piano, quando ele cria o seu trabalho, seja escrito, seja qualquer coisa que esse indivíduo faça. Se a gente percebe esta energia erótica, essa poderosa sublimação, a gente diz até, puxa vida, ele casou com o seu livro, ele casou com a sua profissão, ele casou com a sua obra, mas quando a gente fala casou, no sentido de apaixonado mesmo, de dar essa energia erótica.

Isso a gente vê, essa tradição na Grécia, mas é este o símbolo muito importante deste simulacro de madeira que se perde e se espalha em Osíris. O destino é este mesmo, quem quiser transcender, deverá progressivamente abandonar, ou seja, evoluir deste instintual para esta direção cada vez mais elevada. É muito interessante que, quando a gente faz um paralelo com a obra de Freud com relação a isso, ele faz uma observação quando lhe perguntam se todas as pessoas podem chegar a uma alta sublimação, um poder criador e etc. O Freud, coitadinho, no começo do nosso século, numa sociedade materialista como o nosso, ele respondeu com muito bom senso, ou seja, sim, algumas pessoas têm um poder de sublimação extraordinário e, possivelmente, aí está a explicação para os grandes artistas, os grandes gênios e etc., que conseguem transportar essa energia para alturas tão grandes, mas outros, infelizmente, não têm esta capacidade e não há processo analítico que vá fazê-los transcender para isto.

Ele estava muito educadamente dizendo que tem pessoas que são realmente mais chucras, ou seja, não é que são burras, mas elas têm um poderio do instinto sexual muito, muito limitado e que abarca a sua vida e a domina. E a gente observa isso, tem indivíduos que a gente até fala que são verdadeiros, passam a vida com verdadeiros símbolos sexuais. Aliás, eles passam a vida presos a esta sexualidade de um modo, até muitas vezes, que beira o patológico. Seja aquela mulher de um glândulo extraordinário que não suporta o envelhecer e ela quer ter aquela força sedutora da conquista, etc., alguns grandes homens que vivem presíssimos a isso. Há outros que conseguem equilibrar as duas coisas, de um modo meio até fantástico. Vocês conhecem a história do John Kennedy? Não conhecem. Vocês sabem a história sexual dele?

Foi um dos capítulos mais curiosos. Ele, além de uma atividade extraordinária sexual, se ele não tivesse, além disso, ele traia escandalosamente a Jack Kennedy. Ele precisava de mais uma mulher por dia. Diz que ele sofria de dores de cabeça terríveis se não tivesse mais relações todos os dias com outras mulheres. E o Jack não era nada dado a isso. A história dela era completamente diferente. Nada disso. Isso era típica da mulher narcisista que, francamente, não gostava de sexo. Era bem assim o perfil dela. Este é um homem. Ele era um homem brilhante, indiscutivelmente. Conseguiu, e ao mesmo tempo ele conseguiu sublimar. Não quer dizer que uma energia... Aí está um dos grandes malentendidos. Não quer dizer que a sua inteligência, a sua capacidade, será obtida às custas do sacrifício da sua sexualidade.

Esse é o grande malentendido da modernidade. E uma grande crítica que se fez a Freud também. Mas, na verdade, se entendeu mal. O que ele quis dizer, Freud, e eu acho muito oportuno, é que nós fazemos isso. Ele apenas constatou. Ele não disse que tem que ser feito. Tanto é que ele separa sexualidade com genitalidade. Nós não podemos misturar as duas coisas. O problema é quando esta energia cai sobre a genitália e permanece lá. Neste sentido, a simbólica egípcia é muito correta. Ela tem que sair da genitalidade. Esta energia tem que se perder. Ela tem que ir para a mão. Ela tem que ir para cá. Ela tem que transcender. Mas, este é um longo processo de evolução ao longo de muitas existências. Número um. Não é nesta existência. O problema é que, em Freud, nós vemos uma constatação na nossa sociedade.

A nossa sociedade exige a repressão da sexualidade, chamando isto de civilização. No mal-estar da civilização de Freud, nós vemos muito bem a sociedade ocidental, ela cresce às custas da repressão da sexualidade. Ele está fazendo uma constatação histórica. O Hebrey-Marcus, depois, no Eros e Civilização, ele só vai completar a questão. Ele não está afirmando que isto é a única forma de crescer, de se desenvolver. Ele está apenas constatando que a sociedade, a tradição judaica-cristã, que nos trouxe. Que, aliás, é o que separa toda a mentalidade mítica e poiteísta arcaica da nossa mentalidade bíblica. É esta a questão. Indiscutivelmente, em toda a história das tradições judaicas, cristãs e muçulmanas, existe uma repressão excessiva da sexualidade, uma preocupação excessiva da sexualidade, mais a de vocês do que nós dos homens, diga-se de passagem.

Mas, nós também, inspira para nós. Para nós também, sobra. Isto é uma marca tradicional. O puritanismo. Qual a necessidade do puritanismo? As grandes ondas, a Inglaterra vitoriana, o excessivo pudor, a hipocrisia da sexualidade, com muita propriedade. Freud chamou a atenção de que há duas coisas pelas quais os homens mentem compulsivamente, são mitômanos. Sexualidade e dinheiro. Terrível verdade, ele diz. Mas ele estava apenas retratando a nossa sociedade mercantilista, a partir da época do negócio, negar o ócio, que nós transformamos o ócio em produção de excesso de bens, etc. E a sexualidade, por quê? Porque nós não conseguimos seguir, por mais que a gente se esforce, a esta repressão escandalosa imposta ao homem sem pagar um preço muito alto. Esta é a história, aliás, por favor, quem tiver curiosidade, leiam esses dois livros, são muito úteis.

E são desses livros que vão atravessar os séculos, com certeza. O Mal-Estado da Civilização de Freud e o Eros de Civilização do Herbert Martíus. Bem mais recente. Um é de 1937 e o outro é de 1960. Aqui, o que se coloca nos mistérios, diz-se Osiris, não se trata desta repressão. Mas, da mesma maneira como a Antiga Grécia separa hedonismo do erotismo, aqui também, a genitalidade do homem tem que ser elaborada, tem que ser evoluída. A sexualidade, esta energia, ela tem um caminho a seguir. Ela não pode cair num instintual animal, sem dúvida nenhuma. Este cerimonial, e isso é muito importante que a gente compreenda, porque este cerimonial de Ísis, procurando a genitalidade, a genitalia de Osiris, e não encontrando-a, e que se espalhou por toda a terra e fertilizou, para lá, em primeiro lugar, as festividades da ritualização da Páscoa.

Todo o cerimonial da fertilidade da Páscoa é consagrado a Ísis e Osiris, porque, como Ísis não encontrou o seu genital, ele se espalhou e fertilizou todo o rio Nilo. É lá que está a energia. Todo o rio Nilo, todo mundo conhecido deles, é esta energia que está lá. Ao mesmo tempo, é graças a isto que está a promessa de voltar a viver. Se não encontrará mais a força da vida, porque o genital tem esse significado, lá está a força da vida, lá o mistério, se não encontrará mais lá, a força da vida você terá que ir procurando, e está o aspecto libidinal muito importante, que não tem nada a ver com repressão, como nós entendemos a nossa cultura, a força da vida você vai ter que aprender a procurar em outros lugares. Como Ísis fez também, ela foi procurar juntando os pedaços, foi procurar em todos os lugares, fertilizou tudo.

O que é isto? A sua força também, ela deverá ir para outros lugares. E está a magia da criação. Esta é a beleza da criação. Não existe repressão absolutamente, não existe uma condenação ou uma preocupação de que o que você faz é errado. Mas, sabe-se que o caminho da iniciação é um caminho onde o erotismo se espalha por outros lugares, para usar a figuração grega. Onde essa energia passional, se parar somente, e voltamos a Freud, ele tem a razão, se parar somente no genital, realmente esse indivíduo não haverá de evoluir muito. Ele tem que partir com ele e a partir daí evoluir. Como, aliás, a própria idade e o próprio esforço de desenvolvimento haverá de seguir. As festas consagradas a Isis e a Osiris, particularmente a Páscoa, que nós herdamos, é uma festa que consagra a fertilidade, mas consagra a procura.

Por quê? Cabe a cada um procurar como fertilizar com esta sua energia. Os mistérios são isto. Os mistérios são o desafio da sua fertilidade. Na tradição helênica, vocês veem isso chamado os talentos, que você procura, que você se transforma, você procura lutar para realizar aquilo que é o talento seu. É evidente a sua proximidade. Aqui nós vemos no cerimonial do genital, no cerimonial da fertilidade e da transformação desta fertilidade para a renovação da vida. E aqui nós temos uma diferença muito importante. Neste aspecto, os egípcios são mais literais. Eles consagram a renovação da vida e a conservação da vida e dos mortos, sobre todos os aspectos. É que a vida nós não vemos, a gente vê os mortos, a gente vê as múmias, os milhões de múmias que vocês viram dos pássaros, todos os milhões, todo esse trabalho de conservação é isomórfico ao trabalho em vida que deveriam fazer.

Existe uma busca de repetir o trabalho de Ísis em reunificar e manter a vida, tanto na conservação do morto como na conservação da vida e da natureza. Por isso que todos os animais, etc., e tudo aquilo em volta, permanece sacramental. A popularidade é evidente, porque dá a possibilidade do homem mais simples oferecer o seu quinhão à conservação da vida. Essa é a primeira obviedade. Você não precisa ser nenhum grande iniciado que estudou, nenhum grande escriba, etc. Todos podem ser cúmplices na conservação da vida e na conservação dos rituais da morte. Todos. E o resultado é óbvio. Os restos arqueológicos são impressionantes. Vocês lembram daquele filme que eu passei? Milhões, literalmente milhões de múmias. Tudo isso, imagine, não foi feito de graça, nem por superstição tola, nem por macumba de esquina.

Existe todo um trabalho. E envolveu um certo conhecimento, obviamente, do ritual importante, do ritual religioso. Simples, humilde, mas o mesmo ritual que uma pessoa humilde faz na sua casa, da religiosidade, de respeito, etc. Isto é a popularidade de Ísis e Osíris. Eles permitem a cada um a renovação da vida através desses rituais de fertilidade. É uma linguagem bastante simples e muito acessível a qualquer pessoa. A passagem para o mundo sutil é outro aspecto importante. Porque ela, como rainha do céu, é que permite a elevação. Ela é o divino que desce à terra. Notem bem isso. Somente Ísis e Osíris são o divino que desce à terra. Nenhuma outra divindade desce à terra. Por isto que quem souber acompanhá-la através dos mistérios, e esse o significado dos mistérios, o que é? É você permitir-se, poder, ter capacidade de acompanhar o seu retorno às alturas, quando você tiver uma revelação, quando ela se manifestar a você. Esta possibilidade é que ela nos promete. Esta possibilidade que ela nos traz. Por isto que ela representa a passagem do mundo material para o mundo sutil. Só uma perguntinha. Retomando àquele assunto da sexualidade, na verdade, quando Apolo toca Dafne, é mais ou menos isso que ele está querendo dizer. Exatamente. Exatamente igual. Para abrir o oráculo e para transcender na luz, ele precisa esquecer... Na verdade, ele esquecer das coisas terrenas. Coisas materiais. As coisas que te prendem aqui na terra. Apesar que não deixa de ser uma forma de amor, mas é menos evoluída, vamos chamar assim. Porque se da mulher ao objeto, vamos evoluir até o amor universal, a última instância. Se você quiser, você pode falar nessa linguagem. O problema é que quando você ama, num sentido instintual, o outro, além do aspecto cego de mera reprodução, que está em jogo, existe um outro aspecto mais animal no homem, que é puramente se apoderar do outro, saqueá-lo para satisfazer a sua vontade. O outro nem existe. Você sabe que essa é a forma mais precária, mais hedonista de sexualidade. E nós encontramos em todos os motéis por aí à vontade. Isso não é uma forma de doação. Isso não é uma forma de amor, não tem nenhuma elevação nisso. A crítica fica nesse amor e não no amor mais belo... Sem dúvida alguma que não. Ao contrário, se não fosse assim, ela não iria procurar e juntar.

Porque não seriam eles o casal sagrado? Porque aí está uma outra coisa muito importante da fecundidade de Osíris, que a gente vai ver em Osíris, mas já podemos adiantar que está a promessa dionisíaca: é no outro que você encontra o seu mistério sempre. Se você espera encontrar o mistério somente em você, está perdido, não vai encontrar mesmo. É o outro que provoca a diversidade. O sexo oposto não tem função reprodutiva. O sexo oposto tem essa complementaridade divina que te faz encontrar aquilo que jamais você veria. Voltamos aos temas da hermafrodita primordial, da separação, mas este aspecto é muito importante. O mistério está no outro. A função do outro sexo não é uma função genital de reprodução, mas é uma função de consolidação do mistério. Por isso eles são celebrados como casal sagrado.

Neste sentido, cabe a todos imitarem-nos, se vocês quiserem. A postura não tem a ver com a contemplação dentro de si. Claro que sim, você vai procurar muitas coisas dentro de si, que você não poderá encontrar em outro lugar. Mas a revelação mesmo está no outro. O que está escrito lá? Isis media o celestial e o terreno? O que quer dizer isso? Isis media. Mediardo. Ah, mediardo. Está. Você pensou que ela... Não é mídia, em primeiro lugar, e também não é de medir, não. É verbo mediado. É o divino que desce à terra. Por que esse mediardo? Porque é o tema que nós estamos abordando. De permitir sair do material em direção ao reino sutil. Que é o mais elevado entendimento. Este reino sutil, que é a própria iniciação. E é isto que eles enxergavam na iniciação. A iniciação, para os antigos, era desapegar-se desta terra, conseguir compreender o seu significado, conseguir ver a magia que está envolvida em cada ato e cada fecundidade, e atingir este plano.

O grande milagre de Isis, a grande intervenção do sobrenatural de Isis, é a própria fecundidade. Por isso ela é muito associada ao elemento úmido. Porque é a umidade que presenta à terra que tudo multiplica. Até os anos. Um aspecto mais literal. Aumenta a umidade, aumenta tudo mesmo. Tudo. Ela é o elemento úmido. Nesse sentido, sem dúvida nenhuma. Como rainha do mundo sutil, ama os deuses e se preocupa com os homens. Agora, entendemos, está bem claro. Claro que ela ama os deuses, ela é uma deusa. Mas, se ela se preocupa, ela vai até os homens e vem até lá. Então, estes rituais de fecundidade, esta cotidianidade, este renovar das cheias do Nilo, e este ir e vir, esta esperança, está muito acessível a todos. É muito fácil compreendermos por que ela se tornou o culto mais difundido em todo o Egito, e um aspecto que também deve ser considerado, que não pode ser esquecido.

Exis pertence às tradições das religiões arcaicas, onde o matriarcal, a energia da vida, tem origem na terra, no princípio da matéria, fecundante. Mais uma vez, nós temos que entender a separação entre as religiões modernas, que já falamos, onde é um princípio abstrato, um princípio inacessível do homem, e ela é associada com a terra. Isis e terra se confundem. Ela é a versão de Gaia, se vocês quiserem, a versão arcaica de Gaia. Por isso que ela é, inclusive, ela é identificada com a Deméter, grega, e uma das grandes denominações dela é a Isis terrestre, ou a Isis fecunda. Uma coisa importante também, ela é mensageira dos deuses. Ela própria é deusa, mas ela é mensageira dos deuses. Ela tem, claramente, caráter messiânico. Ela é enviada. Tem o mesmo caráter de Hermes. Uma das suas manifestações é ela descer e trazer.

O mesmo caráter de Cristo mesmo. Ela desce e traz mensagem. E ela leva consigo, isso é muito importante, ela leva consigo quem ouve a mensagem. Ela transporta. Ela leva a transcendência. Nesse sentido, ela vem, arrebanha e leva. Os templos de Isis eram considerados locais de arrebanhamento. Era local onde eles iam. Aliás, a ideia do Epidauro, para mim, tem origem nos templos de Isis. Sem dúvida alguma, a ideia do Epidauro dos templos de cura. Os templos são locais de revelação. Eu já mencionei isso antes, mas é importante recordar a vocês que lá os templos são locais de enorme peregrinação e onde os indivíduos permanecem, dormem, inclusive, nos templos. Eles vão em busca de iluminação, eles vão em busca da esperança do momento em que ela virá falar a eles. Ela se revela através dos sonhos, através das visões, e os sacerdotes estão lá para provocar isso.

É local que se pratica a magia no sentido amplo da palavra com ervas especiais para o adormecimento, para rituais muito próximos aos índios aqui do novo mundo com ervas que adormecem ou que tenham poderes alucinógenos nós não sabemos. Apesar que eu vi um artigo que acharam restos de cocaína numa múmia ou coisas desse tipo. Não sei até que ponto a gente pode levar a sério ou não esse tipo de coisa. Acho que era do aqui algo que estava indespecionado. Caiu do bolso dele. Caiu um pouquinho, provavelmente. Estas coisas não temos a menor menção. O que nós temos certeza, sem dúvida alguma, é que ervas muito especiais e rituais de encantamento, aliás, fórmulas mágicas é que não faltam. Tem paredes e paredes, mas paredes escritas para todo lado eram abertamente praticadas e a evocação, evidentemente, a evocação mágica de Ísis era muito importante.

Esperava-se a descida revelação e o caminho do iniciado era para isso. Os templos são um local de muito constante peregrinação, local onde se vai sempre para sair-se iluminado. A peregrinação tem sua função muito importante, evidentemente, mas a permanência no templo e a revelação é fundamental. A revelação vai desde a doença que você tem, e você haverá de encontrar a doença, é você que encontrará a doença, o que se manifesta em ti, o que pode ser mental ou o que pode ser espiritual, até o caminho a seguir na sua existência. Ela tem uma função, não chega a ser oracular, porque ela está muito mais próxima dos cerimoniais que foram herdados por Asclepio. ou seja, você é que deve encontrar dentro do teu sono, dentro do teu sonho, dentro do teu mistério, o caminho proposto por Isis para alcançar o mundo sutil.

O objetivo é este, porque muitas pessoas vão aos templos não por doenças, mas em busca deste caminho. Outras vão por doenças, sem dúvida alguma. Mas não é local nem para, se vai só, por exemplo, oráculo de Belfos, ia-se somente para buscar caminhos e etc. e tal. Em Pidauro, só em um doente, lá não se vai nenhuma coisa nem a outra, vão todos no encontro de si mesmo. E há, evidentemente, as práticas das ervas e as práticas da magia. Ela é, assim, o próprio Egito, medeia o passado primordial e o futuro secular e material. Está entre o sagrado e o profano. É manifestação de compaixão divina numa época de declínio. O seu caráter aqui messiânico fica, assim, absolutamente evidente. É isto. Ela é salvadora mesmo. Ela é muito próxima da ideia de Cristo salvador. Ela vem para salvar os homens numa época de declínio.

O caminho que ela propõe é um caminho ético. O caminho do mistério, quando está voltado à conservação e à criação, é o fundamento ético principal que, aliás, a tradição grega herdou com toda a sua força. É isto a proposta dela. Porque a salvação não está somente em ti para eles. Esse processo significa uma cumplicidade. Vocês lembram daquele conceito de Mahat que nós vimos logo no começo? É tua relação com o divino, é esta reciprocidade que determinará a tua salvação, se você quiser. Ou te tirará deste profano, te tirará deste declínio. Ela te abre estas portas, mas é você que há de encontrar. O passado primordial você sabe muito bem qual é? O passado primordial, o período em que os homens estavam ao lado dos deuses. Esta ideia do ouro alquímico, desse início, do paraíso que nós herdamos, é este passado primordial, que é todo o mito do dilúvio que nós já estudamos, é toda a chamada época pré-diluviana, que ficou assim convencionado.

É o período em que homens e deuses viviam ao lado do outro. E este grande dilúvio, essa história que nós temos inclusive na Bíblia, e que causou esta separação. Ísis é no céu o que o faraó é na terra. Ou seja, Ísis e Osíris são o casal sagrado que desce a terra para iluminar. O seu mandatário, o seu mensageiro é o faraó e a grande sacerdotisa de Ísis. Vocês sabem que só existiam duas figuras, na verdade a gente fala de faraó, etc., é o caso cerimonial, mas na realidade o poder eclesiástico no antigo Egito era dividido por um casal, literalmente dividido. E o poder eclesiástico no Egito não era exatamente um poder fraco, como a nossa igreja há cinco séculos atrás. Uma igreja como o papado, um poder extraordinário. Ou mais, eu diria, porque era um rei sacerdote. somente ele, o faraó e a grande sacerdotisa, podiam adentrar a sala interna dos templos onde estavam as estátuas sagradas.

Somente eles poderiam permanecer nesses locais. Em alguns templos era totalmente interdito a outros. E eles é que presidiam estes rituais. Hoje em dia, quando se fala em ética, não tem nenhuma conotação? Não, a filosofia moderna transformou a ética em uma discussão normativa, que está muito mais próxima do conceito do grego moderno de ethos, que é um estado de espírito. Você entra no estado de espírito de uma sociedade, etc. Chegamos aos absurdos da Margaret Mead, sexo é cultural. Lembra daquela frase famosa dela? A ética também entrou no relativismo cultural. Não tem nada a ver com esse conceito arcaico, da dignidade da existência, o verdadeiro caráter religioso do ético é quando você se torna cúmplice do Criador. Este é o pensamento que se encontra em todas as tradições arcaicas. A ética é esta.

Você é o participante da criação. Você ajuda a criação, a seu modo, você ajuda. Por isso que ela é conservacionista nesse sentido. Você, então, ajudará a conservar os vivos e os mortos. Isso na tradição egípcia é muito clara. O mesmo esforço que você consagra para conservar o morto, porque com isso você o ajuda, aí você consagra para o vivo. Exatamente igual. É aquilo que os gregos vão transformar depois, a dignidade de nascer, viver e morrer. Isso é ética. Isso é um conceito claramente herdado das tradições egípcias, aliás, também, todos os grandes iniciados se iniciaram no Egito. Este é o fundamento, tanto dos mistérios, mistérios como da questão ética. Não existem conotações morais de espécie alguma, mas também não existem conotações relativistas de maneira nenhuma. Conservar a vida não abre discussão sobre o...

Você conserva do seu jeito, eu conservo do meu. Você não pode colaborar com a morte. Você não pode impedir a criação. A tradição cristã arcaica tem muito disso. Eu acho, pessoalmente, que por detrás da questão do aborto tem muito dessa discussão. Nessas linhas que defendem a vida, eu acho que tem muito a ver ainda com esse pensamento original cristão. O uso político é outra conversa que se faz. Mas eu digo, nesse sentido da preservação da vida, vemos nos egípcios a preocupação de preservar todas as formas de vida. Todas, inclusive dos insetos. A divinização está por todos os lados, escala pelos poros. Em menor escala, os gregos também o fazem, principalmente no período arcaico. Essa divinização das florestas, dos animais, animais sagrados, de tudo, tudo é sacramentado, tem a ver com um ritual de conservação da vida, evidentemente.

Ou com rituais muito severos para a caça, para a morte, como eles fazem também. Tudo é severamente regrado. Você não pode dispor da vida. E essa é a diferença, também um dos grandes mal entendidos das nossas tradições posteriores, entre animais racionais e animais irracionais. Eu estou usando um termo péssimo. Porque não é racional a questão, a questão é do plano ético muito superior. O animal, se ele não pode pensar em dispor da vida, e ele caça cegamente, porque ele está morto de fome, e ele não pensa duas vezes, ele caça implacavelmente o filhote, é a lei do mais forte, é uma injustiça tremenda, bobiou o potrinho, é que vai ser comido, o leão não vai atacar o animal grande, vai atacar o menor. Qualquer deles vai fazer isso. O ser humano não compete fazer isso. A chamada racionalidade que nós herdamos cartesiana, na verdade, é um sentimento ético onde você conservará a vida.

Se você tiver que dispor da vida, você disporá daquele que não tem salvação, e não daquele que tem futuro. aliás, isso está enraizado dentro de nós. Por que ele não tem salvação? Porque ele está doente, porque ele não tem mais jeito, porque ele está fraco, porque ele está envelhecido, porque ele está mortalmente ferido, e etc. Mas você tem, existe uma ética de conservar a vida, a criança, primeiro crianças e velhos, os indefesos. Primeira coisa, se não é assim que você pensa, os mais fortes que enfrentem o perigo. O animal não pensa assim. É o mais fraco que vai se sujeitar ao perigo. Essa taruguinha, quando atravessa a praia, se não nasce, se não termina quem mora. Aí está a irmanação do homem com Ísis e Osiris, que é este símbolo. Quando você se irmana com Ísis, para usar a linguagem deles, você passa a defender a vida mais fraca.

Você passa a ser, a cumplicidade com a criação é essa, vai defender a criança. Muitas dessas coisas nós herdamos. Quando é que na hora do perigo nós pensaríamos eticamente? Coloca primeiro as crianças para ir na frente lá, que o bicho come e a gente se manda. Isso é a pior covardia possível. O mais forte enfrenta o maior perigo. A questão ética. O que tem por detrás dessa questão ética? O respeito à vida. A tentativa de conservá-la da maior maneira possível. O mais forte, que tem mais condições de sobrevivência, mais chances, enfrenta o maior perigo. O mais fraco será o protegido. O doente, o que machucou, o que você protege e põe na frente. Esta é a questão fundamental no momento e que nos separa dos animais e do homem. E isto nem sempre é respeitado. Os homens nunca fizeram as guerras contra os mais fortes ou em igualdade.

Comeram mais fraco e etc. Nesta separação está o fundamento ético principal, que é você salvaguardar e proteger ao máximo tudo o que representa a vida. É este o conúbio do homem com o Criador. Fica claro para vocês isso? Isso é um ponto capital de todo o pensamento. O pensamento mítico, arcaico, na verdade, ele é muito simples, mas muito difícil de ser seguido. As consequências práticas dele são muito fortes. Mas não são necessários anos e anos de meditação para se alcançar nada. O pensamento arcaico é que nos mistérios egípcios, com toda a sua complexidade, eu quero que notem isto, ele permitia o culto religioso do lado mais elevado ao mais simples camponês. Um camponês não tinha a menor noção dessas divindades, dessas complexidades todas que eu andei apresentando a vocês, mas ele sabia muito bem que deveria mumificar, que deveria conservar a vida, que deveria ser cúmplice.

Isso era o beapá do seu cotidiano. Esse aspecto é extremamente democrático, é universal. Totalmente universal o culto. Isto ele fazia no seu cotidiano porque a cada esquina ele tem um templo de Ísis. A cada lugar tem um sacerdote de Ísis. Em cada lugar tem um mago. No vídeo, aquele mago chama a serpente para tirá-la viva. Por quê? Porque ele não pode ir lá matá-la. Aquilo é um ritual muito arcaico. Ele não pode matar a serpente. De jeito nenhum. Não pode vir a pai fazer. É o mago que tem que tirá-la e tirá-la viva porque ele sabe que ele tem tanto direito quanto ela. Estão num lugar que não dá para os dois. Ele chama o mago que pega e leva. Ele põe na alcabaça e leva embora a serpente. Aquilo não entra na nossa cabeça.

Qualquer um de nós já iria direto, metia o cajado e arrebentava. E viram um local simplíssimo, humilde. Na modernidade, ainda sobrevive um costume milenar de ir lá mandar chamar para retirar porque ela tem direito a viver. Existe uma superioridade ética extraordinária. Esse é um mito que se conta de como Ísis ganhou os seus poderes. Dizem que Ísis escondeu uma flecha envenenada no caminho de Ra. Ra é a maior das divindades egípcias. É o deus Amon-Ra, que significa o sol, a luz. Não é o sol, mas é a energia. E ele é aquela divindade que não é nem masculina nem feminina, como lembram, que se divide em duas divindades. Depois, uma masculina e outra feminina. Diz o mito que ele tropeçou nesta flecha, ele caiu mortalmente envenenado.

Ísis só o revitalizou depois dele ter lhe revelado os verdadeiros nomes, ou seja, os grandes mistérios. Por isso ela se tornou a grande feiticeira. Essa, evidentemente, é uma alegoria que era contada para as crianças, que era contada para essa gente humilde para mostrar a força de Ísis, a força dos mistérios de Ísis, que até o sol doma. E a finalidade é mostrar justamente que ela tem os poderes da grande feiticeira. E a outra coisa, ela tem os verdadeiros nomes. Os verdadeiros nomes, sabemos bem o significado, ela toca a verdade. E isto já é a proposta do caminho de Ísis, não é de se espantar, sem dúvida alguma, que nenhum caminho pode ser feito sem o verbo divino, sem os nomes verdadeiros. Nenhum caminho pode ser proposto ao homem para um mundo sutil que não percorra a duras penas, com todo o esforço, o caminho da revelação da verdade.

Talvez a mais poderosa feitiçaria seja essa, a arte de encontrar a verdade. Esse era um mito muito popular, muito contado para o jovem da história da flecha de Ísis. Por isso que se dizia também que Rá falava através de Ísis, porque ele viu o seu poder e foi revitalizado por ela e é através dela que ele se manifesta. Ela é a sua enviada, por isso que nós dizemos que é o Cristo, a versão feminina do Cristo egípcio. É uma divindade extremamente popular, extremamente ao contrário de todas as casas, como nós encontramos Cristo em todas as casas, nós encontramos Ísis e é com ela que se fala. É ela que tem as feições humanas, é ela que compreende, é ela que tem compaixão, é ela que tem acesso. Ela tem as suas contrapartidas e o grande aspecto de contrapartida é Néftes, que dizem que na época primordial Néftes era um aspecto de Ísis, mas somente depois que houve o grande binúvio e que houve essa separação é que ela se tornou o contrário de Ísis.

Esse é um dos aspectos muito complexos da mitologia egípcia, mas Néftes é a sua parte imanifesta do reino sutil. Ísis seria a parte manifesta. Néftes é uma sombra de Ísis, por isso que ele é decadência e dissolução, porque ele representa a grande separação que se deu entre homens e deuses, entre bem e mal e assim por diante. A ideia do diabo para mim, a ideia do mal e etc., tem muitas derivações deste conceito. Eu não sei, mas acho que na tradição cristã também, a ideia do diabólico é originariamente divina. Também conta uma separação originária, também conta essa grande dissolução. Para mim, está claramente tirado dessa tradição egípcia, porque conta exatamente isso. Ísis e Néftes são um só. Há uma separação entre estas duas entidades e a partir daí que ela se torna a parte não manifesta, se torna a parte negra e etc., Néftes.

O sinal de Ísis é sótis, é a estrela cão, representa a subida do Nilo, que é o retorno na vida. Nós já falamos da representação da Páscoa egípcia, que é o Nilo, a subida do Nilo, o retorno, a vida, tudo isso representa Ísis. E os antigos egípcios identificavam na qual esta estrela. Uma estrela cão, que é uma estrela mítica, que representa a luz, a luz do firmamento. Na realidade, é isso. Por que cão? Cão em que sentido? Porque eles chamavam ela de estrela cão, davam-lhe a forma de um cão. Davam-lhe a forma de um cão por causa do seu símbolo de fidelidade, do seu símbolo de estar sempre junto, de estar sempre, jamais se separando. Mas tem alguma relação com alguma estrela? Não. Nunca soubemos. Porque cão, hoje em dia, imagina outra coisa. Porque nunca soubemos a identificação desse tipo de estrela.

O que nós sabemos é que ela é representada na forma de um cão iluminado, que é uma estrela que é chamada de sófis. Não há a menor indicação no texto, de onde essa estrela estaria. Seu companheiro é Hermanubis, importantes na tradição egípcia. Osiris, que já falamos e vamos voltar a falar dele, que é o seu consorte. E Seth e Tifon. Tifon é o consorte de Seth. Tifon é aquele titã que despedaçou Osiris. É irmão. Mas Tifon não casou com o Nefes? Sim, casou-se com ela, mas é uma identificação que se faz tanto de um ou de outro. Tanto Seth ou Tifon se faz desses titãs. E uma coisa muito interessante observarmos o nome Tifon na mitologia grega sobreviveu intacto. O gigante Tifon ou Tifoel foi aquele gerado por Gaia que tentou destruir Zeus na titanomaquia. Ele conseguiu dominar Zeus e arrancou-lhe os tendões. Ele ficou completamente sem forças nos pés e nos braços. Precisou Hermes ir lá em sua segunda versão homérica roubar dele os tendões que estavam escondidos e dar-los de volta a Zeus. Por isso que ele foi capaz de vencer o gigante Tifon que foi o único que seriamente ameaçou a grandeza olímpica. É muito interessante nós encontrarmos um nome que simplesmente não mudou com uma proximidade tão grande. O Siris vencido por Seth é encontrado por Hermanubis resgatado e restaurado por Isis. Seth ou Tifon é um nome que se dá. É a mesma personagem. Ele ora é chamado Tifon ora ele é chamado Seth. E ele é o marido de Néftis o consórcio de Néftis. Este cerimonial aqui que nós já vimos a restauração de Osiris é que será sempre celebrado representará pelas cheias do Nilo. As cheias do Nilo a volta à vida também queria dizer a restauração de Osiris. A vida voltou ela se unificou e se desfez. E havia um símbolo muito importante quando voltavam as secas e voltava o período desfazer-se de secar que seria o período do nosso inverno também se via simbolicamente como despedaçamento de Osiris. Então era a grande Isis que encontrava Osiris e o reunia. Então o Nilo transbordava de fertilidade e grandiosidade e trazia toda a fertilidade e toda a vida. E nesse momento os rituais da Páscoa que consagrava a proibição do ovo a proibição da caça todos os rituais voltados à conservação da vida eram celebrados. E no momento então que ele partia era Osiris que estava sendo despedaçado novamente então ia embora a fertilidade do Nilo as águas baixavam a terra secava e acabou-se a produção acabou-se a vida. Mais uma vez a vida tinha que ser conservada porque senão viria a penúria.

Tanto num como noutro celebravam-se somente nos momentos especiais de fartura, porque era o trigo, a cevada, essas coisas que evidentemente trazem uma vida. Mas quero que vocês vejam também uma alegoria muito simples e concreta do despedaçar de Osíris e do reunificar de Osíris num cerimonial comum, celebrado sempre, na verdade, na antiga tradição egípcia, por ocasião dos equinócios de março e setembro, que eram os dois famosos equinócios: um representando a volta à vida e outro o despedaçamento de Osíris. Essas eram duas festividades extremamente importantes, marcavam inclusive o início do ano para eles, a passagem do ano. Nós herdamos a tradição do primeiro equinócio, que chamamos de Páscoa. O seu símbolo é o cistro, um símbolo muito importante, chamado o chocalho sagrado. O chocalho é mais do que conhecido porque ele anuncia; ele serve como anunciação. Ele trazia três cordas ou hastes, que representavam os três mundos: o divino, o espiritual e o material, e trazia quatro guizos para os quatro elementos, que eram a vibração da matéria, porque os quatro guizos aí estão as bases de toda a tradição alquímica: terra, fogo, ar e água. Cada um tinha o seu guizo, quer dizer, cada elemento fala mais forte. A simbólica do guizo é muito conhecida, e os egípcios admiravam muito o guizo como forma de alerta, e assim ele era cultivado como forma de anunciação. Os cerimoniais egípcios, a gente sabe, eram sempre acompanhados por ritmações. O guizo não é um instrumento egípcio como musicalidade; certamente os árabes até hoje sabem tocar muito bem esses instrumentos, guizos, pandeiros etc. Tudo isso vem dessa origem, e eles entendiam que isto era o alerta, era o significado de anunciação. É muito interessante observarmos que este símbolo passou no trabalho de Hércules como chocalho de Atená, não sei se vocês se lembram, um trabalho onde é preciso ouvir os chocalhos e tem exatamente esse significado de alerta, alertar, ouvir. São os pássaros do lago Estínfalo, que são os pássaros da materialidade, aliás, são os pássaros antropófagos que te devoram se você não estiver alerta quanto à hora de cumprir o seu destino, e você corre o risco de voar errado. Isso que é o pior, voar errado, que é o terror, porque voar todo mundo quer, mas voar e quebrar a cara ninguém quer. Então o significado permanece muito igual. Não é de se espantar, visto que eu volto a insistir, todos os grandes iniciados onde é que eles iam buscar o seu provento se não nas tradições egípcias. O significado é que é o cistro, este é o chocalho sagrado, onde ele era passado no tempo, naqueles longos corretores, eles vinham os sacerdotes com o cistro de Ísis, com certos rituais, para alertar as pessoas para ouvir o seu som, que cada um, evidentemente, cada guizo tinha um som particular. Essas cordas também eram tocadas, é um ritual de musicalidade sagrada, evidentemente, infelizmente perdido. Nós não temos a menor noção como ele era realizado, apenas sabemos pela descrição: ela passa com o chocalho, toca o chocalho para não sei quem etc. Tem todo o cerimonial descrito como um ritual de magia muito bonito, inclusive onde todas aquelas pessoas nos templos que estavam aguardando para ouvir o som de Ísis. Esse é um cerimonial de revelação através desses sons, que eram, pelo que sabemos, bastante ritmados, e deviam ter aspectos de dança e principalmente de som melódico muito sistemático, deveria se levar o indivíduo a um determinado transe ou pelo menos a uma certa inspiração. O cistro é um instrumento por excelência utilizado nos rituais de Ísis, e é constante a sua utilização pelos sacerdotes. Eles passam e é com ele, é mais um aspecto importante da musicalidade da religião egípcia, da qual nós sabemos que é uma religião extremamente musical, todos os cerimoniais são musicados, e muito musicados, mas eu diria mais do que musicados, ritmados. E a gente vê na nossa tradição como sobreviveu a musicalidade em todos os rituais. Outro aspecto muito importante dos significados de Ísis, dos símbolos de Ísis, são as sagradas uraeus ou ureus. Ureus não são senão áspides, áspides são um tipo de serpente, são umas serpentes que são muito importantes nos rituais egípcios, e o símbolo delas são as áspides enrodilhadas. Elas significam Ísis envolvendo auxílios e vice-versa, significam a união dos contrários, a união dos sexos, a união do um encontro ao outro. E estas áspides enrodilhadas são depois transportadas para um símbolo muito conhecido de vocês, nós só trabalhamos muito o Caduceu, evidentemente o Caduceu como símbolo da iniciação e da magia. A serpente é o animal de Ísis por excelência, a áspide é o animal de Ísis por excelência. Quando vocês veem o faraó com aquela serpente aqui na cabeça, isso quer dizer luz de Ísis, e ele só poderia usar esta insígnia representando a grande iniciação. Depois a coisa decaiu, evidentemente, mas o faraó no começo da sua existência não usava esta serpente, que é exatamente uma áspide, aquela serpente que é acotadinha, isso que você vê claramente aqui representada. A máscara de Tutancâmon é perfeita, perfeita. Por que é um animal consagrado a Ísis e é o seu animal sagrado por excelência? Mistério terra, a serpente é a que está mais próxima da terra, ela adentra os mistérios da terra e ela sai dos mistérios da terra. Desafio todos nós andamos na terra e temos o desafio de nos erguermos, este é o principal aspecto. Por isso que ela está aqui em pé na cabeça do faraó, está em pé porque nós nascemos no chão se arrastando. É uma forma muito poética do Miserere Nobis, se vocês quiserem, todos nós nascemos arrastados, e aliás nós temos o risco de ficar lá embaixo mesmo. Mas este é o grande significado da elevação. Serpente é mistério e é um animal extremamente venerado no antigo Egito. É interessante a gente ver na nossa tradição como se tornou um animal perigoso e etc e etc, mas é claro que ele é, e é mesmo, e ao contrário, e o que fizeram é ao contrário da serpente no chão ou do catolicismo, que virou o símbolo completamente oposto. E uma coisa muito importante deve ser acrescentada: os rituais de encantamento com a serpente têm significado religioso muito importante. Os egípcios conheciam, não é só os hindus que fazem aquelas flautinhas lá, vocês veem isso no Marrocos, vocês veem todo lugar. Os egípcios conheciam perfeitamente bem os rituais de encantamento da serpente, lá vocês viram naquele filme que ele veio e põe a mão, e era extremamente importante para eles a arte de dominar a serpente. A arte de dominar a serpente significa a arte de dominar a elevação, tem a ver com o símbolo do genital novamente. Você dominar o instinto é estar irmanado a ele, não subjugado por ele, e muito menos reprimi-lo, mas essa é a irmanação muito importante. A serpente representa isso, e eu tenho certeza que é este o símbolo que aparece na Bíblia quando Moisés, na frente do faraó, toma o cajado e transforma em serpente e volta a transformar-se em cajado. Ele domina a serpente, ele é um grande iniciado, ele mostra com isso ao faraó a força da sua iniciação, que ele não está falando com qualquer um, porque o faraó tinha esse poder, mas ele está falando com alguém que tem o poder mais elevado da iniciação, que é o domínio da serpente. E aqui nós tocamos no ponto fundamental das iniciações, na iniciação de Jesus Sirius, o domínio da serpente com toda a representação que isso tinha. Dominar a serpente, dominar o instinto, mas que envolvia também esses rituais ginásticos extremamente importantes, encantatórios propriamente ditos. Você diria que essas pessoas que estão cantando serpente nas praças têm alguma coisa, ah, mas sem dúvida nós estamos tocando resquícios, é como a gente dizer também que a dança do reino e tal ainda tem o guardo, o significado mágico foi-se. Essas serpentes desmodelhadas, duas coisas: primeiro aquela coisa que eles dizem, claro que é isso, que os nossos meridianos aqui eles são enrodelhados, tem dois aqui nas costas, e eles são assim mesmo, é muito bem lembrado, aliás o DNA, muito bem lembrado, o DNA, pois é, muito bem lembrado. Então esse é um aspecto muito complexo e muito rico da mitologia egípcia, que é o culto da serpente, e que nós encontramos e que a gente entende esse significado na cabeça do faraó e todo o ritual voltado. Agora um pouco de história para vocês: Cleópatra, com quem que ela se matou? Lembrou, pegou a serpente. Isso não é exatamente um conto da carroxinha e nada assim, oh serpente. Cleópatra tem o pleno domínio da serpente, Cleópatra é uma grande sacerdotisa iniciada, é por iniciativa dela que a serpente ama. Por quê?

porque a serpente para os antigos egípcios tem o domínio da vida e da morte, e o homem, para provar que tem a maior iniciação, pode ter na mão a vida e a morte. Dominar a serpente é um ritual de encantamento e de elevação espiritual. Quando Cleópatra se entrega à serpente, é porque ela resolveu encerrar a sua existência com aquilo que lhe era mais rápido, mas ela não foi simplesmente tirou da caixa, puf, de veio; ela tem o domínio sobre ela. É que infelizmente os romanos não sabiam disso. O barco dourado de Rá é outro símbolo de Ísis; ela é caminho, ela é caminho que leva a Rá. Por isso o barco dourado de Rá é consagrado a Ísis também. Você lembra, Marilena, que nós num dos tempos vimos uma cópia do barco, está lá, ele está sempre presente. Você lembra do barco, tem uma cópia, até que a gente brigou com aqueles ingleses que queriam fotografar e tal; eles eram muito mal educados, entraram com aqueles flashes direto. Primeiro que é desagradável para as pessoas, depois uma falta de respeito. Então o barco é uma consagração a Ísis. O barco é caminho para os egípcios, é o caminho, o caminho de Hermes, é o barco de Rá, barco que leva, que te indicará isto é onde os mortos encontrarão a vida eterna. Não dá para chegar à vida eterna sem passar pelo barco de Ísis, que era a chamada primeira morte, que é este processo de ida e vinda de ressurreição. E a proa, finalmente, em forma de ganso, que leva à casa de Ísis. A forma de ganso, essa sinuosidade, é o caminho que te indica e está muito associado à elegância da cabeça, sinuosidade e a forma elevada que lembra a serpente. O sol brilha à meia-noite, que significa o quê? A iluminação de Ísis faz o sol brilhar à meia-noite, traz redenção ao sol divino. Quando o egoísmo é transcendido e quando o mundo sutil e denso se esvai, à meia-noite nada mais pode ser visto, é irresistível plenitude divina. Isso é um trecho retirado de um papiro que fala do que é encontrar este caminho, é como o sol brilhar à meia-noite. Lembre-se que nós estamos falando não da Noruega e nem da Suécia, nós estamos falando de um país que conhece o sol e não conhece alterações de calendários, não conhece sol de meia-noite, não conhece verão e inverno, é Equador. Essa simbólica é muito importante para eles. Que significa o quê?

Um brilho da interioridade, um brilho à meia-noite no topo da escuridão, haverá de brilhar quando vocês tiverem encontrado e vencido essa densidade do egoísmo. Força geradora, ela é também uma força geradora associada a ervas curativas e à medicina, ao crescimento da cevada e do trigo. Já falamos disso: as ervas que os sacerdotes dão nos templos são as ervas para sua iluminação, ligadas aos rituais da magia encantatória, e são também os cereais sagrados dela, como Deméter, que é trigo e cevada. Finalmente, o encontro entre os deuses e o mundo temporal. Por isso ela tem asas verdes e lua crescente como seus símbolos. Vocês sabem por que as asas são verdes? Não é porque é a cor da esperança; os egípcios não tinham essa simbólica. O verde é a fertilidade do Nilo, é o húmus das margens. Ela traz asas, às vezes traz fertilidade. A lua crescente dispensa comentários, um símbolo que sobreviveu até hoje para nós. Esses são os seus símbolos. Ela é chamada também de Ísis Pelagia, a "pitela rosa" em grego, que significa onda, porque ela é vista como Afrodite, pois sobre o oceano da temporalidade ela cavalga. Ela é divindade do amor. É muito importante vocês saberem que Ísis tem os significados atribuídos a Afrodite também grega, como divindade mais arcaica e divindade primordial. Ela congrega muito mais atributos do que as divisões que encontramos na tradição grega depois, onde as divindades são mais especializadas, vamos dizer assim. É sem tarefas, mas é progresso, é tecnologia. Visão divina do trabalho é ótimo. Era uma pérola daquelas. É a Meter, ou Deméter. "Meter" é útero, isso mesmo. Mitra ou Meter é útero em grego, é o útero do mundo. As áspides, portão da serpente, são seu símbolo de força vital, são a essência enrodilhada da própria vida. Aliás, como você acabou de mencionar, ou como falaram da própria formação genética, os mistérios rememoram pela repetição interior da criação do cósmico. Vale a pena sempre recordar que os mistérios serão reencontrados no interior do ser humano; não estão lá fora apenas, você pode encontrá-los aqui dentro. Isto, aliás, é a base de toda a postura contemplativa, meditativa, e do princípio hermético de que o microcósmico é idêntico ao macrocósmico. Todos os mistérios que estão lá fora estão aqui dentro também, dentro de ti, e você deverá reencontrá-los dentro de ti. Isto é uma provocação para a riqueza interior extraordinária. Isto é uma exigência para que a mesma curiosidade que te atiça e deve te atiçar a procurar lá fora deve te atiçar a procurar aqui dentro também. Procurar só lá fora é cair numa superficialidade total; procurar só aqui dentro é cair num delírio sem referências do mundo exterior e do conhecimento lógico lá fora. Bem, o mito, como vocês sabem, o princípio é que havia uma bem-aventurança, pura consciência, que era o que representava Ísis. A vaca Nut, que é adorada por eles, o boi sagrado que é adorado, não são senão símbolos de uma recordação. Eles são símbolos de abundância e nos recordam de uma época em que tudo foi pródigo, tudo foi rico, e não é mais assim. Eles são emblema da passagem da lei do ouro para a agricultura. A agricultura para os egípcios tem esse caráter sagrado de salvação; salvam o homem da penúria, da dificuldade. É tão parecido com o trabalho dos dias de exílio, em que os homens são expulsos, agora têm que trabalhar, ganhar com o suor do seu rosto, com toda a sua energia, etc. Por isso ela traz estes símbolos: chifre, lua crescente e dualidade, porque o chifre leva à dualidade, representa a força. Todos os símbolos que nós conhecemos: lua crescente, indiscutível, a dualidade dos chifres, o masculino e o feminino, a vida e a morte, etc. Ela traz ressurreição, cura, socorro, paixão, misericórdia; são os seus símbolos. Por isso ela é amiga dos homens, ela está junto. Aliás, isso aqui para mim é tão cristão, tão próximo da tradição arcaica cristã. É a mensageira que traz ressurreição, traz cura, traz socorro, traz compaixão, traz misericórdia, traz tudo aquilo que ajuda o homem nesta miséria aqui da terra. Então ela representa muito poderosamente essa ideia do amor, de trazer uma esperança para o homem. Só isto aqui já justifica a sua regularidade. É através de Ísis que você chega a Rá; é através de Cristo que você chega a Rá. Mas é exatamente esse mesmo símbolo, e é isso que ela representa, com a diferença de ser uma divindade feminina com um poder muito erótico, mas um poder erótico muito elevado. E é uma divindade feminina que tem o seu consorte masculino, e que são ambos consagrados. É muito rico sempre a gente ver como era nos tempos em que o feminino era divinizado. Sempre é interessante nós vermos isso e ver toda uma riqueza estrutural muito grande. Por isso que seus templos são lugares de sono e revelação. É local de sono, vai-se lá para se dormir; são os únicos templos em que é permitido isso no Egito. Uma das grandes bobagens que o século XX fez com o homem foi proibi-lo de ter esse contato com o seu inconsciente, o seu interior, pode chamar do nome que quiser. Nós não damos mais tempo ao homem para fazer isso. A carreira, o atropelo e a desvalorização, além disso, principalmente eu diria desvalorização, porque às vezes ele vai lá ficar no fim de semana na praia só olhando, ou bebendo, enchendo a cara. Quantas pessoas você não vê? Vão na praia e ficam caipirinha direto. É ok, eu acho ótimo você tomar uma caipirinha, mas três ou quatro te deixam simplesmente estúpido. E só faz isso. Você compreende, se ainda fosse um cerimonial: vamos tomar um vinho aguado aqui, vamos servir bolos, e vamos agora, como você falou. Nós não permitimos e nem valorizamos este cerimonial de uma viagem interior dividida, porque ela fica muito mais rica quando dividida. Você conta um pouco de si, conta um pouco de mim, ela dela, enfim, e nós enriquecemos. Não damos mais tempo para isso. Muito pouca gente frequenta isso. Eu frequento mesmo, é sábado à tarde, caipirinha, feijoada e depois caipirinha, ou sei lá, tudo junto. Como é que é? Frequentam. É isso mesmo. Não há uma prática cotidiana ou frequente destes cerimoniais que a Marisa estava recordando. Muito, muito poucas pessoas o fazem; aliás, consideram-se perda de tempo. Simplesmente a ideia é esta: é uma perda de tempo, roubagem. Fica muito difícil para nós compreendermos uma civilização totalmente voltada a isso e um cotidiano onde tudo está voltado a isso. Estamos com pressa. Nosso próximo encontro será Osíris, para finalizar esse nosso ciclo, e aí nós vamos tratar um pouquinho da segunda morte. Eu acho que sim, eu acho que ele procura se esforçar nesse sentido, com todos os seus exageros, que seja com os erros. O movimento tem essas coisas, mas também tem as coisas boas; depois ele se equilibra. Não acho que ele chegou a essa grandeza, não tem porque ele não tem característica religiosa, nada mais. Já damos graças a Deus que é um começo, porque sim, sobrevivência. Mas pelo menos eles estão ajudando a gente nisso. Está ajudando muito. Eu vejo com muito bons olhos, sem ecochatice. Sem o quê?

Ecochatice, o suporte é coxato, coxato também não, sem ecochatice que é sem essa. Eu acho isso revoltante, essas coisas de revolta. Eu realmente quero que os animais vivam, me choco com o maltrato, mas sinto que nossa responsabilidade ética começa pelo humano. Começa pelo primeiro. Você trata da porcaria em casa, depois você vai lá fora, porque deixa os animais em paz, que já estão uma grande coisa. Agora vem cuidar das crianças, que não dá para deixar a criança em paz. As crianças têm que cuidar, as crianças têm que tratar, velho tem que tratar, tem que ir em tratamento dos próprios da família. Eu sei, eu sei, a questão é educacional, a questão é ética, é gravíssima, estou de pleno acordo. Agora eu realmente acho que não pode pôr o carro na frente dos bois. Eu vejo gente que tem em casa 300 gatos, isso é chocante. Gatos não é muito bem na rua, como é que é? Até põe em casa duas crianças, você ganha mais. Isso me choca. Isso eu sou realmente contrário a esses movimentos. Para mim, são esse negócio de ver aquelas madames com não sei quantos cachorros e tal, que morrem de dó deles. Calma lá, e de repente nem veem o filho andando. Coisas desse tipo. Essas coisas eu acho chocantes. Existe um bom senso que a gente tem que tratar. Está muito cheio de gente abandonada por aí. Primeira coisa que você faz: tem menos filho e adota mais. Eu tiro o chapéu para essa gente. As pessoas para mim estão nesse padrão, nesse nível de cultuar a vida. Eles partem daqui com um quinhão de si próprio, com um quinhão de doação. Isso é vencer o egoísmo. Isso é a grandiosidade dessa pessoa. Realmente eu tiro o chapéu. Isso é o verdadeiro espírito religioso. Essas coisas, nosso século está muito decadente, decrépito. A beleza do estudo das religiões e dos mitos antigos é que nós acabamos encontrando uma linguagem universal em todas essas religiões. Todas essas mitologias têm um conteúdo universal que sempre coincide. Vocês já repararam? Sempre coincide, com diversas maneiras, com diversas nuances, sempre esta mensagem: a cumplicidade com a vida, com a criação. Eu acho que isso aparece transparente em todos. Essa cobrança e propostas, cada um com a sua proposta. Aí eu acho que entram as diversas religiões. Cada um se identifica com uma proposta, mas o caminho final acaba sendo idêntico. Todas elas pregam isso, são todas. Você não conhece nada que pelo menos a tradição oriental, a tradição egípcia, a tradição grega, que são as tradições arcaicas propriamente ditas, todas elas conhecidas. A própria tradição judaico-cristã na sua essência é isto, se a gente tirar todas as parafernálias que fizeram com ela. Nossa. Acho que eu vejo nos pontos fundamentais o princípio. A grande novidade para nós que nos desperta é o princípio da iniciação. A beleza do estudo das tradições antigas, que se perdeu muito nas tradições modernas, é como iniciar-se, como encontrar caminhos para abrir estas portas. E o mais importante é de si mesmo. Não precisa fazer teologia, faculdade, não precisa fazer aquilo. Quem quiser que faça. Mas a iniciação está dentro de ti, a verdade está dentro de ti, a enganação também está dentro de ti. É lá que você vai buscar esse nome verdadeiro, que a gente estava vendo aí no começo. É lá que você vai encontrar. Não precisa de grandes pesquisas, grandes demonstrações experimentais ou grandes revelações. Mas aqui dentro está este compromisso com o divino, está dentro de nós. Vamos andar em outro lugar. Isso nos abre uma porta muito humilde, mas muito implacável também. É nós conosco. A primeira coisa que se desperta no indivíduo é o seu verdadeiro nome. Primeira coisa que se despertava na paideia antiga era o seu verdadeiro nome. Qual é o seu verdadeiro nome? A criança já te responde o que ela quer ser quando crescer. Só que você não vai contar para ela do bombeiro, nem do Jack, sei lá, do Rock. Quando você conta para ela os mitos, ela imediatamente se apaixona pelos personagens, e isto é o que abre a rolha do interior. Isso é o que desenrola. É isso. Nossa, ai, eu quero ser como o Hércules quando ele venceu não sei quem. Ai, eu quero ser o Perseu cortando a medusa. Essas coisas tão infantis estão dentro de Deus. Mas, com isso, você vai lentamente desembrulhando a sua verdade. O verdadeiro nome é uma pesquisa do seu ser verdadeiro. No lugar de você dizer: 'que bobado, esse menino é bobo, esse menino está fantasiando coisa'. Imagina que ela vai ser a Atena, não sei o quê, etc. A Eurídice, quando você... No entanto, ela estimula, lhe dá este segredo. Lhe dá meios dela cultivar. Você está construindo lentamente o seu verdadeiro nome. Você está desabrochando os talentos dela, os talentos dele, de cada um. Esta é a arte do despertar, o segredo de cada um. Mas só que você tem que ter símbolos elevados, você tem que ter uma paideia de verdade, uma ética verdadeira em cada personagem. Se eu te apresentar: 'ah, você vai ser a Cláudia Alice', ele vai ser o Rock, não sei o quê. Nós estamos lotados desses símbolos.

os anti-heróis os heróis os heróis são heróis massacrantes você vai ser o que vai ter Mercedes você vai ser e vai daí pra fora agora não posso cair num moralismo de esquina dizer que coisa feia vamos ter coisas bonitas a menina santa e maravilhosa ninguém vai entrar nessa o herói tem que ser produto de paixão o espírito de cultivo de admiração e de paixão é inato no ser humano ele vai buscar onde tiver se o modelo for esse eu vou atrás o meu espado sai pelo loft e me atira embaixo esse é o modelo que eu tinha essa é a grande irresponsabilidade da educação porque o lugar de ela acordar e despertar ela fica ensinando ênclise mesóclise o ouvinte o de abril de 1500 e essas pasparices inacreditáveis teorema de Pitágoras e etc no lugar dela despertar e valores éticos sociais ridículos no lugar dela despertar sobre sua responsabilidade ética com relação ao homem sua responsabilidade formativa de dar-lhe os meios de cumprir o seu destino e querer fazê-lo engolir abaixo um monte de bobagens que a gente nunca vai mais usar eu que pode aprender em qualquer instante com qualquer rede da internet por aí hoje pra mim encaça as coisas puxa a internet aí você aprende aritmética faz o que você quiser imagina a escola tornou-se peça de museu no pior sentido que essa expressão possa ter anacrônica burra fora de realidade e motivo de chacota ainda por cima e pra terminar o pior de tudo deformadora de caráter toda safadeza e malandona você aprende aonde?

lá na escola eu me lembro perfeitamente bem lá que eu aprendi a mentir lá que eu aprendi a enganar lá que eu aprendi a colar tudo que você puder imaginar pra mim na escola rapidinho eu tô contando os contos de fada pra aquelas crianças pras mais velhas tem que ser o Beatles onde é que eu vou? vou no Monteiro Lobato o Monteiro Lobato é um excelente lugar pra começo nosso é uma beleza uma bela fonte pras crianças Monteiro Lobato é uma das coisas que é um choque pra mim é um país raro como o Brasil que tem o Monteiro Lobato que não usam na escola isso é uma vergonha isso é uma vergonha é um escândalo a linguagem dele é doce é brincalhona ela é eterna ela é universal há 50 anos atrás é igual a de hoje a criança se fascina do mesmo jeito e não usa eu não acredito não acredito que não usam é esse manancial precioso tem coisas maravilhosas ela achava o tamanho um dos estudos mais maravilhosos que tem da temporalidade do crescimento da criança dois trabalhos de Hércules reinações de narizinhos não é uma coisa tão bonita ensina como ser moleque sem ser o moleque no sentido ruim da expressão mas ele glorifica a alegria de viver ele glorifica a sapecagem é traquinagem imagina criança que não é sapeca não é sadia tem que ser traquinas mesmo tem coisas preciosas mas precisa estar na mão de um educador


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PALESTRA 6 — O CULTO DE ISIS E OSÍRIS — AULA 2
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Universidade Falada. Conhecimento à velocidade de um clique. A Universidade Falada apresenta o audiolivro. O culto de Isis e Osíris, aula 2. De autoria de Victor de Salis. Victor formou-se em psicologia. Completou um doutorado em 1977 com Jean Piaget na Suíça. E o outro a seguir com Igor Caruso, na Universidade de Salzburgo, na Áustria. Dedicou-se cada vez mais ao estudo das tradições e mitos das antigas civilizações. Victor é autor de inúmeros livros sobre o tema. Nós vamos falar sobre Osíris, hoje complementando o mito de Isis e Osíris. Acho que ficou bem claro para vocês em nosso último encontro o significado de a santificação do feminino. A deificação do feminino, talvez de modo mais exato podemos dizer, quando nós vimos Isis. Algo perdido na nossa tradição, como a gente sempre insiste, na medida em que as nossas divindades estão devidamente despidas desse caráter, não apenas feminino ou ostensivo.

As nossas divindades estão despidas de erotismo. Isso é muito importante de se compreender. Não se trata exatamente de entrarmos na discussão, mas é uma divindade que a gente vê na Bíblia e que ela não é nem masculino, nem feminino, nem nada. Não tem muita importância esse aspecto. Mesmo que a gente prescinda da masculinização do nosso Deus, da tradição judaica e cristã, as nossas divindades não são eróticas. Podemos dizer que, aliás, a divinização se caracteriza exatamente pela sua dessexualização. Isso é muito importante de se compreender. O feminino e a sexualidade e o erotismo são temas intrínsecos no pensamento arcaico. Não é possível pensar o feminino sem erotismo. Nós conseguimos fazê-lo, porque nós o quisemos. E nós santificamos o feminino na exata medida em que ele ou anulou ou escondeu o seu erotismo.

Tanto é que o modo de condenar o feminino está justamente em tornar público ou tornar ostensiva o seu erotismo e a sua sexualidade. Isso é uma marca da nossa cultura generalizada. O masculino pode e deve exibir o seu erotismo e a sua sexualidade, eu diria mais. Aliás, no dizer de Freud, ele deve exibir a sua genitália. Tanto é que os gestos obscenos masculinos de exibição da genitália são infrequentes nas culturas e muito conhecidos. Os gestos obscenos de exibição, de demonstração de força e etc. Não existe nada parecido de exibição da genitália, por exemplo, mesmo em termos de obscenidade, do feminino. O máximo que nós podemos conceber é o famoso striptease, que é uma encenação prostituída e uma exibição de venda do feminino. Jamais a erotização do feminino ganha características sagradas.

Como nós vemos na estátua de... Não tenho mais estatueta, já vendi, mas eu poderia mostrar. Enfim, a Vênus de Milo. O erotismo deslumbrante dela. Vocês lembram da Vênus de Milo? Quem não sabe? A estátua mais conhecida, talvez, na face da Terra. Onde ela está, em primeiro lugar, na cintura para cima, nua. E mesmo aqui, quase se vê a públis. E ela discretamente põe a mão numa sugestão para levantar. Não existe sugestão mais erótica. A própria postura, a sensualidade, quase que de serpente. A estátua tem um movimento de serpente. Esse movimento sugere... Transborda erotismo por todos os lados. Estamos falando de uma deusa. Comparem a figura dela com a Virgem Maria. Só para vocês terem uma ideia do que nós estamos distinguindo nesse sentido. Mesmo as figuras masculinas são erotizadas.

Vejam Hermes, todas as divindades, o Poseidão, como ele está, ou Zeus. Aquela postura, naquela beleza do seu nu. O que está em jogo é a sacramentação do erotismo. Tanto na figura do feminino quanto do masculino. Mas, particularmente, no feminino. Terra fecunda, a capacidade de espalhar com o amor, são aspectos divinizados. Enquanto que, na nossa cultura, esta capacidade deve ser controlada, ela deve ser retirada e ela deve ser devidamente retirada como função primordial do exercício do sagrado e do religioso. O Michel Maffessori tem estudos maravilhosos. E um deles, que eu recomendo muito, o livro dele é a Dinâmica da Violência. Onde ele nos mostra, a meu ver, de modo muito brilhante, de que grande parte da violência da sociedade ocidental tem a ver com esta incapacidade de lidar com este erotismo e a transformação dele num aspecto violento.

De todo modo, Osiris é o masculino também erotizado. Mas não só erotizado, erotizado em função de um feminino que tem esse caráter erótico. E, tendo este caráter erótico, este masculino, ele tem uma característica muito importante. Ele se despedaça e renasce. Isso nos leva a uma reflexão sobre a natureza do erótico masculino, que é diferente para o nosso pensamento ocidental e é diferente para o pensamento arcaico. O feminino erótico, ele é infinitamente fecundo. As pessoas já perceberam isso. Ela volta, ela retorna sempre. E, cada vez que ela retorna, ela, tudo que toca, multiplica. Essa é a energia de Isis. Isis toca a Terra, ela fecunda a Terra, ela fecunda o Nilo, ela fecunda tudo. E o seu símbolo, ela é guardiã do ovo cósmico. Ou seja, representa a fecundidade infinita. O síris é a fecundidade que tentaram os titãs destruir.

Ele tem um aspecto muito importante que passa para a nossa tradição, que é do bode expiatório, em primeiro lugar. Sem ter culpa de nada, vendendo toda a bondade e toda a busca da expansão da religião e do sentimento. Ele é despedaçado pelos titãs. São as forças titânicas que vêm e destroem a busca da harmonia e da criação dele. O masculino está aí associado com esforço criador e despedaçamento. Esse despedaçamento representa, além disso, um despedaçamento injusto. Toca numa questão ética, sem dúvida alguma. Toca na eterna questão ética, que justamente a pessoa mais bondosa é uma questão muito cristã, inclusive. A mais bondosa, a mais merecedora é aquela que é despedaçada e desfeita. Essa é a história de Osíris. É idêntica à história de Cristo, milhares de anos mais tarde, o que menos merece é o que mais despedaçado.

E o ritual todo em torno do qual se acerca Osíris é o ritual de juntar as partes, de fazer com que ele ressuscite pelo reajuntamento das partes. Nós temos aí a morte injusta. Ele é despedaçado pelos titãs. A extrema bondade, sem saber por que, é destruída. Ele é despedaçado, ele é reunido por Ísis. E esta reunião resulta no milagre da renascença, no milagre da ressurreição. Porque a religião egípcia, como sabemos, e neste ritual de Osíris fica muito evidente, é uma religião de voltar a viver. Você morre e poderá voltar a viver. Todos os mistérios serão este exercício. O tema de Osíris nos coloca à frente a uma dificuldade, por exemplo. Ele despedaçado, qual é a arte? A primeira, para juntar as partes. Para fazer com que estas partes possam voltar a viver. Este é o primeiro desafio dos mistérios que é proposto a nós.

O caminho de Osíris será, evidentemente, paradigmas. O caminho de Osíris será ensinamento para nós. Nós deveremos ir buscar. Há esta forma de se reunir estas partes perdidas. Mas há uma outra questão muito importante. Osíris é espalhado por todos os lados. Vocês lembram do mito? Ele é despedaçado pelos titãs. E Isis corre por os quatro cantos da Terra para buscar os seus pedaços, juntá-los. Até que falta um único pedaço. A questão do erótico, que é o seu genital. E ela não o encontra. O seu genital é o símbolo que se espalhou pela Terra, a secundidade. Ela faz um simulacro de madeira. E, assim, ela completa a múmia. O ritual da múmia é o ritual do rejuntamento de Osíris. Muito importante isso. Todos os rituais da mumificação são consagrados aos Osíris. Por que isto? Porque, da mesma maneira que ela juntou os pedaços para conservar, para poder trazer o renascimento, nós conservaremos este corpo como unidade provisória desta alma, para que ela possa continuar.

Está aí toda uma metafísica da forma, se vocês quiserem. Por que a metafísica da forma? Porque nós não temos outra maneira concebível no nosso mundo, inteligível, inteligível de identificar a evolução de cada ser humano. É pela forma. E não é pela máfia. Eu percebo que ela tem uma forma humana. Eu posso, a partir desta forma, medir o seu grau de evolução, dizendo quanto ela merece esta forma humana. Ou medir o seu grau de não merecimento. O mesmo conceito nós encontraremos nos gregos, quando eles falam da sombra. O corpo vai embora e fica a forma pura. Vocês lembram? Quando desce no Hades, o corpo é enterrado. Fica a forma pura. Vocês vão dizer, mas os egípcios fazem o justo contrário. Eles guardam o corpo. Não guardam o corpo. O que eles guardam é a forma. Se eles guardassem o corpo, eles estariam todos voltados a uma conservação de todos os aspectos de cada um.

Não. O que está em jogo é que a forma se conserve, a identidade. Por quê? Porque esta forma revela a essência. Revela a capacidade do indivíduo a atingir o de evolução. Revela uma historicidade. Um grau relativo de evolução. E é isso. Mas como é que é? A forma revela o grau... Um grau relativo de evolução da sua história para eles. A forma que você tem. Você tem a forma humana porque você atingiu uma determinada evolução. Você tem esta forma como mulher porque você atingiu um grau relativo de evolução. É por isso que o Ká fica lá te olhando. Esse é o estado. As distinções entre várias formas entre animais e espécies diferentes. Perfeitamente. São graus diferentes de evolução. Graus diferentes de evolução que temos. E é interessante que a gente sem querer às vezes até brinca com o indivíduo.

A gente até brinca em termos de ver na forma determinados graus de evolução. Mas para eles não existe isso. Existe simplesmente a evolução individual relatada numa forma. E esta forma deve ser a garantia da continuidade. Este é o aspecto. O outro aspecto da múmia muito importante é voltar à conservação da múmia. É recapitular os exercícios da eternidade. O homem deve exercitar a conservação de tal maneira que um dia ele possa, através dos rituais de conservação, e esses rituais são religiosos, ele possa aproximar-se do ideal de eterno. A civilização egípcia é toda voltada à conservação e à eternização. Desde a múmia até a pirâmide, nós vemos o mesmo conceito fundamental. Repetir o que os deuses fazem. O que os deuses fazem que tanto nos assombra? Coisas eternas. Compete ao homem imitar Deus, semelhante a Deus.

A pirâmide realmente atingiu. Eles atingiram esses objetivos. Eles atingiram. A pirâmide desafiou os milênios. As múmias desafiaram os milênios. Nos deram formas que sobreviveram aos milênios. Caso praticamente único na história da humanidade. E agiram não só de caso pensado, de religião pensada e de toda uma dedicação voltada em imitar o divino. Osiris é este mito. É aquele que vai contra a conservação. Contra em termos. É na metáfora. É aquele que é despedaçado. E todo o esforço religioso do homem é uma busca da reunificação de Osiris. Se vocês pensarem bem, é tão bonito, isso é uma beleza, porque agora é a coisa mais tocante, que é você redescobrir dentro de si o seu Osiris. A luta que cada um transporta dentro de si, a luta que cada ser humano tem, lúcido, o que é? É evitar o despedaçamento de Osiris dentro de si mesmo.

O despedaçamento que significa desde a destruição daquilo que ele ama e de si próprio, de poder criar a sua própria vida e a sua própria obra, de modo que ela, não no sentido material, não no sentido criador, que ela possa transcender os milênios. Vocês estão vendo aqui o mito do herói contado de um outro modo, muito belo, mas que retrata a luta do despedaçamento que todo ser humano haverá de enfrentar. Você falou em evitar o despedaçamento. Você não tem que passar por ele. Você tem que passar por ele. Não. Você tem que dominá-lo, porque a criação é o que é? Você se entrega ao despedaçamento e o refaz. Você vai imitar a história de Ísis e Eucíris. Aliás, não só quer queira, quer não. Quantos de nós não somos despedaçados e depois nos refazemos e nos reunificamos.

Mas o teu grande desafio, qual é? Ao longo da jornada quando nós chegaremos à segunda morte. E é você transcender o despedaçamento e atingir a eternidade. A tua condição, a minha condição, enquanto mortais, é despedaçar-se, rejuntar-se e evoluir e renascer. Despedaçar-se, rejuntar-se, evoluir e renascer. Este é o mito da ressurreição que habita você, habita a mim, habita a todos constantemente. A tudo. Não é só o homem. Não, nós estamos falando do cósmico, portanto, se não fosse só nós, eles não fariam a mumificação dos animais, glorificariam a natureza e não respeitariam todo o ciclo dela também. Eles têm que fazê-la por todos os lados. Aliás, isto justifica toda a visão religiosa e respeitosa da natureza que os egípcios têm. Eles não se consideram algo à parte, eles são parte integrante deste processo.

Existe uma força destruidora permanente que tem que ser combatida. Sem dúvida, são os titãs da noite, os irmãos de Ísis e Ossíris, que são os vícios. Perfeitamente. São os irmãos de Ísis e Ossíris, Seth e Néftes, que nos tempos primordiais estavam unidos. Nós não estamos mais nos tempos primordiais. Você pode chamá-los de vícios, da entrega, da selvageria. Por que o tema do bode expiatório entra em cheio? Porque justamente ele, em toda a bondade de sua alma, é o que é despedaçado. Aquilo da Pai Deg, você precisa educar os vícios, não é educar esse lado? Sem dúvida. Se você não puder vencer e estar ao lado, você nunca poderá chegar àquilo que eles chamam de lugar santo. O lugar santo, por um pensamento egípcio, não é exatamente o templo que você vai e ora.

Sim, ele é. Os únicos templos abertos ao povo são os templos de Ísis e Ossíris. Os demais templos não são abertos, como todas as tradições arcaicas. O lugar santo, portanto, não é o templo, porque é inacessível e intocável para o homem comum. O lugar santo é ele próprio. Este local que Platão nos conta, chamado Raqba, é chamado também de razão divina. Ou seja, a iluminação interior que toca você e te coloca em harmonia para evitar o despedaçamento de sua alma. Cada um de nós sabe perfeitamente bem quando está se despedaçando e quando está se reunificando. Também não é uma coisa irracional, é razão, é o justo que lhe cabe, porque é diverso, mas cada um tem e pode encontrar e deve encontrar a sua razão divina. Exatamente.

Sim, diga, por favor. São Paulo, esse despedaçamento é da alma. Tem a ver, quando a sua alma vai, quando você morre para depois voltar? Sim, em primeiro lugar não é só da alma. O corpo também se despedaça. As ideias de saúde do pensamento arcaico estão muito ligadas a isso. Eles não têm essa separação de corpo e alma como nós temos. É muito importante se compreender isso. Eles têm a noção de corpo e de alma, porém, para eles, o corpo reflete com muito mais força a alma do que para nós. O corpo é uma entidade que o reflete como tal, de maneira que o cultivar do corpo fará o aperfeiçoamento da alma. Isso, às vezes, tem contas especificais em Platão. A educação do corpo não é outra senão o aperfeiçoamento da alma. A educação do instinto. Para que você educa os instintos? Para que você aperfeiçoe a alma. Para que você educa o chute? Para que você educa a voz que berra? Para aperfeiçoar a alma. Então, aperfeiçoar o corpo é uma forma de atingir o exercício físico. Desde o futebol até os exercícios mais elevados contemplativos, do yoga, são aperfeiçoamentos da alma também. Ou seja, através do corpo você chega na alma. Através da alma você chega no corpo. O que significa através da alma você chega no corpo? Através da sua intenção, da busca da virtude. Como ela diz, você evita que o seu corpo torne-se violento, que você destrua o outro. Você reflete, você usa o seu corpo de maneira elevada. Então, para eles, isso também reflete naqueles níveis, evidentemente. Porque a sua alma verá carregada e contará a história. A sua psique verá contará a história da sua evolução pessoal.

A razão divina, na verdade, é uma medida que você deve encontrar para saber quais são os seus lugares santos. O que quer dizer quais são os seus lugares santos? Voltamos àquele tema. Compete a você encontrar o lugar em que você vibra bem, o modo em que você vibra bem de vida, o ritmo em que você vibra bem. Aqueles que permitem que você possa estar em contato pleno com o cerimonial de Isis e Osiris. Você, trocado em miúdos, não pode compreender o cerimonial de Osiris, o despedaçamento necessário e do renascimento da sua evolução, se você estiver nervosa, tensa, arrasada, apressada ou desesperada. Não pode compreender isso. Até porque você está praticando um despedaçamento totalmente desnecessário em todos esses estados. Somente o indivíduo numa harmonia adequada que tenha razão divina presente, não quer dizer que a harmonia adequada não lhe imponha sacrifícios, não lhe imponha esforços extraordinários, claro que sim.

Mas ele sabe o sentido e a razão disso. Ele sabe o que é em vão e o que não é. Então ele pode enfrentar o despedaçamento necessário para o desabrochar de uma nova metamorfose. Caso contrário, o teu despedaçamento será em vão. Aquele que corre, que se atropela, vai cair aos pedaços. Ele vai se despedaçar adoecendo ou angustiando-se, etc. Aquele que, no entanto, se esforça e ele há de metamorfosear sendo um outro nível. A grande chave da razão divina reside exatamente aí. O único responsável por esta operação de despedaçamento é você mesmo. É você que sabe como deverá operar essa transformação dentro de si. E a gente sabe que deve isso. A gente sabe perfeitamente bem, seja nos ciclos da nossa existência, seja nos momentos da transformação nossa, enfim, existem os momentos certos. E a gente sabe perfeitamente bem quando o despedaçamento foi desperdiçado, quando foi um sacrifício em vão, quando foi realmente uma luta que nos arrasou e nos escangalou.

A razão divina para o culto de Osiris reside exatamente aí para o início dos mistérios. Trata-se de mistérios onde o sacrifício é necessário, mas não pode ser sacrifício vão e você precisa conhecer em primeiro lugar aqueles sacrifícios que farão de você um verdadeiro bode expiatório ou que farão de você um tolo de despedaçamento inútil. Como dizer de Hermes, vão e inútil. Uma coisa tola e inútil. E basta a gente fazer um rápido retrocesso na nossa vida que a gente sabe perfeitamente bem disso. Quantas e quantas vezes não fizemos desperdições e quantas e quantas vezes não foi necessário. Os cultos de Osiris, portanto, eles iniciam-se nessa sacramentação. São uma recapitulação da volta ao lar. O lar que nós estamos falando é ao lado de Deus, obviamente. E o tema é idêntico. A gente sabe que o esforço e o sacrifício do indivíduo o aproxima do divino e a gente sabe quando esse esforço o afasta do divino.

E é uma outra boa medida que serve para a nossa modernidade, inclusive. Sabemos perfeitamente bem quantos esforços nossos têm sido tolos ou quando têm sido desnecessários ou quando temos afastado, diremos de outra maneira. Certos sacrifícios nos embrutecem e nos endurecem perante a vida. Outros educam nossa alma, amaciam o nosso ser e nos preparam melhor. E aqui ele nos dá a famosa fórmula Ísis e Osíris são um em dois. São água em dois potes, dois em um, o um é dois. E agora ficou mais do que claro, porque representam o lado reverso de ambas as moedas, evidentemente. Você realiza o despedaçamento de Osíris para quê? Para encontrar a frequência de Ísis. E a frequência de Ísis é voltada ao quê? Ao despedaçamento de Osíris. Vocês sabem qual é o princípio que está aí na natureza? O princípio da semente.

E frequentemente nas casas humildes, uma semente brotando era a representação de Ísis e Osíris. E é uma representação bonita e simples, porque realmente para nascer precisa despedaçar. Não tem motivo mais bonito a gente ver a semente despedaçada, mas é graças a esse despedaçamento que é possível uma nova vida. Aqui nós vemos na semente, frequentemente em muitos desenhos de paredes e hierógrafos representados, este milagre, este milagre que depois já vamos atribuir a Deméter, e vamos atribuir a tantas e tantas coisas, o milagre da vida, que é para... precisa despedaçar, para nascer. É envelhecer e o nascer. É o cortar em pedaços, mas esse cortar em pedaços ele recria. Isto é, então, a iniciação que leva à segunda visão. A compreensão desta iniciação é que nos leva à segunda visão, não é a terceira visão.

Não é a terceira visão iluminação divina, vocês estão lembrados. O iniciado está marcado por Serápis, é o nome comum daqueles que modificarem sua natureza. A união de Osíris e Ápis será Serápis. Ele será Sol na Terra e Ísis é a Lua na Terra. Um aspecto importante aqui de se ver, o nome comum daqueles que modificarem sua natureza. E realmente, aqui está o grande desafio proposto aos homens, talvez o maior de todos, modificar sua natureza. Isso não quer dizer modificar a natureza que eu vou virar da água para o vinho. Mas vocês estão entendendo que aqui é um recado muito claro. O homem que realmente quer iniciar, em primeiro lugar, ele luta contra a sua natureza. Qual é a primeira luta que a nossa natureza nos propõe? Sócrates foi brilhante nisso? Os guiços, é claro. A nossa natureza é danada para nos impor limitações e nos impor até pelo próprio grau de evolução que nós chegamos à Terra, nós chegamos com uma série de vícios, com uma série de limitações aos quais não será possível pensar em iniciação sem uma luta constante com relação a isso.

E a história da humanidade tem provado isso com grande brilho. Estes vícios têm se tornado sempre o grande desafio do alto. Mas, não há possibilidade de iniciação sem encontrar o lugar, sem a consciência desses processos de despedaçamento e reunificação e que isto levará necessariamente a uma modificação da natureza. É inseguro, sim, mas essas religiões não propõem uma forma segura de viver, nenhuma delas. Vocês já repararam que nenhuma das grandes religiões propõe segurança para viver? Todas elas propõem um certo desafio e uma insegurança, uma renovação constante. Aqui tem algumas frases famosas encontradas nas paredes em inscrições hieroglíficas sobre a natureza de Osiris e Inus. Osiris é o centro, Isis é a sua força, Osiris é juiz que não julga, fala o ser juiz de si mesmo, Osiris é a luz divina na forma de conhecimento, Osiris não é liberdade eterna, mas transitória.

Aqui está o aspecto mais importante dos demais que complementam. Todos nós queremos liberdade eterna é um sonho de todos nós podermos não conhecer a ameaça da morte, a ameaça do cansaço, da doença, da fome, todas essas coisas que limitam a nossa condição de mortais. A grande reflexão sobre a eternidade inicia-se pelo óbvio, o óbvio que é, o óbvio que eu tenho uma energia limitada. Posso eu ter 18 anos ou 60, os 18 menos, aos 60 mais, mais, a energia é limitada. Eu não posso sonhar com uma energia ilimitada. Eu tenho não só limites, eu tenho doenças, eu tenho limites físicos, físicos de possibilidades. Tudo isto me faz sonhar com uma libertação de todos estes limites. Na verdade, nosso caminho e nossa grande paideia é uma libertação. Toda a iniciação verdadeira, toda a educação no sentido arcaico era um caminho da libertação.

O conhecimento é uma libertação, o mais óbvio de todos. A ética, a sabedoria, a compreensão da existência, tudo isto são libertações. Mas, há uma questão fundamental que devemos compreender que é a nossa condição imortal. Osiris não promete libertação eterna. o tigo, você irá para o céu, será um anjinho para sempre. Não esqueça, não tem essa promessa deliciosa. Mas, ela é transitória. Osiris é uma libertação na Terra. Por quê? Porque ele te dá a luz. Osiris representa, talvez, é a maneira egípcia de representar a sabedoria helênica. Aquilo que Platão insistia em dizer, o homem não tem o direito de permanecer ignorante. Ele, evidentemente, falava com o iniciado nos mistérios ilícitos. Esta iluminação, que inclui o conhecimento, evidentemente, que abrirá as portas da libertação do homem, mas o seu uso mais adequado.

Osiris poderá, o homem poderá, aliás, em vida, e depois da morte, reconhecer a luz que é sua essência. E só assim, o terá o relacimento. Somente os gregos, e aí nós vemos uma clara evolução do pensamento egípcio, haverão de anexar a questão do destino a uma questão da escolha. Somente no pensamento grego nós encontraremos esta reflexão. para o pensamento egípcio, a questão da escolha aparece sempre como irrelevante. A única escolha que o homem tem é seguir os deuses ou abandoná-los. Nisso, pontos gregos também refletem, mas, para eles, é tão impensável que eles sequer, nós sequer encontramos textos ou reflexões sobre o homem que abandonou os deuses. São um povo extremamente religioso e mítico. Seguir Osiris e Ísis, para eles, é quase que sine qua non. Não entra na cabeça deles não segui-los.

Para os gregos, a reflexão é muito séria a respeito disso. E muito mal interpretada na modernidade depois. Na ideia de que o destino se opõe à liberdade. O destino, a famosa questão, é uma questão muito importante, que sempre foi tomada pelo iluminismo e pelo racionalismo. Ah, se você acha que tem destino, você não é livre. Você é um marionete. Tem lá, estão te levando. Está tudo escrito. Você é um fatalista. Se você é um homem livre, essa é a tese mais surrada do iluminismo. Se você é um homem livre, você faz o que você quer, como você quer, ninguém manda em mim, eu sou o bom. Na verdade, é uma disfarçada teimosia do imbecil, nada mais do que isso. Porque, na realidade, uma coisa não se opõe à outra. Ser livre, eu não posso ficar com quatro braços.

Há um determinismo tão óbvio na minha condição de homem que nasceu aqui, que é o início de conversa. Mas, esse determinismo, e aí está a beleza do pensamento pré-socrático, não impede que dentro desse determinismo eu possa realizar uma série de escolhas. Mas, eu nunca me livrarei desse determinismo. Mas, eu também nunca serei vítima absoluta dele. É possível conviver com essa determinação do destino e com uma liberdade de escolha. É perfeitamente possível. Nisto, há um brilho tremendo no pensamento helênico pré-socrático, particularmente. Porque o pós-socrático é o racionalismo que nós herdamos de todas as reflexões modernas do iluminismo que a gente acabou de mencionar e até chegar no ateísmo. Não tem Deus, ninguém manda em mim, eu faço o que eu quero quando eu quero. Até chegarmos a esses extremos.

Ou então, caímos nas bobagens religiosas do tipo, Deus está te vendo, está te mandando e fazendo. Caímos nesses maniqueísmos, na verdade, extremistas. O pensamento helênico, neste aspecto, ele convive perfeitamente bem com o destino, até os ditados são muito bonitos. Os deuses não impõem o destino ao homem, os deuses sugerem o destino a seguir. Mas, lá neles com a hernia, o destino arrasta quem o nega e atalanta quem o segue. E a gente sabe que é isso, nós podemos ir contra a nossa natureza, podemos ir contra o nosso destino, a gente pode passar a vida inteira indo contra. Vamos pagar um alto preço. O homem ocidental não tem mais consciência disso. Não só o racionalismo, eu diria mais que essas filosofias existenciais que andaram na moda durante o nosso século, de que eu mando na minha vida e faço o que eu quero dela, criaram um homem, em primeiro lugar, ingênuo e tolo, acreditando de que ele pode ser dono do seu próprio destino, se esquecendo de que ninguém o consultou quando ele ia nascer e ninguém vai consultá-lo quando ele vai morrer.

Para começo de conversa, eu deixo ele fazer o que ele quer, só segura as duas pontas, as mais importantes. Além de lhe dar toda uma natureza daqui inescapável, não posso fazer o quê? É mudar o meu destino? Eu posso me transformar num gato? Eu posso me transformar num lince? Eu posso me transformar numa lagarta? Eu posso... Não há condições. Eu estou usando um exemplo extremo, mas eu não posso trocar de paz. Quando eu me percebo por gente, eu costumava brincar com meus alunos em psicologia, em aulas de psicanálise, dizia: quando a gente olha no espelho a primeira vez e vê aquela cara lá na adolescência, e o espelho diz: ama e eu deixo, quer nem saber. Essa é a tua cara, você quer, quer, não quer problema seu. Você muda o topé, que faz um jeitinho, etc., mas não resolve nada.

Quando a gente descobre por nós, quem sou eu, temos 13, 14 anos de história nas costas, que o nosso querido Freud e os demais já diziam, os outros pensadores de desenvolvimento que a gente dizia, cinco anos de idade já fez toda a estrutura da personalidade, está lá feito. Primeiro fazem, depois te avisam que você é SPT. Até nesse aspecto, até nos aspectos psicossociais. Não quer dizer que você não vai evoluir depois dos 14, mas você se descobre com uma natureza, você se descobre num modo de ser. Você é uma, aliás, você passará a sua adolescência se descobrindo. Vocês lembram disso? A gente diz: eu descobri que eu sou medroso, eu descobri que eu sou agitado, eu descobri... É uma constante descoberta de coisas que já foram constituídas, possivelmente, nos primeiros anos e eu diria mais, possivelmente, em outras existências, possivelmente, sabe Deus a perder de vista.

Não adianta querermos bater perna, bater pé, negando a questão da destinação, que é nos egípcios até uma fundamental. Mas, dentro dessa destinação, é possível uma paideia. Se não fosse possível ir além da destinação, para que é uma paideia? Para que é a formação? Para que é a evolução? Aliás, para eles mesmos, a evolução para quê? Se não é possível ir. Só que a evolução, para eles, é feita numa entrega total ao místico religioso do qual eles estão acercados e irmanados com a natureza. Mas, nós não podemos também, com os egípcios, dizer que o destino está numa determinação tal que não é possível nada. Toda a tradição dos mistérios, de índices e os sírios caminha por quê? Para uma libertação. E esta libertação, seja na Terra, seja na eternidade, comia para uma evolução pessoal. Todas elas propõem uma evolução e a evolução que propõe é a participação do homem.

Não é uma evolução irresponsável, mas é uma evolução corresponsável. Só o homem que se conscientizar de tudo isso e lutar com isso poderá irmanar-se a esse processo de evolução. E, terminando, é ele que se afasta do seu destino? Não. Ironicamente, ele usa de toda a sua liberdade de ação para cumprir melhor ainda o seu destino. O pensamento helênico arcaico e o pensamento egípcio na verdade coincidem perfeitamente nesse aspecto, porque, embora no pensamento helênico nós vejamos a questão da liberdade pessoal de modo mais candente, ela, em momento algum, se afasta da realização do destino. A liberdade do homem foi feita para aproximar o homem dos deuses e não para afastá-lo dele. E aí está o grande cisma do pensamento moderno, que a liberdade do homem foi feita para afastá-lo dos deuses e da natureza e etc.

Aliás, foi mesmo usada assim. Nós vimos isto e temos visto isto acontecer. E eu quero que vocês compreendam que não seria possível uma civilização que viveu harmonicamente às margens deste rio durante milênios e milênios se não tivesse isso na cabeça. Teria depredado. A ideia de conservação que vai desde a múmia do falcão ao crocodilo ao homem é isomorfa a toda esta vontade de estar harmônico e conservar tudo como está. Trata-se de uma sinfonia do eterno, de tentar transportar o eterno para o cotidiano. É este o ritual que o Sirius nos leva. E ele nos leva a uma reflexão muito bela porque nos mostra o despedaçamento da morte, cara a cara. Ele nos mostra o que é a transformação. Nós vivemos o processo da morte, não negamos a mortalidade, mas conseguimos transformar a mortalidade num processo de ressurreição e de renascimento.

Aqui nós vemos um paradoxo. O despedaçamento é instrumento dos homens aqui na Terra para buscar a eternidade. O conhecimento humano, a inteligência, a razão divina é uma luta contra esse despedaçamento para transformá-lo como o Isis fez num novo ser. Este é o sentido da ciência no sentido mais amplo. Esta é a responsabilidade de todos os homens, cada um do seu jeito, cada um da sua forma. Cada um será cúmplice da natureza nesta luta em busca do segredo da eternidade, mas não seja a eternidade e não vou morrer nunca, serei eterno, mas de você poder irmanar-se. Esta é a cerimônia por excelência de Isis e Seus Sirius, por isso que ela é coroada com a mumificação e todo o cerimonial volta dela. Está claro até aqui que é um dos pontos absolutamente chaves do pensamento arcaico.

Nesta última parte, o homem poderá em vida e depois na morte reconhecerá-los que é a sua essência. Será assim o renascimento. Ele pode não obter. Perfeitamente. E aqui, mais uma vez, isso foi bom se lembrar, nós vemos que não é obrigatório o homem iluminar-se. É o homem que opta por isso. Isso é uma escolha. Ele pode se afastar. Esses são os cânones para os iniciados. E nisso se aproxima, evidentemente. Assim nós compreendemos o que é a consagração de Osírios para os mortos. Ensina a arte de morrer e renascer. É senhor do mundo inferior e concede vida no reino celestial, do qual esta terra não é, senão, um reflexo. Isto é uma passagem da qual cabe ao homem aperfeiçoá-la para poder atingir este reino celestial.

Esta ideia nós vamos desenvolver um pouquinho depois com a segunda morte, mas já fica bastante claro. Este mundo inferior é o mundo da arte de nascer e renascer. Preside os mistérios onde a alma pura reina sem corpo. A libertação do corpo, portanto, é o objetivo último também. E isto é muito importante para que não se faça aquele grande mal-entendido para nós, porque está muito claro, mas eu já ouvi muito isso. Eles cultivavam, eram materialistas e cultivavam as múmias porque cultivavam a morte. São erros absurdos. O objetivo é o cerimonial da forma para a libertação do corpo. O objetivo é a desmaterialização. O fato de estar lá a múmia não é senão o reconhecimento do nosso estado transitório e de evolução parca, que nós ainda não evoluímos. Nós estamos ainda por evoluir.



O espírito é isso. A alma, ou psique, não é senão o processo que anima aqui. Os latinos traduziram com muita propriedade. É animação. Psique está aqui. Anima, ou psique, é a mesma coisa. Ou alma. Não é senão o princípio que liga a vida, que te mobiliza, que dá reações químicas a você. Por isso que, quando uma mesa cai, ela também tem alma para os antigos. Quando um objeto cai da mesa, tudo isso é a psique cósmica para eles. Eu larguei, estou aqui, estou aqui, tem psique. Da mesma maneira que eu posso cair, ou da mesma maneira que eu puxo. Não é diferente a lei que atua aqui, nesse ponto eles estão muito corretos com a física moderna, do que a lei que me faz sentar ou levantar. Isso é meramente processos psicofísicos, se vocês quiserem. Mas nada. A psique, ela se une a esta matéria disponível e caminha para cá.

Só que ela sozinha não é capaz de nada. Daí que nós temos aquele lindíssimo mito que ela, isso é fundamental, para poder realizar esta tarefa com esta matéria que ela recebeu pesada, ela precisa se casar com Eros. O casamento de Eros e psique é essa metáfora. Por quê? Se você não se apaixonar, se você não se erotizar, se você não colocar esta energia apaixonante, nada fará essa coisa. O juramento de Eros que todo jovem fazia não é senão esta dedicação, entregar-se a esta energia. Talvez seja o grande problema da nossa civilização que ela nos propôs uma paideia sem erotismo e uma vida sem erotismo e uma vida cheia de culpas e de um trabalho alucinado manhã, tarde e noite. O pensamento arcaico nos coloca frente a frente com a obrigatoriedade deste erotismo que levar em direção ao nobre, bom e belo.

Para nós, o erotismo nos afasta do nobre, bom e belo. Porque nós estamos falando de erotismo e hedonismo, a gente sabe muito bem. E culpas, e etc. Então, aqui está a obrigatoriedade desmaterializar o divino. A desmaterialização leva-o para este caminho. Mata-o, se vocês quiserem. Mas é a mais bela morte que existe. É aquilo que o espiritualiza, que transforma-o cada vez mais em nobreza, beleza. e bondade. É por isso que a gente diz brincando. Tem pessoas que ao envelhecerem se tornam muito mais belas. Tem outras que se tornam verdadeiros bodes velhos, horrorosos e assustadores. Eles se tornam ranhetas. A maldade, a ruindade, a raiva do viver, o egoísmo, vai tomando conta. Por quê? Porque eles não querem soltar esta matéria. E eles não têm nada pela frente de espiritualidade. Enquanto que estes que se tornam belos, toda essa parte material foi bem usada, está gasta e eles estão desfazendo dela.

E a espiritualidade é a energia enorme. Por isso que eles se transformam numa coisa lindíssima quando morrem. Eles se transformam em memória para nós. São heróis. Nós nos esquecemos. Eles têm uma energia de memória, por isso que a memória é divinizada. A gente guarda esta energia. Bem, isto é só para nós refletirmos no símbolo da pirâmide. Nós temos aqui uma pirâmide secada, a vista de cima até aqui. o quadrado é a base. Muito justo. A base é a matéria, a terra. Os lados são os triângulos. Por que são quatro triângulos? Porque de qualquer lado é possível atingir a espiritualidade. Se você veio a serviço do princípio da água, você pode espiritualizar. Se você veio a serviço do elemento terra, qualquer signo em qual, qualquer caráter, qualquer personalidade é passível de espiritualização. É isso que eu quero dizer.

De todos os lados é possível ascender. Não há discurso. E é uma coisa que nós sentimos mesmo. De todos os modos é possível atingir. De todos os lados é possível essa elevação. A pirâmide é um símbolo de elevação, de transcendência. Este é o seu caráter templário. Esta é a sua mística. Porque ela representa numa forma simples e geométrica toda a possibilidade da ascensão. E a sua geometria não é vã. Porque a geometria é o brilho do homem. É a chamada razão divina, amavante. A geometria é a capacidade do homem utilizar a sua razão da forma mais elevada possível. É uma vitória que ele se propõe. Mas é uma vitória que o aproxima de Deus, não que o afasta de Deus. Não é um eu sou dono de uma razão e eu domino a natureza. Não se trata disso. Trata-se do que é de melhor do humano. Trata-se da razão que pode levá-lo ao divino.

A sua forma geométrica pura tem esta função. E, ao mesmo tempo, reflete o quadrado, o triângulo e a esfera, o caminho do homem em direção à transcendência e os passos necessários. E outra coisa muito importante, a pirâmide nos dá um sentido e uma ideia de massividade, de indestrudibilidade, que é exatamente aquilo que nós queremos atingir como ideal, como ideograma, se vocês quiserem, contra a fragilidade de Osiris. A múmia, com os seus segredos de conservação, ela recupera Osiris. Então, tudo quanto é efêmero, frágil e passageiro está lá vencido. Não sem razão, que ele é de Kelps, particularmente, tem aquele ponto de luz, vocês lembram que eu mostrei para vocês que duas vezes por ano nos equinócios, a câmera notuária é iluminada, rigorosamente iluminada para as estrelas da constelação da Ursa Maior.

É o seu caráter astral que é glorificado. Eles têm uma capacidade construtiva fantástica. São dois pontos exatamente, mais ou menos, aqui. Neste ponto, a estrela vem, a luz entra dentro da câmera, se vocês vissem a pirâmide aqui de perfil, a câmera notuária está aqui e tem mais ou menos dois furos assim. As estrelas se colocam duas vezes por ano no equinócio da primavera e do outono e ilumina rigorosamente esta câmera. Não perguntem como fizeram isso. Vocês têm, os que viajaram comigo, têm. Eu dei um ideograma, Eu dei um... Você sabe que estrelas são? São da constelação da ursa maior. Só eles mesmo para fazerem uma coisa impressionante e vocês vão ver. E é a coisa fantástica que é a capacidade que eles tinham para isto. Prestem atenção neste quadro aqui que mostra exatamente os ângulos.

É nesta parte. Vocês têm. Eu já conto o que tem. O dia é igual à noite. Solstício é o contrário. É o dia mais longo do ano. Meio a meio, exatamente. E o dia mais curto também. Também deve ter uma simbologia curta. Essas... Esses pontos... Tem outras salas menores que são salas falsas também. Mas é isso quando ele junta. Entrar de ladrões e etc. Você gostou? Muito bem. Vamos... Enquanto vocês vão vendo lá, rapidamente, nós vamos só falar um pouquinho da segunda morte como uma introdução. É só uma introdução que eu faço hoje que nós trataremos especificamente no próximo informe. Porque já está complicado a gente entender a primeira morte, vocês entendem? Que virá passar para a segunda que ainda demora. Acho que ficou bem claro para vocês o conceito de primeira morte. É esta passagem, é toda esta evolução e esta promessa de ressurreição.

Este é o ponto fundamental do pensamento egípcio, onde o despedaçamento de Osiris indica este caminho a seguir. A segunda morte trata da passagem do reino de Osiris para o reino celestial. O que estivemos falando até agora, a luta proposta ao homem para atingir o reino de Osiris. Esta é a luta proposta a todos nós. Por isso que Osiris reina aqui na Terra. Ísis e Osiris são as divindades mais íntimas do homem e mais amigas. Porque nos ajudam a viver aqui na Terra, nos fazem captar o divino aqui nesta Terra. Nos dão esta oportunidade. O reino celestial, no entanto, é a outra passagem. É onde nós entraremos para o reino dos deuses. É o retorno. O reino dos deuses. E é de duas espécies. Primeiro, faz do homem dois a partir de três. O que quer dizer isso? Agora vocês vão voltar aqui.

Mas, enfim, o que faz do homem dois a partir de três? Por que o homem é três e tira dois? Ele perde o corpo. Porque ele tem uma parte material, ele tem a sua psique, a sua força que o anima, e ele tem um grau de evolução espiritual, um grau de estado puro. Todos nós chegamos com um grau de estado de evolução dentro de nós. São os três elementos que nós temos aqui na Terra. A parte propriamente bruta material, a parte psíquica, e a outra parte transcendente, que é a parte espiritualidade. São esses três elementos. Ora, unir esses três em dois é o grande desafio. E quando é que isto acontece? Quando perde o corpo físico, porque nós ficamos somente com a parte que nos anima e com a parte espírita. Você ficará somente, você permanecerá, você residirá no reino de Osíris.

Aí é que você vai se candidatar, se você quiser, permite o termo, para se candidatar a entrar no reino celestial. Por isso que a segunda faz dele um a partir de dois. Você se transformará em puro espírito. Este é o conceito estar ao lado de Deus. Este é um retorno à unidade primordial. Trata, então, da separação do corpo e da alma. Agora sim nós podemos falar da necessária separação. Eles não têm essa visão de que o corpo está separado da alma, que o corpo é lugar de coisa suja, coisa feia, aquele moralismo judaico, cristão que nós temos e a alma é coisa pura, bonitinha e tal, que está maculada pelos desejos carnais do corpo. Não existe nada disso. Mas é preciso separar o corpo da alma porque o corpo foi feito para ser gasto. A alma tem que se libertar dele, tem que largar e se torna um peso para que ele possa seguir.

Este é o processo de aperfeiçoamento. Como o objetivo final é esta alma transformar-se em espírito puro. Então nós estamos falando de uma série de metamorfoses em busca dessa espiritualidade para chegar ao reino celestial. Agora a gente entende esses espíritos puros que as tradições orientais particularmente que se mantiveram muito níveis e fiéis ainda mantêm. Mas trata-se de um longo caminho de purificação. A separação deverá ocorrer. Na realidade é muito interessante encontrar este conceito tanto na tradição egípcia como na grega da Córcea que é o Cópia porque corpo e alma nascem muito unidos. É só o crescimento e a evolução que separam progressivamente o corpo da alma. Por quê? Porque a alma vai se aperfeiçoando e o corpo vai envelhecendo. Vocês estão percebendo o mito da metamorfose dos insetos?

É idêntico. É idêntico. A adoração do escaravelho ela glorifica este cerimonial. O corpo vai estourando uma casca que vai separando e ele vai embora. A metamorfose da borboleta o princípio da psique é exatamente o mesmo ritual. Fica velho aquele troço larga e vai embora a alma. O símbolo da borboleta na tradição chinesa também se encontra assim. Ele parte leve quase que sem cor. Esta é a função. A ideia a iniciação todas elas devem ensinar a arte de separar o corpo da alma porque eles não são separados. Aliás, aqueles que não querem evoluir lamentavelmente ficam presos ao corpo. Este é o grande problema. O corpo é feito para ser usado. Usou tem que jogar fora e ir embora e não para se prender nele. Acho que por isso que os espíritas falam que se arrega para dar luz para a alma para se encarnar para a alma embora.

É o mesmo princípio sem dúvida alguma. O corpo, o exercício do corpo aperfeiçoa a alma. Sem dúvida. Isso a gente vê em toda a tradição grega. Mas o corpo se gasta com esse exercício. Então você deve abandonar o corpo para continuar o aperfeiçoamento da alma. O conceito é de uso. Usar bem. Não há um caráter moral de espécie nenhuma na separação corpo e alma que nós temos na nossa tradição. Ao contrário. Ele não está claramente a serviço do corpo. O apego não pode. tem que gastar o corpo para jogá-lo fora. Apegar-se nele é roubada. Agora, é preciso saber que o corpo é instrumento aperfeiçoal. Os orientais são os comunidades que sabem disso. O yoga, o daik-hwan, ele usa o corpo para aperfeiçoar. Mas com a finalidade de usar para gastar bem para elevar. E com uma finalidade muito importante que o corpo não se torna uma fonte de peso.

Pelo contrário, um instrumento de leveza. Então, continua aí. É que a gente mal morreu. A separação do corpo de alma. Hermanube separa o espírito do resto e entrega aos sírios. Aqui já entra no cerimonial da segunda morte. Eu vou introduzir, mas isso aqui requer realmente uma aula bem sistemática. por isso que ele é chamado o Senhor dos Espíritos. Por quê? Porque existe aqui um cerimonial. Aqui entra aqueles cerimoniais que vocês viram. Vocês viram o coração sendo pesado. Lembram que tem aqueles hierógrafos que você pesa o coração, você pesa o corpo, o aperfeiçoamento, pesa as ações. Toda aquela ideia de julgamento do homem no estado de aperfeiçoamento. Isso nós vamos tratar mais à frente. K, o duplo, é a essência divina. é para lá que o homem deve retornar. O que quer dizer isso? O K, para eles, representa esta parte espiritualizada.

Esta parte que você conseguiu dar acabamento. Por isso que ela está sempre te olhando. É para lá que você tem que retornar. Pelo menos isso. Exato. Esta é a sua conquista. Para lá que se retorna. E a múmia é o estado de aperfeiçoamento transitório que você chegou. Então, esses são os dois elementos fundamentais. Múmia, o estado de aperfeiçoamento, a forma que está lá e a parte espiritual sua. Estão lá os dois para retratar bem o grau de aperfeiçoamento que você se encontra. Ele é guardião, ele é memória. No mínimo, você falou bem. Inesquecível. Vamos traduzir o K. Aquelas coisas que você sabe que são acabadas. A gente olha para o indivíduo e sabe que ele tem uma grande qualidade. Esta qualidade nele está aperfeiçoada, está trabalhando, parece que até nasceu com ela. Não fala do talento de um moço que por cinco anos dava concerto apenas.



Para a segunda morte é preparada aqui. Este grau de responsabilidade é muito importante no pensamento egípcio também, porque coloca o homem frente a frente com total responsabilidade quanto à sua elevação. Os livros herdaram este conceito. Não é ficar esperando lá no céu, se vai para quietinho que não vai acontecer. Não tem nada de automático. Havia uma tradição hereditária ou é um imbolismo? Havia uma tradição de iniciação. Não apenas hereditária, havia famílias, realmente, havia famílias de sacerdotes que era hábito seguir, mas havia também os grandes sacerdotes por vocação. A vocação era considerada fundamental. O que se sabe com certeza é que eles passavam os sacerdotes por grandes provas iniciáticas. E é isto que os fazia merecerem elevar-se, etc.

E essas provas iniciáticas eram a chamada epopsia, onde os epops iam se preparando para isso conforme eles pudessem. Mas havia famílias com essa tradição. Não é famílias com tradição, então eu fui grande sacerdote, meu filho também será. Não era bem por aí. Mas elas tinham o costume de educar os filhos para os sacerdotes. O grau que eles iam atingir era a capacidade sua. Os sacerdotes? Não. Os faraós? Não temos dados muito seguros a respeito dos faraós, para ser sincero. Nos momentos decadentes, sem dúvida alguma, foi por herança familiar. Em muitos momentos foram os sacerdotes que elegeram o faraó. É muito complicada essa questão das dinastias. São muitas dinastias. Nós temos conhecimento de mais de 30 dinastias.

Nós estamos falando de 30 faraós. Estamos falando de 30 dinastias. Nós não sabemos como elas se originaram. Rigorosamente falando, não. Há uma enorme discussão a respeito disso, mas que foi por razões genéticas, hereditárias? Não foi. Isso temos certeza que não. Qual foi o critério utilizado? Provavelmente iniciático, ou muito complexo, ou, às vezes, em algum momento, político e etc. Nós não sabemos... Mas não se sabe nem que uma dinastia era familiar? Não há certeza quanto a isso. Não tem nada de trocada? Alguns casos, sim. Outros, é completamente contraditório. E não é usurpar. Não se trata de usurpação porque se trata de um coroamento muito glorificado e etc. Suspeitamos que eram critérios iniciáticos muito complexos, aliás, a tese mais aceita por uma grande parte dos arqueólogos, grandes iniciações e determinadas pelos sacerdotes.

O poderio do sacerdócio, nesse sentido, era enorme. Está mais sentido porque eram os grandes reis eleitos pelos sacerdotes. As dinastias eram ligadas. De todo modo, é uma área muito obscura nossa porque faz a parte dos ritos iniciáticos deles e nisso nós temos pouca informação. Não é a sucessão no sentido, e nem em Creta também, não é a sucessão que nós conhecemos. Clássica? Filho dos 14, nada disso. E também não é a luta política. O surpador, houve casos, claro, mas não é o caso geral de o trono ser usurpado por um, por outro e etc. No próximo encontro falaremos da segunda morte. Vamos estrinchar um pouco melhor isso. Todos os direitos autorais são de propriedade da editora Aliá, Universidade Falada. É proibida a cópia e reprodução parcial ou total do conteúdo. Este material é distribuído sem ônus exclusivamente para entidades de deficientes visuais previamente cadastradas.

Legenda por Sônia Ruberti


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PALESTRA 7 — O CULTO DE ISIS E OSÍRIS — AULA 3
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Universidade Falada. Conhecimento à velocidade de um clique. A Universidade Falada apresenta o audiolivro O culto de Isis e Osíris, aula 3, de autoria de Victor de Salis. Victor formou-se em Psicologia. Completou um doutorado em 1977 com Jean Piaget na Suíça e o outro a seguir com Igor Caruso, na Universidade de Salzburgo, na Áustria. Dedicou-se cada vez mais ao estudo das tradições e mitos das antigas civilizações. Victor é autor de inúmeros livros sobre o tema. Osíris, que é o par complementar de Isis, na tradição egípcia antiga, como palavra, significa sagrado ou santo no céu e sobre a terra. Mas fica mais próximo para compreendermos o conceito, se recordarmos um pouquinho dos mistérios órficos. Os mistérios órficos, sabemos através de Platão, é a fonte inspiradora dos chamados mistérios órficos.

É uma tradição já bastante conhecida na Grécia Antiga, na tradição grega. É Ráquiva, que vem do sânscrito. E essa palavra Ráquiva, em sânscrito, ou seja, luz do firmamento sobre a terra. É a mesma coisa, literalmente. Luz do firmamento sobre a terra, terra santa, literalmente. Essa palavra, entre os gregos, virou a de Ráquiva, no sânscrito, virou frate. E entre os romanos, virou trácia. E daí originou os mistérios da Samotrácia. Porque eles eram praticados numa ilha, originariamente, chamada Samo, ou em frente a Samo, que tem as ilhas de Samo, e logo em cima tem a ilha de Samotrácia. Com certeza, a ilha que mais aglomerou encontros e monumentos e cerimoniais santos. A famosa vitória da Samotrácia, ninguém sabe de onde vem. Entendemos que esse Aurofe, Ráquiva, representa isso. Uma outra explicação muito interessante que é dada sobre Osílis.

Ele é chamado de razão divina. E é muito grande a nossa tentação de logo achar, ele é o componente racional que leva o homem para a elevação, porque ele é masculino e etc. Isso é uma interpretação. Razão divina. Ele é definido nos textos sagrados egípcios como a razão divina. Ou seja, dele emana a razão divina. A nossa tentação é muito rápida. Masculino, princípio da razão, racional, Osílis seria a intuição, o feminino. Ainda mais que veremos daqui a pouco que Isis é identificada com a Lua e Osílis é identificado com o Sol, como enviado do Sol. Mas de jeito nenhum tem a ver esse aspecto Sol e Lua, esses aspectos banais que damos. Um é razão e o outro é intuição, interioridade e etc. De modo algum. Veremos que é muito mais complexa esta interpretação. De todo modo, a palavra razão divina não está aí à toa e é bem definível.

Os egípcios conheciam muito bem o que é razão. Tanto é que eles foram excelentes geômetras. Quando eles falam em razão divina, no entanto, eles estão mais próximos do termo logos que os gregos antigos ocupam. E nesse aspecto Platão nos ajuda novamente nessa exegese. Porque a palavra logos, em grego, nunca quis dizer, no sentido antigo, a palavra razão, lógico, não é como dizer nem lógico. Mas queria dizer luz de Apolo, ou seja, iluminação pela palavra, a palavra intuída e divina. A palavra razão divina, ela é, sem dúvida alguma, esta iluminação que o luminoso traz, mas é razão propriamente dita também. Não há motivo algum para excluirmos o aspecto racional do aspecto de iluminação, muito pelo contrário. Estaremos errando se os tornássemos exclusivos. Mas estaremos fazendo o mesmo erro se tornássemos a intuição exclusiva.

Trata-se de uma intuição que te abre as portas da compreensão. E nós sabemos disso porque as atividades da matemática, as atividades propriamente racionais, estão incluídas nesta iluminação, neste caminho proposto por Osíris. Aliás, não é de se espantar. O Pitágoras segue ipsis literis, isso quando ele une a música e a matemática. A matemática é a ciência da razão por excelência, sem dúvida alguma. Mas ela é também a ciência do puro intuído, dos princípios. Então, eles se unem perfeitamente. Ele representa um caminho, a própria geometria pitagórica, que é colocada como a mais elevada das artes após os 28 anos. É uma atividade racional, sem dúvida alguma. Osíris representa um aspecto intuído e racional. E ele representa a busca do lugar santo. As escolas dos mistérios de Isis e Osíris são uma recapitulação da volta ao lar.

É assim que eles o definem. Ficou fácil entender volta ao lar, se nós não compreendêssemos o que é lugar santo, nós não entenderíamos. E é tão impressionante, às vezes eu fico fascinado com como a intuição é universal. Quando você lê Castanheda, ele fala dessa volta ao lar e ele fala do lugar santo. Cada homem tem que conhecer o seu lugar santo. A gente fala, está na linguagem comum, você tem que saber qual é o seu lugar, onde você está bem e etc. Só que para eles, isso ganha uma aura de santificação importantíssima. Este lugar santo, este local, este local santo, inclui também a sua capacidade de voltar, de encontrar-se. Para nós, essa coisa está longe. Primeiro que nós estamos imbuídos de uma noção, às vezes, falsa de patriotismo. Eu nasci na Argentina, eu sou argentino e acabou, meu lugar é a Argentina.

Não é isto que eles estão referindo. O lugar santo tem os locais abençoados pelos deuses, as terras, onde estão os templos, que o indivíduo é peregrinar ao mesmo tempo de uma desnavida ou várias para ir até lá. Mas o mais importante de tudo é que o homem deve aprender a encontrar a sua casa. Ele não estará bem se ele não conhecer onde é a sua casa, onde é o seu local, onde ele deve viver. Isto pode incluir até uma mudança de país. É mais simples do que mudar de país. É normalmente o indivíduo saber onde ele se encontra, em que terra, em que canto, em que local ele vibra bem. É uma questão do espaço, isso que eles chamam de volta ao lar. E tem a ver com esta busca do lugar santo. É muito importante que a gente saiba que os mistérios têm este aspecto cotidiano, que a busca do lugar santo é tanto você ir aos lugares que te atraem, e você deve ir e deve conhecê-los, mas principalmente aprender a encontrar o seu lugar santo.

Naquela época, eles não têm ideia que nós íamos ter cidade também de São Paulo e Nova York. Como se for aqui, nem que a gente queira, a gente pode encontrar o lugar santo. Isis e Eucíris eram tradicionalmente vistos como dois aspectos. Eles não são vistos como divindades separadas uma da outra, no sentido que nós racionalmente dividimos. Ela é uma deusa, ele é um deus. Tanto é que esta afirmação se encontra em um dos papiros egípcios. Eles são um em dois. São a água em dois potes. O dois é um, ou um é dois. Isso é textual. O que nos dá bem claro, essa ideia da água em dois potes, é bem bonita essa poética. É a mesma energia que se manifesta de forma diversa, e que tem muito a ver com aquilo que nós abordamos já no Encontro Passado, de que o masculino se manifesta no feminino e o feminino se manifesta no masculino.

Se não existisse esta oposição, um não saberia de si, literalmente, um não poderia existir. Esta é a grande iniciação proposta por Osíris. Lembrem-se que Osíris é um símbolo de despedaçamento. Lembrem-se que Isis é um símbolo de unificação. E talvez aí nós vejamos com clareza a ideia que os egípcios têm do princípio masculino e do feminino. É ela que reúne os pedaços de Osíris. É ela que reunifica. É nada mais justo para o princípio feminino. O feminino é muito justamente associado com a aranha e com a tecidura. É ela que unifica. Ela gera e unifica. Ela vai juntando os pedaços e dá a vida. Literalmente, esse é o princípio gerador do feminino. É ela que o unifica. É ela que vai catar os seus pedaços. Isso vai ter muita importância nos mistérios. as duas etapas da nossa iniciação. Se eu não buscar o despedaçamento, eu não poderei gerar uma nova vida.

O teu próprio processo de evolução e de criação não conhece outra forma. Se nós não destruirmos estruturas antigas para abrir as portas para a nova, não podemos evoluir. Sei que isso signifique destruir os alicerces, mas é preciso abrir mão. não é possível de outro modo buscar esta fertilidade. Aliás, é justamente o despedaçamento que nos força a buscar uma nova reunificação. Está envolvida uma ideia de que a nossa vida tem etapas que se gastam e se despedaçam por si próprias. E que nós somos forçados a reunificá-las para que ela possa abrir novas portas. É esta a ideia que constantemente nós vivemos. as etapas da nossa existência elas se consolidam mas elas se gastam também. E para que elas não se despedacem completamente de modo a nos destruir é que nós impomos uma nova ordem.

Quando nós vemos os nossos pedaços medudalizados a gente vai lá e junta uma nova ordem e começa a nova etapa da nossa existência. É assim que ocorrem nossas metamorfose. É assim, aliás, que a nossa razão divina se manifesta que nós tomamos. Chega um momento da minha vida que eu digo que eu preciso parar ver o que está acontecendo. As coisas não estão indo bem aqui tem coisas difíceis para cá enfim, eu estou dizendo coisas que não se dizem que são vividas internamente é um momento e às vezes não é dramático às vezes é o próprio processo natural ou às vezes é assim mesmo desde os fatos corriqueiros de que você mudou de trabalho ou o seu filho casou e foi embora de casa ou você muda a vida muda e você precisa tomar os pedaços de volta de se reunificar para continuar. Então, este é um cerimonial muito importante e que o lar tem importância muito grande porque quando nós nos sentimos ameaçados desse despedaçamento é óbvio que nós estamos muito melhor se nós estamos num terreno sólido pisando do que se nós estamos perdidos por aí.

A solidez que nós buscamos é fundamental para que eu possa me reconstruir. Este cerimonial aqui eu menciono a vocês, alguns não sei se todos, mas alguns lembram do Fênix, é um mito egípcio. Este cerimonial era celebrado todo ano. O voo do Fênix era um cerimonial que também representava, por ocasião das festividades do despedaçamento de Osiris e de Isis que o reunificava, é que se fazia o cerimonial do voo do Fênix e do renascer das cinzas, porque a ligação uma com a outra, as cinzas que renascem do nada são um mito levado ao extremo desse despedaçamento, é onde nada mais resta que você enquadrar forças para renascer e reencontrar-se. São rituais de metamorfose que evidentemente colocavam o homem mítico na sua postura e no seu desafio de renascimento e de reencontrar. Isso é muito importante, a fertilidade exatamente aonde parece que existe a morte, e isso nos levará a um outro aspecto muito importante de Osiris, porque ele preside os rituais da morte. Nós vamos chegar lá. Iniciação era chamada epóptis, o epópti que vocês já conhecem, eu só separei aqui para vocês verem a raiz óptica, óptis, ciclopes, óptis também a mesma coisa, vista, daí vem óptica. Ep em sânscrito é o número 2, ep em sânscrito é 2, o que tem duas vistas. Não é a terceira visão que vocês iriam pensar. Osiris não oferece a terceira visão, a iluminação, o encontro celestial, isso nós veremos mais à frente. Osiris, no entanto, tiramos da nossa condição de animalidade instintual, ele é a etapa necessária desse caminho da iluminação, por isso que ele é chamado a segunda visão. Mas cuidado, na tradição egípcia a segunda visão é a iluminação intuída, não se confunde a segunda visão com mera razão, mais de uma vez, mas é a razão também, é a razão, a intuição é o conhecimento no seu mais elevado grau, que evidentemente há de incluir desde a razão até a intuição, até uma compreensão, mas não é a iluminação característica da terceira visão onde nós chegaremos. A função da iluminação da iniciação, desculpe, é levar o hipótese, o iniciante nesse estado, por isso que se chama hipótese, também se traduz por consagrado. Mas quando a gente fala consagrado, não é porque ele é Cristo, não é porque ele é essa elevação que toca o divino, não é nada disso, nós estamos apenas dizendo que ele tem um homem que tem o conhecimento, que tem o saber, está mais para o profeta talvez que propriamente para a iluminação de um filho de Deus. Esta é a ambição de toda a iniciação, levar-te próximo. E se vocês pensarem bem, é o que nós estamos sempre fazendo, nós estamos sempre buscando esta forma de conhecimento. O homem quando ele busca a compreensão do mistério da existência, quando ele se coloca frente a frente ao conhecimento maior, a primeira postura que ele tem, e essa é a verdadeira iniciação, é buscar conhecimento, é buscar respostas, é abrir as portas para um saber que vá além. Esta é a postura do sábio, isto é o verdadeiro gnosticismo. Podemos dizer: eu busco conhecimento, eu interrogo, mas não interrogo no sentido de duvidar de tudo, mas de buscar de compreender, e isto pode ser desde uma investigação científica até uma investigação metafísica, não importa, mas todas as formas do saber a gente se abre para esta busca. Talvez o melhor exemplo disso seja um Platão, o trabalho que nós lemos como o último dos grandes iniciados, é isto, esta busca do saber. A filosofia grega está muito mais para uma epopsia do que para a filosofia no sentido que nós falamos. A gente lê Anaximandro, Protágoras, Parmênides, Platão, inclusive até mesmo Aristóteles, o que existe é uma grande investigação, é uma grande interrogação sobre o mistério da existência, sobre todas as formas, sobre todas as tentativas de elucidá-lo. E o mistério da existência vai dos aspectos mais racionais e mais científicos aos mais transcendentais. Esta é a visão da iniciação de Osiris. E se eu insisto muito nesse ponto para vocês, é para que vocês saibam também que a filosofia grega, tal como nós a herdamos e a conhecemos, se por um lado ela está mal interpretada e chamada erroneamente de filosofia com esse significado moderno hoje de investigação meramente racional, por outro lado ela não é única na sua busca, ela é uma das praxes consideradas na antiguidade obrigatórias para os iniciados. A filosofia que nós tanto admiramos nos textos era a atividade obrigatória de todas as pessoas que quisessem buscar a iniciação. Aliás, por isso que deu tanto filósofo que vocês veem, mas tudo quanto é lado, que como a iniciação era para todas as portas, todas as pessoas, pelo menos sei lá, um terço da cidade praticavam a iniciação, era obrigatório deles esta interrogação, esta investigação. E isto não é originário da Grécia, isto é originário da tradição egípcia consagrada a Osíris. Na verdade, é com Aristóteles que inicia esta mudança, é ele que é o ponto de mutação. Se você quer, por isso a gente fala inclusive que não tem nada a ver os pré-socráticos, o próprio Platão já denuncia uma certa mudança, não tem nada a ver os pré-socráticos com o que nós encontramos depois, porque a filosofia pré-socrática é uma filosofia mística por excelência, ela simplesmente se interroga sobre estas questões. Mais um aspecto importante em Osíris e no seu culto: o iniciado está marcado por Serapis. Isso são as frases, eu fui colocando frases hieroglíficas e são hierópsos, a gente não for traduzir a gente não vai entender, a gente vai explicando o que está nesses manuscritos. Isso aqui é textual: o iniciado está marcado por Serapis, é o nome comum daqueles que modificarem sua natureza, a união será de Osíris e Apis. Aliás, aqui explica, ficamos sabendo onde vem Serapis, que quer dizer Osíris e Apis. O que quer dizer isso? O iniciado está marcado por Serapis e será o nome comum, o nome comum é Serapis daquele que modificar sua natureza. Aí nós vamos ser literais mesmo, é isso mesmo que Osíris propõe. Osíris propõe a modificação da natureza. Aliás, a palavra metamorfose não tem outro significado senão este. Agora, não é modificar a natureza, eu sou isto, agora eu vou me transformar no meu oposto, não é bem essas modificações absurdas. Modificar sua natureza, exatamente isso que se propõe na iniciação. Os antigos egípcios tinham perfeita consciência de que a iniciação não era confortável. Aliás, nós temos isso numa metáfora muito bonita nos 12 trabalhos de Hércules, que é a captura da morte de Céberon. Antes ele vai ser iniciado, ele é avisado: capture-o, você não pode usar arma alguma. Realmente armas não têm sentido na iniciação, e nem se captura a morte com a violência, não se encontra a violência, a morte nela. E ele é avisado, você tem que, avisado por Atena, você terá que capturá-lo de um único sopetão, porque o saber terá que ser entrega total e será doído. E de fato, mesmo que ele o captura, ele toma na brincadeira lá da história, sobra para ele tremendas mordidas que ele tem que depois calcinar e sofre muito. Isso é uma metáfora muito brincalhona, mas muito séria, de que a iniciação é dolorosa e mexe conosco, mexe com nosso conforto animal, se vocês quiserem nosso conforto instintual das coisas. Não quer dizer que nós vamos sair por aí às vezes interpretando errado que a gente tem que se chicotear, não é isso, mas ela impõe sacrifícios muito grandes. Todos nós sabemos isso, desde que o simples estudo impõe a renúncia de muitas coisas cômodas. Quem pode ir para a frente sem renunciar a certas coisas? E a iniciação implica uma certa renúncia, um certo sacrifício para que possa acontecer. Agora, a renúncia também fala de um aspecto muito importante de certas coisas da nossa preguiça, se vocês quiserem da nossa comodidade, e que nós temos que lutar para aperfeiçoar nossa natureza. Aperfeiçoar nossa natureza é modificá-la. Há que ter uma sabedoria nisso, que nós temos que perceber em nossa natureza certas coisas as quais nós teremos que nos livrar. Pode ser que leve a existência inteira, pode ser que a gente livre só a metade, mas nós temos a iniciação, é esta evolução de você descobrir que passou a tua existência evoluindo naquilo que Sócrates chama em direção à virtude, em direção ao aperfeiçoamento, não importa, mas sem este aperfeiçoamento não há iniciação. Iniciação não é ficar rezando em casa, iniciação não é contemplação, não é conservação, não é nada disso, mas é um enfrentamento de si próprio acima de tudo, que sem dúvida alguma implica renúncia. E vocês devem ter observado que não existe religião na história da humanidade que seja diversa nesse aspecto. As religiões em toda a humanidade elas nos apresentaram dois aspectos fundamentais que a unem a todas: primeiro que elas todas consagram a vida, todas, qualquer religião te faz glorificar a vida, isso é a glorificação do divino. Em nenhuma delas você se encontra com o verdadeiro sentido religioso sem o ato de sacrifício. Esqueça, não existe, não existe religião mesmo o dionisíaco, a gente já associa tão erroneamente com o puro prazer, exige rituais complexos e sacrificadíssimos, que são os rituais que inclusive geraram a tragédia grega, que é um dos exemplos dos rituais mais complexos e difíceis de se atingir, e que inclusive o artista pelo seu ofereço a enorme renúncia pela renúncia de si próprio, pois que ele é chamado de hipócrita. Hipocritice é artista em grego, quer dizer aquele que abre mão da sua própria crítica de si mesmo para que o outro possa aprender, é considerado uma das maiores renúncias que existe. Ou itopios, etopios, quer dizer aquele que ensina, fabrica a ética abrindo mão de si mesmo, isso é um ato religioso. É óbvio que deve haver uma modificação e uma renúncia, e todos os cerimoniários que nós encontraremos aqui terão isso de cá. Serapis, Serapis, Serapis é o nome comum, por que sabe o que quer dizer? É que eu ainda não traduzi Serapis para vocês, a parte de Osíris você já, Osírapis que fica simplificada a linguagem, Serapis a gente chama, o certo é Osírapis, Osíris-Apis, Osíris-Apis, já sabemos o que é Apis, é a divindade por excelência da metamorfose, é a divindade que transforma, é a divindade que preside esses animais estranhos, ou que preside os gatos sagrados e todos esses animais que têm uma modificação fundamental a nos oferecer. Osíris é visto como sol na terra, cuidado para não confundir com a tonra, que é o sol que ilumina o cósmico, que é o sol cósmico, a energia. O síndice é sol na terra no sentido que ele é a razão divina, a razão que desce, é a lampadinha, se vocês quiserem, a iluminação, é a compreensão, é o símbolo de inteligência aqui na terra, com Ísis e a lua na terra. Agora, o que quer dizer o sol na terra? Você já sabe o que é que está explicado. Ísis como lua na terra, o que significa Ísis a lua na terra? Para os antigos egípcios, a lua tem tanta importância como o sol como irradiação de energia, não vamos imaginar como nossa concepção tem hoje, nossa concepção astronômica de que o sol é muito mais importante para a vida e a lua não é nada disso. Para os egípcios, a compreensão está muito mais ligada às forças da natureza, e nesse sentido eles estão mais certos do que nós, porque hoje nós sabemos que a lua preside, por exemplo, contra os ciclos vitais e até as marés, etc. É dentro desta concepção que nós temos que entender Ísis como a lua na terra. A lua na terra quer dizer o mistério na terra, mas é o mistério que tudo unifica e que gera a vida. É claríssima a força, a elegância, a agudeza, a perspicácia, a visão novamente, mas aquela visão e aquele símbolo de inteligência, de capacidade, e principalmente uma coisa importantíssima, o voo, o voo ágil e rápido em direção às alturas, o falcão. A gente pode dizer então para que o olho tem o olho do falcão, que já tem visão, não é a visão do falcão, mas é também direção, voo, altura, e é isso que representa os ciclos. Três símbolos tradicionais que vocês sempre encontrarão nos hieroglifos associados. E aqui tem algumas observações interessantes sobre Osíris: é o centro, mas Ísis é sua força. Vocês sabem que Osíris está muito associado com a tradição do juiz. Osíris é o juiz infernal por excelência, ele seria o que o Hades e Perséfone fazem no seu julgamento, só que tem um detalhe muito importante para os egípcios: Osíris não julga, mas ele é juiz que não julga, ele é assim chamado, mas fala o ser juiz de si mesmo, faz o homem ser juiz de si mesmo. E diz a tradição que é assim que Osíris se apresentava aos homens, com uma interrogação que exige julgamento. Não é ele que emite os enunciados de verdade ou mentira, de bem e de mal, mas é o homem que a sua frente desperta para o seu julgamento. Osíris é luz divina na forma de conhecimento, como nós já vimos, mas não é a liberdade eterna. E tem mais: se alguém se ilude que pelo conhecimento conquistará a liberdade, não fará, mas que é uma etapa imprescindível na conquista desse conhecimento, sim. O que significa isso? Se Osíris não é liberdade eterna, mas ele é transitória, porque ele liberta na terra. Esta é talvez a mais clara definição de Osíris: Osíris é a libertação aqui na terra. Agora, sem essa libertação aqui na terra, não haverá o caminho celestial do homem. Por isso que o culto de Ísis e Osíris era tão popular, é quase tão popular, é quase dá para se comparar com o culto de Hermes na Grécia, porque o conhecimento que ele te oferece e principalmente esta libertação aqui na terra é a única possibilidade de levar o homem em direção à luz. O que quer dizer esta libertação na terra que todas as religiões aliás pregam? É o desapego. É óbvio, em primeiro lugar, o conhecimento é o instrumento mais poderoso do desapego, é a compreensão de onde estás, do sentido da sua existência. Por isto que ele oferece uma liberdade transitória, porque aqui estar na terra é transitório, mas é uma etapa necessária em busca da sua eternidade. Porque vocês sabem que este é o caminho proposto, mas a função e o culto de Osíris é conquistar uma liberdade aqui na terra, estar aqui na terra libertando-se. Por isto que o culto e as iniciações são tão difíceis, naturalmente, porque a libertação na terra que exige esta resignação obviamente lhe colocará frente a frente com o seu cotidiano e com a nossa parte instintual. Como eles consagram desde a razão à intuição, libertar na terra, por exemplo, o culto de Ísis e Osíris ele tem a ver com o arado, é isso, ele tem a ver com as construções das pirâmides, ele tem a ver com os ciclos do Nilo. Por isso que nós temos Ísis terrestre, Ísis do amor, Ísis no céu, e Osíris também, temos Osíris na terra. A cada momento Osíris se manifesta para te ajudar nas panelas, para te ajudar a viver, por isto que ele te ajuda nessa transitoriedade. Mas não se a gente quisesse ver o culto de Osíris somente nisso, nós seríamos diminuindo tremendamente. Da mesma maneira como Deméter, ela é divindade da agricultura, ela te oferece o cereal e ela te oferece o arado, ela é também a divindade que preside a escola dos mistérios, porque ele aparece tanto Ísis como Osíris aparecem na hora dos mortos de voltar a viver e nos ciclos, e são eles que presidem nos seus templos os mistérios da ressurreição. Isso é importante de nós termos em mente: eles, os antigos, não separavam como nós separamos as coisas do cotidiano com as coisas transcendentais, religiosas e misteriosas. Não, o cotidiano, lembra-se que são povos míticos, tem tanto mistério, tem tanta glória quanto a outra parte. Quando nós dizemos que eles presidem também as cheias do Nilo, elas são glorificadas, e as festas em torno delas são tão gloriosas, e também a geometria é divinizada literalmente, e que para nós ficou na nossa tradição separar o sagrado do profano, enquanto que os povos míticos não têm essa separação. O cotidiano é sagrado, ele não é profano. O simples ato de acender o fogo para comer é um ato religioso enorme, do qual nós guardamos o resquício de agradecer a mesa, pelo pão, pelo bode expiatório porque morreu, que nós estamos vivos. Quem guarda?

Pouca gente eu sou justamente no McDonald's e não é só no McDonald's, em qualquer lugar a nossa vida torna-se muito profana. Isso é o desconhecido deles: acender o fogo ou levar a simples comida ao fogo é um ato religioso por excelência que não pode ser feito assim. Nós estamos ainda com um problema de outra temporalidade, outro timing, outra visão cósmica. Eles estão mais perto do conceito eterno, nós estamos com pressa. O McDonald's é impensável na cerveja ou pizza totalmente divinizado. Aliás, a cerveja, você lembrou bem, a cerveja é parte do cotidiano dos egípcios. Eles não faziam a cerveja como nós fazemos; eles faziam um bolo de cevada e colocavam este bolo para fermentar. Daí saía depois eles punham a água neste bolo fermentado e obtinham o teor de álcool. É um processo muito interessante. Eles são os inventores da cerveja. Em todo caso, mas você comia o bolo, eles comiam o bolo, além disso comiam o bolo e filtravam a água. Até aí não é novidade. Vocês devem ter visto bolo de cerveja, essas coisas; tem regiões do interior da Europa que tem esse costume, mas não é uma coisa desconhecida que se espalhou por todos os locais. Mas a cerveja é um ritual importantíssimo de ser feito, porque ela é considerada como o próprio vinho em Dionísio, como uma dádiva dos deuses. Então, para ele poder fazer a cerveja é um ato de libertação, pois o cotidiano é divinizado. Isso é muito importante. O panteísmo presente nos povos míticos talvez tenha essa grande beleza que é permitir em cada detalhe do cotidiano uma divinização. Eu sempre recomendo muito a leitura do Castanheda nesse aspecto, que é um dos últimos índios xamãs que sobreviveu das culturas maias e aztecas. Eles não mostram isso; os nossos índios daqui, os nossos incas, os tupilentinhos, os bororos, todos eles, o Levi Sosso nos mostrou, eles tinham toda essa capacidade de divinizar o dia a dia a cada instante. E eles têm um outro timing, porque o timing tem que ser muito mais lento, não há dúvida alguma. Tem outra vivência, tem uma outra mística, existe a configuração de Isis, existe a configuração de Osiris, existe a personificação se você quiser, mas não existe templo de Isis ou templo de Osiris, isso não existe. O templo de Isis que a gente fala que a gente viu na verdade é o templo de Isis e Osiris. A gente costuma falar templo de Isis porque ela é considerada pelo histórico de que foi ela que enganou a monra, lembra da história que contei na semana passada, porque foi ela que juntou. Ela tende a ter uma importância, não uma importância maior, mas ela tende a ser lembrada mais.

Mas na verdade os cultos são de Isis e Osiris, é impossível realizar o culto de um sem o do outro, como aliás na Grécia Antiga no período arcaico não existe tempo de Apolo, existe tempo de Apolo e Ártemes. Isso a gente vê em Delos, os dois tempos estão lado a lado um do outro. É só no período helenístico que a importância devida ao falocentrismo que Ártemes é colocada em segundo plano. Então é Apolo e Ártemes, como também Olímpia não é um santuário de Zeus, é de Zeus e Era. No templo antigo de Zeus nós sabemos que existia no antigo templo era templo de Zeus e Era porque havia uma estátua única, havia as duas entrelaçadas inclusive em uma posição muito erótica que o imperador Theodosio tratou de dar cabo dessa estátua muito depressa. Depois do período clássico construiu-se o templo de Zeus ao lado e considerou-se aquele templo de Era o templo menor, mas não era esta a origem, são os templos sempre consagrados as duas divindades. Então isso é herdado classicamente, nós estamos tratando separadamente por razões exclusivamente didáticas. Obviamente que em certas regiões do interior ainda da Itália, da Grécia, no interior da França, não sei se ainda sobrevive, mas no interior do Egito ainda sobrevive, eles não tem noção de relógio, eles não tem noção de temporalidade. Isso eu lembro no Irã 20 anos atrás que eu estive lá, tudo funciona assim, aliás é uma coisa rara, eles não sabiam o que era isso relógio, eles olhavam para o sol e estava tudo dito. E a gente fica tão desesperado porque eles não são pontuais, eles não são, eles não, mas eles tem um outro time, é outra vivência. Vamos prosseguir um pouquinho mais. Leva em direção a luz, o homem poderá em vida e depois da morte reconhecer a luz que é a sua essência, obterá assim o renascimento. Poder em vida é até mais fácil para nós, a gente entendeu o que é reconhecer a luz em vida, é isso que nós tivemos dizendo, esta busca da iluminação e do conhecimento. Quando eu leio isso aqui eu me lembro da observação de Platão, parece que ele estava lendo Osíris quando ele falou isso, o homem não tem direito a ignorância, a única possibilidade do homem é o caminho da luz. Isso é textual em Platão quando ele fala na República, eu falei mas não é possível, ele deve ter lido, ele foi ao Egito, ele deve ter guardado nas anotações dele essa observação consagrada a Osíris e transporta assim fielmente ao pensamento da sua República. E é isto mesmo, o caminho do homem só é possível pela luz, não há outro caminho possível em direção a Osíris. Mas o que ele quer dizer com isso, depois na morte reconhecer a luz. Primeira coisa, e nós temos com toda a nossa dificuldade que compreender que para os egípcios não há interrupção vida e morte. Para nós, como é para nós, a morte é uma continuação do caminho do espírito, para eles isso é totalmente cotidiano, senão não dá para se explicar como eles passam a vida se preparando para este grande cerimonial que para eles é a passagem para este reino. Como eles se preparam, você tem que estar o melhor possível preparado para passar para este reino, porque se você estiver despreparado você não obterá o renascimento. Sócrates obviamente se inspirou nesse texto aqui quando ele discute a imortalidade da alma, ele diz não, não é líquido e certo, a imortalidade da alma é árdua, a conquista do herói, e é exatamente daí que ele tira, porque mais uma vez é outro que sabemos que foi iniciado no Egito. Ou seja, obter o renascimento, voltar, é o grande caminho, é a grande conquista árdua da metamorfose, mas é para quem se preparou, é para quem lutou nesta direção. É exatamente esta concepção, a concepção egípcia do homem, é se por um lado todos estão lutando, por outro lado a humanidade degenerou. Não esqueça, no pensamento egípcio é que você é uma forma relativa de aperfeiçoamento e que você faz por merecer esse caminho contínuo de aperfeiçoamento. A função da múmia ficará mais clara ainda agora nesse sentido, a múmia e o K, olhando para ela como nós veremos daqui a pouco, não é senão a garantia de que lembre-se que você atingiu um certo estágio de aperfeiçoamento, é esse o teu patamar espiritual, é para que parceria que você poderia ir. Só que o homem tem a liberdade de ir daqui para baixo e frequentemente vai embora. Você tenha feito por merecer de estar aqui, nada indica que você vai continuar por merecer, aí está a tua liberdade. Os gregos herdaram esse conceito, é sua liberdade, é sua autonomia, livre-arbítrio de você evoluir ou se destruir. Só que quando você retornar às mãos dos deuses, você poderá se dissolver novamente, estar na mão de cada um, isto ou para sempre ou para sempre, não é nada líquido e certo. A responsabilidade dessa evolução é sempre sua, isso é muito claro no pensamento egípcio, como o homem está à frente aos deuses quando ele diz que não julga, falo por juiz de si mesmo. Acho que fica mais líquido ainda do que no próprio pensamento grego. O pensamento grego entra e coloca uma Perséfone a te condenar, a te verificar, onde nós temos nosso purgatório, isso não encontra no pensamento egípcio. Não há momento algum quando lá está Anubis pesando o coração, é o momento da consciência do homem, não é ele que pesa, é o homem perante a consciência que vai lá e coloca, Anubis não faz nada, ele só segura, é o homem que tem essa verdade dentro de si. Por quê?

porque eles apelam uma coisa muito importante: o homem sabe sempre a verdade e tem razão. O homem sabe perfeitamente, não precisa ser julgado por ninguém. Ele tem perfeita consciência de sua grandeza e de sua baixeza. A presença da divindade só existe para que ele acuse, mais nada. O julgamento quem faz é o próprio homem. A presença da divindade só faz para um homem acuse-a. É o homem de luz que se acuse. O homem se acuse entre verdade, ele toma consciência. É o momento em que você está à frente do divino. É mais ou menos aquela coisa que nós sentimos quando a gente está orando numa igreja, num templo: temos uma outra postura de consciência, que não é a como você vê no momento da sua rumificação. O Anubis também a mesma balança e todo o julgamento. Isso a gente vê cerimonialmente colocado em todas as graças. Aliás, a esses cerimoniares nós sabemos nas paredes, tudo colocado igual. Aliás, para o farol mais grave, porque para ele é esperado, ele do grande iniciado, mas ele pode igual o julgamento. Nada muda para o farol, não há um que não mostre todo este cerimonial com todo o seu caminho. O que eu acho por enquanto importante: no próximo encontro eu vou fazer uma síntese geral para vocês e nós vamos recapitular. Vocês vão ver que dá para engolir, não é tão impalatável. Mas é que é complexo. É realmente nós estamos estudando a religião de um povo multimilenar. Nós estamos estudando a religião mais antiga da história da humanidade, e que onde as outras são um café pequeno, não esqueçam disso em termos de duração. Então é natural que ela tenha uma grande complexidade, que foi elaborada ao longo dos milênios, porque a religião é uma coisa viva. É o meio que o homem encontra para se aproximar dos deuses, e conforme os milênios passam ela se aperfeiçoa. Ela se enriquece, ela ganha nuances e detalhes importantíssimos. Seria tolo a gente pensar que ele é um corpo fechado e inalterável quanto ao princípio fundamental, sim, mas esta riqueza ela tem que ter. Então sejam só um pouquinho pacientes, que depois nós vamos fechar. Vocês vão ver que dá para formar muito claramente o que é importante. Fundamentalmente, que vocês entendam é que os mistérios egípcios, a religião egípcia, ela é consagrada em duas grandes etapas. Uma é a etapa que trata da degeneração do homem e que abre as portas para o homem se ligar com o divino. Essa é esta grande etapa. Elas não são separadas, mas era assim que eles tinham seus cultos. E outra etapa, que é esta que nós estamos estudando, Ísis e Osíris são a libertação na terra. Uma coisa é o tributo que o homem deve ao divino, nada tem a ver com o seu caminho, com a sua evolução. A sua evolução e a libertação aqui na terra, que são os cultos de Ísis e Osíris. Por isso que nós encontramos tanto esse paralelo lá. Mas de todo modo, para nós é fundamental compreendermos que isto aqui é o fundamental da vida do egípcio: a libertação na terra, a alforria. É em função disso que vive o seu cotidiano, toda a sua vida. Quero passar um vídeo mais à frente para vocês com as recentes descobertas em torno de Gizé, que são mais de 600 túmulos que já foram desencavados. Não túmulos simples, sem significância, de trabalhadores, de que falta aquilo que a Marília perguntou do cotidiano. Porque a grande pergunta nossa sempre foi aquela: ah, tudo isso lindo maravilhoso, mas eles chicoteavam os escravos? Foram as epirantes? Hoje a gente sabe que isso não é verdade. A gente sabe que na realidade eram trabalhadores pagos. Mas isso foi feito graças às pesquisas, porque se encontraram as cidades, seria o canteiro de obras. Se vocês quiserem, hoje nós temos grandes evidências dos canteiros de obras das cidades, e sabemos que esses homens eram pagos, porque se encontrou nas tabuletas as contas, as contas para pagar. O mais simples de tudo: aquela coisa de hoje é dia do pagamento, sexta-feira. Também eles encontraram o dia do pagamento. E encontramos, além disso, as hierarquias: o mestre de obras, o engenheiro, o arquiteto, o capataz, não sei o quê. Tem toda uma hierarquia muito bem classificada e descrita. Agora, o mais importante de tudo, a meu ver, que foi encontrado, não só a meu ver, a ver deles principalmente, é os agradecimentos do faraó a estes homens. Foram encontrados nesses túmulos dessas pessoas que naturalmente são símbolos. Eles aparecem tudo aquilo que a gente vê, aquela grandezada dos faraós, a gente vê em miniatura. Então tem uma carruagem desse tamaninho, não é aquela que a gente viu maravilhosa do Acnato, mas uma carruagem pequenininha, um carro do sol, o barco do sol, tudo em miniaturas pequenininhas. Mas o mais importante são os textos gravados, poucos na parede, mas os agradecimentos do faraó pelo que ele fez. Então a gente fica sabendo a função e o agradecimento há uma postura absolutamente diferente de Céssio B.D.

Mil sabe pegou escravizou o judeu, chicoteou e matou, e não sei o que e tal, foi esperante, mas nada disso. A verdade é bem diferente: são pessoas sofridas, é claro, porque fazem trabalhos pesados. Então existe a análise dos ossos da coluna, das vértebras, da posição; vê-se com clareza que eram trabalhadores mesmo, e de coisas pesadas, e que trouxe as consequências, mas não há sinais de violência ou de mortes brutais, nada disso. E muito ao contrário, os textos colocados mostrando agradecimento e uma postura não arrogante do faraó, pelo contrário, uma postura muito grata em poder fazer, e etc. É muito bonito isso. Eu quero passar para vocês esse vídeo, porque é uma das provas arqueológicas muito recentes, é coisa dos últimos 5, 6 anos. Já se sabia, mas não havia tantas provas conclusivas e nem tantos textos decifrados para a gente verificar as coisas. Isis prolonga a vida ao ressuscitar Osiris. Se Ra é a consagração para o ser vivo, Osiris é para consagrar os mortos. O que significa isso? Que Isis prolonga a vida ao ressuscitar Osiris. Isso é o centro do ritual dos mistérios. Assim como Isis, vejam, o mito é bem a metáfora, é clara: assim como ela lutou e foi aos confins do mundo para juntar os pedaços de Osiris e poder ressuscitá-lo, esta será a sua vida e sua libertação na terra. Você terá que correr para juntar os seus pedaços para poder ressuscitar dentro de ti. Não tem conversa. Isso já diz claramente o que nós temos que fazer. Esta é a grande metáfora de juntar: você sempre juntará aquilo que você não tem. Por isso que é o masculino e o feminino dentro de ti, é o oposto, é o que te falta, que você procura juntar. É evidente, é aquilo que está espargido, é aquilo que você não tem, é o que você deve ir. Isto você se valerá do conhecimento, você se valerá desta luz, e isto será o caminho da sua libertação. Aonde estiver se desfazendo, você terá que ir lá e juntar. Aliás, esta é a concepção dos egípcios da força criadora do homem. A força criadora do homem é idêntica à de Isis: é a energia que tem para juntar aquilo que se despedaça à sua volta. E esta é evidentemente a melhor definição para o seu destino a cumprir. Cada um de nós sabe onde pode e sabe onde é melhor para poder juntar, e isso fará sentir-se útil, importante, cotidiano, sem dúvida, mas ao mesmo tempo dará toda a sua energia criadora e a sua força. Então aqui nós temos um capítulo extremamente importante do autoconhecimento por eles consagrado, que é os cerimoniais que nós sabemos que se praticavam, ou se praticava o ressuscitar de Osíris. Cada um praticava o seu ressuscitar de Osíris, desde o mais cotidiano até o mais elevado, misterioso, para si e para o outro. Esta era a prática. Por isso que era uma consagração aos mortos, porque você tem que ressuscitar o que está morto dentro de ti. Esse é o ato criador por excelência. O que é o criador? É aquele que consegue trazer de volta a vida. Esse é o mais elevado símbolo da criação que conhecemos, o mais divino de todos, que aliás está na tradição cristã: o ressuscitar de Cristo representa exatamente isto, trazer de volta a vida. Então cabe ao homem, e esta é a essência dos cultos e esse se Osíris, a práxis da ressurreição. Por isso que ele deve conhecer a morte tão profundamente, que quem não conhece a morte não poderá trazer de volta a vida. Agora é importante que vocês compreendam que isto não é apenas um aspecto físico do culto do voltar a viver, é do culto do ressuscitar de tudo na sua existência. É todo o mistério da criação que o homem deverá praticar, a arte de trazer de volta a vida. Cada um sabe de si. E mais uma vez aqui encontramos uma base muito interessante: se nós nos ocupássemos mais na arte de trazer de volta a vida e menos na arte de devolver a morte, nós estaríamos num mundo bem melhor. Porque o homem ocidental tem pavor da morte, mas é o que mais pratica a mesma, é o que mais vem praticando. Na medida em que você vai conhecer, você pode praticar a arte mais bela de todos, que é trazer de volta a vida. Os cultos de Isis e Osíris são cultos de ressurreição, sem dúvida alguma. A reverência que eles têm à morte e à busca tem dois aspectos: primeiro, porque é uma passagem, é vista como a continuidade em direção à eternidade, e assim ela é reverenciada, é um ato divino por excelência, é um ato onde o mistério do homem pouco pode fazer. E segundo, que o conhecimento dela nos permite trazer de volta o viver. Por isso que neste momento é que a gente fala que é Isis terrestre, que liberta na terra, porque são os cultos das cheias do Nilo, que são vistas como o mistério em voltar a viver. Os cultos da natureza, as estações do ano, a fertilidade, os cultos do erotismo, da prenhez e tudo mais, tudo isso está incluído dentro desse mistério de trazer de volta a vida. E por isso que os cultos de Isis e Osíris têm o seu símbolo maior e mais importante no ovo, o símbolo do ovo cósmico, porque lá está o segredo que traz a vida de volta, é o princípio da vida. E por isso que já disse isso antes a vocês, mas agora faz mais sentido: que os sacerdotes de Isis e Osíris e os iniciantes dos epóteses não podiam jamais comer ovo, era absolutamente proibido, porque lá estava o princípio da vida. Nas festividades de Isis e Osíris, que eram por ocasião da primavera, saibam que a páscoa judaica cristã toda ela se originou nesses cultos. Ninguém podia comer ovos, era terminantemente proibido. Não só comer ovos, como caçar animais, como pescar, como estava tudo suspenso. Só se podia nesse cerimonial a alimentação pelos cereais, que era a cevada e o trigo, e frutas, que eram os alimentos sagrados que não causavam a morte, porque os animais estavam, as fêmeas estavam prenhes, a época da reprodução. Depois disso era permitido, mas os sacerdotes e os iniciantes jamais tocavam em um ovo com o princípio. E vocês sabem por que a gente começou a comer ovo, eu já contei essa história: por ocasião do êxodo judaico, quando eles partiram do Egito, era a páscoa egípcia, era a festividade de Isis e Osíris, e evidentemente como ninguém comia ovos, tinha ovos a dar com pau, era a coisa mais fácil do mundo de achar, e eles comeram ovos para sobreviver. Foi o pão ázimo que se celebra até hoje na páscoa judaica, aquele pão que não teve tempo de fermentar, que se come aquele pão sem fermento, e ovos, porque era a única coisa que encontrava-se à vontade, pelas aves que estavam a solta, eles foram catando ovos, e o pão foi embora rápido. Então a partir desse momento, como eles sobreviveram disso, eles passaram a celebrar os ovos como fonte da vida. E foi mesmo para eles, foi, mas com outro sentido, porque salvou-os. Então até hoje eles celebram na páscoa, e a tradição cristã pegou o pão ázimo, que é a chamada matzá, e os ovos, onde a tradição cristã que veio de lá também celebra, e tem o ovo. Ovo de chocolate não tem nada a ver, por favor, eu venho esse ovo de recente. Mas vocês forem a Holanda, vocês forem a Rússia, que é o Egito, que é a tradição dos cristãos ortodoxos, que são os cristãos mais tradicionais ainda que os católicos, vocês verão os ovos feitos pintados, enfeitados, que se come a páscoa, ou o ovo mesmo. Mas o ovo mesmo vem dentro dessa mesma tradição. Mas não deixa de ser uma ironia que justamente nessa época não deveríamos comer ovos, a gente come ovos. Na verdade, a páscoa judaica celebra a vida, numa época que se celebra a vida, só que foram eles os que escaparam, a vida foi a deles no caso. Quer dizer, a tradição egípcia ela celebra a vida, ela celebra a criação, celebra a vida, celebra os mistérios da ressurreição, como nós vamos encontrar na tradição grega, que é herdeira direta, que mantém os cerimoniais das festividades de Deméter e Dionísio, que é o mesmo, na páscoa helênica por assim dizer, é a mesma coisa, celebra-se a voltar a vida, também era proibido comer dos ovos, também era proibida a caça e todas aquelas coisas dos bosques sagrados, o cerimonial é parecidíssimo. Mas é interessante observarmos em toda a região a mesma tradição permanecer. Muito bem, assim nós podemos compreender que Osiris é para consagrar os mortos, porque ensina a arte de morrer e renascer, é senhor do mundo inferior. Mundo inferior quer dizer o mundo dos mortos, não o mundo baixo. Agora aqui vai começar a ver a tua resposta: e concede vida no reino celestial. É isso que nós todos queremos, no qual, do qual, aliás, esta terra não é senão um reflexo. Bem, como que ele concede vida no reino celestial? O senhor acabou de dizer que ele é transitório, que ele nos liberta apenas na terra, e etc, porque ele é etapa necessária, é claro, porque sem esta libertação, sem esta instrumentação do conhecimento, não poderá haver, como nós veremos aqui nos cultos. E aqui tem a importância da múmia muito grande: a separação entre a alma e o corpo. O cerimonial da mumificação é um cerimonial que procura facilitar a separação, é um ritual que prepara a separação entre o que é alma, que é psique e espírito, e o que é pura matéria. Bem, nós chegaremos lá. Preside os mistérios onde a alma pura reina sem corpo, que não é o nosso, evidentemente. Por quê?

O reino celestial é onde está a alma pura. O estado pós-mortem é governado de acordo com o conhecimento que se tem, e o síris irá. Ou seja, após a morte é que você poderá usufruir efetivamente, avaliar toda a sua herança que você plantou aqui na terra. Tudo aquilo que você conquistou você leva. Só que isso vai nos levar a um outro tema, que é a chamada segunda morte, do qual você fala. A tradição egípcia fala em duas mortes, diferentemente da nossa. Nós falamos nesta que a gente tem, não conhecemos outra. A única que a gente tem é uma. Não bastasse ter mais outra para morrer, Deus que trabalho! Já não chega angústia com uma, tem que enfrentar a outra, que absurdo. De fato, eles falam numa segunda morte. Trata-se da passagem do reino de Osíris para o reino celestial, que é essa pergunta que você estava fazendo, que é essa do puro espírito. E esta é a mais elevada. Não é apenas de um ciclo de reencarnações, a gente pode falar assim, ou de ressurreições que a tradição de Osíris fala. Ela fala assim: essas ressurreições têm a finalidade de trazer-te de volta à vida para te aperfeiçoar. Mas a um ponto de teu aperfeiçoamento, haverá você de partir para o reino celestial, onde ocorrerá uma outra morte, que é aquela que te separa definitivamente desse estado psíquico, se você quiser usar uma metáfora da nossa linguagem, que leva para o estado espiritual puro. As tradições orientais também falam nisso. Então, na realidade, a tradição de Osíris te tira do mundo material para te levar ao plano do mundo sutil, do plano sutil para o celestial. É uma outra conversa, que é a segunda morte da qual nós trataremos. Mas este é o plano da ressurreição, onde você do mundo material passa para o plano sutil, do plano sutil você retorna ao mundo material e aperfeiçoa mais esse plano sutil. Esta ida e retorno dessas diversas ressurreições só preparam a sua sutilização, se você me permite o neologismo, só preparam a sua sutilização em direção à tua espiritualidade absoluta, que é onde ocorrerá a sua segunda morte. Este plano aqui, você estando aqui na terra, você só pode prestar culto. Lembra que eu falei, você presta culto a monrar porque ele é ou a tonrar porque ele é o mundo subestial. Você sabe que está longe dele, você paga tributo, você agradece por estar aqui, etc. Mas ele é puro mistério inacessível a nós. Nós só podemos conversar com Isis e Osiris porque nós somos sensoriais, nós somos sensíveis, nós somos transitórios. O máximo que nós podemos chegar com mortais que somos, cada um numa etapa de evolução, mas nós tratemos de ser concretos e vamos glorificar o nosso cotidiano e o que nós podemos alcançar dessa libertação aqui na terra. Esse é um outro plano muito mais elevado, para o qual nós nos prepararemos. Este é o plano do grande sacerdote, este é o plano do messiânico, este é o plano de Cristo. Tem os enviados, tem os grandes enviados. E nós estamos vindo de lá, mas não é o nosso plano. Aliás, a ideia do grande messiânico vem daí, evidentemente do filho de Deus que nós temos, do enviado, etc. Vem deste plano, é aquele que já atravessou e está na segunda morte. É muito importante nós termos consciência deste conceito, porque ele nos coloca numa visão evolutiva muito diferente e nos abre uma porta para compreender melhor o que é o caráter do messias. Mas o que é essa grandiosidade, que morte é essa que a gente fala? A ressurreição de Cristo, por exemplo, quando eles falam que ele morreu e ressuscitou, ele não morreu e ressuscitou no sentido físico da palavra, de jeito nenhum. É desta morte que está se falando, deste plano celestial. Ele vem do celestial e retorna ao celestial, não tem nada a ver com o ser de morte nossa. Mas os antigos sabiam disso, somos nós que desaprendemos, porque a igreja fez essa confusão toda desse outro plano. E é este o símbolo dele de voltar aqui e retornar que está só nesse plano. Eu não quero entrar com esses novos hoje para não confundir, mas o caráter é o seu duplo, na verdade é o estágio de evolução espiritual seu. Se você quiser a melhor definição do caráter é o nemono helênico, é evidente que eles tiraram de lá esse conceito. É o estágio de imortalidade relativa que você atingiu, o estágio de aperfeiçoamento relativo que você atingiu. Por isso que os egípcios colocavam de frente da múmia o caráter, olhar o tempo todo. Ele tem uma função memória, para que você saiba o estágio relativo de aperfeiçoamento que você se destruiu, que você se evoluiu e se destruiu. A múmia resta o cará ainda para eles, ele não se perde, ele é o seu duplo do estágio nesse momento de sutileiro, o grau de aperfeiçoamento que você chegou no plano sutil. É isso mesmo, é para onde o homem deve retornar. Nós vamos encontrar no próximo encontro desta passagem deste plano para o outro. Eu vou fazer uma síntese geral para vocês se situarem. Eu vou falar dessa segunda morte que trata da separação do corpo e da alma, porque são duas espécies. Vejam como ele diz aqui: uma faz do homem dois a partir de três, isso é textual. A segunda morte faz dele um a partir de dois. Primeira faz do homem dois a partir de três. O que ele é dois a partir de três? O que ele é três? Ele é o material corpo, alma e espírito. Então ele simplifica, o homem fica a dois a partir de três, o que ele se torna alma e espírito. A segunda faz dele um a partir de dois. Sutil se faz natural, a alma não passa de corpo sutil, o espiritual é a imortalidade. A alma não é imortal, a alma é o seu grau de aperfeiçoamento relativo, só duplo reflexo. É o reflexo que te faz voltar a ser, na realidade é memória K, é memória cósmica de você. Esse conhecimento ele tem que ser saboreado, ele tem que vir devagarzinho, e nós estamos muito distante dele. A gente tem que recordar voltando. Mas eu ainda acho isso muito fascinante, eu acho uma fascínia impressionante. Parece que a gente está voltando na história do tempo do início dos tempos, dessa sensação para recompreender toda a dimensão da condição humana do mistério, etc. Eu pelo menos, quanto mais eu estudo, mais eu fico impressionado com o grau de sutileza, o grau de profundidade e de riqueza simbólica e cósmica que eles eram capazes.


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PALESTRA 8 — O BELO
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A Universidade Falada. Conhecimento à velocidade de um clique. A Universidade Falada apresenta o audiolivro Uma análise filosófica do belo, do justo, do nobre, na visão dos antigos. De autoria de Victor de Salis. Vocês sabem o nome da escravidão? E a melhor maneira de aplicá-la é você achar que é livre enquanto está bem escravizado. O consumismo é muito simples. Por quê? Quando você se torna um consumista, está sempre devendo. Portanto, não tem tempo para pensar. Só tem tempo para trabalhar e pagar a conta. É exatamente isso que o Estado e a empresa moderna querem. Indivíduos ocupados em gastar dinheiro no shopping e estar sempre endividados no fim do mês. Assim, não têm tempo para pensar e não incomodam os poderosos. Muito prático. É uma escravidão esperta. Porque você adora ela.

Você adora comprar coisas e tranqueiras que não vai usar, não é mesmo? Mas voltemos aos talentos. Como desenvolver esses talentos? Para quem deseja essa difícil arte e desafio. É o vulgo apostar no seu taco. Pois sem isso é impossível. Sem acreditar em si e dar o máximo de si. Nada feito. Trata-se de ter a coragem de se deixar levar por seu caminho. E até mesmo se deixar levar por aquilo que parece loucura muitas vezes. Se aprofundar naquilo que o desperta. E entrar por esta porta. Muitos vão dizer que você está equivocado. Que isso não dá dinheiro. Mas vejam quantas e quantas histórias de grandes homens se fizeram assim. Se acreditar e seguir com todas as dificuldades, todos os obstáculos, estará no bom caminho. E acabará descobrindo um caminho que é só seu. Os antigos chamavam isso o caminho de Hermes.

Por que Hermes? Daí deriva a palavra hermético. Vejam que engraçado. Porque era esse diálogo interior com você mesmo. E era guiado pelo deus Hermes. Porque na antiguidade o deus Hermes, o Mercúrio Romano, não é apenas o deus do comércio. É o deus que te ensina a encontrar os caminhos da sua vida. Por isso é chamado psicopompo. Aquele que te faz percorrer os caminhos da psique. O mito do herói descreve muito bem esse caminho. É a busca em transformar seus talentos em seu próprio mito. O que é transformar em seu próprio mito? É o sonho que você tem que ter. Porque acordar-se em um sonho é triste. É descobrir um mundo novo. É vencer a medusa, que é aquela coisa aterrorizante da insegurança. Nunca foi seguro a gente cumprir nosso destino. É o contrário dessa história que estava escrita ou não estava.

Vencer a luta em busca do seu destino é a coragem de trilhar um futuro. Se deixar levar, atender aos chamados da vida, não ter medo, dar o que a vida pedia, se aprofundar. A descrença do mundo ocidental reside no fato de que alguém possa se realizar por meio dos seus talentos. Acham que não. Isso não é prático. Mas as grandes realizações do mundo ocidental foram feitas graças aos grandes talentos. Na ciência, na arte, na dança, onde vocês quiserem. No empreendedor que seja. Salvo algumas exceções, o destino do ocidental, na verdade, está disfarçado de sobrevivência. Mas, no fundo, é busca por dinheiro, status e poder. O dinheiro é necessário para o direito de ser. Mas, até certo ponto, a partir daí, pode e, de fato, se torna uma doença. Basta ver o que acontece com aquele indivíduo que já teve dinheiro e deixa de ter.

Definindo como um fracassado. Por outro lado, quem já não ouviu esta pérola? Tô bonito. Estou cheio de dinheiro. A concepção de belo, hein? Tô bonito, cheio de dinheiro. Para mim, ele é horroroso. Esse é o horror dos horrores. Se tornar belo por causa de um bolso cheio. Coitado dele. Que triste ideia do belo. A verdade é que o ser humano é capaz de qualquer coisa por dinheiro. Independentemente de suas questões anais, que Freud tanto estudou. Um psicologuês que não acrescenta nada. Só uma alta incidência de hemorroidas mesmo. Isto é uma alusão, a gente sabe. A fixação anal que Freud fala, das pessoas que têm essa coisa de prender, de pão durismo, de econômico. Há uma associação, sem dúvida. Mas não adianta nada resolver isso. A questão está muito mais em cima e muito mais ética. E por falar em ética, resta a gente abordar a questão mais delicada do belo.

A saúde ética. Nós achamos que saúde é coisa de médica, coisa de psicólogo, é coisa de comida e etc. Esquecemos de que a mais elevada forma de saúde está na ética. Não há psicanalista. Não há cirurgião que cure a culpa da falta de ética. Que cure aquele indivíduo que chega e te diz, eu fiz de tudo na vida, menos aquilo que eu devia ter feito. Eu fiz tudo o que eu consegui às custas do sacrifício e do prejuízo aos outros. Por mais psicopata que o indivíduo seja, essa culpa um dia bate e vira doença. Por quê? Não há nada mais elevado do que a chamada paz de espírito ou o que os antigos chamavam de mérito. Arete, em grego. Excelência. É o objetivo máximo de todos os talentos que não só engrandeceram você, mas engrandeceram tudo que está à sua volta. Como disse a Guilmar Novaes, é só assim que eu posso dar o que eu tenho de melhor a vocês.

Isto sim, é mérito. A saúde combina com mérito e potencializa a vida. Seu conceito oposto, em grego, era antropos arostos. Arete arostos. A semelhança linguística é evidente. Arete quer dizer excelência, o máximo de saúde ética, o máximo de plenitude. E arostos é falta de arete, falta de excelência. Mediocridade, vício. Homem doente, portanto. Arostos quer dizer exatamente isto. Doente. Falta de excelência. Falta de arete. Todo homem sem arete é um candidato à doença. Mesmo aquele que pratica o excesso de zelo vive o risco. A arete é o máximo da tecnologia que se pode ter para cumprir o destino. Uma vez que desenvolve ao máximo nossos talentos. E estes levados à excelência farão com que você se torne uma obra de arte. Ética e criadora. Não uma obra de arte narcisista colocada numa vitrina.

Uma obra de arte que tem algo a oferecer aos outros. Tocamos agora num conceito arcaico muito belo. O apolíneo. Apolo. A gente fala o deus da beleza. Mas a gente logo pensa num rapagão lindo e maravilhoso. Que tolice. A beleza de Apolo é a busca da arete. Apolo é o deus da luz. E seu nome significa a totalidade da luz. Ap. Olum. Ap. Totalidade em sânscrito. Olum. Conhecemos. Olístico, por exemplo. Total. A gente percebe que certas palavras arcaíssimas chegaram ao português. É a divindade por excelência do belo. Da música e da criação. Somente com a intervenção, no entanto, de Dionísio, o deus do vinho, do êxtase e da alegria, é que podemos chegar a Apolo. Que interessante isto. Que belo aforismo. Escrito no templo de Apolo. Quem não souber descer, jamais servirá para subir. Aí está o significado desse deus.

O que é quem não souber descer? Descer é o dionisíaco. É o simples. É o humilde. É o concreto da vida. É o que a alegria de viver deve lhe dar. Porque só com essa alegria fundamental da simplicidade é que você pode se elevar ao belo. Ao belo transcendental. Não será com arrogância e muito menos se fechando em templos que você alcançará o belo. O processo da criação, na verdade, é uma consagração ao mundo. É uma dádiva que você concede ao mundo. Uma outra palavra muito interessante: Charis. Em grego, derivou a palavra charisma, que virou carisma na língua portuguesa. Mas o seu significado original é bastante diverso. Talento, graça divina, dádiva divina. Charisma é isso. Presente dos deuses, máximo. Ela derivou essa palavra. Surpreendentemente, Charis derivou harax, que virou caráter na língua portuguesa.

Como a gente perde o sentido e o significado. Harax, caráter, nada, haraktir mais exatamente, caráter, nada mais é do que você cumprir suas graças, charismas, plenamente. Isto é caráter. E não é ser bom menino ou mau menino. Como nós tristemente transformamos. Note-se que harax, em grego, quer dizer régua, retidão. Portanto, é uma redundância falar em retidão de caráter, em grego. Porque ou tem caráter, que é reto, ou não tem. Que retidão é essa? A retidão significa a certeza de cumprir o seu destino. É a flecha de Apolo. Infalível. Reta. Aquele que sabe de si e não se torna um fanático. Mas ele busca cumprir aquilo que ele é. Portanto, criação nada mais é do que a realização dessas dádivas, essas graças divinas. Ele recebe uma genética transcendental, podemos dizer, para realizar seu caráter.

Agora, entendemos lá atrás, vocês lembram? Caráter é destino? O nosso grande Parmênides colocou. O conjunto dos talentos forma o caráter. E forma o destino. Mais uma para pensar. Hará. Em grego, quer dizer alegria. Vocês conhecem a alegria maior do que cumprir? Para a sua própria realização, o seu próprio talento, o seu próprio destino? Assim como Ebedemonia, que já mencionamos. Mais uma. Horós. A semelhança linguística é notável. Essa é a beleza das línguas antigas. Todas elas têm um significado e um parentesco que ajuda a deslindar todo o sentido. Horós quer dizer dança. Ou seja, estar dançando conforme a música das musas. É a dança. É a música da alma. É a música dos talentos. Quando estamos em harmonia, não parece que há uma música dentro de nós?

Porque a gente está em consonância com a harmonia cósmica. Essa é a mais elevada forma de paz que podemos conhecer. Não há outra possibilidade para o homem se colocar em harmonia com o universo, senão pelo desenvolvimento de seus talentos e pelo cumprimento do seu destino. E não há coisa pior que deixá-lo de cumprido. Lembremos Parmênides. Caráter é destino. Agora entendemos porquê. E este é o único caminho possível para a conquista do belo. A falácia racionalista do nosso século é achar que liberdade e destino se opõem. Nada mais tola essa discussão. Isso porque destino é o resultado do seu caráter, que por sua vez se forma na realização e expansão máxima de seus talentos, transformados em aretê, em excelência. Portanto, destino não é senão a realização máxima e plena de si mesmo.

Eis como entra a liberdade e de que maneira nenhuma se opõe ao destino. Liberdade, em grego, é eleuteria. Temos até um nome em português, eleutério, sem saber o significado dele. Mas o que é estar liberto? Liberto de quê? Elef, o radical. Alef, primeira letra do alfabeto hebraico. Nada disso é de graça. Alef, libertação, era a busca na escola dos mistérios de Eleucias. Eleucias é libertação. Nós estamos falando da única possível. A libertação do ciclo da vida e da morte. Não existe angústia maior que a mortalidade para os homens. Isso não é novidade nenhuma. Nós somos livres, porém mortais. O homem pode ter todo o sucesso, menos a vida eterna. Sabendo que vai morrer, de que adianta tudo o que tem? Entendemos agora a doação desses grandes empreendedores, desses benefactores, etc. É o caminho do herói como uma libertação da mortalidade.

Ao cumprir pela mente seu destino, se aproxima do caminho da imortalidade, diziam os antigos. Ainda tenho à minha frente a escolha entre cumprir o meu destino ou não. Escolha essa que se confunde com liberdade. Os deuses, já diziam os antigos, eles não impõem o destino a cumprir. Apenas sugerem. Conta-nos esse ditado. Nossos talentos, só uma sugestão. Eu posso abandonar tudo isto e seguir coisas completamente diferentes na minha vida. E frequentemente isso é verdade. Mas os deuses também diziam um outro ditado. O destino acalanta quem o segue e arrasta quem o nega. Sabemos quando vamos contra a nossa corrente. A gente até consegue, mas como somos arrastados. Liberdade existe. E não se opõe a destino. Sempre será vista como um compromisso ou um descompromisso com o seu caminho cósmico.

Posso fazer o que quiser com a minha vida. E ser somente guiado para o meu ego. Todo indivíduo pode seguir o caminho que bem entender. No entanto, ainda o melhor caminho para ele cumprir o seu destino é passar sua vida se tornando cada vez mais ele próprio. É que muitos vão contra si mesmos em suas escolhas egóicas. E confundem identidade com persona, com ego ideal, achando que isto é o belo da sua vida. E isto é o desastre de sua vida. É o retrato de uma catástrofe total. Com escolhas desastrosas feitas por ideais egóicos. O melhor exemplo, sem dúvida, nos deu Oscar Wilde em seu brilhante livro O Retrato de Dorian Gray. É uma excelente metáfora do auge desse narcisismo que só busca fugir do tempo como se isto fosse o belo. Mas a finitude é o momento que representa o infinito. O indivíduo que se realiza é a mais pura representação do infinito nesta busca do belo.Eis como entra a liberdade e de que maneira nenhuma se opõe ao destino. Liberdade, em grego, é eleuteria. Temos até um nome em português, eleutério, sem saber o significado dele. Mas o que é estar liberto? Liberto de quê? Elef, o radical. Alef, primeira letra do alfabeto hebraico. Nada disso é de graça. Alef, libertação, era a busca na escola dos mistérios de Eleucias. Eleucias é libertação. Nós estamos falando da única possível. A libertação do ciclo da vida e da morte. Não existe angústia maior que a mortalidade para os homens. Isso não é novidade nenhuma. Nós somos livres, porém mortais. O homem pode ter todo o sucesso, menos a vida eterna. Sabendo que vai morrer, de que adianta tudo o que tem? Entendemos agora a doação desses grandes empreendedores, desses benefactores, etc. É o caminho do herói como uma libertação da mortalidade.

Podemos tocar o infinito e o eterno, cumprindo o plano cósmico, sendo quem nascemos para ser. Este é o conceito fundamental de belo em Platão. Parte 3. Vamos abordar o belo na República de Platão porque é tema central e fundamental no pensamento platônico. Antes, faremos uma série de correções a respeito do que é o belo em Platão, que, obviamente, pouco tem a ver com nossa ideia de belo. E mais, temos que corrigir a própria palavra república, que é, sem dúvida alguma, uma tradução completamente infeliz do texto original. Se isto não tivesse consequências importantíssimas na compreensão do texto, poderíamos até dizer que se trata de erudição. Não é. Trata-se, sim, de compreender o verdadeiro sentido do que ela representa. Começamos por explicar esta palavra república, que, na verdade, é uma corruptela da primeira tradução que Cícero fez para o latim do grego, e ele traduziu a palavra original, que é politéia ou politia, esse é o título original, por res pública, que nada quer dizer como república, mas sim significa a coisa pública, o público, o que pertence a todos, que é também uma tradução inadequada, mesmo assim, porque não é disso que se trata na politéia. A tradução correta de politéia seria a formação da polis como civilidade. Podemos também optar pela questão da civilidade, que é construir a civilidade como tal, a busca da civilidade da construção de uma polis. Ela é guiada pelo belo. Agora sim, teremos que fazer uma introdução a respeito dessa questão do belo, o que é o belo em Platão, para que possamos compreender uma reflexão tão fundamental como a politéia, que é considerada uma das maiores obras-primas da filosofia do pensamento nosso. A república, como foi traduzida, nos dá uma ideia de que estamos falando de algo moderno que se opõe à monarquia, seria a primeira concepção imediata que teríamos. Aí já começa o grande erro, porque de maneira nenhuma o texto platônico é republicano no sentido moderno da palavra. Podemos dizer sim que ele é um texto por excelência aristocrático no sentido arcaico do termo, ou seja, no sentido da arete, da excelência, do mérito. O mérito quer dizer que cada um deve dar o melhor de si para a construção de seu caráter, de sua busca como indivíduo politizado, civilizado, e para a polis. É neste sentido que ela é um texto aristocrático por excelência, não como aristocracia de sangue, mas como aristocracia de merecimento. A melhor tradução ainda seria a meritocracia, jamais a república, porque trata-se de construir uma cidade-estado com cidadãos, cada qual a partir do que ele tem de melhor, dos seus talentos, e a partir deles oferecer o que cada um tem de melhor para a construção desta cidade. O ponto fundamental é que a polis e o cidadão devem se assemelhar, e jamais a polis imporá um modelo ao cidadão, jamais um cidadão por si mesmo imporá um modelo à polis. Ambos haverão de encontrá-lo, e o modelo que os orienta é o belo, como cada um tem de melhor em si e que cada um tem de melhor para oferecer. Portanto, trata-se de uma reflexão elevadíssima onde a civilidade deve ser guiada pelo belo, e este belo nada tem de contemplativo. Vale a pena agora retomarmos a questão do belo no significado arcaico, porque, infelizmente, com o passar dos séculos e particularmente com o nosso modelo de civilização mercantilista e hoje consumista, o belo tornou-se um modelo predado meramente exterior de consumo. É claro que o belo em Platão atinge outros patamares. O belo em Platão, que muitos já confundiram com um estado meramente contemplativo, e não é, significa o ápice do que nós podemos alcançar como nobre, bom e justo, três conceitos fundamentais: a nobreza, a bondade e a justiça. E a isto ele chamou de calos, que é o nome para o belo, que reuniria esses três atributos no seu mais elevado patamar. A paideia do cidadão e a formação da polis devem ser guiadas por estes três princípios. Feita toda esta explicação, fique claro que, na verdade, a república é uma crítica à república ou à democracia de então ateniense. E por que é uma crítica mordaz? Porque a democracia que lá nascia não era nada diferente do que hoje nós encontramos. Os currais eleitorais já eram conhecidos. Qualquer cidadão que comprasse as armas, e mesmo não cidadão, especialmente não cidadão, que não tivesse passado pela paideia, o que é muito importante, poderia comprar essas armas e, se voltasse vivo de alguma guerra, ganhava o direito da cidadania, mesmo sendo um analfabeto de pai e mãe. Com isto, ele ganhava o direito do voto. E claro que nem Platão, nem Sófocles, nem Ésquilo, para citar alguns, menos ainda Sócrates, aceitavam a ideia de que o voto de um ignorante desses pudesse ter o mesmo valor de um homem como um Sófocles, como um Platão ou como qualquer grande homem. A questão do mérito, que não deve ser confundida com virtude, porque é um conceito muito cristianizado, é um conceito de excelência, arete, quer dizer excelência pessoal. Esta questão é que deveria guiar o merecimento de cada cidadão ao lugar que lhe fosse devido. Infelizmente, como bem aponta Platão, o espírito democrático nivela tudo por baixo e naturalmente gera a tão conhecida corrupção, que é a compra e venda de votos e assim por diante. Não por acaso, a república, no seu primeiro livro, serão dez, inicia uma discussão sobre a injustiça. E é claro que a questão da justiça e da injustiça ocupará um papel central em toda essa reflexão, pois que o belo não poderá ser alcançado através da injustiça, menos ainda podemos pensar na formação de uma pólis nobre e justa sem antes espanarmos essa questão. Logo no primeiro livro, que se passa em um porto de Pireu, na casa de um certo sujeito chamado Trasímaco, um homem abastado, rico, porém velho, convidam Sócrates para esta discussão sobre a questão da justiça, se ela é mais ou menos vantajosa que a injustiça. Os homens que cercam Sócrates, poderíamos dizer que são os executivos de hoje na antiguidade. Eles não têm papas na língua em dizer claramente que é muito mais interessante a injustiça, porque ela é muito mais vantajosa, ela serve aos nossos interesses. Evidentemente, Sócrates rebate com a afirmação de que sem justiça não pode sequer se pensar numa sociedade ou numa pólis como tal. Então ele é provocado realmente para mostrar a origem dessa justiça e saber se ela é desejável. Ele precisaria entender que a injustiça só traz vantagens e que ela é natural da condição humana. Bem, quanto a isso não temos a menor dúvida. Basta observar uma criancinha pequena, ela quer tudo para ela, se facilitar, se nós deixarmos, contrariada e não a demonstrarmos, ela vai te morder, vai te chutar, fará o que quiser. Ela quer pensar sobre si mesma, o egoísmo é um instinto fundamental até de preservação, podemos dizer. Mas, infelizmente, nós não podemos construir uma sociedade que supõe um igualitarismo, que supõe uma questão de merecimento, se nós deixarmos esses instintos à solta, como aliás estamos deixando hoje. Basta alguém passear por alguma escolinha e ver os anjinhos como eles se comportam. Os irmãos de Platão pedem a Sócrates então que explicite a origem da justiça, se ela é desejável e como fazer para que ela se torne o baluarte da pólis. E Sócrates responde com toda tranquilidade de que a origem das sociedades é claro que vem da troca e da justiça, ou seja, elas só são possíveis às sociedades na exata medida em que há um respeito mútuo inicial pelo que é seu, pelo que é do outro, e assim por diante. Caso contrário, a barbárie e o saque advirão muito facilmente. Mas quando advém a riqueza, aí são necessários os guardiões. Mas não só os guardiões físicos, os soldados. É preciso muito mais do que isso, é preciso uma paideia. O que seria esta paideia se não a formação ética de um cidadão, formação esta que permitisse a ele tornar-se guardião de si mesmo e guardião do outro? E acima dele, é preciso que haja os deuses, caso contrário cairemos naquilo que Hesíodo já muito bem lembrou na Teogonia, cairemos nos homens de bronze, que são o falso ouro, que fazem justiça pelas próprias mãos e eles próprios são a lei. Bem, quando todos querem se arvorar o direito de ser a lei, a diferença entre legalidade e justiça se torna gritante. Ou seja, este igualitarismo tão ambicionado não pode nivelar por baixo, ele tem que nivelar por merecimento. E esta será a grande chave sobre a questão do belo, porque este merecimento reporta-se aos talentos, e é indiscutível que há homens talentosos que beiram o belo e outros que não, seja na ciência, seja nas artes, seja em qualquer área do conhecimento. E é a eles que deve ser entregue o governo da pólis, porque eles são a expressão do belo, e sendo eles a maior expressão do belo, eles poderão tornar a pólis semelhante. Ou seja, talentos, o belo, a arete do homem e a pólis devem todos estar a serviço desta construção que se chama politéia. Como podemos já entender, de república não tem nada de democrático, não tem nada, embora de justo tenha o mais alto patamar. Bem, nessas alturas do campeonato, Sócrates, que não é nada bobo, cutuca com vara curta Trasímaco e os outros ricaços que estão lá: "Já que vocês insistem tanto que a injustiça é muito mais cômoda, é mais fácil e mais natural, vocês não prestam contas aos deuses, vocês não têm medo do julgamento que há de advir após a morte?" Porque não sei se vocês sabem, essa ideia de purgatório, de julgamento, etc., é uma ideia herdada dos antigos gregos, e todos eles acreditavam que após a morte eles passariam por um julgamento no Hades, que seria o mundo subterrâneo dos mortos, na frente da grande juíza, esposa de Hades, Perséfone. E ela tinha ao seu lado um famoso cão de três cabeças, que muitos já devem ter ouvido falar, de nome Cérbero. As três cabeças não eram exatamente uma fantasia imaginária do mito. Na realidade, as três cabeças representavam cada uma o olhar implacável e o julgamento implacável do justo, do bom e do belo. Ou seja, por isso que ele era muito dócil para entrar e implacável para deixar sair, porque só poderia sair deste local quem passasse por este julgamento do que fez na vida, do justo, do bom e do nobre. Passar e ir para onde? Aí está outra questão importante que devemos compreender e que está no centro do pensamento mítico-religioso arcaico: é que eles acreditavam que voltariam a viver, mas só voltariam a viver se passassem por estas provas. Caso contrário, voltariam sim a viver, mas teriam que repetir tudo outra vez, quebrar a cara outra vez para ver se aprendiam alguma coisa. Bem, isso é apenas uma questão para que a gente possa compreender o medo da morte e o medo da morte como prestar contas. E Sócrates vai além, ele diz: "Você tem que prestar contas aqui em vida como também após a morte." E eles sabem disso, aliás todos nós sabemos disso. Se há um sentido fundamental na educação religiosa em todos os tempos, é colocar o homem sob princípios que estão acima dele e que poder algum, seja ele material de qualquer espécie, possa sobrepujar essa força. É assim que se constrói de fato a civilidade. E mais além, claro, entra a questão da mentira. Quem de nós escutou desde criança que coisa feia mentir, como é feio você mentir e como é belo falar a verdade? Sem dúvida alguma, o belo em Platão, como veremos, exige talentos na sua expressão, mas eles têm que estar a serviço da verdade. Coloca-se aqui uma das discussões de cunho político dos mais difíceis: a mentira como objetivo político. Até parece que é novidade para nós. Infelizmente, político e mentira são praticamente sinônimos na modernidade. A questão é muito antiga. É irônico, no entanto, que a origem etimológica da palavra político vem de polis, cidade, e ético, o ético para muitos, de onde viemos e aonde descambamos. E é esta a questão fundamental: o político deve estar a serviço da verdade e deve proteger. Se ele tem uma função e um cargo elevados, os seus cidadãos devem ser protegidos, mas não será com a mentira. É bem verdade que Platão coloca em Sócrates uma reflexão muito séria sobre a nobre mentira. E o que seria isso? Nada mais nada menos do que a necessária mentira para provocar um bem e não para provocar um mal. Exemplos muito simples: como compete a um médico dar uma notícia difícil, como um câncer, para o seu paciente, ele não pode chegar para ele e dizer "você tem quatro meses de vida, até logo". Esta é uma verdade implacável e assassina. É preciso transmitir esta notícia de um modo mais suave, mais doce, e por vezes é necessário até omitir. Mas o objetivo fundamental é que aqui está em jogo uma intenção ética de praticar o bem e não de praticar um prejuízo, que é o que a política de hoje pratica e realiza. Passa então a perguntar a ele como é que se constrói este cidadão e esta cidade voltada para o belo. Aqui começa uma das questões fundamentais da chamada paideia e desta construção que será longa e alta. Primeiro das funções que ele fala é a educação pelo canto. Que coisa espantosa, educação pelo canto. Por que será que a educação pelo canto era tão fundamental no pensamento arcaico? Porque educa a voz, porque introduz harmonia e serenidade na alma. A seguir, ele fala do hábito da moderação. Disto nós já entendemos bem. O belo sem moderação não pode existir. Os antigos têm uma palavra perfeita para isso: metron ariston. Ariston de arete, de excelência. Metro, medida. A medida da excelência, a justa medida. Mas que não quer dizer o meio termo, é o termo certo. Ora, este hábito da moderação, sabemos muito bem a sua importância hoje, aliás recentemente recuperada esta importância, e diremos que só em alguns lugares, porque o hábito da moderação que ele se refere se refere a tudo. Não é só alimentação saudável ou a chamada qualidade de vida. Aliás, eu nem gosto desse termo. Eu diria que mais de qualidade de vida, nós temos que buscar reconquistar a dignidade da vida. Esta está perdida e não será reconquistada frequentando academias ou sendo vegetariano ou outros hábitos que, na verdade, escondem muitas vezes um narcisismo de querer parecer mais jovem do que é, de querer se conservar. Dignidade da vida e hábito da moderação significa moderação na ganância em primeiro lugar, moderação no egoísmo, moderação nos impulsos que tanto nos descontrolam. É a moderação naquilo que ele chama no nosso instinto apetitivo, que não é só para comer, é para engolir os outros também. E depois ele fala do amor ao belo. O amor ao belo deve ser algo central na condução de toda a conduta. O que quer dizer isto? O meu belo diferente do outro, sim, é diferente, mas essencialmente o mesmo: procurar ser o melhor possível no que você tem de melhor. E claro que os exercícios fazem parte. Ele vai além: amar ao belo é não abandonar os inválidos. Não há pólis. Ele ainda insistirá que é dar condições iguais à mulher e ao homem. Se nós vemos com atenção a República de Platão, ela é o primeiro libelo da igualdade entre o masculino e o feminino que conhecemos na história. Literalmente, é citada a importância de dar condições e direitos e deveres iguais para os homens e para as mulheres. Caso contrário, como poderemos falar em justiça, em beleza? Mas ainda ele chama a atenção de que toda política deve buscar uma evolução, um aperfeiçoamento cada vez maior, pois o risco de degenerar será sempre muito grande. Mas a evolução que ele fala está muito longe dos preceitos darwinianos. Isso não quer dizer negá-los, até porque eles não os conheciam. Mas se as teorias darwinianas, lamarckianas, etc., nos falam de que vençam os melhores, que a seleção natural é assim mesmo implacável, será que isto é modelo de civilização para nós? Ou um modelo platônico? Pensem agora nas ciências médicas, nas ciências da saúde em geral. Ela se guia pelo que vençam os melhores ou na sua luta por encontrar, sejam remédios mais eficientes, sejam fórmulas ou conhecimentos? Civilidade e saúde caminham juntos. Por quê? Porque nós procuramos defender os mais fracos. Portanto, vamos contra a lei da seleção natural. Procuramos proteger os doentes, os idosos, procuramos prolongar-lhes a vida quando estão fragilizados. Nós não fazemos o que a natureza faz. O homem e a natureza não podem coincidir jamais nesse aspecto. A natureza é implacável, ela abandona o doente, o velho, o ferido. Isto não é civilidade, isto é barbárie. O que há de extraordinário na reflexão da República de Platão é que esta busca do belo é uma árdua luta de civilidade, onde procuramos um único mandamento, como lembrou Antígona muito bem na peça de Sófocles: garantir o direito inalienável de nascer, morrer e viver com honra e dignidade. É isto que nós lutamos. Isto é o belo que encontramos em Platão. É esta noção de justiça. Não importa a força ou a fraqueza, a condição masculina ou feminina, a doença ou a saúde, todos devemos nos orientar para oferecer o que temos de melhor para a construção de uma sociedade que garanta esse direito e os preserve. Isto é civilidade. O resto é barbárie. Entendemos então agora o que é o amor do belo, que não tem nada a ver com o nosso amor pelas aparências. Tem a ver com o sentimento elevadíssimo de você, acima de tudo, privilegiar os vivos, a vida, e dar-lhe o que há de melhor para que ela possa ser exercida com dignidade. Entramos agora numa questão importante: como cada cidadão pode oferecer o que ele tem de melhor em busca deste belo na pólis? A resposta é imediata: as funções de cada um devem ser exercidas segundo as suas capacidades e talentos. Caso contrário, esse indivíduo não só não dará o que ele tem de melhor, como também não se sentirá bem no que faz. E todo exercício de autoridade deve ser baseado no mérito. A sabedoria tem de ser o apanágio dos guardiões. Nós estamos aqui entrando num ponto extremamente delicado. Infelizmente, o poder sempre foi exercido por aqueles que se garantiram mais economicamente. Aqui nós estamos vendo uma guinada, uma exigência de que o poder seja exercido pelo sábio. Claro que estamos falando dos reis filósofos tão conhecidos de Platão, mas como nos fazem falta os estadistas, que são homens guiados pela sabedoria. A justiça, na verdade, nada mais é senão um cumprimento do papel de cada um de modo implacável numa meritocracia. Os méritos que você tem são a justa medida das alturas que você alcança ou da falta delas. É grande também o desafio da justiça em harmonizar esses talentos. E não há dúvida de que eles sabiam de que não bastam os talentos cognitivos. É muito mais do que o cognitivo que se está buscando. Sociedades do conhecimento nunca produziram sociedades justas. Temos a maior prova que é a de hoje. Não é o conhecimento que há de produzir a justiça, mas é a temperança sobre o conhecimento. Agora entramos numa questão fundamental: se eu construo uma sociedade e uma paideia é oferecida a esses cidadãos para desenvolver os seus talentos, para que eles se tornem os mais belos possíveis para servir a esta pólis, eu não tenho como obrigação de mestre, de educador responsável por estes jovens, de descobrir estes talentos? Claro que sim, e educá-los a partir deles. Aqui nós entramos em mais um mal-entendido gravíssimo de tradução, que eu não sei porque há séculos se prolonga. A palavra doxa, em grego, é traduzida comumente por opinião, e não há nada de mais errado nesta tradução, porque quem o fez desconhece toda a importância dos talentos e da questão da opinião no pensamento antigo grego. A palavra doxa significa pendor, muito mais do que opinião, significa tendência, e ela se identifica com talentos. É que as pessoas expressam suas opiniões segundo suas tendências e seus talentos, e daí o erro de traduzi-la meramente como opinião. Mas aqui perdemos o bonde da história, porque perdemos uma compreensão fundamental do que significa a importância do indivíduo expressar suas doxas. Não é de dizer "eu acho isso, eu acho aquilo", não. Porque expressar uma opinião no pensamento arcaico significava antes de tudo buscar no âmago do seu ser aquilo que se acreditava ser verdadeiro, que poderia ou não ser, mas que você expressava com toda fé aquilo que você acreditava ser. Então está muito longe do significado moderno da palavra opinião. A doxa deve revelar a beleza do interior de cada ser. Tanto é que outra tradução para a doxa é graça. Até hoje no grego moderno se diz doxas o theos, que quer dizer "graças a Deus", "com a graça de Deus". É uma das poucas palavras que sobreviveu os milênios sem perder o seu significado original. Somente isso já seria suficiente para arriscarmos essa tradução absolutamente equivocada, que distorce o texto e faz com que a gente perca de vista a importância de que o jovem expresse desde cedo a sua doxa guiada pelo nobre, justo e bom. É assim que nasce a verdade. Não estamos falando de uma verdade demonstrada no papel, estamos falando de algo essencial. O conceito de verdade arcaico quer dizer a coincidência entre a essência e a aparência. Portanto, a sua doxa, aquilo que você emite do seu interior, tem que ser absolutamente idêntico ao que está no seu exterior. Não por acaso, o local para a educação disso é no ginásio, que vem de himnos, em grego, quer dizer ficar nu, local de desnudar, sem erotismo, por favor. Trata-se de que você não tem nada a esconder, o teu exterior deve ser idêntico ao teu interior. Isto é a paideia. Ora, aqui sim pode-se plantar o amor à verdade, e esta será a virtude suprema. Doxa não é necessariamente a verdade, mas é a sincera vontade de buscá-la. Por isso que vemos no sexto livro a colocação de que o filósofo verdadeiro ama nada mais nada menos do que a verdade e vê como a virtude suprema. Eu também não gosto da palavra virtude, é o mérito supremo, é a mais elevada altura de iluminação. Ora, o belo, no entanto, é guiado pelo bem. A ideia suprema do bem é que ilumina as ideias, porque o belo e o bem acabam por coincidir. É o calos, o justo, o belo e o bem. Se o bem é a ideia suprema, a luz é o sol mesmo que ilumina as coisas, nós só podemos alcançá-lo pela nossa própria iluminação, pelo nascimento da consciência, não no sentido racional, mas daquilo que eles chamam de nos, que derivou a palavra nome, conhecida nossa, ou lume, nume, quer dizer luminoso, divino. Nus, a nossa consciência, para ir até lá. Mas como que meu nus, minha consciência alcança isso? E eles têm uma palavra perfeita que responde isso, pela viânia ou dianoia, se quiserem. Vejam a palavra dia, dois ou dias, deus, noia, pelo nus de dois. Agora entendemos a belíssima expressão socrática: sem diálogo não há consciência. É pelo diálogo, pela intervenção do outro, seja ele sobrenatural ou aquele que está ao meu lado, que pode nascer via logos, luz. Logos originalmente quer dizer palavra, mas quer dizer iluminação, a iluminação através de dois. É muito interessante esse dia, como aparece no grego antigo. Estos, por exemplo, derivou estima, estima, estos é sentimento, sentimento que nós temos que deve despertar pelo outro. Mas viestos quer dizer intuição, viestesis é intuição. Essa intuição, portanto, só é possível quando o sentimento tem uma intervenção de um sobrenatural ou uma intervenção do outro. Como agora começamos a refletir sobre como alcançar o belo, e vemos que a verdade e o bem, como princípios fundamentais para essa dignidade, serão insuplantáveis na construção da pólis. Falamos então do nascimento do nos, da consciência, e Sócrates nos coloca à frente uma questão muito importante. Em primeiro lugar, ele insiste que ele não tem nada a ensinar para ninguém, o que ele pode é apenas ajudar a recordar. Para isso, inclusive, ele utilizará um mito muito belo, que é a alegoria da caverna, vamos descrever daqui a pouco. Por que que ele não tem nada a ensinar, só ajudar a recordar? Isso também é conhecido como a teoria da reminiscência. Quem estudou filosofia conhece muito bem, só que muito mal explicada, porque a teoria da reminiscência é bem clara. Reminiscência do quê? Reminiscência, a palavra nem é boa, porque a palavra grega é anamnese, que em português ficou anamnese, que perdeu seu significado original, é recordação mesmo profunda. O que será que ele quer dizer com isso? Ele quer dizer, em primeiro lugar, e já mencionamos isso antes, de que há vidas passadas no pensamento arcaico, isso é fundamental, tanto os gregos como os egípcios, hindus, etc., e de que nós retornamos aqui na terra com estas reminiscências. Estas reminiscências, sabe quais são? São nossos talentos. É aquilo que a gente aprendeu melhor a fazer e já vem pra cá quase sabendo. Alguém nunca viu ou nunca experimentou uma sensação de que sempre soube de certas coisas, ou aprende com uma facilidade tremenda certas coisas e outras não entram na cabeça da gente nem com uma cacetada? É porque você já sabia sem saber, você já traz pronto. Você pode dizer que a explicação é genética, você já trouxe tal do gen, que eu ainda estou pra ver como é que ele provoca tudo isso. Mas, em todo caso, é tão especulativo falar de genes como especulativo falar disso. Fiquemos com o mito, que é mais poético. A caverna tem a ver com isto, por quê?

porque ela simplesmente é o símbolo da ignorância e do esquecimento. Nós nascemos esquecidos, mesmo que nosso pai tenha sido Einstein. Vocês já repararam? Nós nascemos ceguinhos, surdinhos e burrinhos, mas somos impelidos em certas direções que nos atraem. Aí está a reminiscência, e aí está também o nosso ímpeto em sairmos da escuridão da caverna, que é o símbolo da ignorância. Será que temos sempre esse ímpeto? Ou quantos e quantos indivíduos não passam a vida cada vez mais escondidos na caverna? Francamente, a burrice sempre foi mais confortável que a inteligência. Dá trabalho ser inteligente, ter talento. Se nem se fala, mais trabalhoso ainda. É muito mais cômoda a burrice, a inoperância ou a incompetência. Mas aí está o grande desafio, tanto do mestre como para o indivíduo: sair da caverna. Sair da caverna para onde?

Em direção à luz. E a luz, agora sim, estamos falando do nós da consciência, do conhecimento. Sócrates alerta inclusive que é preciso que o mestre leve esse indivíduo muito devagar para fora da caverna, porque se lhe expuser repentinamente à luz, haverá de cegá-lo, no lugar de iluminá-lo. A metáfora é perfeita. Primeiro, infelizmente não estamos preparados para a verdade, e certa sabedoria, no lugar de despertar, se o indivíduo for fraco, poderá enlouquecê-lo. Já nas tábuas das esmeraldas do antigo Egito vemos isto: cuidado com o saber dos iniciados; aos fracos ela há de enlouquecer, aos irados haverá de despertar o ódio e haverão de matar-te. Então é preciso muito critério e cuidado para levar o indivíduo à luz. A mão tem que ser certeira, porém paciente. E ao recordar isso, quase nos lembramos as sessões psicanalíticas, como ficamos balançados ao recordar de certas coisas que caíram em nosso esquecimento, mas que nós sempre soubemos e ironicamente guiaram os nossos caminhos. É longo o caminho, e é um longo caminho de recordação. O próprio Platão diz que a alma, a psique, corretamente, que não tomar o cuidado quando o indivíduo morre no caminho pelo Hades, que não tomar o cuidado de beber da água do rio Leté, que é o rio do esquecimento, voltará a esta vida plena de rancores, porque ela não terá esquecido o que ela fez na vida passada de ruim. Tocamos um ponto fundamental aqui. O rio Leté é um rio mítico onde todos os corpos eram banhados; os mortos eram banhados num ritual de renascimento. Porque este batismo da morte é interessante. Os antigos batizavam no nascimento e na morte. E vamos explicar isso. O batismo da morte significa devolver o nome que você tomou emprestado, devolver o corpo que você tomou emprestado também, e a psique, que agora é pura forma, que eles chamavam de sombras, mas é muito mais do que isto. Ela agora se prepara para receber um novo nome, um novo corpo e uma nova missão. O banhar-se no rio agora é um ritual de entrega e de purificação, e significa também um perdão cósmico de você esquecer o que passou e guardar dentro de ti aquilo que ficou de ouro. Agora ficou clara a frase de Platão: voltará à terra cheia de rancores. Por quê?

isso significa que esse banho e essa purificação deverão ser realizados pela paideia, deverão ser realizados em toda a nossa busca pelo belo. O que é a nossa busca pelo belo senão o perdoar, o abandonar das coisas ruins, procurar esquecer e procurar somente recordar aquilo que glorifica? Até o dito popular diz que, se você fica num atraso de vida, é só vendo. Vocês já viram pessoas rancorosas, invejosas, elas vivem atrasadas e bloqueadas na vida; vingativas, então nem se fala, não vão pra frente, só se atrasam na vida. Esta é uma busca contemplativa, mas de muita ação. O caminho que Sócrates propõe é bastante conhecido nosso, é a maiótica, que também precisa de tradução. Quando ele diz que não tem nada a ensinar e tem somente a perguntar, e assim ele desperta no indivíduo esta luz e essa vontade de sair da caverna, ele se vale daquilo que ele chama de maiótica. Vamos traduzir essa palavra, porque traduzem pessimamente, sempre é fermentação, como é muito mais do que isso. Maiótica em grego, maieftiki, derivou uma palavra conhecida nossa, maia, magia, derivou maia. Maia quer dizer fermento, sim, mas maia e fermento são muito similares em grego antigo, porque é a arte de provocar, de fazer crescer, como um ato mágico. Mais do que isso, maieftiki em grego, tanto no arcaico como ainda no moderno, quer dizer encantamento. É a paideia erótica, é a paideia que tem que encantar para que você queira seguir o mestre e despertar-se. Maieftiki em grego literalmente é encantamento. Maievo em grego quer dizer tanto estou encantando uma pessoa, seduzindo-a, como também estou urdindo, como um mago que urde com as suas fórmulas e produz. É só esta arte do encantamento que te desperta a vontade de buscar o conhecimento de si e do outro. Portanto, aqui está o caminho da paideia em direção ao belo, a partir do que o indivíduo tem de mais belo, e ajudando-o a se esquecer daquilo que ele tem de pior. Agora entendemos o papel da música, da dança, da ginástica e dos mitos. A música para o canto, para a harmonia, para que os urros se transformem em palavras e sons belos e significantes. A ginástica e a dança para o belo do corpo que reflita o belo da alma. E os mitos, porque os mitos são paradigmáticos, são os grandes exemplos cósmicos, as grandes parábolas que devem guiar a construção do cidadão e da polis. É claro que Platão sabe muito bem que até o mais perfeito dos estados se corrompe. Não é só o cidadão, o próprio estado em si. Ele fala de uma timocracia, de uma oligarquia, de uma democracia e de uma tirania. Vamos explicar rapidamente cada um. Timocracia, timé em grego é honra, podemos traduzir por meritocracia, o estado baseado na honra, o mais elevado de todos, o estado construído na dignidade do cidadão, não na falsa dignidade só porque compro carro bonito, virou doutor, não, do indivíduo elevado. O estado depois ele fala de uma mais degenerada, oligarquia. Oligarca quer dizer o poder distribuído por poucos, porém que façam por merecer. Depois ele degenera para a democracia. Vejam que ele oligarquia vemos quer dizer todos podem intervir no governo, independentemente da altura da qualidade que você tenha. E finalmente ele fala da tirania, que é o estado exercido por aqueles que se impõem à força sem merecimento. Tudo isso muito conhecido nosso, e nós vemos como o belo vai se desfazendo como tal. O desafio que nós conhecemos lá atrás, na construção de um estado justo e na construção de um homem justo, portanto, é um desafio coletivo, é um desafio da paideia que não será possível se ele não for guiado para o bem, para a ideia de bem e para a verdade. Agora esta verdade toca o caminho do herói, a coragem de ser do cidadão, a coragem de ser verdadeiro e assim se mostrar e colocar-se a serviço do outro. O estado tem que tornar-se semelhante aos homens e não acima dos homens. Nietzsche foi talvez o pensador moderno que melhor compreendeu essa questão. Se há um desvario na modernidade, é que o estado coloca o homem ao seu serviço e pior, a serviço da economia, como se fosse o motor do estado. É claro que isso é uma escravidão muito inteligente, mas o estado quando ele se torna semelhante aos homens, ele se baseia no mérito e na honra. Talvez não haja doença maior para o pensamento arcaico, especialmente em Platão, do que a injustiça. Ele a define como a moléstia que mais atinge a vitalidade, seja do homem e seja do estado. O tema não poderia ser mais atual. Estamos vendo um Brasil esfacelado ultimamente pela injustiça, mas é muito interessante a gente fazer esta reflexão sobre saúde ética, como ele chama. Antes de entrarmos na questão da transmigração das almas, o pensamento platônico coincide perfeitamente aqui com o pensamento pitagórico, órfico das escolas dos mistérios e com o pensamento hipocrático no conceito de doença e saúde. Vejam só que interessante, a própria etimologia nos ajuda. O máximo de tecnologia de saúde para o pensamento arcaico se chama arete, que quer dizer o estado de excelência. Aliás, faz muito sentido quando nós estamos com plena saúde, com pleno vigor, com pleno domínio de nós mesmos, nós somos capazes de exercer plenamente o melhor de nós. O oposto é a doença, e o extremo oposto de arete é a ausência de arete. Por isso que a palavra grega é arostos, quer dizer sem arete. Doença quer dizer isso, quando se perde o elan. E é isto mesmo, se a ideia de saúde arete imediatamente salta aos nossos olhos como energia, como alegria, como vitalidade, que é o que todos nós almejamos, saúde. O oposto é a ausência de vitalidade. Os gregos definiam muito bem a pior das doenças é apathos, apatia, mas perdeu o significado original, quer dizer não tem paixão. Porque quando nós temos arete, nós estamos apaixonados acima de tudo pela vida. O máximo de tecnologia humana alcançável é a paixão pela vida. É isso que eles chamam de arete. Como você se apaixona pela vida exercendo ao máximo que você tem de melhor, os seus talentos. Ao contrário, você é entregue a um desânimo e a apatia toma conta de ti. É muito interessante que a palavra patologia na modernidade virou o estudo das doenças, quando na verdade na antiguidade é o estudo das paixões. Pathos derivou pacium e latim, que derivou paixões, e depois virou doença. Mas isto é, digamos assim, mazelas da tradição judaico-cristã, que condena tanto este erotismo brilhante e arcaico que se funda na arete e nos talentos de cada um, na paixão de viver. O que tem a ver agora a injustiça com isso?

Porque os talentos mais belos a serviço de si e do outro, a serviço dos deuses, beiram a perfeição, beiram o bem, tocam o bem e o belo. A arete está a serviço de uma ética universal, a partir dos talentos de cada um, para a consagração do nobre, justo e belo. A doença advirá quando os seus talentos forem colocados a serviço das vantagens pessoais. É aí onde nós começamos o nosso diálogo de hoje. É mais conveniente eu me valer dos meus talentos, das minhas posses, para a injustiça ou para as vantagens pessoais, mas eu criarei a doença nas almas como consequência disso. Todas as tradições refletiram sobre isso, a cristã com a questão da culpa, por exemplo. Todas as nossas tradições falam isso, a ideia de pecado e tudo mais. Mas talvez nunca se atingiu tamanha agudeza de reflexão em construir um homem a partir dele mesmo, torná-lo obra de arte e colocá-lo a serviço de si, do outro, para a mais elevada concepção de civilidade, que é o que esta obra nos coloca. É talvez a mais alta tecnologia da construção do homem e da civilidade que já dispusemos e que lamentavelmente ainda desperdiçamos. A última questão abordada, da mais alta importância, no último livro, aborda a questão da transmigração das almas, é o conhecido por muitos mito de Er. Mas aqui, sem entrar em maiores detalhes, temos que nos ater a uma questão essencial: as almas migram de um corpo para outro para voltar a viver. Já falamos disso no pensamento arcaico, mas o tema fundamental aqui é por que ela escolhe e o que ela escolhe. A questão da escolha se opõe aparentemente à ideia de destino, não para os antigos. No entanto, e já falamos isso na aula anterior, a escolha é o resultado de todas as tuas ações. Você pode tornar-se cada vez mais, ao longo da sua vida ou de muitas vidas, uma obra de arte cada vez mais aperfeiçoada a partir dos seus talentos, e isto a cumprir o seu destino, ou você pode se abandonar cada vez mais. A escolha existe sim, até no momento de você refazer-se para uma nova existência. E é óbvio que nossa vida toda foi uma série de escolhas, de circunstâncias e de opções sobre as quais nós erramos e acertamos, mas que acaba refletindo a nossa personalidade. E nós sabemos muito bem como a coragem de seriedade reside em escolhas muitas vezes decisivas em toda a nossa existência, até na hora de voltar a viver. A questão da escolha colocada fantástico.


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PALESTRA 9 — O BELO
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A Universidade Falada. Conhecimento à velocidade de um clique. A Universidade Falada apresenta o audiolivro Uma análise filosófica do belo, do justo, do nobre, na visão dos antigos. De autoria de Victor de Salis. Vocês sabem o nome da escravidão? E a melhor maneira de aplicá-la é você achar que você é livre enquanto você está bem escravizado. O consumismo é muito simples. Por quê? Quando você se torna um consumista, você está sempre devendo. Portanto, você não tem tempo para pensar. Você só tem tempo para trabalhar e pagar a conta. É exatamente isso que o Estado e a empresa moderna querem. Indivíduos ocupados em gastar dinheiro no shopping e estar sempre endividados no fim do mês. Assim, eles não têm tempo para pensar e não incomodam os poderosos. Muito prático. É uma escravidão esperta. Porque você adora ela.

Você adora comprar coisas e tranqueiras que você não vai usar. Mas voltemos aos talentos. Como desenvolver esses talentos? Para quem deseja essa difícil arte e desafio. É o vulgo apostar no seu taco. Pois sem isso é impossível. Sem acreditar em si e dar o máximo de si. Nada feito. Trata-se de ter a coragem de se deixar levar por seu caminho. E até mesmo se deixar levar por aquilo que parece loucura muitas vezes. Se aprofundar naquilo que o desperta. E entrar por esta porta. Muitos vão dizer que você está equivocado. Que isso não dá dinheiro. Mas quantas e quantas histórias de grandes homens se fizeram assim. Se acreditar e seguir com todas as dificuldades, todos os obstáculos, estará no bom caminho. E acabará descobrindo um caminho que é só seu. Os antigos chamavam isso o caminho de Hermes.

Por que Hermes? Daí deriva a palavra hermético. Que engraçado. Porque era esse diálogo interior com você mesmo. E era guiado pelo deus Hermes. Porque na antiguidade o deus Hermes, o Mercúrio Romano, não é apenas o deus do comércio. É o deus que te ensina a encontrar os caminhos da sua vida. Por isso que ele é chamado psicopompo. Aquele que te faz percorrer os caminhos da psique. O mito do herói descreve muito bem esse caminho. É a busca em transformar seus talentos em seu próprio mito. O que é transformar em seu próprio mito? É o sonho que você tem que ter. Porque acordar-se em um sonho é triste. É descobrir um mundo novo. É vencer a medusa, que é aquela coisa aterrorizante da insegurança. Nunca foi seguro a gente cumprir nosso destino. É o contrário dessa história que estava escrita ou não estava.

Vencer a luta em busca do seu destino é a coragem de trilhar um futuro. Se deixar levar, atender aos chamados da vida, não ter medo, dar o que a vida pedia, se aprofundar. A descrença do mundo ocidental reside no fato de que alguém possa se realizar por meio dos seus talentos. Acham que não. Isso não é prático. Mas as grandes realizações do mundo ocidental foram feitas graças aos grandes talentos. Na ciência, na arte, na dança, onde vocês quiserem. No empreendedor que seja. Salvo algumas exceções, o destino do ocidental, na verdade, está disfarçado de sobrevivência. Mas, no fundo, no fundo, é busca por dinheiro, status e poder. O dinheiro é necessário para o direito de ser. Mas, até certo ponto, a partir daí, pode e, de fato, se torna uma doença. Basta ver o que acontece com aquele indivíduo que já teve dinheiro e deixa de ter.

Definindo como um fracassado. Por outro lado, quem já não ouviu esta pérola? Tô bonito. Estou cheio de dinheiro. Essa é a concepção de belo? Tô bonito, cheio de dinheiro. Para mim, ele é horroroso. Esse é o horror dos horrores. Se tornar belo por causa de um bolso cheio. Coitado dele. Que triste ideia do belo. A verdade é que o ser humano é capaz de qualquer coisa por dinheiro. Independentemente de suas questões anais, que Freud tanto estudou. Um psicologuês que não acrescenta nada. Só uma alta incidência de hemorroidas mesmo. Isto é uma alusão. A fixação anal que Freud fala, das pessoas que têm essa coisa de prender, de pão durismo, de econômico. Há uma associação, sem dúvida. Mas não adianta nada resolver isso. A questão está muito mais em cima e muito mais ética. E por falar em ética, resta abordarmos a questão mais delicada do belo.

A saúde ética. Nós achamos que saúde é coisa de médica, coisa de psicólogo, é coisa de comida e etc. Esquecemos de que a mais elevada forma de saúde está na ética. Não há psicanalista. Não há cirurgião que cure a culpa da falta de ética. Que cure aquele indivíduo que chega e te diz, eu fiz de tudo na vida, menos aquilo que eu devia ter feito. Eu fiz tudo o que eu consegui às custas do sacrifício e do prejuízo aos outros. Por mais psicopata que o indivíduo seja, essa culpa um dia bate e vira doença. Por quê? Não há nada mais elevado do que a chamada paz de espírito ou o que os antigos chamavam de mérito. Arete, em grego. Excelência. É o objetivo máximo de todos os talentos que não só engrandeceram você, mas engrandeceram tudo que está à sua volta. Como disse a Guilmar Novaes, é só assim que eu posso dar o que eu tenho de melhor a vocês.

Isto sim, é mérito. A saúde combina com mérito e potencializa a vida. Seu conceito oposto, em grego, era antropos arostos. Arete arostos. A semelhança linguística é evidente. Arete quer dizer excelência, o máximo de saúde ética, o máximo de plenitude. E arostos é falta de arete, falta de excelência. Mediocridade, vício. Homem doente, portanto. Arostos quer dizer exatamente isto. Doente. Falta de excelência. Falta de arete. Todo homem sem arete é um candidato à doença. Mesmo aquele que pratica o excesso de zelo vive o risco. A arete é o máximo da tecnologia que se pode ter para cumprir o destino. Uma vez que desenvolve ao máximo nossos talentos. E estes levados à excelência farão com que você se torne uma obra de arte. Ética e criadora. Não uma obra de arte narcisista colocada numa vitrina.

Uma obra de arte que tem algo a oferecer aos outros. Tocamos agora num conceito arcaico muito belo. O apolíneo. Apolo. Falamos do deus da beleza. Mas logo pensamos num rapagão lindo e maravilhoso. Que tolice. A beleza de Apolo é a busca da arete. Apolo é o deus da luz. E seu nome significa a totalidade da luz. Ap. Olum. Ap. Totalidade em sânscrito. Olum. Conhecemos. Olístico, por exemplo. Total. Percebemos que certas palavras arcaíssimas chegaram ao português. É a divindade por excelência do belo. Da música e da criação. Somente com a intervenção, no entanto, de Dionísio, o deus do vinho, do êxtase e da alegria, é que podemos chegar a Apolo. Que interessante isto. Que belo aforismo. Escrito no templo de Apolo. Quem não souber descer, jamais servirá para subir. Aí está o significado desse deus.

O que quer dizer quem não souber descer? Descer é o dionisíaco. É o simples. É o humilde. É o concreto da vida. É o que a alegria de viver deve lhe dar. Porque só com esta alegria fundamental da simplicidade é que você pode se elevar ao belo. Ao belo transcendental. Não será com arrogância e muito menos se fechando em templos que você alcançará o belo. O processo da criação, na verdade, é uma consagração ao mundo. É uma dádiva que você concede ao mundo. Vejam só uma outra palavra muito interessante. Charis. Em grego, derivou a palavra charisma, que virou carisma na língua portuguesa. Mas o seu significado original é bastante diverso. Quer dizer, talento, graça divina, dádiva divina. Charisma é isso. Presente dos deuses, máximo. Ela derivou essa palavra. Charis derivou harax, que virou caráter na língua portuguesa.

Vejam como a gente perde o sentido e o significado. Harax, caráter, nada, haraktir, mais exatamente, caráter, nada mais é do que você cumprir suas graças, charismas, plenamente. Isto é caráter. E não é ser bom menino ou mau menino. Como nós tristemente transformamos. Note-se que harax, em grego, quer dizer régua, retidão. Portanto, é uma redundância falar em retidão de caráter, em grego. Porque ou tem caráter que é reto ou não tem. Que retidão é essa? A retidão significa a certeza de cumprir o seu destino. É a flecha de Apolo. Infalível. Reta. Aquele que sabe de si e não se torna um fanático. Mas ele busca cumprir aquilo que ele é. Portanto, criação nada mais é do que a realização dessas dádivas, essas graças divinas. Ele recebe uma genética transcendental, nós podemos dizer, para realizar seu caráter.

Agora, entendemos lá atrás, vocês lembram? Caráter é destino? Que o nosso grande Parmênides colocou. O conjunto dos talentos forma o caráter. E forma o destino. Mais uma para a gente pensar. Hará. Em grego, quer dizer alegria. Vocês conhecem a alegria maior do que a cumprir? Para a sua própria realização, o seu próprio talento, o seu próprio destino? Assim como Ebedemonia, que já mencionamos. Mais uma. Horós. Vejam a semelhança linguística. Essa é a beleza das línguas antigas. Todas elas têm um significado e um parentesco que ajuda a deslindar. Todo o sentido. Horós quer dizer dança. Ou seja, estar dançando conforme a música das musas. É a dança. É a música da alma. É a música dos talentos. Sabe que nós estamos falando em harmonia. Quando nós estamos em harmonia, não parece que há uma música dentro de nós?

Porque a gente está em consonância com a harmonia cósmica. Esta é a mais elevada forma de paz que podemos conhecer. Não há outra possibilidade para o homem se colocar em harmonia com o universo, se não pelo desenvolvimento de seus talentos e pelo cumprimento do seu destino. E não há coisa pior que deixá-lo de cumprido. Vamos lembrar de novo Parmênides. Caráter é destino. Agora está entendido porquê. E este é o único caminho possível para a conquista do belo. A falácia racionalista do nosso século é achar que liberdade e destino se opõem. Nada mais tola essa discussão. Isso porque destino é o resultado do seu caráter, que por sua vez se forma na realização e expansão máxima de seus talentos, transformados em aretê, em excelência. Portanto, destino não é senão a realização máxima e plena de si mesmo.

Eis como entra a liberdade e de que maneira nenhuma se opõe ao destino. Liberdade, em grego, é eleuteria. Temos até um nome em português, eleutério, sem saber o significado dele. Mas o que é estar liberto? Liberto de quê? Elef, vejam o radical. Alef, primeira letra do alfabeto hebraico. Nada disso é de graça. Alef, libertação, era a busca na escola dos mistérios de Eleucias. Eleucias é libertação. Nós estamos falando da única possível. A libertação do ciclo da vida e da morte. Não existe angústia maior que a mortalidade para os homens. Isso não é novidade nenhuma. Nós somos livres, porém mortais. O homem pode ter todo o sucesso, menos a vida eterna. Sabendo que vai morrer, de que adianta tudo o que tem? Entendemos agora a doação desses grandes empreendedores, desses benefactores, etc. É o caminho do herói como uma libertação da mortalidade.

Ao cumprir pela mente seu destino, se aproxima do caminho da imortalidade, diziam os antigos. Ainda tenho à minha frente a escolha entre cumprir o meu destino ou não. Escolha essa que se confunde com liberdade. Os deuses, já diziam os antigos, eles não impõem o destino a cumprir. Apenas sugerem. Conta-nos esse ditado. Nossos talentos são só uma sugestão. Eu posso abandonar tudo isto e seguir coisas completamente diferentes na minha vida. E frequentemente isso é verdade. Mas os deuses também diziam um outro ditado. O destino acalanta quem o segue e arrasta quem o nega. A gente sabe quando a gente vai contra a nossa corrente. A gente até consegue, mas como somos arrastados. Liberdade existe. E não se opõe a destino. Sempre será vista como um compromisso ou um descompromisso com o seu caminho cósmico.

Posso fazer o que quiser com a minha vida. E ser somente guiado para o meu ego. Todo indivíduo pode seguir o caminho que bem entender. No entanto, ainda o melhor caminho para ele cumprir o seu destino é passar sua vida se tornando cada vez mais ele próprio. É que muitos vão contra si mesmos em suas escolhas egóicas. E confundem identidade com persona, com ego ideal, achando que isto é o belo da sua vida. E isto é o desastre de sua vida. É o retrato de uma catástrofe total. Com escolhas desastrosas feitas por ideais egóicos. O melhor exemplo, sem dúvida, nos deu Oscar Wilde em seu brilhante livro O Retrato de Dorian Gray. É uma excelente metáfora do auge desse narcisismo que só busca fugir do tempo como se isto fosse o belo. Mas a finitude é o momento que representa o infinito. O indivíduo que se realiza é a mais pura representação do infinito nesta busca do belo.

Podemos tocar o infinito e o eterno, cumprindo o plano cósmico, sendo quem nascemos para ser. Este é o conceito fundamental de belo em Platão. Parte 3 Vamos abordar o belo na República de Platão porque é tema central e fundamental no pensamento platônico. Antes, vamos fazer uma série de correções a respeito do que é o belo em Platão que, obviamente, pouco tem a ver com nossa ideia de belo. E mais, temos que corrigir a própria palavra república que é, sem dúvida alguma, uma tradução completamente infeliz do texto original. Se isto não tivesse consequências importantíssimas na compreensão do teu texto, poderíamos até dizer que se trata de erudição. Não é. Trata-se, sim, de compreender o verdadeiro sentido do que ela representa. Começamos por explicar esta palavra república que, na verdade, é uma corruptela da primeira tradução que Cícero fez para o latim do grego e ele traduziu a palavra original que é politéia ou politia esse é o título original por res pública que nada quer dizer como república mas sim significa a coisa pública o público o que pertence a todos que é também uma tradução eu diria inadequada mesmo assim porque não é disso que se trata na politéia a tradução correta de politéia seria a formação da polis como civilidade podemos também optar pela questão da a civilidade que é construir a civilidade como tal a busca da civilidade da construção de uma polis ela é guiada pelo belo agora sim nós teremos que fazer uma introdução a respeito dessa questão do belo o que é o belo em Platão para que possamos compreender uma reflexão tão fundamental como a politéia que é considerada uma das maiores obras primas da filosofia do pensamento nosso a república como foi traduzida então ela nos dá uma ideia de que estamos falando de algo moderno que se opõe à monarquia seria a primeira concepção imediata que teríamos aí já começa o grande erro porque de maneira nenhuma o texto platônico é republicano no sentido moderno da palavra podemos dizer sim de que ele é um texto por excelência aristocrático no sentido arcaico do termo ou seja no sentido da arete da excelência do mérito o mérito que quer dizer cada um deve dar o melhor de si para a construção de seu caráter de sua busca como indivíduo politizado civilizado e para apólis é neste sentido que ela é um texto aristocrático por excelência não como aristocracia de sangue mas como aristocracia de merecimento a melhor tradução ainda seria a meritocracia jamais a república porque trata-se de construir uma cidade-estado com cidadãos cada qual a partir do que ele tem de melhor dos seus talentos e a partir deles oferecer o que cada um tem de melhor para a construção desta cidade o ponto fundamental é de que apólis e o cidadão devem se assemelhar e jamais apólis imporá um modelo ao cidadão jamais um cidadão por si mesmo imporá um modelo apólis ambos haverão de encontrá-lo e o modelo que os orienta é o belo como que cada um tem de melhor em si e que cada um tem de melhor para oferecer portanto trata-se de uma reflexão elevadíssima onde a civilidade deve ser guiada pelo belo e este belo nada tem de contemplativo vale a pena agora retomarmos a questão do belo no significado arcaico porque infelizmente com o passar dos séculos e particularmente com o nosso modelo de civilização mercantilista e hoje consumista o belo tornou-se um modelo predado meramente exterior de consumo é claro que o belo em Platão atinge outros patamares o belo em Platão que muitos já confundiram com um estado meramente contemplativo e não é significa o ápice do que nós podemos alcançar como nobre bom e justo três conceitos fundamentais a nobreza a bondade e a justiça e a isto ele chamou de calos que é o nome para o belo que reuniria esses três atributos no seu mais elevado patamar a paideia do cidadão e a formação da polis devem ser guiadas por estes três princípios feita toda esta explicação fique claro que na verdade a república é uma crítica à república ou à democracia de então ateniense e por que é uma crítica mordaz porque a democracia que lá nascia não era nada diferente do que hoje nós encontramos os currais eleitorais já eram conhecidos qualquer cidadão que comprasse as armas e mesmo não cidadão eu diria especialmente não cidadão que não tivesse passado pela paideia o que é muito importante poderia comprar essas armas e se voltasse vivo de alguma guerra ganhava o direito da cidadania mesmo sendo um analfabeto de pai e mãe ora com isto ele ganhava o direito do voto e claro que nem Platão nem Sófocles nem Hésquilo para citar alguns menos ainda Sócrates aceitavam a ideia de que o voto de um ignorante desses pudesse ter o mesmo valor de um homem como um Sófocles como um Platão ou como qualquer grande homem a questão do mérito que não deve ser confundida com virtude porque é um conceito muito cristianizado é um conceito de excelência aretei quer dizer excelência pessoal esta questão é que deveria guiar o merecimento de cada cidadão ao lugar que lhe fosse devido infelizmente como bem aponta Platão o espírito democrático nivela tudo por baixo e naturalmente gera a tão conhecida corrupção que é a compra e venda de votos e assim por diante não por acaso a república no seu primeiro livro serão dez inicia uma discussão sobre a injustiça e é claro que a questão da justiça e da injustiça ocupará um papel central em toda essa reflexão pois que o belo não poderá ser alcançado através da injustiça menos ainda podemos pensar na formação de uma pólis nobre e justa sem antes espanarmos essa questão logo no primeiro livro que se passa em um porto de pireu na casa de um certo sujeito chamado Tracímaco um homem abastado rico porém velho convidam Sócrates para esta discussão sobre a questão da justiça se ela é mais ou menos vantajosa que a injustiça os homens que cercam Sócrates poderíamos dizer que são os executivos de hoje na antiguidade eles não tem papas na língua em dizer claramente de que é muito mais interessante a injustiça porque ela é muito mais vantajosa ela serve os nossos interesses evidentemente Sócrates rebate com a afirmação de que sem justiça não pode sequer se pensar numa sociedade ou numa pólis como tal então ele é provocado realmente para mostrar a origem dessa justiça e saber se ela é desejável ele precisaria entender que a injustiça só traz vantagens e que ela é natural da condição humana bem quanto a isso não temos a menor dúvida basta observar uma criancinha pequena ela quer tudo para ela se facilitar se nós deixarmos contrariada e não a demonstrarmos ela vai te morder vai te chutar fará o que quiser ela quer pensar sobre si mesma o egoísmo um instinto fundamental até de preservação podemos dizer mas infelizmente nós não podemos construir uma sociedade que supõe um igualitarismo que supõe uma questão de merecimento se nós deixarmos esses instintos à solta como aliás estamos deixando hoje basta alguém passear por alguma escolinha e ver os anjinhos como eles se comportam os irmãos de Platão pedem a Sócrates então que explicite a origem da justiça se ela é desejável e como fazer para que ela se torne o baluarte do Apólis e Sócrates responde com toda tranquilidade de que a origem das sociedades é claro que vem da troca e da justiça ou seja elas só são possíveis às sociedades exata medida em que há um respeito mútuo inicial pelo que é seu pelo que é do outro e etc caso contrário a barbárie e o saque advirão muito facilmente mas quando advém a riqueza aí são necessários os guardiões mas não só os guardiões físicos os soldados é preciso muito mais do que isso é preciso uma paideia o que seria esta paideia se não a formação ética de um cidadão formação esta que permitisse a ele tornar-se guardião de si mesmo e guardião do outro e acima dele é preciso que haja os deuses caso contrário cairemos naquilo que Exíldo já muito bem lembrou na teogonia cairemos nos homens de bronze que são o falso ouro que fazem justiça pelas próprias mãos e eles próprios são a lei bem quando todos querem se alvorar o direito de ser a lei a diferença entre legalidade e justiça se torna gritante ou seja este igualitarismo tão ambicionado ele não pode nivelar por baixo ele tem que nivelar por merecimento e esta será a grande chave sobre a questão do belo porque este merecimento reporta-se aos talentos e é indiscutível que há homens talentosos que beiram o belo e outros que não seja na ciência seja nas artes seja em qualquer área do conhecimento e é a eles que deve ser entregue o governo da polis porque eles são a expressão do belo e sendo eles a maior expressão do belo eles poderão tornar a polis semelhante ou seja talentos o belo a arete do homem e a polis devem todos estar a serviço desta construção que se chama politéia como podemos já entender de república não tem nada de democrático não tem nada embora de justo tenha o mais alto patamar bem nessas alturas do campeonato Sócrates que não é nada bobo cutuca com vara curta tracímaco e os outros ricaços que estão lá já que vocês insistem tanto que a injustiça é muito mais cômoda é mais fácil e mais natural vocês não prestam contas aos deuses vocês não tem medo do julgamento que há de advir após a morte porque não sei se vocês sabem essa ideia de purgatório de julgamento e etc é uma ideia herdada dos antigos gregos e todos eles acreditavam que após a morte eles passariam por um julgamento no Hades que seria o mundo subterrâneo dos mortos na frente da grande juíza esposa de Hades Perséfone e ela tinha ao seu lado um famoso cão de três cabeças que muitos já devem ter ouvido falar de nome Cérbero as três cabeças não eram exatamente uma fantasia imaginária do mito na realidade as três cabeças representavam cada uma o olhar implacável e o julgamento implacável do justo do bom e do belo ou seja por isso que ele era muito dócil para entrar e implacável para deixar sair porque só poderia sair deste local quem passasse por este julgamento do que fez na vida do justo do bom e do nobre passar e ir para onde aí está outra questão importante que devemos compreender e que está no centro do pensamento mítico religioso arcaico é que eles acreditavam que voltariam a viver mas só voltariam a viver se passassem por estas provas caso contrário voltariam sim a viver mas teriam que repetir tudo outra vez quebrar a cara outra vez para ver se aprendiam alguma coisa bem isso é apenas uma questão para que a gente possa compreender o medo da morte e o medo da morte como prestar contas e Sócrates vai além ele diz você tem que prestar contas aqui em vida como também após a morte e eles sabem disso aliás todos nós sabemos disso se há um sentido fundamental na educação religiosa em todos os tempos é colocar o homem sob princípios que estão acima dele e que poder algum seja ele material de qualquer espécie possa sobrepujar esta força é assim que se constrói de fato a civilidade e mais além claro que entra a questão da mentira quem de nós escutou desde criança que coisa feia mentir como é feio você mentir e como é belo falar a verdade sem dúvida alguma o belo em platão como nós veremos exige talentos na sua expressão mas eles têm que estar a serviço da verdade coloca-se aqui uma das discussões de cunho político dos mais difíceis a mentira claro como objetivo político até parece que é novidade para nós infelizmente político e mentira são praticamente sinônimos na modernidade a questão é muito antiga é irônico no entanto que a origem etimológica da palavra político vem de polis cidade e ético o ético para muitos de onde viemos e aonde descambamos e é esta a questão fundamental o político ele deve estar a serviço da verdade e deve proteger se ele tem uma função e um cargo elevados os seus cidadãos devem ser protegidos mas não será com a mentira é bem verdade que Platão coloca em Sócrates uma reflexão muito séria sobre a nobre mentira e o que seria isso nada mais nada menos do que a necessária mentira para provocar um bem e não para provocar um mal exemplos muito simples podemos ter como compete a um médico dar uma notícia difícil como um câncer para o seu paciente ele não pode chegar para ele dizer você tem quatro meses de vida até logo esta é uma verdade implacável e assassina é preciso transmitir esta notícia de um modo mais suave mais doce e por vezes é necessário até omitir mas o objetivo fundamental é que aqui está em jogo uma intenção ética de praticar o bem e não de praticar um prejuízo que é o que a política de hoje pratica e realiza passa então a perguntar a ele como é que se constrói este cidadão e esta cidade voltada para o belo aqui começa uma das questões fundamentais da chamada paideia e desta construção que será longa e alta primeiro das funções que ele fala a educação pelo canto que coisa espantosa educação pelo canto por que será que a educação pelo canto era tão fundamental no pensamento arcaico porque educa a voz porque introduz harmonia e serenidade na alma a seguir ele fala do hábito da moderação disto nós já entendemos bem o belo sem moderação não pode existir os antigos tem uma palavra perfeita para isso metron ariston ariston de arete de excelência metro medida a medida da excelência a justa medida mas que não quer dizer o meio termo é o termo certo ora este hábito da moderação sabemos muito bem a sua importância hoje aliás recentemente recuperada esta importância e diremos que só em alguns lugares porque o hábito da moderação que ele se refere se refere a tudo não é só alimentação saudável ou a chamada qualidade de vida aliás eu nem gosto desse termo eu diria que mais de qualidade de vida nós temos que buscar reconquistar e a dignidade da vida esta está perdida e não será reconquistada frequentando academias ou sendo vegetariano ou outros hábitos que na verdade escondem muitas vezes um narcisismo de querer parecer mais jovem do que é de querer se conservar dignidade da vida e hábito da moderação significa moderação na ganância em primeiro lugar moderação no egoísmo moderação nos impulsos que tanto nos descontrolam é a moderação naquilo que ele chama no nosso instinto apetitivo que não é só para comer é para engolir os outros também e depois ele fala do amor ao belo o amor ao belo deve ser algo central na condução de toda a conduta que quer dizer isto ao meu belo diferente do outro sim é diferente mas essencialmente o mesmo procurar ser o melhor possível no que você tem de melhor e claro que os exercícios fazem parte ele vai além amar ao belo é não abandonar os inválidos não há polis ele ainda insistirá que é dar condições iguais à mulher e ao homem se nós vemos com atenção a república de platão ela é o primeiro libelo da igualdade entre o masculino e o feminino que conhecemos na história literalmente é citada a importância de dar condições e direitos e deveres iguais para os homens e para as mulheres caso contrário como poderemos falar em justiça em beleza mas ainda ele não chama a atenção de que toda politia deve buscar uma evolução num aperfeiçoamento cada vez maior pois o risco de degenerar será sempre muito grande mas a evolução que ele fala está muito longe dos preceitos darwinianos isso não quer dizer negá-los até porque eles não os conheciam mas se as teorias darwinianas lamarckianas etc nos falam de que vençam melhor que a seleção natural é assim mesmo implacável será que isto é modelo de civilização para nós ou um modelo platônico onde pensem agora nas ciências médicas nas ciências da saúde em geral ela se guia pelo que vençam melhor ou na sua luta por encontrar sejam remédios mais eficientes sejam fórmulas ou conhecimentos civilidade e saúde caminham juntos por quê porque nós procuramos defender os mais fracos portanto vamos contra a lei da seleção natural procuramos proteger os doentes os idosos procuramos prolongar-lhes a vida quando estão fragilizados nós não fazemos o que a natureza faz o homem e a natureza não podem coincidir jamais nesse aspecto a natureza é implacável ela abandona o doente o velho o ferido isto não é civilidade isto é barbárie o que há de extraordinário na reflexão da república em platão é de que esta busca do belo é uma árdua luta de civilidade onde procuramos um único mandamento como lembrou antígona muito bem na peça de sófocles garantir o direito inalienável de nascer morrer e viver com honra e dignidade é isto que nós lutamos isto é o belo que encontramos em platão é esta noção de justiça não importa a força ou a fraqueza a condição masculina feminina a doença ou a saúde todos devemos nos orientar para oferecer o que temos de melhor para a construção de uma sociedade que garanta esse direito e os preserve isto é civilidade o resto é barbárie entendemos então agora o que é o amor do belo que não tem nada a ver com o nosso amor pelas aparências tem a ver com o sentimento elevadíssimo de você acima de tudo privilegiar os vivos a vida e dar-lhe o que há de melhor para que ela possa ser exercida com dignidade entramos agora numa questão importante como que cada cidadão pode oferecer o que ele tem de melhor em busca deste belo napólis a resposta é imediata as funções de cada um devem ser exercidas segundo as suas capacidades de talentos caso contrário esse indivíduo não só não dará o que ele tem de melhor como também não se sentirá bem no que faz e todo exercício de autoridade deve ser baseado no mérito a sabedoria tem de ser o apanágio dos guardiões nós estamos aqui entrando num ponto extremamente delicado infelizmente o poder sempre foi exercido por aqueles que se garantiram mais economicamente aqui nós estamos vendo uma guinada uma exigência de que o poder seja exercido pelo sábio claro que estamos falando dos reis filósofos tão conhecidos de Platão mas como nos fazem falta os estadistas que são homens guiados pela sabedoria a justiça na verdade nada mais é senão um cumprimento do papel de cada um de modo implacável numa meritocracia os méritos que você tem são a justa medida das alturas que você alcança ou da falta delas é grande também o desafio da justiça em harmonizar esses talentos e não há dúvida de que eles sabiam de que não bastam os talentos cognitivos é muito mais do que o cognitivo que se está buscando sociedades do conhecimento nunca produziram sociedades justas temos a maior prova que é a de hoje não é o conhecimento que há de produzir a justiça mas é a temperança sobre o conhecimento agora entramos numa questão fundamental se eu construo uma sociedade e uma paideia é oferecida a esses cidadãos para desenvolver os seus talentos para que eles se tornem os mais belos possíveis para servir a esta polis eu não tenho como obrigação de mestre de educador responsável por estes jovens de descobrir estes talentos claro que sim e educá-los a partir deles aqui nós entramos em mais um mal entendido gravíssimo de tradução que eu não sei porque há séculos se prolongam a palavra doxa em grego é traduzida comumente por opinião e não há nada de mais errado nesta tradução porque quem o fez desconhece toda a importância dos talentos e da questão da opinião no pensamento antigo grego a palavra doxa significa pendor muito mais do que opinião significa tendência e ela se identifica com talentos é que as pessoas expressam suas opiniões segundo suas tendências e seus talentos e daí o erro de traduzi-la meramente como opinião mas aqui perdemos o bonde da história porque perdemos uma compreensão fundamental do que significa a importância do indivíduo expressar suas doxas não é de dizer eu acho isso eu acho aquilo não porque expressar uma opinião no pensamento arcaico significava antes de tudo buscar no âmago do seu ser aquilo se acreditava ser verdadeiro que poderia ou não ser mas que você expressava com toda fé aquilo que você acreditava ser então está muito longe do significado moderno da palavra opinião a doxa deve revelar a beleza do interior de cada ser tanto é que outra tradução para a doxa é graça até hoje no grego moderno se diz doxas o theos que quer dizer graças a Deus com a graça de Deus é uma das poucas palavras que sobreviveu os milênios sem perder o seu significado original somente isso já seria suficiente para arriscarmos dessa tradução absolutamente equivocada que distorce o texto e faz com que a gente perca de vista a importância de que o jovem expresse desde cedo qualquer um a sua doxa guiada pelo nobre justo bom é assim que nasce a verdade não estamos falando de uma verdade demonstrada no papel estamos falando de algo essencial o conceito de verdade arcaico quer dizer a coincidência entre a essência e a aparência portanto a sua doxa aquilo que você emite do seu interior tem que ser absolutamente idêntico que está no seu exterior não por acaso o local para a educação disso é no ginásio que vem de himnos em grego quer dizer ficar nu local de desnudar sem erotismo por favor trata-se de que você não tem nada a esconder o teu exterior deve ser idêntico ao teu interior isto é a paideia ora aqui sim pode-se plantar o amor à verdade e esta será a virtude suprema doxa não é necessariamente a verdade mas é a sincera vontade de buscá-la por isto que vemos no sexto livro a colocação de que o filósofo verdadeiro ama nada mais nada menos do que a verdade e vê como a virtude suprema eu também não gosto da palavra virtude é o mérito supremo é a mais elevada altura de iluminação ora o belo no entanto é guiado pelo bem a ideia suprema do bem é que ilumina as ideias porque o belo e o bem acabam por coincidir é o calos o justo belo e o bem se o bem é a ideia suprema a luz é o sol mesmo que ilumina as coisas nós só podemos alcançá-lo pela nossa própria iluminação pelo nascimento da consciência não no sentido racional mas daquilo que eles chamam de nos que derivou a palavra nome conhecida nossa ou lume nume quer dizer luminoso divino nus a nossa consciência para ir até lá mas como que meu nus minha consciência alcança isso e eles tem uma palavra perfeita que responde isso pela viânia ou dianoia se quiserem vejam a palavra dia dois ou dias deus noia pelo nus de dois agora entendemos a belíssima expressão socrática sem diálogo não há consciência é pelo diálogo é pela intervenção do outro seja ele sobrenatural ou aquele que está ao meu lado que pode nascer via logos luz logos originalmente quer dizer palavra meramente quer dizer iluminação a iluminação através de dois é muito interessante esse dia como aparece no grego antigo estos por exemplo derivou estima estima estos é sentimento sentimento que nós temos que deve despertar pelo outro mas viestos quer dizer intuição viestesis é intuição essa intuição portanto só é possível quando o sentimento tem uma intervenção de um sobrenatural ou uma intervenção do outro como agora começamos a refletir sobre como alcançar o belo e vemos que a verdade e o bem como princípios fundamentais para essa dignidade serão insuplantáveis na construção da polis falamos então do nascimento do nos da consciência e Sócrates nos coloca a frente a frente uma questão muito importante em primeiro lugar ele insiste que ele não tem nada a ensinar para ninguém o que ele pode é apenas ajudar a recordar para isso inclusive ele utilizará um mito muito belo que é a alegoria da caverna vamos descrever daqui a pouco por que que ele não tem nada a ensinar só ajudar a recordar isso também é conhecido como a teoria da reminiscência quem estudou filosofia conhece muito bem só que muito mal explicada porque a teoria da reminiscência é bem clara é reminiscência do que reminiscência a palavra nem é boa porque a palavra grega é anamnese que em português ficou anamnese que perdeu seu significado original é recordação mesmo profunda o que será que ele quer dizer com isso ele quer dizer em primeiro lugar e já mencionamos isso antes de que há vidas passadas no pensamento arcaico isso é fundamental tanto os gregos como os egípcios hindus etc e de que nós retornamos aqui na terra com estas reminiscências estas reminiscências sabe quais são são nossos talentos é aquilo que a gente aprendeu melhor a fazer e já vem pra cá quase sabendo alguém nunca viu ou nunca experimentou uma sensação de que sempre soube de certas coisas ou aprende com uma facilidade tremenda certas coisas e outras não entram na cabeça da gente nem com uma cacetada é porque você já sabia sem saber você já traz pronto isto você pode dizer que a explicação é genética você já trouxe tal do gen que eu ainda estou pra ver como é que ele provoca tudo isso mas em todo caso é tão especulativo falar de genes como especulativo falar disso fiquemos com o mito que é mais poético a caverna tem a ver com isto por quê?

porque ela simplesmente é o símbolo da ignorância e do esquecimento nós nascemos esquecidos mesmo que nosso pai tenha sido Einstein vocês já repararam isso? nós nascemos ceguinhos surdinhos e burrinhos mas nós somos impelidos em certas direções que nos atraem aí está a reminiscência e aí está também o nosso ímpeto em sairmos da escuridão da caverna que é o símbolo da ignorância será que temos sempre esse ímpeto ou quantos e quantos indivíduos não passam a vida cada vez mais escondidos na caverna a burrice sempre foi mais confortável que a inteligência dá trabalho ser inteligente ter talento se então nem se fala mais trabalhoso ainda é muito mais cômodo a burrice e a inoperância ou a incompetência mas aí está o grande desafio tanto do mestre como para o indivíduo sair da caverna sair da caverna para onde?

em direção à luz e a luz agora sim estamos falando do nos da consciência do conhecimento Sócrates alerta inclusive de que é preciso que o mestre leve esse indivíduo muito devagar para fora da caverna porque se lhe expusê-lo repentinamente à luz haverá de cegá-lo no lugar de iluminá-lo a metáfora é perfeita primeiro que infelizmente não estamos preparados para a verdade e certa sabedoria no lugar de despertar se o indivíduo for fraco poderá enlouquecê-lo já na tábuas das esmeraldas do antigo Egito vemos isto cuidado com o saber dos iniciados aos fracos ela há de enlouquecer aos irados haverá de despertar o ódio e haverão de matarte então é preciso muito critério e cuidado para levar o indivíduo à luz a mão tem que ser certeira porém paciente e ao recordar isso quase nos lembra as sessões psicanalíticas como ficamos balançados ao recordar de certas coisas que caíram em nosso esquecimento mas que nós sempre soubemos e ironicamente guiaram os nossos caminhos é assim mesmo é longo o caminho e é um longo caminho de recordação sim o próprio Platão diz que a alma a psiquemas corretamente que não tomar o cuidado quando o indivíduo morre no caminho pelo Hades que não tomar o cuidado de beber da água do rio Leté que é o rio do esquecimento voltará a esta vida plena de rancores porque ela não terá esquecido o que ela fez na vida passada de ruim tocamos um ponto fundamental aqui o rio Leté é um rio mítico onde todos os corpos eram banhados os mortos eram banhados num ritual de renascimento porque este batismo da morte interessante os antigos batizavam no nascimento e na morte e vamos explicar isso o batismo da morte significa devolver o nome que você tomou emprestado devolver o corpo que você tomou emprestado também e a psique que agora é pura forma que eles chamavam de sombras mas é muito mais do que isto ela agora se prepara para receber um novo nome um novo corpo e uma nova missão o banhar-se no rio agora é um ritual de entrega e é de purificação e significa também um perdão cósmico de você esquecer o que passou e guardar dentro de ti aquilo que ficou de ouro agora ficou clara a frase de Platão voltará a terra cheia de rancores por que isto?

Isso significa que esse banho e esta purificação deverá ser realizado pela paideia, deverá ser realizado em toda a nossa busca pelo belo. O que é a nossa busca pelo belo senão o perdoar, o abandonar das coisas ruins, procurar esquecer e procurar somente recordar aquilo que glorifica? Até o dito popular diz: senão você fica num atraso de vida. Vocês já viram pessoas rancorosas, invejosas, elas vivem atrasadas e bloqueadas na vida. Vingativas então nem se fala, não vão pra frente, só se atrasam na vida. Esta é uma busca contemplativa, mas de muita ação. O caminho que Sócrates propõe é bastante conhecido nosso, é a maiótica, que também precisa de tradução. Quando ele diz que ele não tem nada a ensinar e tem somente a perguntar, e assim ele desperta no indivíduo esta luz e essa vontade de sair da caverna, ele se vale daquilo que ele chama de maiótica. Vamos traduzir essa palavra, porque traduzem pessimamente, sempre é fermentação, como é muito mais do que isso. Maiótica em grego, maieftiki, derivou uma palavra conhecida nossa, maia, magia, derivou maia. Maia quer dizer fermento, sim, mas maia e fermento são muito similares em grego antigo, porque é a arte de provocar, de fazer crescer, como um ato mágico. Mais do que isso, maieftiki em grego, tanto no arcaico como ainda no moderno, quer dizer encantamento. É a paideia erótica, é a paideia que tem que encantar para que você queira seguir o mestre e despertar-se. Maieftiki em grego literalmente é encantamento. Maievo em grego quer dizer tanto estou encantando uma pessoa, seduzindo-a, como também estou urdindo como um mago, o mago que urde com as suas fórmulas e produz. É só esta arte do encantamento que te desperta a vontade de buscar o conhecimento de si e do outro. Portanto, aqui está o caminho da paideia em direção ao belo, a partir do que o indivíduo tem de mais belo e ajudando-o a se esquecer daquilo que ele tem de pior. Agora entendemos o papel da música, da dança e da ginástica e dos mitos. A música para o canto, para a harmonia, para que os urros se transformem em palavras e sons belos e significantes. A ginástica e a dança para o belo do corpo que reflita o belo da alma. E os mitos, porque os mitos são paradigmáticos, são os grandes exemplos cósmicos, as grandes parábolas que devem guiar a construção do cidadão e da polis. É claro que Platão sabe muito bem que até o mais perfeito dos estados se corrompe. Não é só o cidadão, o próprio estado em si. Ele fala de uma timocracia, de uma oligarquia, de uma democracia e de uma tirania. Vamos explicar rapidamente cada um. Timocracia, timé em grego é honra, podemos traduzir por meritocracia, o estado baseado na honra, o mais elevado de todos, o estado construído na dignidade do cidadão, não na falsa dignidade só porque compro carro bonito virou doutor, não, do indivíduo elevado. O estado depois ele fala de uma mais degenerada, oligarquia. Oligarca quer dizer o poder distribuído por poucos, porém que façam por merecer. Depois ele degenera para a democracia, onde todos podem intervir no governo independentemente da altura da qualidade que você tenha. E finalmente ele fala da tirania, que é o estado exercido por aqueles que se impõem à força sem merecimento. Tudo isso muito conhecido nosso, e nós vemos como o belo vai se desfazendo como tal. O desafio que nós conhecemos lá atrás na construção de um estado justo e na construção de um homem justo, portanto, é um desafio coletivo, é um desafio da paideia que não será possível se ele não for guiado para o bem, para a ideia de bem e para a verdade. Agora esta verdade toca o caminho do herói, a coragem de ser do cidadão, a coragem de ser verdadeiro e assim se mostrar e colocar-se a serviço do outro. O estado tem que tornar-se semelhante aos homens e não acima dos homens. Nietzsche foi talvez o pensador moderno que melhor compreendeu essa questão. Se há um desvario na modernidade é que o estado coloca o homem ao seu serviço e pior, a serviço da economia, como se fosse o motor do estado. É claro que isso é uma escravidão muito inteligente, mas o estado quando ele se torna semelhante aos homens, ele se baseia no mérito e na honra. Talvez não haja doença maior para o pensamento arcaico, especialmente em Platão, do que a injustiça. Ele a define como a moléstia que mais atinge a vitalidade, seja do homem e seja do estado. O tema não poderia ser mais atual, estamos vendo um Brasil esfacelado ultimamente pela injustiça. Mas é muito interessante a gente fazer esta reflexão sobre saúde ética, como ele chama. Antes de entrarmos na questão da transmigração das almas, o pensamento platônico coincide perfeitamente aqui com o pensamento pitagórico órfico das escolas dos mistérios e com o pensamento hipocrático no conceito de doença e saúde. Vejam só que interessante, a própria etimologia nos ajuda. O máximo de tecnologia de saúde para o pensamento arcaico se chama arete, que quer dizer o estado de excelência. Aliás, faz muito sentido, quando nós estamos com plena saúde, com pleno vigor, com pleno domínio de nós mesmos, nós somos capazes de exercer plenamente o melhor de nós. O oposto é a doença, e o extremo oposto de arete é a ausência de arete. Por isso que a palavra grega é arostos, quer dizer sem arete, doença. Quer dizer isso, quando se perde o elan. E é isto mesmo, se a ideia de saúde arete imediatamente salta nossos olhos como energia, como alegria, como vitalidade, que é o que todos nós almejamos, saúde. O oposto é a ausência de vitalidade. Os gregos definiam muito bem, a pior das doenças é apathos, apatia, mas perdeu o significado original, quer dizer não tem paixão. Porque quando nós temos arete, nós estamos apaixonados acima de tudo pela vida. O máximo de tecnologia humana alcançável é a paixão pela vida, é isso que eles chamam de arete. Como você se apaixona pela vida exercendo ao máximo que você tem de melhor, os seus talentos. Ao contrário, você é entregue a um desânimo e a apatia toma conta de ti. É muito interessante que a palavra patologia na modernidade virou o estudo das doenças, quando na verdade na antiguidade é o estudo das paixões. Pathos derivou pacium e latim, que derivou paixões e depois virou doença. Mas isto é, digamos assim, mazelas da tradição judaico-cristã, que condena tanto este erotismo brilhante e arcaico que se funda na arete e nos talentos de cada um, na paixão de viver. O que tem a ver agora a injustiça com isso? Por quê?

porque os talentos mais belos a serviço de si e do outro a serviço dos deuses beiram a perfeição beiram o bem tocam o bem e o belo a arete está a serviço de uma ética universal a partir dos talentos de cada um para a consagração do nobre justo e belo a doença advirá quando os seus talentos forem colocados a serviço das vantagens pessoais que é lá onde nós começamos o nosso diálogo de hoje é mais conveniente eu me valer dos meus talentos das minhas posses para a injustiça ou para as vantagens pessoais mas eu criarei a doença nas almas como consequência disso todas as tradições refletiram sobre isso a cristã com a questão da culpa por exemplo todas as nossas tradições falam isso a ideia de pecado e tudo mais mas talvez que nunca se atingiu tamanha agudeza de reflexão em construir um homem a partir dele mesmo torná-lo obra de arte e colocá-lo a serviço de si do outro para a mais elevada concepção de civilidade que é o que esta obra nos coloca é talvez a mais alta tecnologia da construção do homem e da civilidade que já dispusemos e que lamentavelmente ainda desperdiçamos a última questão abordada da mais alta importância no último livro ele aborda a questão da transmigração das almas é o conhecido por muitos mito de er mas aqui sem entrar em maiores detalhes temos que nos ater a uma questão essencial as almas migram de um corpo para outro para voltar a viver já falamos disso no pensamento arcaico mas o tema fundamental aqui é por que ela escolhe e o que ela escolhe a questão da escolha se opõe aparentemente a ideia de destino não para os antigos no entanto e já falamos isso na aula anterior a escolha é o resultado de todas as tuas ações você pode tornar-se cada vez mais ao longo da sua vida ou de muitas vidas uma obra de arte cada vez mais aperfeiçoada a partir dos seus talentos e isto a cumprir o seu destino ou você pode se abandonar cada vez mais a escolha existe sim até no momento de você refazer-se para uma nova existência e é óbvio nossa vida toda foi uma série de escolhas de circunstâncias e de opções sobre as quais nós erramos e acertamos mas que acaba refletindo a nossa personalidade e nós sabemos muito bem como a coragem de ser reside em escolhas muitas vezes decisivas em toda a nossa existência até na hora de voltar a viver a questão da escolha colocada fantástico


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PALESTRA 10 — REENCONTRO COM A PAIXÃO — PARTE 2
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Universidade Falada. Conhecimento à velocidade de um clique. A Universidade Falada apresenta o audiolivro Reencontro com a Paixão, parte 2, de autoria de Victor de Salis. Victor formou-se em Psicologia. Completou um doutorado em 1977 com Jean Piaget na Suíça e o outro a seguir com Igor Caruso, na Universidade de Salzburgo, na Áustria. Dedicou-se cada vez mais ao estudo das tradições e mitos das antigas civilizações. Victor é autor de inúmeros livros sobre o tema. Duas considerações. A primeira foi, uma das pessoas que me fez uma observação aqui, muito importante, achei muito oportuna, sobre pacientes, faz um amigo dele que é médico e que trabalhou muito tempo com pacientes em estágio final de câncer. E que a coisa mais triste que ele comentava era o que acontecia ao final, momentos finais dessa existência, onde o indivíduo realmente passava a se recordar por que não tive tempo para fazer isso, por que não fiz aquilo, por que não fiz o outro e etc.

Deve ser terrível realmente a angústia de, nos últimos instantes da existência, presenciar este arrependimento. E a gente sabe que essa conversa de que nunca é tarde é mentira. É sim. Às vezes é tarde mesmo. Irreversivelmente tarde. É preciso estar atento sobre isto. Há um ditado antigo que dizia que os deuses costumam sorrir apenas uma vez. Não, humanos. Cuidado para não desperdiçar a oportunidade. É um pouco emplacado, mas é terrivelmente verdadeiro. Eu nunca tive, apesar de terapeuta, nunca tive essa oportunidade de ter um paciente terminal na minha mão, de um modo tão contundente e terrível. Mas eu tive sim pacientes, com bastante idade, arrependidos da existência que fizeram. O que, de forma um pouco mais suave, é tão terrível quanto. Porque talvez até mais terrível, porque sabe que tem alguns anos para a frente para viver de modo amargurado e errado.

E não há terapia que possa salvar este erro. É preciso compreender que a terapia é uma forma de auxiliar o ser humano como uma tecnologia. Mas ela não tem um milagre da ressurreição e nem um milagre da correção daquilo que nós próprios somos. Ela não corrige vida desperdiçada. É preciso compreender isso. Nós nem podemos cobrar isso. Nem o maior terapeuta do mundo seria capaz de fazer, nem é função dele. Esse é um problema nosso, de nossa responsabilidade. De nosso limite. E, para quem deve, vocês devem conhecer, mas quem quer conhecer um pouco mais de perto disso, leiam a Montanha Mágica de Thomas Mann, que é pacientes tuberculosos terminais também. Isso é uma reflexão sobre isso, uma beleza extraordinária que nos dá a urgência do tempo. Não é a urgência do tempo, fazer tudo agora, ficar doido aqui, vou me matar, vou aproveitar todas, vou tomar todas e etc.

Não é bem essa urgência de tempo que nós falamos. Porque essa é tão idiota quanto aquele que se guarda e não vive. Mas trata-se de uma urgência de saber que cada minuto pode e deve ser vivido como o último na existência. Mas isso com intensidade, não com ausência de projetos. Mas com a intensidade de um projeto verdadeiro. Com a intensidade de uma entrega pessoal ao seu projeto. Isto sim. Esta é a maneira. Esta é uma questão. A outra foi uma, também aqui, uma das pessoas dos ouvintes, me perguntou sobre como é que a gente encontra isso. Como é seu trabalho terapêutico? Falei, realmente, meu trabalho terapêutico é um trabalho de psicoterapia mítica. Eu não faço terapias longas, eu me dedico ao trabalho curto de alguns meses para ajudar o indivíduo a encontrar o seu destino a cumprir.

Eu acho que, talvez, uma das grandes lacunas que meu trabalho procura cumprir é este. Dar meios para o indivíduo conhecer seu próprio mito. Aliás, a segunda parte do nosso tema é este. E uma vez que o indivíduo possa conhecer o seu mito, cabe-lhe adquirir a coragem de cumprir. Para isso, sim, ele pode até buscar o auxílio terapêutico, muitas vezes, porque a covardia pode ser muito grande. Mas a minha função é dar meios para o indivíduo conhecer, ter a coragem de conhecer a sua verdade fundamental, a sua verdade cósmica, que os antigos chamavam de dêmon ou daimon, que virou demônio, por isso é outra filologia curiosa. Por que que dêmon, que é um gênio para os antigos egípcios e gregos, é um gênio fantástico e imortal que nos habita, é a nossa parte imortal que veio de outras vidas e se aperfeiçoou, e está aqui guardada em nós, virou demônio.

Tanto é que quantas expressões não existem? Está com o diabo no corpo, o capeta entrou, incorporou, e quantas e quantas tolices, como se ter esta energia fulgurante, que era assim que era visto, dêmon, fosse coisa do demônio. A própria palavra, dêmon, virou demônio. A filologia, aqui mais uma vez, nos revelando uma questão de existência fundamental. Por que? Porque vivemos sob a área das sociedades judaico-cristãs, que são sociedades castraduras, como todos bem sabem, e que não gostam de pessoas livres e capazes de viver por conta própria. Estas sociedades cujas religiões se tornaram estatais, tipo Petrobras, se vocês quiserem. O Vaticano é uma Petrobras. na Itália, mas é, Petrobras, com filiais por aí. Todas essas religiões, na forma estatal, elas cultivam o gado. Vem desde os dízimos, das cruzadas e etc.

As religiões arcaicas, que cultivavam a arte do indivíduo encontrar o seu próprio mito, o seu demônio, foram muito perseguidas. A própria palavra paganismo tem uma conotação extremamente negativa. E quem não se lembra, no começo do século, das críticas da religião sobre a própria psicologia, por exemplo. Porque ele era muito malvista, essa ciência, a psicanálise, que estava querendo ter a ousadia de ajudar o indivíduo a encontrar o seu próprio caminho. Como que vai encontrar o seu próprio caminho? Quando o padre é um religioso, é um psicólogo, ele é tudo para o padre. Ele que dirá o caminho, com o credo e tudo mais. Que diabos esses psicólogos estão fazendo? Quantas e quantas vezes não houve esta crítica, esta ousadia do encontro de si mesmo? Que dirá do mítico, que dirá desta capacidade de encontrar um caminho absolutamente único?

E, de repente, você descobre que Deus está dentro de você, você não vai mais na igreja. As igrejas vão ficar às buscas. E as contribuições, como é que ficam? Como é que vocês pensam que o ouro do Vaticano se acumulou? Faz custas de muita pobreza, com certeza. E de muita injustiça. É preciso compreender de que esta capacidade do indivíduo encontrar a sua energia mágica é imprescindível e perigoso e louco. Demoníaco, se vocês quiserem. Mas é um demoníaco angelical. O reino e Maria Leu, com uma ocasião, lhe disseram, porque ele era muito problemático. Eles disseram, você deveria buscar os auxílios terapêuticos ou religiosos, se for o caso. Pode ser um terapeuta, possa ajudar um generalista, ou quem sabe, um religioso, para que você exorcize todos esses fantasmas.

Ele diz, eu até acredito que vocês vão me ajudar a exorcizar os fantasmas. O problema é que vocês levarão junto com os meus anjos. Melhor eu ficar com os meus fantasmas. Senão, não teríamos um rio. Como pode existir um rio sem um fantasma? Como pode existir? Os fantasmas é que permitem os anjos se tornarem tão belos e grandiosos. E a luta entre anjos e fantasmas é que faz um rio. Só anjos devem ser muito chatos. Vocês não acham que eles são insuportavelmente chatos. A questão do demon, passa pelo segredo da existência de nós mesmos. Descobrimos nosso fogo fundamental e este é um diálogo que só nós, com nossas divindades, pode ser realizado. É um diálogo de coragem, sem dúvida alguma, de coragem de existir. Mas é muito bonito este conceito, porque ajuda-nos a compreender que cada ser humano tem uma unicidade, tem um segredo e uma luz divina dentro dele, que se ele souber descobri-la, ele também será um cúmplice da criação.

Ele também dará o seu quinhão nesta harmonia cósmica criadora. E cada um que o descobre, ele já é um instrumento divino, porque no lugar de se preocupar com drogas e se destruir, ele estará preocupado em dar a sua pequena contribuição na criação. E eu tenho certeza de que isto é o conceito mais poderoso de saúde mental. Pessoas úteis, cosmicamente, não adoecem. Elas têm uma força, mesmo perante a doença, insuplantável. são aqueles que não sabem de si e que adoecem. Este é um conceito egípcio que eu estou passando a vocês. A pior das doenças é no saber de si, é no saber o que fazer da sua existência. E a mais poderosa força da saúde é ter um destino a poder. Mas isso não é possível se você não tem dentro de si esta chama que te dirige e que te diz isto é seu destino e a outra parte disso não me cabe.

Isso não é lindo, pode ser maravilhoso, lindo nela. Mas em mim não me basta. Mas aquilo que é meu brilha e me irradia. Talvez seja esta a única possibilidade de viver apaixonadamente e que pode preparar o homem para o próximo século. Este é o grande segredo que as artes arcaicas nos ensinam e que nós deveríamos aprender. Porque isto não é arcaico e isto nós não somos modernos. Isto é eterno, simplesmente. Isto não é tecnologia que vai mudar. Isto não é satélite e nem foguete que vai mudar. Esta capacidade do ser humano sempre encontrar essa parte. Agora vocês podem fazer as perguntas que eu queria contar para vocês. O encontro do outro com o ser humano, com o amor, ele deve fazer parte da sua harmonia cósmica. Quando esta pessoa faz parte da sua existência ou quando ela é provisória.

Se você não sabe, deve saber. E às vezes a gente fica sabendo no caminho. Esta é a realidade. A realidade é de que, parafraseando o Vinícius, a vida é a arte do encontro em meio a tantos desencontros. Isto nós temos que compreender e aceitar. Mas eu acho que o mais importante de tudo é saber que jamais o encontro de uma pessoa é instrumento para você cumprir o seu destino. O encontro do outro é um auxílio precioso no bem-estar da vida, sua e dele. Mas não é porque você o encontrou que você cumpre o seu destino e nem vice-versa. Nós nos encontramos entre homens e mulheres porque somos incompletos. Porque nós precisamos da nossa metade do hermaphrodita perdido. Isto é fundamental da nossa incompletude essencial. Nós não podemos viver sem isto. Mas isto não é para cumprir o nosso destino.

Este é o ponto de partida, exatamente. Isto te dá mais paz para viver como você fornece paz a este companheiro. Como os filhos também dão paz. Mas os teus filhos não são o teu destino. E é um gravieiro nos pais que acham que os filhos ter filhos é cumprir o seu destino aqui na Terra. Porque enche o saco dos filhos e os filhos enchem o saco deles. E ninguém cumpre o destino de ninguém. É filho que não se dá o direito de ser, é pai que não se dá o direito de ser também. O que o filho representa, o que o companheiro representa é paz, é amor. Serena a nossa vida. Me dá mais força lutar pelo meu destino quando eu sei que eu tenho alguém ao meu lado que me ama. Seja minha mãe, seja esposa, seja irmão, seja filho. Tudo isso dá muita paz. Tudo isso dá uma harmonia maravilhosa na vida.

Porque somos incompletos. Porque nós precisamos transbordar isso dentro de nós. Quando a gente é muito bom para nós darmos esse carinho a um catartal desprotegido. Ou uma companhia ou uma pessoa idosa enfraquecida, isso engrandece. Mas não complementa o seu destino. É a base, é o sine qua non para te dar força para você caminhar. E você precisa dessa força para caminhar. Sem essa força você não tem coragem, você não tem energia para cumprir o seu destino. O Michel Mafessori, ele menciona muito bem na sombra de Dionísio. Eu me conheço através do outro. Não há sombra de dúvida. Mas me conhecer através do outro não é cumprir o meu destino através do outro. É esse teu erro que nós cometemos com frequência. O outro me ilumina e me revela. E como? Quando você ama alguém do seu lado, essa companheira, esse companheiro, ele me revela, me mostra a língua de mim que eu jamais poderia pensar.

Não, eu seria um cego total e narcisista. Mas é esse o instrumento da nossa incompletude que esta pessoa do meu lado me dá forças para cumprir. Da mesma maneira quando você tem um filho e você se sente com mais força e garra para viver porque você precisa dar de comer para esse catartal. Mas isso te torna orgulhoso e te torna mais necessário te dar o prazer de ser útil. Mas não se reduz a isso. Não faça disso um instrumento para prendê-lo. E quantos de nós não fazemos isso? Naquela sedução de fique em casa. Está com três anos contigo em casa. Porque ele deu tudo, ele forneceu tudo e o coitado que era para ter um vestido maravilhoso é um babaca. É com isso que ele fica. Porque ele não criou a coisa fundamental de ser o autossuficiente e necessário para ele poder também fornecer ao outro um instrumento da vida.

Eu acredito profundamente nesse princípio arcaico dos índios de que quem não é capaz de ajudar o outro, alguém mais impotente para viver, está inútil aqui na Terra. Faz parte de você dar algo de si para alguém. Isso não pode impedir. criando filhos adeterno, você tira a possibilidade desse indivíduo também criar outros. A gente também dar algo de si. A gente só se completa, só se realiza dando do jeito. Se nós não temos essa capacidade de doação, não é que de tanto a que nós recebemos para a vida etangélica? Sem dúvida. Então, é muito importante não confundir a capacidade de cumprir o seu destino com essa necessidade cósmica de amar que nós temos. Que se completam, mas não podem jamais se confundir. Se reduzir. É porque nós corremos o terrível risco de tirar a liberdade do outro para cumprir o nosso pretexto destino.

Isso é gravíssimo o que nós temos. E por detrás, por conta disso, vem os ciúmes, o apoderamento do outro, vem todas e todas essas tolices que, na verdade, a gente tem a ousadia de chamar de amor. Isso não é amor. Isso é canibalismo. Isso é um canibalismo doce e fatal que nós praticamos com o outro. Agora, porque você precisa de mim e me ama, você se deixa servir à mesa. E eu te janto confortavelmente, tirando-te a tua liberdade, tirando-te o teu destino, tirando-te o teu direito de pensar, de existir, etc. Quantas e quantas relações não são assim, gente? E se vê, eu, como homem, como se mulher, e se vê, quantas mulheres não fazem isso com os seus maridos ou com os seus amantes, não importa quem, ou com os filhos. Isso não é destino a cumprir, gente. Isso é desatino. Isso não é destino. Isso é viver do modo mais desatinado possível.

E se grudam de modo completamente simbiótico essas pessoas, essas famílias, porque um tem medo de existir e o outro também tem medo e vira um medo e vira uma doença, aí sim tem uma verdadeira patologia em casa. Quantas e quantas vezes não vê isso em terapias familiares, gente? Se é que precisa, não precisa nem ser tão sofisticado assim. Vê na esquina com a vizinha ou em casa mesmo. Não precisa ir lá para a parte terapêutica, não. É isto que, na verdade, é uma falta de respeito que acaba tirando toda a paixão de viver. Porque paixão de viver tem que ter um pouco de tesão para viver. senão não vive. Preso a isto, amedrontado da perda, não há prazer de viver. Eu vou retomar uma questão que eu falei no começo. O conceito de paixão na modernidade tem toda essa conotação que é muito oportuna que o recorte.

Mas, no entanto, ele vem de pássio, do latim, e vem de pathos. Pathos é viver eroticamente no pensamento arcaico. É entregar-se totalmente. É não fazer nada que não seja em nome de Eros, em nome da sua própria verdade. Este conceito se perdeu na modernidade e criou-se uma dualidade entre paixão e amor. Isso tem a ver com o cristianismo, porque condenou a paixão como uma forma, e agora vamos até na sua segunda questão, uma forma sexualizada e superficial, consumista, de se relacionar com o ser humano, e o amor uma forma pura e eterna, e etc. Ambos dos conceitos são falsos. O primeiro deles é hedonista e representou uma escola, daí vem a palavra hedoné, hedoné é o prazer como um fim em si mesmo, que é praticado hoje, em todas as esquinas de todos os montéis, infelizmente. Nossa sociedade de hoje é hedonista, por excelência, e opou-se a um cristianismo com uma forma de amor purificado, totalmente, porque queria condenar essa decadência do período romano.

Ambas as formas são falsas, porque o verdadeiro amor não conhece nem pureza e nem sexualidade como um fim em si mesmo, não conhece uma entrega total e absoluta. Para agravar a confusão, ultimamente, aquele Paulo Coelho soltou uma das impropriedades, ele falou em agape e amor, e eros, e agape como um amor puro e o eros como um amor safado, etc. Isso é um absurdo etimológico, porque agape vem de agathon, que significa afetuoso, suave, em grego; agathon é um personagem dos diálogos de Platão, apenas afetuoso e mais nada. E eros queria dizer o amor radical e fundamental da existência. Infelizmente, a tradição cristã deu uma conotação de eros erótico, safado, quando, na verdade, o eros definia duas categorias de seres humanos, o erastis e o eromenos, o apaixonado e o amante, amante e amada, relação fundamental com o pensamento arcaico que era importantíssima.

Então, na realidade, o que nós temos é que nos livrar de todas essas más definições. Deve-se, no entanto, aceitar que nós estamos numa sociedade que reagiu contra esta forma, com esse puritanismo cristão e caiu para um outro extremo completamente hedonista, o que só denota ignorância tanto do puritanismo quanto do hedonismo para a forma erótica. E, principalmente, uma condenação da sexualidade como tal, porque as razões históricas são muitas aqui, não se estendem demais, entramos nelas, mas a verdade é que nós temos uma interpretação completamente equivocada que já começa na própria Bíblia, e já não vem nem do puritanismo, nem do judaísmo, que transforma a questão da sexualidade em um problema de pecado original. Não existe em nenhuma tradição bíblica arcaica, muito mais arcaica que a nossa, a associação de sexualidade com o pecado.

Existe uma associação fundamental. O pecado original não é um problema sexual, não é um problema de verdade e mentira. O homem foi falso. O que tem a ver falso com genitais? O que tem a ver uma coisa com a outra? E o pior apesar de vocês, mulheres, vocês são uma fonte da maldade. Por quê? Por que, afinal de contas, eu não, eu as defendo nesse ponto. Vocês não estão falando de maldade em nada. Bendita seja o que estão por aqui na terra. É um absurdo histórico e etimológico, mas tem razões de ser se nós cuidarmos a sociedade judaica na época e toda a sua defesa em volta de outras sociedades. É um puro marketing sobre o qual foi escrito esse Antigo Testamento porque sua origem é o Babilônia e que sabemos muito bem disso. Então, a condenação da sexualidade já vem daí.

Para agravar a situação, nós só poderíamos ter o que a modernidade nos fornece, um comportamento puramente genital, sexual, afastado do afetivo. O grave problema da modernidade, hoje, é um jovem completamente impotente para mostrar os seus sentimentos. Porque transar, ele transa que nem maquininha. Em qualquer esquina de motel com 13, 14 anos já estão indo transar. Só que emocionalmente são mais travados do que pedra. Não são capazes de aceitar seus sentimentos, não são quem lida com jovens e sabe disso perfeitamente. Não são capazes de externar nada e têm pavor de confessar que gostam. A palavra gostar é proibida, pode ficar. O termo para mostrar que compromisso é o horror dos horrores, porque é uma sociedade completamente narcisista que eles estão criando. É óbvio que a contrapartida do indivíduo que não consegue expressar seus sentimentos, sua paixão é o narcisismo.

E o narcisismo é a mais perigosa das doenças porque dispensa o outro, porque dispensa o amor. O narcisismo não tem nada a ver nem com heterossexualismo, nem com homossexualismo, nem com nada. É um autossexualismo, eu me basto. E é a porta de entrada para a droga que é uma conduta autorreferente. Porque o drogado a gente sabe da conduta dele. Ele não precisa do outro, ele tem um prazer dentro de si mesmo. É mais do que masturbatória a relação. Eu vou e compro o pacote de prazer, uso e pronto, não preciso de ninguém. É a fonte do psicopata. É a origem do psicopata. A gente sabe que os drogados são todos psicopatas. Eu uso para meu prazer, dane-se o quê e não vê limites. Para daí, para o homicida, para o estelionatário, para todas essas deformações profundas, do caráter é um passo só. Por que vem o risco da tradição judaica e do babilônico nessa condenação?

Porque são razões históricas muito complexas e eu seria muito superficial se entrasse aqui. Eu posso dar uma resposta superficial. O que existe é que são sociedades ameaçadas por longo tempo, são sociedades eróticas por longo tempo ameaçadas e que tentavam, tendiam a roubar suas mulheres. As mulheres tiveram que ser protegidas. E nas diversas guerras que eles fizeram, eles criaram leis para proteger a mulher. Por que você acha que podia um homem casar com sete mulheres? Não era por machismo. Era para não deixá-las abandonadas, não serem roubadas como os árabes fizeram mais tarde. A poligamia árabe não é um problema muito mal interpretada como um problema de machismo. A machismo é outro problema. É para não deixá-las na rua virarem prostitutos serem perdidas. Assim se criou uma lei em torno disso e se criou também uma proteção em torno das mulheres para que eles não as perdessem.

É uma sociedade desesperada por sobreviver. A Bíblia veio como correspondente disso. Mas a mulher foi o problema. Por isso que ela virou a ponte do mal. A sociedade não tinha como sobreviver. Basta ler com atenção à Bíblia, à história e à parte histórica que você vai entender claramente por que foi criado o Velho Testamento em torno de uma mulher toda presa e guardada e a pureza da mulher tão, tão levada às últimas consequências. Não havia outra forma de sobreviver. Enquanto que as outras sociedades tinham o quê? O templo consagrado à prostituta sagrada. E era a pórnia. Daí tem a pornografia. que não é prostituta. É uma mulher voltada ao erotismo. É uma sociedade autotisa. São sociedades assim. Então, para não se desfazer, ela se salvaguardou, vamos dizer. Esse é um dos motivos. Há vários outros políticos sociais muito importantes que levaram a esse tipo de coisa.

E o outro, sem dúvida nenhuma, é uma marca de sobrevivência de uma religião. Uma dúvida alguma. Se a gente vê em Moisés, no Êxodo, o que acontece quando ele vai buscar os dez mandamentos e retorna? O que ele encontra? a adoração do bezerro de ouro de uma sociedade naturalmente. Agora, isso não é paganismo, como a gente lê essas bobagens. Isto é a adoração do sagrado do animal. A adoração do sagrado do animal é o erotismo contido no animal. Isso é muito mais complexo do que a gente gosta de aceitar das histórias dos padrecos. Porque, naturalmente, eles contam histórias que eles contêm. Como a gente bem sabe, não é bem assim as coisas. Tem motivos sociais e políticos religiosos muito complexos e muito importantes para que isto tenha acontecido. É uma questão de sobrevivência. Dizem que na origem, eles eram judeus, os anões eram eróticos também.

Está mais do que demonstrado historicamente. A sociedade judaica, pré-século XIV, XV a.C., é uma sociedade extremamente erótica e tem mais. Pasmo em vocês, politeísta. Está mais demonstrado do que hoje nos estudos filológicos, tem a palavra Yavé, que veio de Jeová, é deuses. Nunca foi deus. Traduzida inadequadamente, indevidamente, por Jeová, que é o deus. E Yavé é deuses, é plural acadiano. Pluralíssimo. Você está em inúmeros textos acadianos. Você encontra a palavra, porque o hebraico se origina do acadiano. Não há o que discutir, mas é quem sabe como é. Estes assuntos deixamos para depois. O Dharma é uma coisa que você está falando de expressar-se totalmente. É o que o Budismo fala. Sem dúvida. O Budismo é uma religião erótica por excelência. Ela mantém vivo esse erotismo e esse sensualismo.

As religiões hindus, nesse sentido, são belíssimas. São muito mais autênticas. O culto alfálico. O Kama Sutra. O Kama Sutra é de um respeito, de uma beleza extraordinária. Por quê? Porque são religiões que privilegiam o feminino e privilegiam o masculino com toda a sua grandeza e seus atributos. Mas integram e aperfeiçoam. Não é integrar um sentido instintual, como nós fazemos hoje um sentido genital, de forma alguma. São religiões voltadas a preparar o homem a viver com paixão? Sem dúvida que são. Mas a forma de eles viverem apaixonados não é sair por cada esquina de cada motel. É apaixonado pelo cósmico, apaixonado pela vida, pelo elevado. Cumprir o seu destino vai correr riscos. Qual é o seu risco? Isso está acontecendo? É inevitável que isso aconteça na nossa existência.

Pode ser algo superficial que você desce para lá e pode ser algo fundamental que mude toda a sua existência. Cabe a você analisar a força disto e saber o que representa para dentro de ti. Nós estamos sujeitos a isso. Nós fazemos parte disso. E te digo mais, quanto mais você vive eroticamente, quanto mais você irradia, mais você atrai. Só as pessoas chatas e secas não atraem paixões. As paixões que irradiam é questão de beleza física? É muito mais do que isso. Carisma. Irradia. E você tem que saber aonde esta irradiação pode te pegar ou você deve se conter. Porque não é por qualquer paixão que nós temos aí. Eu sinto que certas elites intelectuais, não é intelectuais, elites intelectuais do mau sentido da palavra, daqueles chatos que ficam fazendo doutorados e perturbando a vida da gente.

Não. Falo da verdadeira elite intelectual, daquele que tem o verdadeiro desejo de compreender a existência, a vida. Eles estão havendo uma parcela lúcida que está buscando um outro caminho e que não se deixa mais enganar por carro novo, apartamento novo. Já busca no sentido da existência algo mais. E isto acontece de modo geral no mundo civilizado. Mas é uma pequena parcela. É bem pequena mesmo. Já é um grande concurso. Este é um aspecto que eu percebo. Um outro aspecto que eu percebo é que está-se chegando à conclusão de que o modelo socioeconômico das nações ocidentais está esgotado e falido. Completamente. Estas nações não foram capazes, com todas as suas parafernálias econômicas e tecnológicas e mobológicas, de fornecer ao homem dignidade de existir. Direito àquele princípio arcaíssimo egípcio: nascer com dignidade, viver com dignidade e morrer com dignidade.

Não foram capazes de fazer. Nem as mais civilizadas e desenvolvidas, particularmente. Não são capazes de enfrentar uma escalada da violência e da droga. Já começa por aí. Principalmente não sabem mais educar os seus filhos e adentraram por modelos totalmente falidos econômico-trabalhistas. Moldaram a educação para o trabalho. Isso é o pior desastre que podem ter feito, porque esqueceram de formar o homem. Preparar o homem para o trabalho não é formá-lo. É deformá-lo. Literalmente. Porque não lhe dão ética, não lhe dão estrutura, não lhe dão conhecimento, não lhe dão prazer de viver. Tornam-lhe nada mais, nada menos do que o escravo do seu diplominha. E o que é pior? A maioria deles, como França e Itália, vai virar motorista de táxi mesmo. Esse é o destino. Este modelo está falido completamente.

Esta ilusão de que meu filho vai para a faculdade acabou-se. As pessoas rústas sabem que isso é uma valela. Que na verdade sempre foi. Isto tem que ser repensado. Para mim, este é o mundo mais grave. A educação está completamente falida, do primário ao terceiro grau. Não é para isso que se criou uma escola. Não é para aprender a ler e escrever que existia uma escola. É para formar um homem, para torná-lo digno. A dignidade é o mais caro dos elementos e o mais raro deles. Nós temos uma acampada de gente desorientada, mentirosa, desvairada, cobiçosa. É isto que nós somos. Não se constrói sociedades com gente assim. Porque esses sentimentos estão livres na criança. Ou são ou a virtude substituir o vício, estou parafraseando Sócrates, ou o vício tomou conta da sociedade. Ele estava criticando a Atenas, que virou a filha desse jeito.

E foi um museu em Atenas. Nós estamos mais preocupados em saber se meu filho vai aprender a escrever mais depressa que o dela, para esfregar na cara dela para dizer, talvez meu filho vai ter gente zero, as miras sem precedentes. Todos os direitos autorais são de propriedade da editora Aliá, Universidade Falada. É proibida a cópia e reprodução parcial ou total do conteúdo. Este material é distribuído sem ônus exclusivamente para entidades de deficientes visuais previamente cadastradas. Legenda por Sônia Ruberti


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PALESTRA 11 — A TRADIÇÃO EGÍPCIA
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A Universidade Falada. Conhecimento à velocidade de um clique. A Universidade Falada apresenta o audiolivro A Tradição Egípcia, de autoria de Victor de Salis. Victor formou-se em Psicologia. Completou um doutorado em 1977 com Jean Piaget na Suíça e o outro a seguir com Igor Caruso, na Universidade de Salzburgo, na Áustria. Dedicou-se cada vez mais ao estudo das tradições e mitos das antigas civilizações. Victor é autor de inúmeros livros sobre o tema. A Universidade Falada apresenta o audiolivro A Tradição Egípcia. Nós vamos fazer uma breve revisão das tradições egípcias hoje. Não creio que eu vou conseguir fazer a completa num único encontro. Não, vamos tentar. Até onde a gente chegar. O importante é vocês formarem uma visão de tudo e poderem revisar os conceitos. Principalmente porque é muito complexo o universo simbólico da tradição egípcia.

Muito complexo e uma tecidura riquíssima. É um desafio a memória. É um desafio... É que nem aprender uma nova língua. Em poucos passos de tempo. A gente se perde porque a memória nos prega peças. O conjunto também está voltado a uma outra forma de raciocínio. Por mais que a gente esteja familiarizado ao raciocínio mais humanista, mais mítico e simbólico, nós nos perdemos. Eu acho muito justificado. Esta citação aqui, que é tirada do famoso papiro de Turim, ela comenta sobre o que é o homem iniciado. É um texto do novo império, ou seja, de aproximadamente mil e cem, mil antes de Cristo. E ele tem um sabor saudosista. É saudosista mesmo de dizer como era esta pessoa e a que ponto decaímos. A julgar pelos textos, comentários que sobreviveram. Os egípcios tinham muita consciência de que o novo império era um período decadente.

Não só eles têm consciência, como nós já discutimos, de que eles são herdeiros de uma tradição de ouro que vem se perdendo. E que faraó representa uma tentativa de resgatar e de restaurar essa tradição e de mantê-la viva. Eles têm plena consciência disso tudo. E no novo império, essa consciência é mais poderosa. Trata-se de uma civilização onde a iniciação era o sentido da vida. Nós não estamos falando das pessoas humildes. Nós não estamos falando apenas dos paraóscitos, poderosos e de uma classe mais avastada. Estamos falando de gente simples que tem isto como sentido na sua existência. Recentemente, com as escavações feitas em torno de Gizé, ficou mais demonstrado ainda este aspecto. Estão, mais ou menos hoje, escavados aproximadamente 600 túmulos. Mas não 600 túmulos de mandatários, dignitários e etc.

Não, é da cidade dos trabalhadores mesmo. Por isso que a gente sabe que o trabalho foi pago, a gente sabe que o trabalho não foi escravo. Agora, o mais bonito é que nesses pequenos túmulos, que dentro do túmulo de um operário, humilde e simples, que lá estão as inscrições e declaram quem foi ele durante a sua vida, existe todo um memorial que isso, precioso, os egípcios regras, escreviam tudo em volta lá. Lá está a sua múmia muito sim, por vezes devido à falta de espaço, ele está assim, deitado. Às vezes o processo de mumificação foi muito mais precário, então não sobreviveu muito mais que os ossos. Mas lá está todo o agradecimento ao trabalho do faraó, quem foi em que ele se dedicou. E lá está também o orgulho dele ter sido indicado e lembrado pelo faraó. E hoje nós sabemos também porque foram encontradas tabuletas, muitas com inscrições, o faraó agradecendo essas pessoas que se sacrificaram para construir a sua pirâmide e etc.

E além disso, dentro está uma miniatura de um Tutancâmon. Miniatura, quando eu digo, aquelas coisas maravilhosas que a Maria já se lembra, aquelas cadeiras deslumbrantes, aquelas coisas tudo em ouro, estão lá. Só que desse tamanho, em miniatura, todo o ritual da iniciação está presente. Isso é muito importante. Todo o ritual da barca do sol, do caminho em direção a Rá, da passagem por Ísis e Osíris, não podia ser uma pessoa ignorante para fazer isso. Vê-se que os objetos são toscos e que foram feitos com certeza pela própria pessoa. São de terracota, são objetos pequenos, com todo o cá e de madeira, você vê que ele é mais tosco e com certeza foi feito por um trabalhador humilde, não tinha dinheiro ou meios, posses para o sacerdote fazê-lo. Mas a mesma riqueza simbólica está presente numa simples tumba de um trabalhador.

E há centenas disso hoje se encontra. Isso é um dado histórico importantíssimo. Não está em jogo o ouro e a beleza que nós vimos no Tutancâmon, que realmente é deslumbrante, mas está em jogo a riqueza simbólica que sobreviveu. Há centenas. Este é um homem iniciado, o homem voltado à religiosidade, voltado a este retorno da civilização primordial da época de ouro e que evidentemente ele tem que estar preparado, ele tem que ter um conhecimento muito maior do que um pobre analfabeto, escravo ou trabalhador para poder inclusive dar sequência a esse ritual e poder construir toda essa... Isso é, o túmulo dele era a preparação para a sua morte. Ele era um simples trabalhador, mas não foi enterrado de qualquer jeito como um escravo largado ou um pobre do indigente.

Ele tem o seu lugar, o seu lugarzinho, e lá está toda a preparação, todo o ritualismo que é complexo, como vocês estão vendo. Estão presentes todas as estatuetas, todas as simbólicas, as inscrições, etc. Certamente a esposa ou o familiar, etc., que fez em sua homenagem, etc. Este é o tal do homem iniciado. Eu leio. O verdadeiro homem de antigamente, esse antigamente, quando eu fui mencionar a vocês, é o homem do antigo império. É um homem, é um iniciado, é um sacerdote, esse é o texto de um sacerdote, do novo império, por volta do ano 1000, 1200 a.C. Então, ele está lamentando do verdadeiro homem, onde eles estão. O verdadeiro homem de antigamente dormia sem sonhar e despertava sem ansiedade. Sua comida era simples e sua respiração profunda, veja que bonito isso, sua respiração profunda se elevava dos calcanhares, aos passos que dos homens de hoje vêm da garganta.

Uma excelente definição de ansiedade. Isso aqui tem mais de 3 mil anos, acho que é impressionante essa postura. Estes, quando se veem assoberpados, enredam suas palavras na garganta como um vômito. À medida que sua luxúria e desejos se aprofundam, sua natureza celeste vai se esvaziando. O verdadeiro homem nada sabia de adorar a vida e odiar a morte. Despreocupado vinha o mundo e assim partia. Isso é bem o conceito de alegria deles. O despreocupado não é o sentido laico da palavra, é aquela atitude natural e despojada de aceitar e amar a natureza como ela se propõe. Aceitava sereno o que lhe era dado, porém sem conformismo. Quando acabava, sabia esperar ou buscar o que lhe era devido. Assim era e é o homem verdadeiro. Isso aí foi escrito quando? Em mais ou menos entre mil e mil e duzentos antes de Cristo.

Isso é um fragmento do famoso papiro de Turim. Já assim chamado porque ele foi levado para o museu de Turim. Nessa época já não era mais assim? Não. Os sacerdotes já estão lamentando porque houve a invasão dos Ixos. E os Ixos deixaram uma marca profunda no Egito. Em seguida haverá a invasão dos Babilônios. O novo império é marcado por um processo de degeneração constante. Há uma luta entre os sacerdotes. Eu comparo o novo império com um período helenístico, o grego. Onde toda aquela maravilhosa tradição só é repetida e papagaiada. Mas não há mais Sófocles, não há mais Aristóteles, não há mais Ésquilo. Não há mais nada, nada, nada que nós possamos dizer. Não há mais filhas. Mas ainda é um período de brilhante escultura, de brilhantes filósofos, mas que são apenas seguidores da escola.

Eles ensinam a não conservar o saber. Se a gente olhar friamente na história, sem dúvida. A Atenas é a capital cultural mundial naquela época. Mas ela não traz nada de novo. Ela está se alimentando e o fará durante mais de 700 anos, até o século IV d.C., em cima de uma glória do passado. Mais nada. Esse novo império seria em torno de mil... Mil e duzentos. Entre mil e trezentos a mil e duzentos, as datações estão discutíveis, até o período ptolomaico, até a invasão, é considerado o novo império, que dura até a invasão de Alexandre Magno. No meio disso, eles terão duas outras invasões. Tanto os assírios quanto os babilônios haverão de invadi-los. Mas como eles são rechaçados, e eles conseguem sobreviver e recuperar sua soberania, ainda se considera que o Egito é uma entidade própria. Quando Alexandre Magno, no entanto, o invade, e ele, evidentemente, morre em pouco tempo, o império dele é dividido em quatro grandes regiões.

A região correspondente ao Egito, e ao atual Israel, Síria, Jordânia, fica... são quatro generais que ele tem, os quatro grandes generais. Fica nas mãos dos chamados de Ptolomeu, e dos descendentes de Ptolomeu. A região para lá das Índias, o chamado Seleucidas. A região da Grécia, da própria herança de um general de lá mesmo, com o nome agora me foge. Mas isso atrairá muitas lutas. Ptolomeu e todos os seus descendentes haverão de governar o Egito durante vários séculos, até eles caírem nas mãos dos romanos, até o Egito cair, por ocasião da história de Cleópatra. Quando os romanos entram em Alexandria, quando eles chegam lá, quando Júlio César, até aquela história que a gente conhece toda, nós estamos lá com Cleópatra VII, que é uma descendente dos Ptolomeus. Se nós calcularmos, isto é no começo da nossa era cristã, ou às vésperas da nossa era cristã, um pouquinho antes, Júlio César é 44 antes de Cristo.

E em 323 são mais ou menos 250 anos, dois séculos e meio, que os Ptolomeus governam o Egito. Mas é uma dinastia grega. Mesmo por mais que a gente queira negar, a Cleópatra VII, a famosa Cleópatra, é uma grega. É sangue grego, de pai e mãe, etc. Eles absorveram todas as tradições egípcias. Isto é o texto que glorifica o que é o homem iniciado. E cuja simplicidade é notável. A gente, obviamente, percebe um panteísmo, se podemos chamar assim, ou pelo menos uma glorificação, não apenas da natureza, mas uma glorificação de tudo e do modo de ser. Existe uma postura muito, não de resignação no sentido de conformismo, mas uma resignação muito elevada, na definição deste homem. Existe uma postura extremamente serena com relação à vida e com relação à morte. A doença era vista, e isso a tradição grega o herdou claramente.

Você deveria lutar com todos os meios contra a doença, mas não deveria lutar contra a morte. Não existe uma concepção de que você deve ficar aqui na vida a qualquer custo. Muito pelo contrário. Existe uma concepção de saúde, na verdade, muito forte. Tanto é que eles praticavam a trepanação. Acho que já leram isso nos textos. Eles conheciam a tal da cirurgia cerebral, inclusive. Trepanação é um processo até de cirurgia, de extirpação de tumores. Nós temos provas disso. Eles tinham conhecimentos iniciáticos sobre as curas e as ervas muito evoluídos. É um negócio impressionante. É realmente surpreendente como eles se preocupavam com a saúde e como pesquisavam lá. Realmente é uma pequena ponta do ácido. É visto que grande parte deste conhecimento desapareceu.

Grande parte nós não temos mais acesso. Outra parte que ficou ainda preservada nas famosas bibliotecas de Alexandria foi destruída, desaparecida e assim por diante. Mas o fato de você glorificar a saúde não quer dizer à nossa mentalidade ocidental que eu preservo a saúde para fugir da morte. Essa é uma mentalidade claramente ocidental. Preservar a saúde é poder servir. Isso significa que você tem que estar sadio para poder servir bem ao sentido da sua existência e ao sentido que os deuses trouxeram aqui. Isso é preservar a saúde. É um elemento sagrado. Desperdiçar a saúde é crime. Mas guardá-la para viver a mais é igualmente um crime. É muito claro para eles, esta concepção gentil que passa na criança antiga, que a saúde tem uma função de serviço, de gastar bem, como a gente tem insistido.

Você a preserva para poder se gastar bem, para poder realizar a sua missão aqui na Terra. Como você há de realizar a sua missão aqui na Terra sem saúde? Você há de suspender o caminhar do seu destino para cuidar deste corpo que mal e mal se segura. Existe esse conceito muito bem colocado. Agora, a morte é o ato mais importante da sua existência. É o momento da consagração e da passagem. Aliás, é muito interessante observar também algumas passagens que revelam que você tem que ir mostrar bem para morrer. Isso é um conceito tão bonito. Estar bem para morrer. A gente sempre associa que a pessoa morre quando está caindo aos pedaços, decrépita. A gente se esquece que a mais bela morte é aquela daquela pessoa que soube envelhecer com dignidade, com lobreza, e que ainda não tinha partido em silêncio, dormindo, ou partiu assim, a gente nem percebeu.

Quando fiquei conhecendo isso, me associei a uma lembrança que eu tinha de adolescência. Nós tínhamos um amigo nosso que tinha uma avó que era maravilhosa. Ela era dessas pessoas que tinham uma energia tremenda. Essas pessoas do interior, aquela energia tremenda, fantástica. A gente adorava ir para a casa dele porque ela fazia cada lanche para nós sensacional, aquela coisa toda. E ela já tinha bem mais de 88, 90. Ela era daquelas pessoas que eu esqueci um pouco de anos. Eu sei que ela passava bem dos nove anos. Mas ela tinha uma energia que a gente ficava besta de viver. Um belo dia, ela, com toda aquela sua naturalidade, simplicidade, disse: "Hoje eu vou me recolher mais cedo. Hoje eu estou cansada, vocês já estão aí, já comeram, se vocês quiserem, vão na geladeira, agora vão deitar."

E assim ela deitou e não acordou mais. Simplesmente. Ela tinha seus 96 anos, 97, sei lá. Nessa humildade, nessa simplicidade, ela foi partir. Aquilo me causou tão profunda impressão e tanta inveja, e tanta inveja disso, de passagem. Quando eu li isso aqui, eu me toquei e disse: isso é estar de bem com a vida e saber estar bem com a morte. Estar bem para morrer. Essa passagem, essa serenidade, só pode ser doutrina com uma pessoa com muita harmonia. Então, ela tem que estar em profunda harmonia. Aqueles que partem doentes, despedaçados, etc., é uma luta. Como muitos textos religiosos dizem, ele não quer ir embora, ele quer ficar. Thomas Mann é maravilhoso nisso, vocês lembram da Montanha Mágica? Logo no começo, o menino desesperado, com a tuberculose, gritando, não quer morrer, todo mundo em cima, não morre, não morre, é o que mais desesperado.

Aí entra o médico com aquela postura seríssima e diz: "Sai todo mundo daqui, deixa ele morrer." Eles apavorados saem. Mãe, aquela coisa, todo aquele festival, histeria em volta. Aí ele olha para o garoto: "Sossega. Agora é boa hora." E o pega pela mão. E ele começa a arfar, arfar, e faz o sossegão serenando. Aí ele partiu. É só Thomas Mann, faz esses textos, essa sabedoria, que é se prender. É fantástico. É a primeira cena, logo no começo, da Montanha Mágica. Você logo percebe que é um hospital de tuberculosos, que naquela época não tinha sanatórios, não tinha cura. Você respeita. É respeito. E aceita. E tem que aceitar. Não há o que dizer. É o teu caminho, é o teu destino a cumprir. Nós estamos muito longe dessa concepção de sabedoria que a gente encontra aqui, que eu me lembro daquela serenidade daquela avó.

O seu destino tem que estar aqui para ser cumprido. E o destino é maior. O destino é tão misterioso quanto é o fato de um homem aqui no século XX ter nascido e estar aqui presente. É um mistério insondável esse. E então, eu tenho que aceitar esse mistério insondável. Não adianta brigar contra ele. Porque ele é a razão do ser e do não ser, naturalmente. Esta coisa de querer se prender quando o tempo já passou, eu acho que talvez seja o pior dos venenos. Porque isso, para mim, também tem um aspecto da morte simbólica. Quantas e quantas vezes nós insistimos, e esse exemplo que você está dando é perfeito, em segurar uma situação, isso acho a verdadeira doença, segurar uma situação de casado quando não existe mais esse casamento, por exemplo. Ou querer segurar uma situação da nossa existência quando ela já terminou.

E nós insistimos com um sacrifício sobre-humano disto. O mesmo exemplo Tomás Manquis dá. Não mantenha mais vivo esta pessoa, porque é sobre-humano. O custo disso é absurdo para todos e para ele. Para mim, tem muito a ver isto morrer em paz e tem a ver também essa questão que está encerrada este episódio da tua existência. Encerre o estado a partir, porque dói, dói, mas doerá muito mais e será muito pior se nós nos atermos e insistimos. Isso é a sabedoria da morte, mas é a sabedoria também da página virada. É o momento que terminou e deve-se partir. Há esta sabedoria. Quando a gente consulta aquelas vozes sutis, aquelas vozes de Atenal, aquelas vozes que ele refere em Ísis, ela nos diz o momento. Ela nos prepara para esta serenidade que é nem adorar a vida e nem odiar a morte.

A conta certa do que nos passa. Eu me lembro que o ano passado faleceu o pai de uma prima minha num acidente voltando da fazenda dele. Estava numa boa, era um senhor de idade, mas ele estava num momento feliz da vida dele. Bem de saúde, estava tudo ótimo, maravilhoso. Ele faleceu. O motorista dele teve um infarto dirigindo. Como é a morte, ela sabe pegar a gente. Ele já não dirigia por segurança, porque ele já tinha quase 80 anos, 78. Ele achava muito justamente que era melhor ter um motorista porque ele não tinha mais reflexo para não causar um acidente. E nem também ele quer. Esse aqui motorista não queria ter um infarto enquanto dirigia. E, felizmente, o carro não bateu em ninguém, mas foi direto na bandeirante, aquele buraco que tem lá embaixo? Ele voltou, capotou, matou os dois.

Não. Os dois morreram imediatamente. O motorista, o autópsio mostrou o infarto, do motorista. Se ele morreu do infarto ou se ele morreu do acidente, mas provavelmente os dois morreram. E a minha mãe me perguntou, puxa vida, agora que ele estava tão bem, mas que sorte. Que sorte. Eu falei para ela, você já preferia seu pai numa UTI do Einstein? Uma UTI da beneficência? agonizando gota a gota a gota a gota a gota a gota para partir. Você tem graças a Deus que ele partiu assim? Que sorte que foi num instante que não percebeu nada? Isso é privilégio. É isto que a gente não quer entender. Isto que nós não queremos compreender e aceitar. Passou um documentário muito interessante, Crianças de Hollywood, alguém viu na gente? É o exemplo, é o modelo vivo de tudo que nós fazemos. São crianças, crianças, filhos de artistas, filhos de gente rica, como são criados, como são educados.

E o comentário final, 95% acabam drogados se arrebentando e se abre. Não vejo. Vamos agora fazer uma reviravolta, uma viagem de volta. Ptah, vocês lembram que é a raiz da palavra Egito. Egito vem da palavra na terra de Ptah, em grego, eieatá. É Egipto, em grego até hoje, Egito. Da terra dos caminhos para a luz, ou em direção à terra dos caminhos para a luz. A civilização egípcia foi, durante milênios, uma das civilizações mais fechadas que nós conhecemos na história da humanidade. Não porque eles fossem povos de natureza xenófoba, muito pelo contrário, eram extremamente abertos. Mas, como eles não eram povos de natureza aventureira, não existe na história do Egito o registro de conquistas. Não tem, não existe um faraó como César, como Alexandre, etc. O único grande registro que nós temos é a batalha de Ramsés II com os hititas, que já é no final do Médio Império para o começo do Novo Império, mas que, provavelmente, tem mais o medo de serem invadidos por os hititas.

Eles nunca tentaram invadir os hititas. O máximo que eles fazem é encontrá-los numa batalha que fica justamente no território de Israel, para variar, a explosão lá, e eles se retiram. Não há história invasiva. É como os gregos antes dos persas também. Não tem uma história de invasão. Então, o que acontece? Eles não viajam, eles não partem. Eles estão bem onde eles estão. Eles não partem para ir buscar, para saquear. Não é um povo voltado ao saque, à conquista, como são os asílios, os babilônios, por exemplo, os medras. O isolacionismo deles é um resultado de um povo que está em paz com eles mesmos e que não se dá o trabalho de ir para fora. Quem poderia divulgá-los? Só quem fosse até lá. Eles não tinham preocupação de divulgar, foi muito para contar as tradições místicas, nem pensar.

Os gregos, através, evidentemente, não foram os gregos, foram os cretenses, em primeiro lugar. Foi a civilização minóica, foi a civilização micênica, que mantinha intensas relações, com essas intensas relações e que tinham também uma formação muito mítica, mas que nós perdemos, infelizmente, e que estabeleceram uma ponte. Quando os dórios e os jônios vieram e invadiram e encontraram civilizações muito mais elevadas, como a minóica, micênica, cicládica, eles absorveram-na. E absorveram também a curiosidade e a busca deste saber que vinha já do Egito, já milenarmente. Foi um passo natural eles irem para lá em busca deste saber. Este foi o processo que fez com que a Grécia divulgasse o Egito. Nós lemos em Platão, nós lemos em Solo, nós lemos em Pitágoras, nós lemos a tradição órfica, todos estes grandes iniciadores, milenarmente, mencionam o Egito como a sua terra de iniciação.

O próprio Orfismo considera a sua origem no Egito abertamente. O Orfismo, que é a religião mais sagrada da Grécia, a mais mística, fala da terra santa, da terra sagrada, dos seus conceitos que vêm da tradição de Ísis e os rios. Eles são os que exportam, inclusive, a Ísis. Desta maneira, é muito compreensível que os gregos batizassem esta terra de Egito. Eles se referissem a ela, a terra dos caminhos para a luz. Por que eles iam lá buscar a luz? Na verdade, eles estão apenas contando o que eles faziam. Realmente, há um outro nome que me escapou, mas aí eu vou procurá-lo e está fácil. É a terra da doutrina do verbo luz. A luz se alcança decifrando a esfinge. Que Ísis e os sírios, que nós já fizemos uma introdução, representam morte, e ressurreição. A religião egípcia é uma religião para de e para iniciados.

Não é uma religião que lamenta a miséria aqui na terra. Não é uma religião que tem a medronta para você se comportar, para que você não saqueie. Não é esta a função da religião egípcia. É uma religião extremamente cotidiana e que acredita na sacramentação do cotidiano. Ela torna o dia a dia e tudo o que está à sua volta sagrado, do mais simples animal ao simples ato de comer. Neste sentido, ela tem um caráter panteísta e pã-religioso. Por isso que ela representa o decifrar a da esfinge. Porque é o que eu estou fazendo aqui. O decifrar a da esfinge significa que a religiosidade só se alcança quando você revela o mistério ou você luta pela busca desse mistério da tua existência. Religiosidade e mistério caminham juntos. E é você que tem que buscar esse mistério. Ora, Isis e Osiris representam a morte e a ressurreição como nós já estamos estudando porque representam o renascer.

A vida é passagem, é processo de aperfeiçoamento. As almas podem morrer? Já discutimos bastante isso. O amor pela matéria mata a recordação da origem que destrói a alma. Aqui nós temos um conceito que a Grécia pegou intacto. A recordação da origem, aquela recordação que o próprio Sócrates fala de você tem que se recordar. Recordar do quê? Do quem você foi? Do seu passado cósmico. E se você se prender aqui na Terra, você não poderá reconquistar este passado espiritual que é a sua parte boa. Você vai recordar só os vícios, você não vai recordar a parte espiritual, a virtude. E é assim mesmo. Quando a gente gosta de estar por aqui, a gente só se lembra do duca da porcaria. Todos os nossos egoísmos vêm à tona. A constituição do homem é setenária para o egípcio. E esta constituição setenária foi transmitida na Kabbalah, foi transmitida na tradição Apolínea e o próprio dia da semana foi dividido em sete dias por esta razão.

Cada dia consagrado a uma parte dessa constituição. No calendário egípcio, os sete dias, eles são cada dia, um dia consagrado ao corpo material, outro dia consagrado à força vital, que vocês veem aqui, outro dia consagrado à carta, ao corpo astral, alma animal, ou alguns autores querem que seja ku mesmo. E como a palavra soa muito mal em português, o pessoal procura evitar esse tipo de expressão e coloca kau. Mas pode-se pronunciar tanto kau como ku. É a mesma coisa. E o outro, o segundo? Shaib, au, au, au, au, ch, a força vital. Tudo isso é muito difícil, porque o alfabeto egípcio não tem vogais, é consoantes. Então, nós vamos por desconfiômetro na pronúncia das vogais. São três almas no sentido de psique, corrigido, todos aqueles defeitos lá que nós já discutimos.

Alma espiritual, eu estou com o sutil, é uma parte mais elevada. Chaves. As grandes chaves dos iniciados, essas chaves todas são tiradas da Tábua das Esmeraldas. Este livro existe. Se alguém quiser ler, eu até andei localizando ele, é um livro que é sempre rico de se pesquisar. É a Tábua das Esmeraldas e Hermes Trimegisto. Eu pego aqui, ele está por aqui. Hermes Trimegisto, a Tábua das Esmeraldas. Chaves. O exterior é como o interior, assim como eles afirmam o microcósmico idêntico ao macrocósmico. Só que o homem foi capaz de separar a essência da aparência. Esse é o grande pecado original do homem. Quando a gente fala interior é como o exterior, é que você estuda no interior, você chegará ao exterior e vice-versa. Desde que você não o falsifique, desde que a aparência seja verdadeira, desde que a essência seja verdadeira.

Onde prevalecerá a verdade? Sem dúvida alguma. Os homens são deuses mortais, assim como os deuses são homens imortais e perfeitos. Eles são por isso a verdade plena. Por isso que Hesíudo complementava dizendo da mesma maneira que os homens precisam dos deuses, os deuses precisam dos homens. Recomendações. Meça a verdade segundo as inteligências. Porque a verdade plena não é motivo de... São conselhos aos iniciados. Uma vez alcançada uma verdade, você não deve sair por aí para pagar iêndua. Muito ao contrário. Meça a verdade porque deve esvelar a verdade aos fracos que tornaria loucos. Eu acho isso de uma sabedoria incrível e de uma responsabilidade tremenda. Erroneamente, pode ser vista como prepotência. Eu guardo a verdade porque você, pobre coitada. Eu menosprezo a capacidade dela.

Isso sim, é prepotência, arrogância. Mas, guardá-la dos fracos que tornaria loucos é de normas da sabedoria. Embora aí está um aspecto, eu acho, um pouco mais arcaico que é nunca devemos nos atrever a captar as divindades com os órgãos sensoriais. A presença de Deus na forma física é fatal para os homens. É este o significado. Nós temos que aprender a captar o divino através da luz, da intuição e da sensibilidade. Quem quiser ver Deus morrerá. Eu acho que este é um aspecto muito importante, inclusive é muito bíblico isso. Quem ousa enfrentar a divindade com os próprios olhos acabará cego, acabará destruído e etc. Não é o louco. É o louco só no sentido de que aquele que quer ver do modo incauto, porque sem ele foi completamente incauta, acabará ou louco ou morto ou perdido. O problema que há aqui que está na loucura, na verdade, é o seguinte, é o saber de determinadas verdades abala tão profundamente os seres fracos que eles não suportam para viver.

Eu vejo os exemplos banais desde... Banais no sentido evidente. O que é banais? Você não pode revelar uma verdade a uma pessoa envelhecida e cansada pelo tempo porque você pode destruí-la. você tem que ter a sabedoria de guardar certas verdades para esta pessoa porque o sofrimento imposto seria insuportável. Um exemplo mais simples não existe do que a mãe que já está idosa e tem que enfrentar a notícia de uma doença fatal sobre um filho ou sobre um neto e etc. Ela não tem força. É difícil. Outro exemplo. Se você der certos conhecimentos a uma criança ela efetivamente pira. Exemplo. A criança muito pequena que fica sabendo do ódio dos seus pais ela pode efetivamente se tornar uma esquizo. Ela entra em insulto esquizofrênico com má tranquilidade. Não é só pais que se separam. Não precisa estar muito bem vivendo juntos.

A criança tem uma fraqueza emocional muito própria. Ela é fraca. Ela não suporta experiências fortes emocionais sem sofrer profundamente num plano no mínimo mental ou mesmo somatizado. Isto é clássico inclusive na literatura. Quando dizemos preservar esta criança disto, não é uma falsificação do tipo esconder as aparências. Não tem nada a ver com o que a Chica diz; não vamos guardar. Não é isso. Mas você não pode expor a criança a certas violências da perda, da separação ou do abandono, principalmente do abandono, que ela não suporta inteira; ela não sai inteira dessa experiência. É uma pira. Eu acho que a pior das experiências que enfrentamos nesse centro é a da criança de rua que sai por aí matando, e sai mesmo. Põe-se no lugar dela: se jogarmos pequenos na rua, a experiência é tão dilacerante para a nossa alma, ela dilacera com tanta violência esse aspecto de insegurança, que ela reage como um animal acuado, mesmo perto dos seus controles, e torna-se mesmo.

É muito fácil enlouquecer alguém privando-o da sua base emocional nos temas aliás nossa. Medir a verdade segundo as inteligências continua sendo uma obrigação inclusive de paideia nossa. Uma profunda obrigação que nós temos perante a paideia e preservar mas com sabedoria não esconder a verdade mas saber realmente velar quando você tem uma poderosa arma nas mãos que pode destruir. Quantas e quantas pessoas não fazem isso sabendo que ela vai sofrer muito ao saber uma certa notícia chega e fala assim bem na cara só para ter o prazer de vê-la sofrer. A pessoa não diz porque tem que dizer pela verdade diz pela maldade de vê-la sofrer pela maldade de destruir o outro quantas e quantos exemplos não temos dessa forma de destruição oculta-a dos maus que delas fazem armas à destruição isso é um aspecto muito mais fácil antes da discussão e encerra no teu coração para que fale por tua obra isso é um outro conselho para simplicidade e humildade aqueles que tem a verdade não precisam declará-la com trombetas por aí basta que façam a sua obra basta que realize os outros julgarão não precisamos nós fazê-lo pois que tua força reside no saber na lei e no silêncio são os conselhos para iniciar-los e ele prossegue na lei que diz só a imortalidade aderguerá-se ao vel a alma é a luz velada e esse é o conceito que eu estendiá quem dela não cuida quando dela não cuidamos escurecemos e estendimos mas ela brilha como luz imortal quando nela deitamos o sagrado óleo de Eros Eros sim na tradição egípcia é a divindade do amor sóstres sóstres é a representação de Eros os lábios da sabedoria estarão sempre fechados exceto aos ouvidos do entendimento e finalmente um ouvido mental e um ouvido astral temos que aprender a calar o primeiro e apurar o segundo através do êxtase e de Eros são aqueles que revelam os mistérios pela harmonia e pela música celeste essa história nós vemos ímpices literis na tradição pitagórica aprender a calar o ouvido mental a voz da razão a voz da lógica a voz da conveniência esse é o ouvido mental a voz do desejo que não é só a razão a voz do desejo principalmente e fazer nascer o ouvido astral fazer nascer essas verdades iluminadas no interior de nós e ele finaliza com axiomas de Iqtá a posse do conhecimento sem uso nem doação é como a montoar de metais preciosos uma coisa vã e tola aqui nós vemos claramente a concepção desapegada da tradição egípcia que se afundava em duas coisas não acumular metais preciosos não acumular riquezas mas não acumular sabedorias inúteis isso é um conselho muito sério porque há pessoas que se fazem despojadas que não querem riquezas etc mas são plenas de uma arrogância do saber insuportável detendo o saber de uma forma extremamente arrogante que é o conhecimento sem uso nem doação o conhecimento é como a riqueza é destinado ao uso à entrega a divisão e a lei do uso universal aquele que a viola trai os deuses e por isso sofrerá isso toca o assunto da saúde que estávamos comentando aqui não te guardes o objetivo da vida é gastar completamente o corpo e a matéria para transmutar-se em espírito quem se guarda voltará a viver pesado e lerdo isso é textual da tábua das esmeraldas o objetivo é partir daqui completamente gato por isso você tem que ter saúde para você poder se gastar bem porque quem não tem saúde nada realiza não flui o seu estudo isso é muito importante isso é a justificativa da pesquisa com a saúde que eles tinham e com essa preocupação enorme qual é o erro da base de uma pirâmide é assombroso não passa de 3 milímetros naquele monstro que tem 180 metros de altura não é apenas o conhecimento de geometria a precisão do aspecto mental prática sensorial do raciocínio de medição só isso já é suficiente o conhecimento das astronômicas os conhecimentos de preparação dos instrumentos que a Verena falou eles não se sentiam incapazes ao contrário nos deixaram provas brilhantes provas fantásticas aos próprios templos só quem visitou os templos pode ter uma noção essa é um impacto arquitetônico impressionante mesmo para os dias de hoje aquilo requer certos milagres de engenharia para sua construção nós não estamos frente a uma civilização que incapaz de um lado procura compensar do outro muito ao contrário nós estamos frente a uma civilização que conhece bem os aspectos da razão do desenvolvimento da tecneia etc porém sabe de seus limites e sabe unir os dois não está em jogo uma dicotomia ah não seja deste lado porque este lado é melhor está em jogo simplesmente um uso equilibrado e balanceado dos dois aspectos isto é fundamental o cristianismo não tem não é de todos não sei se o cristianismo não tem o que eu sei é que as civilizações que nascem após a era cristã nas quais o professor ele apenas vai de tabela nisso são civilizações que privilegiam muito mais os aspectos nacionais cultivos por assim dizer do que os aspectos intuitivos religiosos e principalmente pesquisa interior acabou-se esta era aliás nem é a culpa do cristianismo o cristianismo encontra o prato pronto o período helenístico é que destrói o período romano é que destrói por excelência esta forma de ser é a praticidade da civilização romana é a praticidade e a cobiça do período helenístico que faz com que desapareça toda esta outra forma do ser para dizer assim os aspectos nossos ocidentais o cristianismo ele encontra já civilizações prontas com esta mentalidade e certamente não consegue modificá-las e nos seus momentos decadentes como igreja consegue exacerbar este processo o período medieval foi um período de especial luxo foi um período que desagregou-se o estado e portanto todas as tradições antigas puderam reviver porque deram condições do homem de ser mais livre você acha isso?

Eu tenho total certeza e tenho muita bibliografia para lhe dar a respeito disso. Foi um grande período de carimidense o período medieval, que é o contrário do que diz a historiografia, mas não para os iluministas. Para os iluministas não é nada lindo, mas a verdade é bem outra. Foi um período onde se desagregou a formação do estado totalitário; minicidades de estado apareceram e sobreviveram, mas independente disso, o homem estava livre para reencontrar os seus caminhos. Por isso a astrologia, a bruxaria no seu sentido elevado, sobrevive; a alquimia sobrevive. Quando os estados se reorganizam, a primeira coisa que fazem é perseguir o homem livre. O bruxo é inconveniente, o mago, os lobisomens. Começa aquela perseguição. Interessa? Vem a perseguição da igreja, a igreja-estado, e então vemos o período negro da idade. Rei burrice? Não colocam nisso um Michelangelo ou um idioto ou todas aquelas maravilhas. Não é isso. Foi possível um Michelangelo, um idioto, um Leonardo da Vinci e tantos outros que admiramos porque havia uma tradição secular nas costas da idade média que estava fervilhando para poder brotar. Da mesma maneira que não foi o século de Pérez Criossófoco que diz Aristóteles ou Platão e Esquilo; foi o borbulhar de séculos anteriores que produziu isso num período absolutamente podre, como nós nem sabemos. Até que a situação depois disso estava traste. A mesma coisa: esse período maravilhoso é o resultado de um ápice. O ápice é um processo que ninguém tem de jeito nenhum, nenhuma ruptura. Não, nada disso, não é ruptura nenhuma, muito pelo contrário. Basta a gente ver os estudos: são escolas seculares que já estão vindo, que já estão preparando, trabalhando os artistas. O Greco é um perfeito exemplo disso, que estão investindo nessa gente. A universidade árabe está trazendo uma riqueza; todo mundo vai para a Espanha. Por quê?

para a Espanha que é uma terra de guinaros de animais selvagens não, pela iluminação dos árabes dos mouros Sevilha por Granada toda aquela civilização que sai do Marrocos e vai subindo traz século IX uma universidade século XI em Granada em Sevilha universidades que são os centros universidades de verdade não é isso que nós temos hoje locais da cultura do saber da pesquisa da cultura grega tudo isso preservado então é claro que tudo isso vale trazer frutos era inevitável que trouxesse você investe neste material então é muito equivocada esta visão quando ele falou muito bem é uma visão completamente equivocada de iluministas em que nós tivemos uma idade negra deu o renascimento por milagre explicado assim de que nem um macaco vilogente sabe como é e aí pronto temos pequenos gente andando pela rua a gente tropeça quem tem o mínimo de visão histórica sabe que precisa criar condições e mais condições e ferver cê-las em fogo lento para que você possa ter produto deles e quando eu digo que é recurrência porque a renascença ela rompe com esses valores e consagra o racionalismo o empirismo o iluminismo cartesianismo de todas aquelas posturas rígidas maniqueístas mesmo da filosofia que fazem nascer uma ciência que é o antípoda da religião e nós não precisávamos de uma ciência quebrada a religião porque ele está perfeitamente no que é agora nós vamos fazer uma recapitulação dos mistérios egípcios um pouco de história baseado na sua tradição contada segundo a visão egípcia eles proclamam a idade do ferro como tendo começado em algo equivalente a nove mil antes de cristo nós temos duas fontes que comentam um é deodoro da sicília e a outra é heródoto que são dois historiadores antigos segundo um deodoro da sicília um historiador da então magna igreja ambos visitaram o egito ambos conheceram foram iniciados e etc e temos registros razoavelmente imprecisos e algumas outras coisas se mostraram precisas e outras só que não sabemos até hoje julgar este é um fato que nós não sabemos julgar até hoje segundo um é de mais ou menos nove mil anos segundo o outro dezoito mil anos onze mil temos algumas datações mas em todo caso são as chamadas épocas pré-dilúvio pré-diluvianas como a gente chama e em todas essas tradições eles afirmam que esta cultura derivou-se de outra mais pura e o dilúvio está sempre relacionado com a queda da gnose e o advir de uma era não é apenas uma era da razão mas uma era da conveniência uma era mais materialista propriamente antes daquela época não havia separação entre o céu e a terra não havia separação entre o homem e a natureza e não havia separação entre o sagrado e o profano toda a iniciação egípcia será uma tentativa de recuperar a união entre o céu e a terra a união entre o homem e a natureza a união entre o sagrado e o profano a iniciação é uma tentativa de recuperar pelo menos dentro do iniciado esta visão quando nós temos isto muito claro nós entendemos muito bem a divinização da terra e a divinização do céu e a riqueza de entidades estelares que desce ao terra a relação homem e natureza acho que esta está muito tranquila para nós os animais o culto do sagrado da floresta do rio de todos os animais sagrados e etc então um texto muito engraçado que o hierógrafo foi traduzido relatando um incêndio que ocorreu no vilarejo como os homens corriam para salvar em primeiro lugar os gatos e as crianças eu simplesmente vejo gatos e as crianças textual porque os gatos são os animais que viviam juntos eles tem um valor imenso as crianças sem dúvida mas é importante isso o mesmo valor para o gato e para a criança então a gente vê claramente essa valorização dos animais e etc que nós conhecemos o sagrado e o profano também e fica muito claro para nós como é que eles cultuavam o profano transformando tudo nesse profano em elementos sagrados o cotidiano é sacramentado isto é próprio dos povos míticos os povos míticos ritualizam o cotidiano em ritualizando o cotidiano eles sacramentam o profano isso nós vemos nos nossos vídeos quando eles existiam e até os rituais que vão desde a reza à mesa os rituais do sacrifício os rituais da alimentação toda a regração parece quase que Sérgio Imperico foi o primeiro a redescobrir isso quando ele disse que é preciso ritos todo o culto do ser humano na natureza sem rituais não existe e talvez aí esteja um dos grandes poços que separam o homem ocidental do homem mítico arcaico ele não sabe mais ritualizar ele tem pressa não é possível ritualizar com pressa evidentemente o ritual ele tem uma força mágica extraordinária porque ele suspende o espaço e o tempo como ele é muito lento ele é muito paramentado ele exige que você abandone a temporalidade para algo muito pequeno espalhá-lo em horas incontáveis então aí nesse momento nós podemos vivenciar a sensação do eterno o ritual tem essa característica do divino porque ele consegue aproximar o homem e Deus suspender o espaço e o tempo mas nós somos uma civilização apressada para que não podemos entender a ritualização então esta sacramentação só pode ser entendida como uma ritualística instalada no cotidiano e no próprio o Egito busca prolongar o que resta assim desta unidade primordial todos os rituais procurarão recuperar as múmias não são mais do que um culto do passado primordial onde tudo era eterno a múmia é um símbolo dessa eternidade é uma tentativa de ritualizar ritualizar a eternidade os egípcios sabem que estão entre o passado primordial e o futuro destrutivo futuro destrutivo e o futuro destrutivo eles sabem que os tempos que aderirão são tempos de degeneração todos os textos arcaicos egípcios mencionam isso mencionam isso é fantástico que eles saíram do dilúvio por um grande castigo e que agora eles caem e que a única esperança para o homem é a iniciação o caminho do herói como diríamos na tradição grega e através do faraó buscar a redenção a reconstrução do homem para esta outra cultura voltar a hidratura duração do infério segundo eles desse infério prediluviano de 11 a 18 mil anos segundo a tradição egípcio cerca da faraó a função do reino do faraó é restaurar o sangue de Ra que é o divino sol e o olho de Oros o objetivo da religião portanto é restaurar o destino celestial do homem a liberdade condicional é despertar para a sua verdadeira natureza em Ra alçar-se para o reino da pura luz invader-se da barca de milhões de anos vejam o que liberdade condicional isso faz sentido agora nós falamos da segunda morte realmente você sai e entra num plano de liberdade condicional você entra num outro plano mas ainda não transcende vamos agora introduzir um primeiro conceito religioso a minha visão de Deus então era assim lá que começaram a colocar graças como ameaçadoras que era um cara enorme com barba enorme e tudo prateado porque achava um prateado prateado máximo de cor acho que eu não tinha lápis de cor prata só pessoas mais ricas tinham na classe aquelas caixas mais sofisticadas que achavam que tinha que ser cor de prata era lápis de cor que eu não tinha e aquele chapéu enorme bom vamos ao primeiro conceito agora dentro da tradição egípcia da relação de homem com os deuses vocês lembram que a função fundamental da tradição egípcia é restaurar estas ligações céu terra homem natureza sagrado profano é para isto que você se volta se volta a uma reunificação desses princípios como eram nos tempos primordiados marra é a divindade é o consorte ele também é chamado de top é o consorte de hermes e representa ele representa uma divindade mas ele representa um conceito também marra mede o grau dessa reciprocidade que reciprocidade é essa?

a reciprocidade entre o homem e o divino a reciprocidade entre homens e deuses ou seja como é que você está servindo aos deuses para recuperar esta ligação é grau de evolução marra também é uma divindade que mede a tua evolução da mesma maneira que ele é visto como uma divindade que são os assistentes do homem em seu juramento após a morte também ele exerce a função de osíris mas marra principalmente examina esta relação entre corpo e alma examina esta relação entre homem e Deus mais exatamente e é um conceito extremamente popular na tradição egípcia extremamente central e muito consciente deles esta reciprocidade é que medirá a tua capacidade de evoluir nesta reunificação por quê? porque cabe a cada um realizar esta reunificação não é porque existe um processo destrutivo e decadente que você está isento e pode se eximir deste processo de evolução esse é o teu papel esse é o teu desafio e é claro que ele traga de uma reciprocidade dentro do conceito que nós já vimos homens e deuses servem-se uns aos outros deuses servem os homens e os homens servem os deuses e você tem esta obrigação de estar servindo e eles vice-versa sem dúvida e antes de se considerar entre os homens é importante ou não?

absolutamente fundamental a antítese de Mahat prazer nos sentidos egoísmo, ansiedade e cobista quem pode, não é possível o homem que sirva Mahat e seja uma pessoa cobiçosa, egoísta e entre os homens e essas relações todas são as relações humanas entre os homens servir Mahat é servir também esse sentido de compaixão eu acho que está muito claro em Isis que é uma divindade onde a compaixão aparece toda a sua grandeza a afirmação e prevalência do eu em lugar do cósmico é a medida contrária de Mahat eu acho que isto é perfeito porque eles têm uma visão muito mais do que humana eles têm uma visão cósmica ou você serve o eu portanto, este é o verdadeiro egoísta este é o antítese da criação o homem que põe a prevalência no eu ele não está apenas sendo egoísta com relação aos seus semelhantes está sendo egoísta com relação ao cósmico ele está indo contra a criação ele não está se irmanando com a criação que é o conceito que eles chamam de harmonia cósmica estar em harmonia cósmica é você pôr em primeiro lugar você com relação ao cósmico como é que você faz essa separação entre cósmico e eu?

Não existe isso. Aliás, é iluminista essa postura: nós, os homens e o cósmico são restos. Quando um egípcio se dá o trabalho de mumificar o falcão, como vocês viram naquele vídeo, ele está prestando um serviço cósmico da mesma maneira que ele poderá mumificar uma criança precocemente morta, porque isso é um serviço que lhe presta a sua conservação, como ele poderá também trazer trigo para a família dela. Isso é idêntico. A criação desconhece limites cósmicos, ela serve ao gato. O que ele diz: correr e salvar os gatos e as crianças, a primeira coisa, por quê? Porque são os mais indefesos na hora do povo, por causa disso. Mas gato é tão importante cosmicamente quanto criança? Não há para eles um privilégio aqui, senão nós não entenderíamos como é que eles mumificam, que é um processo tão trabalhoso, o crocodilo, o falcão, o homem, indistintamente. Não tem essa concepção sociológica, existe uma concepção cosmológica. Isso é muito importante. Todos os povos míticos têm essa concepção, eles reverenciam a natureza, todos os seres vivos da natureza e as pedras também da natureza, e dão-lhe o mesmo valor que reverenciam o seu filho. Isso é muito importante. Compreendemos e esta é, para mim, a verdadeira visão mítica, a verdadeira visão religiosa. Você tem que reverenciar tudo que está à sua volta. Que há valores diferentes, porque às vezes você não vai amar tremendamente o seu filho, ninguém está discutindo isso, mas esta reverência ao cósmico é que nos leva a poder unir o sagrado e o profano, o céu e a terra, o homem e a natureza, senão não é possível. Enquanto nós colocarmos o homem privilegiado aqui, o resto é o resto, nós vamos continuar cometendo os desastres que a gente continua cometendo. A terra não é dos homens, os homens têm direito à terra, mas a terra é de todos, e esta é a visão cósmica. Isso é muito importante. A prevalência do eu em lugar do cósmico, isso, aliás, é um conceito de pecado capital para os egípcios, é este ou a traição e a militação. Essa definição é ótima. O que elas tiraram no papiro não é o contrário do mar. A sua relação religiosa é extra, é no seu cotidiano, é como você respeita as pedras, você respeita as plantas, você respeita os seus semelhantes, você respeita e dá o que você pode. Isso é o sentido realmente religioso e trabalhoso, mas muito prático e muito cotidiano. O seu símbolo é a pena. Eu acho esse símbolo maravilhoso. Querem coisa mais leve, mais delicada e mais antidestrutivo do que a pena? Elevação, cautela, delicadeza. A pena Mahaté é uma divindade que mede a tua relação com os deuses. Mahaté é medida. É medida. Por isso que eu digo, ele é conceito, mas ele é divindade, ele pode ser dos dois modos. Definidos para a nossa visão, é para os egípcios não separam assim, mas para nós ajuda a compreender. Por isso que ele olha a medida contrária de Mahaté, a prevalência do eu no lugar do cósmico. O que é Mahaté?

A harmonia do cósmico com o eu, o eu que serve harmonicamente ao cósmico e nisso não distingue o semelhante, não distingue tudo que é necessário. Ele serve porque conhece o destino do caminho, está servindo Mahat e tem Mahat elevado, alma elevada, porque o Mahat é elevado, mas Mahat e alma não são a mesma coisa, até porque ele é divindade, é a divindade própria. Nós vamos encontrá-lo personificado e etc. Bem, quais são os males? O mal é o não conhecimento de si mesmo. Imagina com a pessoa que não conhece mesmo, como é que ela pode saber da prevalência do eu com relação ao cósmico? Sim, eu primeiro preciso para forçar esse conhecimento, e o Mahat tem que levar a Gnosis. A Gnosis é a verdade. E vocês percebem como isto aqui tem a ver com o conceito de vestir no egípcio, saber que o lugar, tua função, teu papel. Esta é a Gnosis que eles têm. Como cada cor da natureza é uma epifania, uma manifestação do divino, você também é uma manifestação do divino. Existe uma razão e um sentido para a tua presença neste tempo, neste espaço. Aqui é um pouco de história. Eu acho que não precisamos repetir, mas vocês lembram o período antigo, que vai mais ou menos de 4 mil a 2 mil antes de Cristo; o médio império, que vai de 2 mil a mais ou menos 1.200 antes de Cristo, sendo que alguns querem que vá até 700. Eu pus as duas datas porque há discórdia entre os historiadores. Depois o período do novo império, que vai de 700 antes de Cristo, segundo se a gente for, ou 1.200 conforme os historiadores, até 332 antes de Cristo, que é a ocasião da queda de Alexandre Magno, que é quando Alexandre Magno invade o Egito e etc. Apenas para vocês se situarem. A eleia de principal, vocês viram que tem coisa. Os deuses, eu vou só dar uma introdução aqui, depois nós continuamos no próximo encontro, porque senão você vai ficar com a cabeça também. Desse tal são essências principais das quais o mundo temporal é um reflexo. Os egípcios tinham uma ideia muito clara de que tudo isto aqui é aparência. Eles tinham muito claro de que os sentidos captam um detalhe da realidade. A verdade não é sensorial. Nesse sentido, eles são diametralmente opostos da civilização ocidental, onde os sentidos e até a própria razão é vista como, segundo Aristóteles, uma concepção, uma organização dos sentidos e etc. Claro que eles existem, mas o fundamental está por detrás. O essencial é realmente invisível aos olhos para eles e aos sentidos em geral. O mundo temporal é efetivamente mero reflexo, e o homem que tem gnose tem o saber, ele sabe ver além do mundo temporal, ele sabe ir. Ele vê o mundo temporal porque não pode ficar sem olhos, mas o que ele vê é além, é óbvio, ele vê através. Exatamente, ele vê através disso, ele não se fia nisso. Enquanto que o homem ignorante acredita piamente no que vê e é só o que vê, por isso que tem medo, por isso que pode ser enganado, por isso que é o ignorante. O homem sábio vai além, ele tem este outro plano da luz, que é o que eles chamam de gnose. Na verdade, o nosso conhecimento também caminha nesse sentido, se nós aprendêssemos apenas aos sentidos, mas é que não está em jogo apenas os sentidos, esse reflexo. Está em jogo também uma visão racional do mundo, uma visão lógica do mundo, uma outra visão do mistério. Por isso sua representação é sempre uma visão humana, simbólica. Isso é outra coisa que ele tem consciência, que por mais que ele tenha, e eu acho que isso tem umas coisas fantásticas, porque o seu meu curso é da física moderna, porque por mais que ele saiba de que isto aqui é reflexo, e por mais que ele saiba de que, por mais que ele raciocine, ele saiba a natureza da madeira etc, também ele chama isso de reflexo. Por mais que ele saiba que isto aqui é manifestação do divino, ele sabe que o máximo que ele pode fazer o homem é aplicar um símbolo a este objeto ou uma compreensão, porque a essência mesmo não lhe pertence. Eles têm clara consciência desta fundamental limitação do homem perante a verdade cósmica. Então o homem pode intuir ou iluminar-se por essa verdade, mas ele não pode expressá-la. Então eles dizem que quando o homem atinge, ele se aproxima desta verdade, ele silencia absolutamente, porque não tem como manifestar. Acho que é uma beleza extraordinária esta concepção, e que realmente é a visão do religioso no seu mais alto grau. Quando nós tocamos, ele se torna inexpressável. Simplesmente porque a física moderna tem um conceito sobre o átomo muito parecido. Você aproxima da matemática e quanto mais você chega no conceito puro, mas é só assim, ele sai do plano mensurado, ele entra no plano onde não é possível expressar. O conceito dos buracos negros é um dos melhores que eu conheço nesse sentido, da antimatéria e assim por diante, onde nós sabemos que estamos aplicando conceitos absolutamente provisórios e impossíveis de alcançar. Assim é que eles entendem que são realidades celestiais vistas exteriormente ou realidades sutis vistas interiormente. Estas realidades nós só temos acesso através das nossas maneiras de captar, mas nós não podemos chegar até as realidades. A filosofia dedicou séculos e séculos e séculos refletindo sobre isso. Kant inaugura o problema do conhecimento em si, do conhecimento para si. Hegel continua com esse problema. Descartes nos diz que a verdade você atinge pelo conhecimento racional, e assim vai. Os empiristas brigam, a filosofia se matou esse problema e não resolveu. Os egípcios foram mais humildes, pelo menos nós temos sagridades terceirais, não temos acesso a elas, reconhecemos e ficamos por isso. Sua ordem é fluida e não fixa, e assim ainda cada um captou a sua maneira. Você pode captar o divino e deve captar e deve expressar a sua maneira. Saiba que, no entanto, o divino mesmo é inalcançável por nós. É bonito, é bonito demais, e é de uma humildade, de uma sabedoria inacreditável. É inacreditável. Milhares de anos se passaram, estamos exatamente neste tempo, mas captar o divino e ter acesso a ele propriamente dito, eu acho que a distância é incomensurável. Finalizando, a criação é uma emanação do divino. Resta a nós que sermos cúmplices da criação, é o tudo. Por isso que tudo é divino, porque são o que se manifesta nessa criação. A jornada ao caminho do iniciante do iniciado é um retorno ao divino. Retorno porque nós nascemos afastados do divino. Retorno, isso é o que se propõe naquela reunificação desses planos. Circundando este mistério está a eneada principal. Arindo custou para chegar lá. O que é essa eneada principal? Que as mesmas essências que formam o cósmico em seu movimento para fora formam em seu movimento para dentro os animais, as plantas, o homem, o microcórdio. Isso é um conceito chave do pensamento egípcio, absolutamente chave. Isso é a eneada primordial. Da mesma maneira que esse mistério está lá no alcançando o selenio, está manifesto em toda esta miríade de formas miraculosas que é a criação. Por isso que tudo é sagrado para eles, por isso que tudo é absolutamente intocável sem regras, porque a manifestação é o modo que eles têm de alcançar religioso está neste mistério de cada detalhe. Por isso que a gnose e o conhecimento é, com certeza, a mais bela divinização cósmica que eu conheço. Nunca vi uma religião ter uma riqueza simbólica e uma dignidade frente ao cósmico dessa grandeza. É isso que explica para mim da melhor maneira possível que o microcosmo seja um macrocosmo, que no pequeno você encontra o grande, e assim por diante. Seja como for, que belos milhares de anos de reflexão que eles tiveram. Isso aqui é, com certeza, o coração do pensamento para a iniciação, para a preparação.
